
Sua Vontade
Capítulo 2
Eles permaneceram em silêncio por algum tempo. Bryan fez um trajeto por fora da cidade para ter abso¬luta certeza de que não seriam seguidos.
—Você está bem? — perguntou ele. Ele linha achado que Lucy ia enlouquecê-lo com perguntas querendo saber para onde estavam indo e o que aconteceria em seguida, mas ela havia perma¬necido estranhamente quieta.
— Estou.
— Sinto muito por tê-la colocado em perigo.
— Você tinha me avisado que isso seria arriscado.
— Saiu-se muito bem. Só lamento por não termos tido tempo de concluir o trabalho.
— Eu concluí.
— Como?
— Voltei à Alliance Trust depois que falei com você. Deixei todas as precauções de lado e baixei tudo o que vi pela frente.
— Tudo? — perguntou ele, mal podendo acreditar no que estava ouvindo.
—Tudo aquilo de que vou precisar, mas levarei algum tempo para desvendar todo o material. A pes¬soa que está fraudando os fundos de aposentadoria é muito perspicaz. Localizei agendas, listas telefônicas, horários de entrada e saída e de acesso ao com¬putador, além de senhas e a relação de quem partici¬pou de que reunião e quando. Posso descobrir quem fez as retiradas ilícitas usando um processo de elimi¬nação.
— Você não vai precisar fazer isso. A agência tem os melhores cérebros do país.
Bryan se deteve. Ele não ousaria passar aquelas informações para mais ninguém até descobrir quem o havia traído. Bastaria uma única tecla para apagar to¬dos os dados pelos quais Lucy arriscara a vida.
— Posso dar conta disso — disse Lucy. — Sua or¬ganização pode ter os maiores especialistas, mas co¬nheço as pessoas envolvidas no caso. Não há nin¬guém mais qualificado do que eu para esse trabalho.
Talvez ela tivesse razão.
— De que você precisará?
— De um computador suficientemente potente para lidar com essa quantidade de dados e um lugar tranqüilo para trabalhar.
O plano sobre o qual ele começara a pensar pela manhã foi ganhando consistência. Aquilo era uma loucura, mas ele não conseguia pensar em outra ma-neira de garantir a segurança de Lucy. Ele tinha aces¬so a muitos abrigos para testemunhas, mas todos eles eram do conhecimento das outras pessoas envolvidas naquela missão — Tarantula, Eletro, Orquídea e seu superior imediato, Sibéria. A sua lista de suspeitos. Quatro pessoas a quem ele, até uma hora atrás, con¬fiara à própria vida.
— Acho que posso conseguir isso para você — ele falou.
Ela se recostou em seu assento, parecendo satis¬feita.
Para onde estamos indo?
—Ele já estava admirado por ela ainda não ter tocado no assunto.
—Nova York.
—A sua terra?
Bryan ficou apreensivo. Como é que ela sabia disso?
—Seu sotaque — disse Lucy, antes que ele tivesse tempo de perguntar. — Tive um amigo na escola que era de lá. Você fala igualzinho a ele.
Lucy era realmente observadora. Como é que ele, que fora treinado para eliminar qualquer evidência que pudesse revelar detalhes de sua vida pessoal, ha-via baixado tanto a guarda a ponto de ela conseguir descobrir de onde ele era?
—Você trabalha para a CIA?
—No início, trabalhava.
Eles o recrutaram quando ainda estudava Admi¬nistração de Empresas, com a intenção de trabalhar na Editora Elliot com o restante de sua família: Os agentes do governo disseram-lhe que tinha sido esco¬lhido devido às excelentes notas e ao seu talento para o atletismo.
Então alguém sem rosto e sem nome o recrutou para um recém-formado braço investigativo da Homeland Security, uma agência tão secreta que não ti¬nha nome nem escritório central.
Bryan costumava mentir com certa desenvoltura, mas por alguma estranha razão não queria enganar Lucy. Optou então por contar-lhe apenas parte da verdade:,
— Trabalho para a Homeland Security.
— Eu não sabia que eles tinham seus próprios es¬piões.
— As coisas ainda estão evoluindo por lá.
— Como alguém se torna um espião?
— Por quê? Está interessada em se juntar a nós?
— Talvez. Qualquer coisa é melhor do que o que eu vinha fazendo até agora.
— Por que é que você trabalhava num banco se não gostava disso?
Ela deu de ombros.
— Era o que esperavam que eu fizesse. Além do mais, o salário era muito bom. Mas estou querendo fazer alguma coisa diferente.
— Como o quê?
