
Sua Trigésima Quarta Traição Acidental
Capítulo 2
Quando acordei, o quarto estava cheio de estranhos. Um grupo de jovens médicos de jaleco branco estava ao redor da minha cama, sussurrando entre si.
"Quem... quem são vocês?", perguntei, minha voz rouca.
Um deles, um jovem de óculos, deu um passo à frente. "Somos residentes, Sra. Mendes. O Dr. Montenegro é nosso mentor. Ele disse que poderíamos observar seu caso."
Antes que ele pudesse continuar, uma voz feminina e afiada o interrompeu. "Observar o quê? Como se aproveitar de uma família rica?"
Virei a cabeça. A pessoa que falava era uma garota com um sorriso de desdém no rosto. Ao lado dela, parecendo tímida e inocente, estava Laís Ferraz.
"É você que tem segurado o Dr. Montenegro, não é?", a garota continuou, sua voz pingando desprezo. "Agarrada a ele por causa de algum favor antigo de família. Você está apenas usando a culpa deles para prendê-lo."
Suas palavras eram feias, mas eram verdadeiras. Uma onda de vergonha me invadiu. Por anos, eu aceitei o cuidado da família Montenegro, acreditando que era meu direito. Eu me deixei ser presa por essa "dívida de gratidão".
"Se não fosse por você, o Dr. Montenegro estaria livre para ficar com a pessoa que ele realmente ama", disse ela, olhando de forma pontual para Laís. "Alguém que o mereça. Não uma sanguessuga."
Laís olhou para baixo, um leve rubor em suas bochechas, a imagem perfeita de uma alma injustiçada, mas gentil. A visão fez meu estômago revirar.
Outro residente interveio: "Aposto que foi ideia da sua mãe. Ela provavelmente te empurrou para a família Montenegro no momento em que seu pai morreu, esperando garantir um genro rico."
"É, que interesseira."
Eles zombavam e fofocavam, suas palavras distorcendo a memória da minha mãe, uma mulher que só queria que eu fosse feliz.
Essa era a única coisa que eu não podia suportar.
"Parem com isso", eu grasnei, me erguendo. "Não se atrevam a falar da minha mãe."
A raiva me deu uma explosão de força. Eu balancei minha mão, com a intenção de dar um tapa na garota que insultou minha mãe.
Mas em um piscar de olhos, Laís se moveu, colocando-se diretamente no meu caminho.
Minha mão conectou com sua bochecha. Não foi um tapa forte, mas o som ecoou na sala silenciosa.
Laís tropeçou para trás, uma mão voando para o rosto, seus olhos arregalados em choque fingido.
"Elara! O que diabos você está fazendo?"
A voz furiosa de Arthur ecoou da porta. Ele tinha acabado de entrar. Ele viu Laís segurando a bochecha e eu com a mão ainda levantada.
Ele não hesitou. Marchou até mim, me empurrou de volta para a cama com tanta força que minha cabeça bateu na cabeceira, e puxou Laís para trás dele, protegendo-a.
"Você está louca?", ele rosnou para mim. A pura força de sua raiva era algo que eu nunca tinha visto.
Eu o encarei, meu coração doendo com uma nova onda de dor. Ele nunca, nunca tinha falado comigo daquele jeito.
Ele se virou para Laís, sua voz suavizando instantaneamente. "Você está bem? Ela te machucou?" Ele gentilmente tocou sua bochecha, seu toque cheio de uma ternura que ele não me mostrava mais. Ele a levou para fora do quarto, prometendo pegar um pouco de gelo para ela.
Os outros residentes me lançaram olhares de nojo antes de segui-los.
Alguns minutos depois, Arthur voltou, seu rosto uma máscara fria e dura.
"Peça desculpas a ela", ele ordenou.
Eu o encarei, silenciosa e desafiadora. Eu não pediria desculpas por uma armadilha que ela mesma armou.
