
Sua Trigésima Quarta Traição Acidental
Capítulo 3
No dia em que recebi alta, não fui para casa. Peguei um táxi direto para a mansão da família Montenegro.
Encontrei o Sr. Montenegro em seu escritório, uma sala grandiosa cheia de livros com capa de couro e o leve cheiro de papel velho e culpa.
"Sr. Montenegro", eu disse, minha voz firme. "Eu quero terminar o noivado com o Arthur."
Ele ergueu os olhos de sua papelada, sua expressão de puro choque. "Elara? O que é isso? O Arthur fez algo para te chatear?"
Baixei os olhos para esconder a amargura que eu sabia que estava lá. "Não", menti. "Não é sobre ele. Minha mãe vai sair da prisão em breve. Eu quero levá-la e me mudar, começar uma nova vida em outro lugar."
Era a única desculpa que eu conseguia pensar que ele aceitaria sem questionar.
Ele estudou meu rosto por um longo momento, o seu próprio gravado com uma tristeza familiar. "Entendo", disse ele finalmente. "Se é isso que você realmente quer, não vou ficar no seu caminho. Vou pedir ao meu assistente para providenciar um fundo generoso para você e sua mãe. É o mínimo que podemos fazer."
"Obrigada", sussurrei, um alívio me invadindo.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu. "Quem está indo embora?"
Era Arthur. Ele estava na porta, as chaves balançando em sua mão, um sorriso casual no rosto.
"Vim te buscar, Elara. Pensei que poderíamos ir para casa juntos", disse ele.
Antes que seu pai pudesse dizer qualquer coisa, eu respondi rapidamente: "Estávamos apenas falando sobre minha mãe. Ela vai sair da prisão em breve."
O sorriso de Arthur não vacilou. Ele estava completamente inconsciente de que seu mundo estava prestes a mudar.
"Pai, Elara e eu vamos ficar para o jantar", ele anunciou, colocando um braço em volta dos meus ombros. Eu me encolhi com seu toque.
O jantar foi uma tortura. Arthur, atuando como o noivo devotado, habitualmente colocava minhas comidas favoritas no meu prato. Cada gesto era um lembrete doloroso de um amor que eu agora sabia ser uma mentira. Eu costumava pensar que esses pequenos hábitos eram prova de seu afeto. Agora eu os via como os movimentos vazios de um homem cumprindo um dever.
"Tenho boas notícias", Arthur anunciou alegremente para seu pai. "O local do casamento foi remarcado. Podemos finalmente nos casar no próximo mês."
Eu congelei, meu garfo batendo contra o prato.
O Sr. Montenegro olhou de seu filho para mim, a testa franzida. "Arthur, isso pode ser um problema. Elara estava me dizendo que quer cancelar tudo."
O ar ficou pesado com a tensão.
Bem na hora, o telefone de Arthur tocou, quebrando o silêncio pesado.
Ele olhou para a tela. Era Laís.
Mesmo do outro lado da mesa, eu podia ouvir sua voz fraca e chorosa. Ela estava com febre, disse ela. Estava sozinha e com medo.
A mão de Arthur se apertou em seu telefone. "Onde você está? Estou indo aí agora mesmo", disse ele, a voz tensa de urgência.
Ele desligou e se levantou da cadeira, seu bom humor anterior desaparecido. "Por que você queria cancelar o casamento?", ele me perguntou, seu tom distraído e impaciente.
Antes que eu pudesse responder, ele balançou a cabeça. "Deixa pra lá. Conversamos depois. Tenho uma emergência."
Ele saiu correndo da sala de jantar, as pernas de sua cadeira arrastando ruidosamente contra o chão em sua pressa.
Observei suas costas se afastando, uma dor familiar se instalando em meu peito. Ele não me amava. Era tão dolorosamente óbvio.
Depois de uma despedida educada, mas breve, ao Sr. Montenegro, saí da mansão e fui direto para a prisão.
Minha mãe parecia mais velha, mais frágil do que eu me lembrava. Seu cabelo tinha mais grisalhos, e seus olhos, que costumavam ser tão brilhantes, estavam nublados de preocupação.
"Elara, minha querida", disse ela, a voz rouca através do telefone do visitante. "Como você está? Os Montenegro estão te tratando bem?"
Instintivamente, puxei minha manga para cobrir os hematomas frescos no meu braço. "Eles são muito bons para mim, mãe", eu disse, forçando um sorriso brilhante. "Está tudo bem."
"E o casamento?", ela perguntou, um sorriso triste no rosto. "Sinto muito por não estar lá para te ver entrar na igreja."
O nó na minha garganta parecia enorme. "Na verdade, mãe... eu não vou me casar."
Seu sorriso desapareceu. "O quê? Por quê?"
"Eu vou te tirar daqui", eu disse, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Nós vamos para algum lugar novo, só nós duas. Vamos recomeçar."
Ela olhou para mim, seus olhos cheios de uma dor profunda e comovente. Ela sabia, sem que eu dissesse uma palavra, que eu estava sofrendo.
"Tudo bem, meu bem", ela sussurrou, uma lágrima rolando por sua bochecha. "O que você quiser. A mamãe vai com você."
Voltei para a casa que Arthur e eu compartilhávamos. Parecia fria e vazia, um museu de uma vida que nunca foi real.
Comecei a fazer as malas, organizando metodicamente meus pertences. Levei apenas o que era verdadeiramente meu. As roupas, as joias, o carro — qualquer coisa que a família Montenegro me deu, eu deixei para trás.
Arthur não voltou para casa naquela noite.
Ele não voltou para casa até o final da tarde seguinte.
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