— Não sei. Quem sabe me juntar ao pessoal do cir¬co? Eu daria uma boa domadora de leões.
— Você? — disse ele sem pensar, arrependendo-se logo em seguida ao ver a reação dela.
— Acha que eu não conseguiria domar os leões?
— Oh, tenho certeza de que sim. Você os acertaria com seu guarda-chuva.
— Você ri agora, mas não pareceu achar tanta gra¬ça quando o derrubei e quase furei você com ele. — Ela olhou ao redor e percebeu que havia esquecido o adorável disfarce.
— Oh, nós o deixamos para trás. Eu postava tanto dele.
—Comprarei um novo para você — disse ele, sen¬tindo um pouco de pena dela. Sua vida fora interrom¬pida e nunca mais seria a mesma e ela parecia ainda não ter se dado conta disso.
— Quer dizer que não vamos voltar.
— Não tão cedo.
— Ótimo. Acho que eu cortaria os pulsos se tivesse de passar mais um dia naquela casa sem graça. —Usando aquelas roupas tão sem graça quanto ela.
Ela o havia surpreendido mais uma vez. Pelo que ele pudera averiguar, ela vinha de uma sólida família de agricultores no Kansas. Tinha freqüentado a uni-versidade estadual e obtivera boas notas. Estava tra¬balhando num emprego para o qual não tinha qualifi¬cação suficiente, mas os relatórios de seus patrões eram todos muito elogiosos.
O único mistério a respeito de Lucy Miller era um período de dois anos, logo após a faculdade, sobre o qual Bryan não conseguira obter muitas informações. Seu passaporte indicava que ela havia viajado algu¬mas vezes para o exterior. Talvez ela tivesse ido visi¬tar o irmão mais velho, que morava na Holanda.
— Minha família vai ficar preocupada — disse ela.
— Você não poderá entrar em contato com eles.
— Nunca mais? — perguntou Lucy, num fio de voz. — Vou entrar no programa de proteção às teste¬munhas?
— É isso o que você quer?
Ela suspirou.
— Eu bem que gostaria de ter uma nova identida¬de. Sempre odiei meu nome. Mas gostaria de esco¬lher o meu próprio codinome.
— E qual você escolheria?
— Certamente nada tão idiota quanto Casanova, se bem que, a julgar pela maneira como você encan¬tou a Sra. Pfluger, ele deve se adequar muito bem a você. Ela nunca foi tão simpática comigo.
— Casanova não foi idéia minha. Você pode me chamar de Bryan.
Ela acabaria descobrindo o seu verdadeiro nome em breve, de qualquer maneira.
— E você pode me chamar de... Lindsay. Lindsay Morgan.
— Muito sofisticado. Você conhece alguém com esse nome?
— Não, mas sempre gostei da atriz Lindsay Wag¬ner. Aquela da Mulher Biônica.
— Então este será o seu novo nome daqui por diante. E melhor ir se acostumando.
Oh, meu Deus, ele estava falando sério. Ela real¬mente ia ganhar uma nova identidade. Uma nova vida, um novo trabalho, uma nova casa, talvez num lugar tão excitante quanto Nova York. Ela sabia que deveria estar aterrorizada. Sua casa fora invadida por gente ligada ao terrorismo internacional para a colo¬cação de aparelhos de escuta. Eles podiam estar à sua procura para matá-la. Ela, porém, não conseguia sen¬tir outra coisa senão expectativa.
Lucy percebeu que Bryan estava preocupado. Era como se ele estivesse pisando sobre areia movediça.
Ele não lhe dera ouvidos quando ela disse que estava sendo seguida. Só fora até sua casa porque ela prometeu desaparecer com todos os dados que baixara, e Bryan se surpreendeu enormemente ao descobrir que ela tinha razão e que a operação fora desco¬berta.
—Eu não deixei pistas — disse ela abruptamente, ansiosa por esclarecer qualquer dúvida. — Sempre fui muito cuidadosa. Só baixava os dados em perío¬dos curtos, de cinco a dez minutos, e apenas quando estava absolutamente sozinha em meu escritório, com a porta trancada. Nunca falei sobre isso com nin¬guém e tenho certeza de que ninguém teve acesso ao meu pen drive. Eu o mantive o tempo todo no sutiã.
Ele olhou para ela.
—Verdade? Ele está aí agora? Está.
O carro desviou um pouco do caminho, sem qual¬quer razão aparente. A simples menção às peças ínti¬mas femininas não poderia ter perturbado um espião que provavelmente já havia visto coisas inimaginá¬veis.
