
Sorte ou Destino
Capítulo 2
Depois de uma meia hora, já acomodados no avião, me vi rindo ao descobrir que minha passagem seria para aquele homem baixinho, que foi abandonado no aeroporto, esperneando alguma coisa. Kalil (que nome mais exótico) havia abandonado seu acessor e estava embarcando para Nova York para participar de um congresso sobre joias. Falava da sua insatisfação com seu acessor, pois vivia arrumando trabalho durante as férias dele no Brasil.
Ainda consigo ouvir a voz dele se apresentando:
- Kalil Mahad, 33 anos, empresário no ramo de joias preciosas, solteiro, seu escravo menina.
Kalil falava um português com um sotaque que eu não conseguia saber de onde era, mas o entendia bem.
Eu me apresentei – Sarah Alves, 29 anos, solteira, empresária – dona de uma escola. É um prazer conhecer um homem tão charmoso e gentil. Ah, preciso pagar a passagem. Cheguei a pegar a carteira, mas ele me interrompeu:
- Não posso aceitar seu dinheiro, aceite como uma recompensa.
- Recompensa? Perguntei sem entender.
- Sim, você vindo comigo, deixei Jim (o acessor) no Brasil, e até ele me alcançar eu já terei partido de Nova York e sumirei por uns dias para relaxar e finalmente curtir algumas férias.
Tantas horas de voo e Kalil não tirava os olhos marcantes de cima de mim. O que será que ele pensava? Será que me considera uma mulher elegante? Tenho olhos azuis, cabelos longos e cor de mel, pequena, mas bem feminina.
Dava para perceber que ele absorvia cada movimento, cada gesto, cada palavra, parecendo fascinado.
Kalil não entendia como uma menina tão falante, sedutora, poderia ter um olhar triste, um soar amargo na voz ao relatar a época em que não tinha muito dinheiro, mas que vivia feliz ao lado do marido. Falava de como um simples jogo tinha mudado a sua vida e a fizera tão importante profissionalmente e ao mesmo tempo tão infeliz com o fim do casamento. E me pediu que contasse a minha história.
Eu não sabia ao certo porque estava contando minha vida para ele, mas eu me sentia segura ao seu lado e acredito que precisava me abrir com alguém. Apesar de ter algumas amigas, nenhuma me ouvia de verdade, geralmente me interrompiam dizendo que eu era boba e devia aproveitar mais a vida. Mudando sempre o foco da conversa. Então falei:
- Um ano e meio atrás, eu havia jogado na loteria, era uma brincadeira. Pensei em como seria bom se eu tivesse um bom dinheiro, suficiente para abrir uma casa de repouso para idosos. Resolvi jogar na loteria, pois existe um ditado que diz “Você nunca vai ganhar o jogo se não jogar”. Escolhi o dia do nascimento das 6 pessoas mais velhas da minha família – e joguei.
- Ganhei cerca de 60 milhões. Foi a partir daí que tudo mudou. Meu marido ficou furioso porque eu decidi abrir a casa de repouso para idosos. Ele considerava um desperdício de dinheiro. Assim começou nossas discussões e ele começou a fazer noitadas, gastando dinheiro com festas e mulheres.
Contei a minha aventura de detetive e a forma como descobri que ele me traia.
- Depois de um tempo entendi que ele queria mesmo era metade do prêmio, que ele tinha direito por ser casado comigo. Só que eu fiz tudo na lei com advogado e justiça, pois ele não teria direito em mais nada e a minha parte eu pude fazer o que quiser.
- Como moro numa cidade ainda considerada de interior – os 30 milhões da minha parte, eram muito dinheiro. Usei boa parte ajudando ao próximo. Ajudei meus familiares próximos, abri uma escola que atende desde creche até o ensino médio e realizei meu sonho inaugurando a casa de repouso para idosos. Espaço com muito verde, numa área próxima do centro da cidade. Preparei tudo como se fosse um hotel fazenda, com hidroginástica, terapias e fisioterapias, enfermeiros e pessoal adequado para cuidar dos idosos com muito zelo. A vaga na casa sempre dá prioridade aos idosos sem família, e aos que possuem necessidades especiais que os familiares não tem condições de pagar. Parte do dinheiro da minha escola mais a ajuda de empresários e da prefeitura da cidade, mantém o lugar funcionando bem.
