
Tarde Demais, Senhor CEO: Você a Perdeu
Capítulo 3
Ponto de Vista de Eliana
Fiz uma única mala.
Apenas o essencial: roupas, meu laptop e a câmera Nikon vintage que eu não tocava há anos — uma relíquia de uma vida que eu costumava possuir.
Deixei as chaves na bancada de mármore.
Deixei os cartões de crédito de platina que ele me deu, abandonando a coleira de plástico de seu controle.
Sem olhar para trás, saí da cobertura e chamei um táxi.
"Para onde?", perguntou o motorista.
"Qualquer lugar, menos aqui", sussurrei, minha voz trêmula, antes de dar o endereço de Sara.
Sara abriu a porta e não fez perguntas.
Ela apenas me puxou para um abraço que cheirava a lavanda e segurança.
Fiquei lá por três dias.
Mantive meu celular desligado, um tijolo preto de silêncio.
Bebi vinho barato e chorei até meus olhos incharem e fecharem.
Então, no quarto dia, acordei e as lágrimas haviam sumido.
Senti-me leve.
Oca, talvez, mas inegavelmente leve.
Peguei minha câmera.
Andei pelo bairro de Sara, capturando imagens do mundano e do quebrado: calçadas rachadas, ervas daninhas forçando passagem pelo concreto, a luz da manhã atingindo uma escada de incêndio enferrujada.
Foi como respirar depois de prender a respiração debaixo d'água por quinze anos.
Sara chegou do trabalho e me encontrou editando fotos no meu laptop.
"Ele está te procurando", disse ela, jogando a bolsa no sofá com um suspiro cansado.
"Eu sei."
"Ele me ligou. Parecia... irritado."
"Não preocupado?"
"Ele perguntou se você já tinha terminado de fazer seu chilique."
Eu ri. Foi um som seco e áspero, como folhas mortas farfalhando no asfalto.
"Ele acha que vou voltar porque preciso dele."
"Você precisa?"
"Eu preciso de oxigênio. Não preciso dele."
Abri uma aba no navegador.
O rosto de Ricardo estava estampado na primeira página de um site de notícias de tecnologia.
*Magnata da Tecnologia Ricardo Ferraz sobre o Futuro da IA.*
Cliquei no vídeo.
Ele estava sentado em um palco, irradiando aquele carisma praticado e visionário.
O entrevistador perguntou sobre seu sistema de apoio.
"Eu tenho uma equipe incrível", disse Ricardo, sorrindo. "Especialmente minha diretora de criação, Jéssica. Ela é minha musa. Ela sabe do que eu preciso antes de mim. Na semana passada, ela mandou trazer uma caixa de cookies de macadâmia porque sabe que são os meus favoritos."
Eu congelei.
Nozes de macadâmia.
Minha garganta se apertou só de ouvir as palavras. Eu era mortalmente alérgica.
Por quinze anos, essas nozes foram banidas da nossa casa. Uma regra única e inegociável.
Ele sabia disso.
Ou pelo menos, eu achava que ele sabia.
"Ela é indispensável", continuou Ricardo, seus olhos se suavizando enquanto olhava para fora da câmera.
Fechei o laptop com força.
Não era que ele tivesse esquecido.
Era que ele simplesmente não se importava o suficiente para lembrar.
Ele havia trocado a minha segurança pelos cookies dela.
Meu celular, que eu finalmente havia ligado, apitou.
Era uma mensagem de Ricardo.
*Pare de joguinhos. Volte para casa. A casa está uma bagunça e não consigo encontrar meu passaporte.*
Depois outra.
*Jéssica está tentando ajudar, mas ela não sabe onde as coisas ficam. Você está sendo egoísta.*
Egoísta.
Eu lhe dei minha juventude. Eu lhe dei minha herança. Sacrifiquei minha arte em seu altar.
E ele me chamava de egoísta porque não conseguia encontrar um passaporte.
Digitei uma resposta.
*O passaporte está no cofre. A combinação é a data em que você fundou a empresa. Não o nosso aniversário. Você nunca a mudou.*
Não apertei enviar.
Em vez disso, apaguei a mensagem.
Levantei-me e peguei meu casaco.
"Onde você vai?", perguntou Sara.
"Preciso voltar", eu disse.
"Eliana, não."
"Não para ficar", eu disse, minha voz endurecendo como aço. "Deixei algo para trás. Algo que não pertence a ele."
"O quê?"
"O anel da minha mãe."
Sara me olhou, preocupada.
"Você quer que eu vá com você?"
"Não. Preciso fazer isso sozinha. Preciso vê-lo uma última vez, sem os óculos cor-de-rosa."
Saí para o ar fresco da noite.
Eu não estava voltando para um lar.
Estava voltando a uma cena de crime para coletar as provas.
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