Já fazia muito tempo que ela não provocava ne¬nhum tipo de reação no sexo oposto. Ela já tinha en¬terrado aquela garota irresponsável que flertava abertamente com os rapazes havia algum tempo, debaixo de uma roupa antiquada, um par de óculos de lentes grossas e um cabelo desarrumado. Tudo isso por uma única razão da qual ela se lembrava muito bem, por¬tanto, Bryan provavelmente desviara de um obstácu¬lo na estrada e ponto final.
Ainda estava claro quando eles chegaram a Nova York. Lucy havia esquecido o quanto amava aquele lugar. Nova York tinha uma energia diferente de to¬das as outras cidades. Ela saberia reconhecê-la de olhos fechados.
— Nós vamos ficar em Manhattan? — ela pergun¬tou.
— Sim.
— Você vai me colocar num hotel?
— Não. Eles pediriam a sua documentação.
— Um abrigo, então?
— Sim. O mais seguro de todos — disse ele, sor¬rindo.
Aquela foi a primeira vez em que ela o viu com uma expressão diferente daquela grave tão caracte¬rística. Aquele sorriso mexeu com ela. Não era de se estranhar que a encrenqueira da Sra. Pfluger tivesse ficado tão disposta a cooperar com ele. Dez minutos mais e a mulher provavelmente acabaria tirando a própria roupa. A idéia fez com Lucy se lembrasse de que havia tirado a calça na frente de Bryan, um per¬feito estranho. Ela estava tão amedrontada que nem se importou com isso na hora.
Eles cruzaram Manhattan pelo Lincoln Tunnel e, no chegarem no centro, viram-se rodeados por arranha-céus, carros, táxis e pedestres. Gente de todas as cores, idiomas e tamanhos.
Lucy costumava evitar a lembrança da última vez em que estive na cidade, pouco antes de fazer uma longa viagem de volta ao Kansas, durante a qual chorara do início ao fim. Ao pensar no episódio agora, no entanto, ela percebeu que a dor já não era mais tão aguda.
Os dois últimos anos a ajudaram a curar as má¬goas. Ela tinha precisado dessa pausa, desse porto se¬guro que o trabalho no banco havia lhe proporciona¬do. Porém, agora, mais velha e mais sábia, estava pronta para encarar mais uma etapa de sua vida.
Agora, lá estava ela, seguindo pela Décima Aveni¬da, num Jaguar prateado, com um espião do governo. Isso não era o tipo de coisa que acontecia todo dia.
Lucy baixou o seu vidro e o cheiro da cidade to¬mou suas narinas de assalto. Ela sentiu o aroma de alguma comida exótica e seu estômago roncou. Lembrou-se de que não havia comido nada desde o café da manhã, quando mal fora capaz de terminar o seu iogurte.
—Estou morrendo de fome — disse ela. — Acha que haverá comida na geladeira desse abrigo? Nós poderíamos pedir comida chinesa — disse ela, cheia de esperança.
—Não se preocupe, cuidarei da sua alimentação.
Eles seguiram pela West Side, uma rua ladeada por lojas de alta classe, bares e restaurantes chiques e mansões luxuosas onde moravam pessoas famosas. Lucy passara a maior parte de sua estada em Nova York naquela região, perto do apartamento de Cruz.
Ela avistou um restaurante chamado Une Nuit. Ainda era cedo pelos padrões de Manhattan, mas já havia fila na porta.
— Eu li a respeito desse lugar — disse ela. — Acho que foi na revista People. Ou talvez na Buzz. Algum astro de cinema comemorou o aniversário aqui.
— Foi uma das irmãs Hilton.
— Ah, quer dizer que você também gosta de uma boa fofoca? Como é que um espião tem tempo para ler a Buzz?
— Na verdade, não li. Eu estava lá.
— Sério? Você conhece as irmãs Hilton?
Lucy sempre fora aficionada pelos astros. Era vi¬ciada em revistas sobre celebridades desde a adoles¬cência e sempre teve a fantasia de vir a ser uma delas, ou pelo menos conviver com elas.
Bryan não respondeu. Apenas dobrou a esquina e entrou numa garagem subterrânea, usando um cartão personalizado.
— Nós não vamos comer aqui, não é? — pergun¬tou Lucy, olhando para as suas calças de cor laranja. — Eu adoraria ir a esse restaurante, mas eles certa¬mente não me deixariam entrar com essa roupa.
Bryan sorriu.
Eu poderia colocá-la para dentro, mas não vamos para lá agora. Esse, na verdade, vai ser o seu abrigo.