- O que restou do dinheiro para mim? um excelente trabalho na escola, com um salário bom, casa própria, algum dinheiro aplicado, e o melhor de tudo, ver os velhinhos sendo assistidos com todo carinho do mundo.
Kalil pouco falava, apenas me ouvia. O voo já durava horas, nós jantamos e dormimos um pouco, e eu voltei a falar, falar e falar... Percebi o quanto eu tagarelava sobre minha vida e que pouco sabia sobre Kalil. Apenas que era um homem moreno e sensual, que estava ao meu lado ouvindo cada palavrinha minha. Então perguntei: - E você Kalil, o que faz no ramo das joias? Onde você mora?
Kalil não entrou em detalhes, falou que vivia na Polinésia, numa ilha onde haviam pouco mais que 100.000 habitantes. Ele trabalhava com joias, principalmente feitas de pérolas negras, raras. Estava sempre viajando o mundo para participar de congressos e eventos, levando o nome da família e das joias nos eventos.
Contou também que estava no Brasil para curtir o verão carioca, o carnaval na Sapucaí. Se encantou com tantas fantasias e mulheres bonitas. Mas, que o seu acessor Jim, havia importunado suas férias arrumando mais aquele congresso. Kalil pretendia mais uma ou duas semanas de férias antes de voltar a fazer viagens de trabalho.
A conversa estava tão excitante que nem percebemos a chegada a Nova York. Só percebemos quando o piloto falou: - Senhoras e Senhores, em alguns instantes estaremos no aeroporto de Newark. O dia está claro, mas com uma temperatura baixa, cerca de 9°C. E um pouco de neve deve surgir até o final da tarde. Desejamos a todos uma boa estadia e obrigado por escolher a nossa companhia aérea.
Trocamos o número de telefone, e eu peguei um táxi, não sabia ao certo onde iria, mas Kalil me indicou um hotel ótimo com vista para o Central Park. Na chamada Midtown Manhattan, região próxima a Times Square, Grand Central Station e as principais ruas com lojas, restaurantes e bares. E ainda me emprestou o sobretudo dele. Que loucura, escolhi Nova York e nem fiz uma mala descente, como não lembrei que era inverno nos EUA.
Me acomodei num quarto muito confortável, com uma cama grande, duas cômodas uma em cada lado da cama, em cima tinha um abajur e um telefone. De um lado do quarto um gaveteiro, para guardar roupas. Foi quando percebi que a minha bagagem era uma pequena mala, com uma camisola, calça jeans, duas blusas finas de manga comprida, calcinhas e coisas de higiene. Na pressa de viajar não dei conta que em Nova York estava frio e que era uma cidade luxuosa, precisava comprar algumas roupas urgente. Peguei o sobretudo que Kalil me emprestou, e fiquei arrepiada com o cheiro amadeirado do perfume que emanava.
Uma camareira bateu na porta do quarto e me entregou um buquê de rosas vermelhas – naquele momento me senti muito atraente, pois um homem quando manda rosas ele está muito impressionado com a mulher – antes de ler eu já sabia que era de Kalil, a única pessoa que sabia onde eu estava.
A mensagem também era um convite:
“Admirável Sarah, espero que aceite jantar comigo essa noite, estarei no saguão do hotel às 20:00 horas para buscá-la. O jantar será num restaurante simples, mas muito charmoso, não precisa se preocupar com roupas finas. ”
Kalil Mahad
Olhei para o relógio e percebi que já eram quase uma hora da tarde, estava com fome, precisava me alimentar e ainda comprar um vestido, arrumar os cabelos, as unhas... foi aí que percebi quão desarrumada eu estava. Saí em missão de cumprir todo ritual que era necessário para sair com um homem simplesmente lindo, e que além de admirá-la – mesmo ela estando tão desajeitada – mandou-lhe rosas vermelhas.
Ás 20:00 em ponto o telefone do quarto tocou, era a recepção comunicando que Kalil estava aguardando no saguão. Quando saí do elevador, Kalil mal pode conter a admiração, seus olhos brilharam. Eu estava deslumbrante, com um vestido negro, um pouco abaixo do joelho, manga estilo princesa, deixando o colo de fora. Sobretudo em cotelê, também preto. Cabelo preso estilo coque, com alguns fios soltos. Um brinco de ouro branco de tamanho médio – o que eu tinha, afinal não sou muito ligada nesses detalhes - meia calça e salto preto, e uma bolsa de mão. Não esqueci do sobretudo de Kalil, para devolver.