"Você me ouviu?" Sua voz estava perigosamente baixa. "Você foi mimada pela minha família por tempo demais, Elara. Você acha que pode simplesmente bater nas pessoas quando quiser?"
"Eles estavam insultando minha mãe", eu disse, minha voz tremendo. "Laís se colocou na frente dela de propósito. Eu não queria bater nela."
A expressão de Arthur não suavizou. Ficou mais fria. "E você acha que eles estavam errados? Você acha que não está me segurando?"
O mundo parou. Minha respiração ficou presa na garganta. Ele estava concordando com eles. Ele acreditava que eu era a vilã nesta história. Ele me via como um fardo.
Um sorriso amargo e autodepreciativo tocou meus lábios. "Tudo bem", eu sussurrei. "Eu vou me desculpar."
Arrastando meu corpo dolorido para fora da cama, caminhei lentamente em direção ao seu escritório. O corredor parecia impossivelmente longo.
Laís estava sozinha em seu escritório, sentada em sua cadeira. Ela olhou para cima quando entrei, um brilho de triunfo em seus olhos antes de ser substituído por um olhar de preocupação gentil.
Lembrei-me de todas as vezes que Arthur me disse que seu escritório era proibido. "Trabalho é trabalho, Elara", ele dizia. "Sem distrações."
Aparentemente, seus princípios só se aplicavam a pessoas com quem ele não se importava.
A dor no meu peito era tão aguda que era difícil respirar.
Engoli meu orgulho, minha dignidade, meu amor. "Laís", eu disse, minha voz plana. "Me desculpe."
Ela se levantou, fingindo surpresa. "Oh, Sra. Mendes, por favor, não diga isso. Você é a noiva do Dr. Montenegro. Você é a esposa do meu mentor. Eu deveria ser a única a me desculpar."
"Não a chame assim", disse Arthur da porta. Ele tinha me seguido. Sua testa estava franzida em aborrecimento. Ele não queria que a mulher que ele amava me chamasse de sua esposa, nem mesmo de mentira.
O último pedaço do meu coração partido se desfez em pó.
"Desculpe, Dr. Montenegro", disse Laís, olhando para baixo humildemente. "Serei mais cuidadosa." Ela se virou para mim. "Sra. Mendes, eu te perdoo. Foi apenas um mal-entendido."
Sua magnanimidade era mais insultante do que qualquer tapa.
"Você pode ir agora", Arthur disse para mim, seu tom desdenhoso.
Eu me virei, minhas unhas cravando em minhas palmas, e saí.
Não cheguei longe. Ao passar pela porta, alguém correndo pelo corredor esbarrou em mim. Perdi o equilíbrio e caí no chão, meu corpo gritando em protesto.
De dentro do escritório, ouvi a voz preocupada de Arthur. "Laís, você está bem? Isso te assustou?"
Eu estava deitada no chão frio e duro, completamente ignorada.
A represa finalmente se rompeu. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Cobri minha boca para abafar os soluços que sacudiam meu corpo.
Alguns minutos depois, Arthur e Laís saíram do escritório. Ele disse que a levaria para um almoço especial para "desestressar". Eles passaram por mim como se eu fosse invisível.
Durante o resto da minha estadia no hospital, fui forçada a ouvir as enfermeiras e residentes elogiarem o quão dedicado o Dr. Montenegro era à sua promissora aluna, Laís. Eles foram a congressos acadêmicos juntos. Ele a guiou pessoalmente em procedimentos complexos. Ele comprava o almoço para ela todos os dias.
Cada história era uma nova ferida. Ele sempre esteve "ocupado demais" para essas coisas comigo.
Meu coração parecia estar sendo metodicamente rasgado em pedaços. Parei de falar, parei de reagir.
Uma noite, olhando pela janela para as luzes da cidade, uma sensação de calma me invadiu. Era a calma da finalidade absoluta.
Eu tinha acabado.
Eu o libertaria. E eu me libertaria.
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