Ele estacionou numa vaga reservada e desligou o motor.
—Que lugar estranho para um abrigo para teste¬munhas comentou ela. — Achei que seria algo mais isolado.
—A segurança de um abrigo está no fato de ninguém conhecê-lo.
Ele a conduziu por uma porta onde estava escrito "Acesso ao Une Nuit". Depois de chegar a um pequeno foyer, porém, eles seguiram direto para um elevador de aparência suspeita. Bryan apertou um botão em que não havia número algum.
— Senha, por favor — disse a voz do computador.
— Enchilada Coffe — respondeu Bryan, acionan¬do o elevador.
Bryan viu a surpresa estampada no rosto de Lucy e teve de admitir que estava adorando as suas reações. Ele achou que teria de lidar com uma paranóica eternamente em pânico, mas ela demonstrara uma pre¬sença de espírito muito rara na maioria dos civis.
— Que coisa mais James Bond! — ela disse. — Este elevador só funciona com senha?
— É um programa de última geração que reconhe¬ce a minha voz. Ninguém mais consegue chegar até esse apartamento, a não ser eu e os meus convidados, é claro.
—Quer dizer que você mora aqui?
— Sim. Tem algum problema com isso?
— Não, só achei um pouco estranho. Não pensei que os espiões trouxessem as testemunhas sob prote¬ção para as suas próprias casas.
— Isso realmente não acontece com freqüência, mas esse é um caso especial.
— Por quê?
Bryan não sabia se deveria lhe contar a verdade, mas acabou concluindo que ela saberia lidar com a si¬tuação. Ele precisava instruí-la a não confiar em mais ninguém a não ser ele.
— Tenho fortes motivos para acreditar que fui traído por alguém da minha própria equipe, o que sig¬nifica que nenhum dos outros abrigos disponíveis se¬ria seguro para nós, no momento. Acho que este é o único lugar onde provavelmente ninguém poderia encontrá-la.
— Está me dizendo que as pessoas que trabalham com você não sabem onde você mora?
— Eles sequer sabem o meu nome. Para eles, in¬clusive para o meu chefe, sou apenas Casanova.
— Uau!
A porta do elevador se abriu e Bryan a conduziu até uma sala particular. Ele comprara o prédio onde funcionava o Une Nuit havia alguns anos. Tinha re¬novado e expandido a área do restaurante, utilizando o segundo andar para os escritórios e a despensa e os dois andares superiores como área residencial.
O foyer se abria de um lado para uma enorme e moderna cozinha que ele próprio havia projetado, os eletrodomésticos de aço escovado de última ge¬ração, a cozinha era diretamente conectada à sala, as janelas grandes e altas que davam para a Avenida. O chão era feito de tábuas de ma¬deira impecavelmente enceradas. Havia algumas paredes em tijolo aparente, e outras de um branco puríssimo.Havia poucos móveis, porém eram ultramodernos e confortáveis. Bryan passava grande parte do tempo no restaurante, portanto não precisava de dezenas de cadeiras ou sofás em casa. O lugar era decorado com obras de arte originais, mas nada em excesso. Havia umas adquiridas de artistas iniciantes e outras assina¬das por artistas renomados que deviam valer uma for¬tuna.
—Adorei este lugar! — disse ela, admirando a sala. —Você mora aqui?
—Quando não estou viajando, o que tem sido vez mais raro.
—Quanto tempo vou ficar aqui? Você vai querer que eu testemunhe num tribunal? Vou ter de ficar o tempo todo dentro de casa ou poderei sair à rua?
Ele sorriu com a exuberância que transbordava de dos poros. Ela tinha um sorriso contagiante e olhos brilhantes num tom de azul-claro que ele raramente havia visto.
—Não vou mantê-la trancada — disse ele. — Não acredito que você possa cruzar com alguém conheci¬do tão longe de casa.
— Acho que isso não é exatamente verdade — dis¬se ela. — Morei aqui por algum tempo.
— O quê? — aquilo era uma novidade para ele. Sua pesquisa não havia revelado nada a respeito. — Isso é impossível — disse ele, para então se lembrar daqueles dois anos sobre os quais não tinha qualquer informação.
— Já ouviu falar na banda In Tight? — perguntou ela.
— Claro. Eles estão fazendo muito sucesso no mo¬mento.
— Eu trabalhava para eles. Bryan ficou chocado.
— Você trabalhou para uma banda de rock?
— Respondi a um anúncio na internet e passei a tratar da contabilidade deles.
Bryan teve dificuldade em imaginá-la às voltas com um bando de roqueiros cabeludos. Será que ela estava tentando enganá-lo?
