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Capa do romance Sufocada Pelo Amor Perverso

Sufocada Pelo Amor Perverso

Sofia desperta no vagão onde seu pesadelo começou. O odor de metal e suor traz lembranças do cativeiro e da traição de Dona Lúcia e sua família. Presa em um ciclo temporal, ela revive o dia em que foi drogada e levada ao porão. Quando a idosa repete o pedido de ajuda, Sofia não é mais a jovem ingênua do passado. Consumida pela raiva e sede de vingança, ela encara seus algozes pronta para retribuir o sofrimento. A vítima morreu naquele mofo; quem voltou foi uma caçadora.
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Capítulo 2

O cheiro do trem era uma mistura de metal velho, desinfetante barato e o suor de dezenas de corpos espremidos por horas. Eu conhecia aquele cheiro. Ele era o prenúncio do inferno.

Fechei os olhos com força, e a memória me atingiu como um soco no estômago. O mesmo vagão, o mesmo assento na janela, o mesmo sol poeirento cortando o ar. Da outra vez, eu estava animada, uma estudante de psicologia voltando para casa nas férias, feliz por ter economizado dinheiro na passagem de trem. Ingênua.

A memória se desenrolou, nítida e cruel. A mão áspera de Dona Lúcia no meu braço, seu sorriso sem dentes parecendo gentil. O neto dela, Pedrinho, choramingando no meu colo, sujando minha calça com o sapato enlameado. O filho dela, João, me olhando com seus olhos vazios e um sorriso babado, a mão dele se movendo de forma estranha sob o cobertor. O copo de água que ela me ofereceu. A tontura. O porão úmido e escuro. O cheiro de mofo e desespero. O rosto de João se aproximando no escuro.

Abri os olhos de repente, o coração martelando contra minhas costelas. O suor escorria pela minha testa. Eu estava de volta. No mesmo dia, no mesmo trem. Uma chance. Uma chance de não ser a vítima. Uma chance de fazer justiça.

Olhei para o lado. Lá estava ela. Dona Lúcia, encolhida no assento do outro lado do corredor, parecendo uma avó frágil e inofensiva. Ela segurava a mão de um menino pequeno, Pedrinho. O menino olhava ao redor com uma expressão entediada e malcriada. O filho mais velho, João, estava sentado ao lado dela, a cabeça pendendo para o lado, um fio de saliva escorrendo pelo canto da boca.

A mesma família. O mesmo plano. Mas a garota no assento da janela não era a mesma.

A estudante de psicologia ingênua morreu naquele porão. Quem voltou foi outra pessoa. Alguém que viu o mal de perto, disfarçado de fragilidade. Alguém que não sentiria mais pena.

Dona Lúcia me notou. Seus olhos se fixaram em mim, e um sorriso lento se formou em seu rosto enrugado. Era um sorriso de caçadora. Ela me escolheu. De novo.

"Com licença, minha jovem", ela disse com uma voz trêmula e doce. "Será que você se importaria de nos ajudar? Meu netinho não está se sentindo bem, e eu sou uma velha sozinha com ele e meu filho doente."

A mesma desculpa. A mesma mentira.

Da outra vez, eu sorri e disse "Claro". Da outra vez, ajudei a carregar a bolsa dela, dei meu lanche para Pedrinho e ouvi sua história triste por uma hora.

Desta vez, eu a encarei sem expressão.

"Não."

A palavra saiu fria e dura. O sorriso de Dona Lúcia vacilou por um segundo. Ela não esperava por isso.

"Oh", ela disse, piscando. "É que o menino..."

"Eu disse não", repeti, minha voz mais firme.

Virei o rosto para a janela, ignorando-a. Eu podia sentir o olhar dela queimando na minha nuca. A raiva dela era quase palpável. O plano dela encontrou um obstáculo.

Pedrinho começou a choramingar, um som irritante e calculado.

"Vovó, eu quero sentar na janela!"

"Agora não, querido", Dona Lúcia disse, a voz ainda melosa, mas com uma nota de impaciência. "A moça não quer nos ajudar."

O menino começou a chutar o assento da frente. O passageiro se virou e lançou um olhar irritado. Dona Lúcia sorriu para ele, um pedido de desculpas silencioso, a imagem perfeita da avó sobrecarregada. Que atriz.

Ela se levantou e caminhou lentamente pelo corredor, parando ao lado do meu assento. O cheiro dela, uma mistura de naftalina e algo azedo, invadiu meu espaço.

"Minha filha, por favor", ela sussurrou, se inclinando. "É só por um instante. Meu João precisa se esticar, e o Pedrinho quer ver a paisagem."

O corpo grande e flácido de João se mexeu no assento dele. Ele me olhou de novo, e desta vez, o sorriso babado se alargou. Ele sabia. Ele estava esperando por mim. A lembrança do peso do corpo dele sobre o meu, do seu cheiro rançoso, me fez sentir um enjoo violento.

Minha mão se fechou em um punho. A raiva era um fogo frio dentro de mim.

"Eu já respondi", falei, sem olhar para ela. "Procure outra pessoa."

Dona Lúcia não se moveu. Sua mão pousou de leve no meu ombro. Foi o mesmo toque que ela usou para me guiar para fora do trem na outra vida. Um toque que parecia gentil, mas era uma corrente.

"Não seja tão egoísta, mocinha. Uma jovem bonita como você deveria ter mais compaixão."

A mão dela apertou meu ombro. Um aviso.

Eu me virei e olhei diretamente nos olhos dela. Minha máscara de indiferença caiu, e eu deixei que ela visse a frieza que havia dentro de mim.

"Tire a mão de mim. Agora."

O choque no rosto dela foi delicioso. A velha recuou, a mão caindo ao lado do corpo como se tivesse levado um choque. Ela me encarou, a máscara de vovó frágil finalmente escorregando para revelar a predadora por baixo. Seus olhos pequenos se estreitaram, avaliando-me.

Ela viu que algo estava diferente. Ela viu que eu não era a presa fácil que ela pensava.

Ela voltou para seu assento, resmungando algo para João. Pedrinho, percebendo que o choro não estava funcionando, começou a fazer outra coisa. Ele pegou um pequeno carrinho de plástico e o jogou com força no chão. O carrinho rolou para debaixo do meu assento.

"Moça", ele disse com uma voz manhosa. "Pega meu carrinho."

Eu olhei para o brinquedo e depois para ele. Era uma armadilha. Se eu me abaixasse, estaria vulnerável. João poderia me agarrar. Lembrei-me de como, na outra vez, eles "acidentalmente" derramaram água em mim para criar uma distração.

Ignorei-o.

"Moça! É meu!", ele gritou, a voz estridente. "Pega pra mim!"

Dona Lúcia me olhou, um desafio em seus olhos. Ela estava testando meus limites, usando a criança como uma arma.

Ela não sabia com quem estava lidando. Não mais.

Peguei minha mochila do assento ao lado, abri e tirei minha garrafa de água. Com um movimento calmo e deliberado, pisei no carrinho de plástico, esmagando-o. O som do plástico quebrando foi alto no silêncio tenso que se formou ao nosso redor.

Pedrinho ficou de boca aberta, os olhos arregalados. Então, ele abriu a boca e soltou um grito de fúria.

Dona Lúcia se levantou de um salto, o rosto vermelho de raiva.

"Sua louca! O que você fez? Ele é só uma criança!"

"Controle seu neto", eu disse, minha voz baixa e perigosa. "Ou da próxima vez, eu não vou parar no brinquedo."

A guerra havia começado. E desta vez, eu estava pronta.

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