
Tarde Demais, Senhor CEO: Você a Perdeu
Capítulo 2
Ponto de Vista de Eliana
"Você precisa parar de ouvir suas amigas paranoicas", disse Ricardo, ajustando meticulosamente a gravata no espelho.
Ele parecia revigorado, descansado, a imagem perfeita do sucesso corporativo.
Eu, por outro lado, não dormia há vinte e quatro horas.
"Paranoicas?", perguntei, encostada no batente da porta do nosso closet, com os braços cruzados para me manter inteira. "Jéssica me mandou fotos de vocês dois no nosso carro. Ela deixou o esmalte dela na sua mesa. Ela está usando a pulseira que você disse ter perdido."
Ricardo suspirou, o som de um homem sobrecarregado por uma criança irritante.
"Jéssica é jovem. Ela é entusiasmada. Ela me vê como um mentor. As fotos? Provavelmente Photoshop ou você interpretando mal uma piada. E a pulseira... eu a encontrei. Não percebi que ela tinha uma igual."
"Ela está grávida, Ricardo."
Suas mãos congelaram no nó de seda da gravata.
O silêncio se estendeu, tenso e sufocante, sugando o ar do pequeno cômodo.
Ele se virou para me encarar lentamente.
"Quem te disse isso?"
"Ela."
"Ela está mentindo", disse ele, mas seus olhos desviaram para a esquerda antes de encontrarem os meus. "Ou talvez esteja, mas não tem nada a ver comigo."
"Ela diz que é seu. Diz que você vai comprar um apartamento para ela na Vila Olímpia."
"Isso é uma despesa da empresa!", ele explodiu, o rosto ficando vermelho. "É uma moradia corporativa. Para retenção de talentos. Você não entende a logística, Eliana."
"Eu entendia a logística quando cuidava da sua contabilidade por cinco anos. Eu entendia de negócios quando apresentei sua startup para os amigos do meu pai."
"Isso foi há muito tempo", ele zombou, virando-se de volta para o espelho. "As coisas são diferentes agora. Operamos em outro nível."
"Nós?"
"Eu. A empresa."
Ele checou o relógio.
"Olha, se o problema é dinheiro, é só dizer. Você quer um carro novo? Férias? Vá para Paris. Faça compras. Faça o que quer que você faça o dia todo."
Ele tirou um talão de cheques do bolso do paletó.
Rabiscando um número, ele arrancou a folha, estendendo-a para mim entre dois dedos.
Era de duzentos e cinquenta mil reais.
"Vá comprar algo bonito para você e pare de inventar histórias."
Olhei para o cheque.
Depois olhei para ele.
Vi o homem que amei por metade da minha vida e percebi que aquele homem estava morto.
O homem parado na minha frente era um estranho vestindo a pele do meu marido como uma fantasia.
"Eu não quero o seu dinheiro", eu disse em voz baixa.
"Então o que você quer?"
"Eu quero o divórcio."
Ricardo riu.
Foi um latido curto e agudo de diversão.
"Divórcio? Por quê? Por causa de algumas mensagens de texto? Você está sendo dramática. Você não vai me deixar, Eliana. Você não tem para onde ir. Você não trabalha há uma década."
"Eu construí esta vida com você."
"Você me assistiu construí-la", ele corrigiu.
A crueldade de suas palavras me atingiu como um tapa físico, mas eu não vacilei.
"Estou falando sério, Ricardo."
"Tudo bem", disse ele, enfiando o cheque na minha mão. "Pegue o dinheiro. Acalme-se. Conversaremos sobre isso quando você não estiver sendo histérica."
Ele saiu do closet.
Eu o segui até a sala de estar.
Jéssica estava lá.
Ela estava parada perto das janelas do chão ao teto, olhando para a cidade como se já fosse a dona dela.
Ela se virou quando entramos.
Estava usando um vestido branco justo que realçava sua figura.
Em seu dedo, havia um anel de diamante.
Não era um anel de noivado, mas era um anel de compromisso — um substituto.
Eu sabia porque tinha visto o recibo na lixeira do e-mail de Ricardo.
"Ah, oi Eliana", disse ela, a voz escorrendo uma doçura falsa. "Ricardo, você está pronto? Os investidores estão esperando."
Ela exibiu o anel ao colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha.
"Belo lugar", acrescentou, seus olhos percorrendo a sala. "Ricardo disse que comprou os móveis para o apartamento novo do mesmo designer."
Ela estava marcando seu território.
Poderia muito bem ter urinado no meu tapete e me desafiado a limpar.
"Vamos", disse Ricardo, colocando uma mão possessiva na base das costas dela.
Ele a guiou em direção à porta, sem nem mesmo olhar para mim.
"Espere", eu disse.
Eles pararam.
"Você acha que isso é um jogo?", perguntei, minha voz tremendo de raiva contida. "Você acha que pode simplesmente me substituir como se eu fosse um servidor desatualizado?"
Ricardo se virou, o rosto sombrio.
"Pare com isso, Eliana. Você está se humilhando."
"Você está dormindo com sua assistente na minha cama, perdendo meu aniversário para ficar com ela e mentindo na minha cara. Isso não é um casamento. É uma farsa. Você não é um CEO, Ricardo. Você é um clichê. Você é o homem de meia-idade apavorado em envelhecer, correndo atrás de uma garota que só ama a sua carteira."
Jéssica ofegou, agarrando o estômago teatralmente.
"Ricardo, ela está me estressando. O bebê..."
Os olhos de Ricardo se arregalaram.
Ele se virou para mim, apontando um dedo na minha cara.
"Mais uma palavra", ele sibilou. "Mais uma palavra, e você não ganha nada. Sem pensão. Sem acordo. Nada."
Olhei para o dedo dele, depois para seus olhos.
"Eu não quero o seu dinheiro", repeti. "Eu quero sair."
"Você está louca", ele murmurou.
Ele conduziu Jéssica para fora e bateu a porta.
O som ecoou pelo apartamento vazio como um tiro.
Olhei para o cheque em minha mão.
Rasguei-o em pedacinhos e os deixei cair no chão como confete sem valor.
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