— Chequei a sua vida pregressa — disse ele. — Não havia menção alguma a...
— Eles me pagavam por fora. A banda não era tão famosa na época. Eles também me deram um lugar para morar, portanto não há registro algum de aluguel ou compra em meu nome. Só estou lhe dizendo isso para que saiba que posso vir a encontrar alguém que venha a me reconhecer.
— Teremos de cuidar para que isso não aconteça — ele a avaliou dos pés à cabeça. — O que acha de passar por uma transformação radical?
— Eu adoraria! Posso ficar loura? Acho que Lindsay Morgan é loura.
— Como você quiser. Minha prima Scarlet é editora assistente de moda da revista Charisma. Ela pode conseguir tudo de que precisamos — roupas, cosméticos, produtos para cabelo... Você precisa mesmo desses óculos?
— Se eu não quiser sair por aí esbarrando em tudo e em todos, sim.
— Vamos providenciar lentes de contato, então. Talvez verdes, embora seja uma pena cobrir esses seus belos olhos azuis.
Ela desviou o olhar, embaraçada.
— Não me provoque. Os meus olhos têm um tom de azul muito comum. Comum até demais!
— Não os acho nada comuns.
Ela o olhou diretamente nos olhos.
— Você está tão sério.
Ele não devia ter dito aquilo. Não queria que Lucy se sentisse ameaçada, tendo de entregar a própria vida em suas mãos.
— Não se preocupe, não vou me aproveitar de você. Só acho realmente que você tem olhos muito bonitos.
— Se aproveitar de mim... E quando é que vai acontecer a grande mágica?
— Que tal depois do jantar?
Bryan mostrou a suíte de hóspedes a Lucy.
— Onde fica o seu quarto? — perguntou ela.
— No andar de cima, junto com o estúdio. Vou mostrá-lo mais tarde. É lá que fica o meu computa¬dor. Você, com certeza, vai passar muito tempo de¬bruçada sobre aquele teclado.
— Pode acreditar nisso.
— Deixarei você se refrescar um pouco enquanto arranjo alguma coisa para comermos.
— Tudo bem. Tem alguma coisa que eu possa usar até sua prima chegar? Eu não queria voltar a colocar as calças da Sra. Pfluger depois do banho.
— Vou trazer alguma coisa para você.
Bryan encontrou um pijama, ainda dentro da em¬balagem, que ganhara da avó. Ela sempre lhe dava a mesma coisa de presente, e ele nunca tivera coragem de lhe dizer que não usava pijamas.
Lucy já estava no banho quando ele voltou. A por¬ta do banheiro estava entreaberta e ele sentiu uma vontade enorme de espiar e vê-la nua. Não havia pa-rado de imaginar coisas desde que ela havia caído em cima dele.
Ele, porém, não o fez, perguntando a si mesmo por que estava sendo tão nobre. Afinal, era um espião e estava acostumado a investigar os segredos de outras pessoas. Colocou o pijama sobre a cama de Lucy e foi providenciar o jantar. Uma rápida ligação para o restaurante no andar de baixo resolveu tudo. Agora era a vez de falar com Scarlet.
— Você sabe que adoro este tipo de desafio — dis¬se a prima. — Vou passar no escritório, pegar tudo de que preciso e depois vou para aí. Chego dentro de uma hora.
— E como vai o John? Vocês vão casar, afinal?
— O casamento é só no ano que vem. Se você não passasse tanto tempo fora por causa desse restaurante saberia disso. Será que não existem temperos exóticos aqui na América?
Parecia que a desculpa padrão para as freqüentes ausências — a de que ele estava atrás de temperos exóticos —já não estava funcionando mais.
—Tenho de me manter a par das últimas tendên¬cias— respondeu ele.
— Onde foi que conheceu essa moça, afinal? As moças com quem você costuma sair não precisam da minha assessoria para se vestir ou maquiar.
— Oh, ela não é... — ele se deteve. Como é que ia explicar a presença de Lucy em sua casa para Scarlet o resto da família? Ela podia ter de ficar sob sua proteção por meses. — Ela não é igual às outras — prosseguiu ele. — Lindsay é especial. Ela veio do campo, mas está querendo se adaptar a Nova York.
— Terei muito prazer em ajudá-la — disse Scarlet.
Bryan sabia que a prima tentaria arrancar o máxi¬mo de informações possível de Lucy sobre esse novo romance. Ele tinha de avisá-la de que ela acabara de virar sua namorada.
Você pode gostar





