
Sua Piada Cruel, Meu Coração Partido
Capítulo 2
Acordei com os murmúrios abafados dos meus pais. Seus rostos estavam marcados pela preocupação, minha mãe segurando minha mão, seus olhos vermelhos. Eu estava em uma cama de hospital, o cheiro estéril queimando minhas narinas. "Ela estava tão preocupada com você, querida", minha mãe sussurrou, acariciando meu cabelo.
Então eu o vi. Daniel. Ele estava parado sem jeito perto da porta, um buquê de lírios brilhantes demais para o quarto em sua mão. Seu charme habitual e sem esforço foi substituído por uma incerteza hesitante. Desviei o olhar imediatamente, encarando fixamente o teto. Eu não suportava olhar para ele.
"Ele ficou tão preocupado", meu pai acrescentou, sua voz suave. "Ele até foi em casa quando você não atendeu as ligações dele. Disse que te procurou a noite toda."
Meu estômago se revirou. Preocupado? Me procurando? Era uma ironia cruel.
"Letícia", disse Daniel, sua voz surpreendentemente gentil. "Você está bem? Eu... eu fiquei muito preocupado."
Fechei a boca com força, recusando-me a responder. Meus pais, interpretando mal meu silêncio como fraqueza, acenaram agradecidos para ele. "É tão gentil da sua parte visitar, Daniel", disse minha mãe.
Meus pais finalmente saíram para falar com uma enfermeira, nos deixando sozinhos. O silêncio se estendeu, denso e sufocante. Eu podia sentir seus olhos em mim, mas mantive meu olhar fixo em outro lugar.
Então, senti seu peso na beirada da cama. Ele suspirou, um som suave e cansado, e então, lentamente, passou um braço ao meu redor. Era um abraço familiar, um que costumava me trazer tanto conforto. Agora, parecia uma jaula.
"Olha, Letícia", ele começou, sua voz baixa. "Sobre ontem à noite... eu sei o que você ouviu. E sei que pareceu ruim." Ele fez uma pausa, como se esperasse que eu protestasse, mas permaneci imóvel. "A Gabi... ela só fica com ciúmes às vezes. E as coisas saíram do controle. Eu nunca quis que você ouvisse nada daquilo."
Ele apertou o braço ao meu redor. "Você sabe que eu não me importo com o seu peso, Letícia. Nunca me importei. Você é linda, não importa o quê."
Eu podia sentir uma rara suavidade em seu tom, um vislumbre do que eu costumava acreditar ser afeto genuíno. Sua bochecha descansou contra meu cabelo, e por uma fração de segundo, eu quase acreditei nele. Seu rosto, quando arrisquei um olhar, tinha uma expressão de preocupação genuína, uma ternura que eu não via há muito tempo. Ele poderia realmente se arrepender? Ele poderia se sentir mal?
Meus olhos arderam, mas me recusei a deixar as lágrimas caírem novamente. Não por ele. Não mais. Eu estava tão cansada de tentar decifrá-lo, de procurar constantemente pelo Daniel "bom" que eu achava que conhecia.
"Eu preciso ir para casa", eu disse, minha voz rouca, afastando-me de seu abraço. "Tenho provas importantes chegando."
Sua expressão escureceu. "Provas? Você quer dizer a entrevista para a vaga antecipada da USP?"
Eu assenti, meu coração afundando. Claro, ele sabia. Todos em nossa pequena cidade sabiam sobre a prestigiosa bolsa de estudos.
"Mas... isso é para a Gabi também", ele disse, sua testa franzida. "É uma vaga muito competitiva. Apenas um aluno da nossa escola consegue."
Meu olhar se aguçou. "Você está preocupado com a Gabi, Daniel?", perguntei, um gosto amargo na boca. "Preocupado que eu possa realmente conseguir?"
Ele se encolheu. "Não! Claro que não. É que... nós sempre falamos sobre ir para a USP juntos, lembra? Você, eu, a Gabi..."
Ele parou, mas a implicação era clara. Você deveria ser o plano B. A amiga inteligente que poderia dar aulas para ele, não a rival.
"Então, você não quer que eu tenha sucesso?", perguntei, minha voz mal um sussurro, mas tingida com uma nova e silenciosa fúria. "É isso? Nossas vidas inteiras, falamos sobre ir para a faculdade juntos, sobre nos tornarmos alguém. Isso foi só mais uma mentira?"
Ele permaneceu em silêncio por um longo momento, sua mandíbula tensa. "Olha, Letícia", ele finalmente disse, sua voz tensa. "A Gabi... ela realmente precisa disso. A família dela está passando por dificuldades agora. E você é tão inteligente, vai entrar em uma ótima faculdade de qualquer maneira. Talvez... talvez você pudesse apenas... abrir mão dessa vez? Deixar ela conseguir?"
Meu coração despencou. Meu corpo ficou frio. Ele estava me pedindo para desistir do meu sonho. Pela Gabi. De novo. Passei por ele, saindo da cama. "Eu tenho que ir", repeti, sem olhar para trás.
"Letícia, espere!", ele chamou, sua voz urgente. "Pelo menos... me deseje feliz aniversário?"
Parei na porta, minha mão no metal frio. Ele estava lá, bonito como um astro de cinema, seu cabelo dourado caindo perfeitamente sobre a testa. Mas meus olhos pousaram em seu pulso. Um relógio novo e caro brilhava ali. Era o modelo exclusivo que Gabi lhe dera de aniversário, aquele de que todos os garotos populares estavam falando. Meu próprio presente, um diário com capa de couro feito à mão que eu personalizara com suas citações favoritas, ainda estava na minha bolsa, amassado e esquecido. Lembrei-me de como ele sempre parecia "perder" meus presentes, alegando que não eram seu estilo. Eu costumava pensar que ele era apenas descuidado. Agora eu sabia. Ele tinha vergonha.
Virei-me para ele, forçando um sorriso frágil. "Feliz aniversário, Daniel", eu disse, minha voz monótona. "Espero que você consiga tudo o que deseja. E eu digo isso de verdade. Sinceramente."
Minhas palavras pairaram no ar, pesadas com um significado não dito. Ele não pareceu notar. Ele apenas sorriu, um sorriso oco e vazio.
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