
Sua Piada Cruel, Meu Coração Partido
Capítulo 3
No momento em que passei pela porta da frente, ainda com a bata do hospital, encontrei meus pais esperando, seus rostos uma mistura de alívio e preocupação. "Mãe, pai", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Eu quero terminar o noivado com o Daniel."
Eles me olharam como se eu tivesse criado uma segunda cabeça. "Do que você está falando, Letícia?", minha mãe perguntou, sua voz aguda de incredulidade. "Vocês dois são praticamente inseparáveis. Nós sempre assumimos..."
Eles tinham todos os motivos para assumir. Minha infância tinha sido uma constelação com Daniel no centro. Cada segredo compartilhado, cada olhar roubado, cada sonho sussurrado. Eu era a garota que catalogava meticulosamente suas estatísticas de futebol, que sabia seu pedido de café favorito, que guardava uma pequena e gasta foto nossa do jardim de infância dentro de seu diário. Eu era a garota que valorizava a caneca de cerâmica lascada que ele me fez na aula de artes quando tínhamos dez anos, mesmo sendo horrivelmente torta. Eu estava completa, desesperada e irreversivelmente apaixonada por Daniel Mendes.
E agora, eu estava deixando tudo para trás.
Naquela noite, fui para o meu quarto, peguei a caneca de cerâmica e, com as mãos trêmulas, a joguei na lata de lixo. Ela se quebrou com um som pequeno e desolado. Lágrimas escorreram pelo meu rosto, mas eram diferentes agora. Não lágrimas de dor por sua traição, mas lágrimas de luto pela garota que eu costumava ser, a garota que acreditava em contos de fadas. "Cansei de tentar me encaixar em algo que nunca foi para mim", sussurrei, as palavras um elogio silencioso.
Na manhã seguinte, o ar na sala de provas estava denso de tensão. Esta era a rodada final para a bolsa de estudos por mérito da USP. Enquanto me acomodava em meu lugar, meus olhos percorreram a sala. E então eu a vi. Gabriela Almeida, parecendo impecavelmente arrumada, já folheando seu caderno de prova. Meu coração deu um salto doloroso.
No meio da prova, eu notei. Gabi, seus olhos dardejando nervosamente, estava tirando uma pequena cola da manga. Ela olhou para cima, seus olhos encontrando os meus por uma fração de segundo, arregalados de pânico. Eu sustentei seu olhar, uma certeza fria se instalando em minhas entranhas. Ela rapidamente a guardou, o rosto corado.
Quando o sinal tocou, sinalizando o fim, Gabi estava me esperando do lado de fora da sala. Sua arrogância habitual havia desaparecido. Ela apertava os papéis da prova contra o peito. "Letícia, por favor", ela implorou, sua voz mal acima de um sussurro. "Você não vai dizer nada, vai? Meus pais... eles vão me matar se eu não conseguir essa bolsa." Lágrimas brotaram em seus olhos, mas não vi nenhum remorso genuíno ali. Apenas medo.
Eu apenas olhei para ela, meu rosto desprovido de emoção. Passei por ela sem dizer uma palavra. Ela mordeu o lábio, depois soltou um soluço teatral, atraindo a atenção de vários alunos que ainda circulavam por ali. "Sinto muito, Letícia!", ela gritou, sua voz se elevando. "Eu não queria te intimidar! Por favor, não conte a ninguém que eu tentei colar!"
Meu sangue gelou. Me intimidar? Todos os olhos se voltaram para mim, acusadores e incrédulos. Sussurros explodiram, agudos e cruéis. "Olha pra ela, a porca gorda. Sempre causando problemas." "Ouvi dizer que ela é obcecada pelo Daniel. Provavelmente com ciúmes que a Gabi finalmente está com ele." "Ela sempre foi uma esquisita."
Meu rosto ficou carmesim. "Não foi isso que aconteceu!", gaguejei, mas minhas palavras foram engolidas pela maré crescente de desprezo deles. A sala pareceu encolher, se fechando sobre mim. Senti o julgamento deles, o nojo deles. A picada familiar de ser a estranha, o alvo.
Nesse momento, a multidão se abriu. Daniel entrou, seus olhos examinando a cena. Ele parecia impecavelmente bonito, mesmo agora. Ele foi direto para Gabi, que agora soluçava abertamente, enterrando o rosto nas mãos. Ele gentilmente colocou sua jaqueta do time sobre seus ombros trêmulos.
"O que está acontecendo aqui?", Daniel perguntou, sua voz calma, mas com uma ponta de autoridade subjacente.
Gabi olhou para ele, seus olhos arregalados e inocentes, vazando lágrimas. "A Letícia... ela me viu... ela ia contar a todo mundo que eu colei... e então ela começou a dizer todas essas coisas maldosas sobre mim..."
Daniel se virou para mim, seus olhos frios, distantes. "Letícia, isso é verdade?", ele perguntou, sem nenhum traço da antiga familiaridade em sua voz. "Você está realmente por aí intimidando a Gabi?"
A pergunta, a descrença flagrante em seu tom, foi uma ferida nova. "Não, Daniel!", gritei, minha voz falhando. "Ela está mentindo! Ela colou, eu a vi! E então ela começou a chorar e a me acusar!"
Os lábios de Daniel se afinaram. "Letícia, você conhece a Gabi. Ela é delicada. E você... você está apenas chateada com a noite passada, não é? Não é justo descontar nela." Ele fez uma pausa, depois desferiu o golpe final. "E para que fique registrado, Letícia, não há nada entre nós. Nunca houve. Nós não estamos juntos."
Um suspiro percorreu a multidão. Mais sussurros, mais altos agora. "Viu? Eu sabia. Ela é iludida." "Pobre Gabi. A Letícia é realmente louca."
Minha explicação, as palavras que eu ensaiei na minha cabeça, morreram na minha língua. Ele não acreditaria em mim. Ele já havia escolhido. Seus olhos, geralmente tão quentes e familiares, agora estavam cheios de um nojo arrepiante enquanto pousavam em mim.
"Apenas peça desculpas, Letícia", ele ordenou, sua voz monótona. "Peça desculpas à Gabi, e vamos deixar isso para trás."
Cerrei os punhos, minhas unhas cravando em minhas palmas. Eu não choraria. Não aqui. Não por eles. "Pedir desculpas?", perguntei, minha voz trêmula, mas firme. "Eu não fiz nada de errado. Você pode verificar as câmeras de segurança. Elas mostrarão tudo."
Os soluços de Gabi se intensificaram com a menção das câmeras. "Não, por favor! Não faça isso!", ela lamentou, agarrando o braço de Daniel.
Daniel olhou do rosto manchado de lágrimas de Gabi para minha postura desafiadora. "Não há necessidade disso", ele disse, sua voz fria. "Gabi está claramente angustiada. E, francamente, Letícia, você está fazendo uma cena. Eu te disse, não há nada entre nós. Eu nunca poderia... eu nunca poderia ficar com alguém como você." Ele fez uma pausa, seu olhar varrendo meu corpo ainda em recuperação. "Apenas... melhore, Letícia. Pelo seu próprio bem."
Então ele se virou, puxando Gabi para perto, e a guiou através da multidão. Minhas lágrimas, que eu lutei tanto para segurar, finalmente se libertaram. Elas escorreram pelo meu rosto, quentes e humilhantes.
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