- Olá, como estou? Dei uma volta e sorri para Kalil.
- Você está excitantemente linda. Kalil se aproximou e colocou em meu pescoço um colar. A princípio eu não aceitei, mas fui convencida. Era uma gargantilha finíssima de ouro branco – ele havia reparado no meu brinco – e o pingente era uma chave muito delicada com uma pedra de brilhante. Delicada e linda, absolutamente linda.
Eu quis perguntar o que representava aquela chave, mas Kalil se adiantou e falou: -Você é uma mulher linda, porém mais brilhante e valiosa que essa joia. Essa chave representa meu coração, que estou dando a você, pois me conquistou, mas vai depender de você conseguir usá-la para abrir e entrar nele.
Entramos num carro preto USV, e fomos ao restaurante The Little Owel, na West Village. Um restaurante simples e acolhedor, bastante confortável, com luz baixa e música ambiente. Pedimos peito de frango grelhado com aspargos, couve, abacate e quinoa. Para beber Kalil pediu um Pink Prosecco Lemonade, um prosecco com limonada de toranja rosa. Deliciosa bebida.
Conversamos sobre a tarde que tivemos, da minha preocupação em não ter levado roupas adequadas, e sobre o congresso que ele disse ter sido promissor, embora maçante.
Era a primeira vez que eu via Kalil falando, estava sorrindo e contando sobre como foram bajuladores e politiqueiros os homens no evento. – Será que eu realmente preciso de tanta bajulação? Ele falou de forma descontraída – acho que foi o prosecco, ele falou mais sobre ele. De repente um dos funcionários se aproximou da mesa – Desculpe senhor Mahad, tem uma ligação para o senhor. Ele pediu licença e foi atender. Fiquei olhando para os detalhes no restaurante – como era agradável aquele lugar, e a comida, estava uma delícia – fui brutalmente interrompida em meu devaneio. Kalil me puxou pelo braço e pediu que o acompanhasse. Não entendi nada até chegar ao hotel. Eu estava confusa, pois saímos às pressas e pelos fundos. Kalil então começou a se explicar:
- Sarah, perdoa-me por fazê-la sair assim do restaurante, tem algo sobre mim que preciso contar... Antes que Kalil terminasse de falar, apareceram alguns repórteres gritando e fotografando...
Um deles falou mais alto: - príncipe Kalil Mahad, quem é essa mulher? A futura pretendente?
- Príncipe, vossa alteza está mesmo noivo? Esta é a futura princesa Mahad, a escolhido do rei?
- Saiam todos, eu não estou noivo, e se estivesse, não é da conta de ninguém. – Enquanto Kalil escondia o meu rosto e me ajudava a entrar no hotel, ele gritou com os repórteres, e fomos salvos pelos seguranças do hotel que não permitiram a entrada deles atrás de nós.
Foi naquele momento que descobri que aquele homem realmente era um príncipe, não só em sonhos, mas de algum lugar da Polinésia. Eu não entendia porque ele não me contou e fiquei furiosa. Ele tentava falar comigo, me seguia, e eu arrumei minhas coisas e fechei a conta do hotel. Ele me olhava e tentava me explicar: - Me perdoe menina por não ter contado antes quem eu realmente sou. Tudo que falei sobre mim era verdade, só omiti o fato de ser um príncipe. Perdoa-me, eu não a conhecia e queria que gostasse do homem Kalil e não do príncipe.
Nesse momento eu já estava quase do lado de fora do hotel – pelos fundos – queria entrar num táxi e sumir dali o mais rápido possível. Olhei em seus olhos e disse: - Kalil, ou melhor, alteza.
- Não fale assim Sarah, para você sou Kalil e sempre serei apenas o homem que você conheceu.
- Tudo bem, você, apenas você – falei respirando fundo e segurando para não ser grosseira e não gritar- você mentiu para mim. Eu mais uma vez estava sendo enganada por um homem, e estava magoada por ele não ter confiado em mim, e mal conseguia falar.
- Desculpa! Percebi em sua voz uma ponta de verdade, mas continuei.
- Você não acreditou na minha pureza, na minha sinceridade, deve ter imaginado que eu era uma pistoleira ou algo assim – verdade que isso devia acontecer frequentemente, mas eu não queria dar o braço a torcer.
- Sarah, sei que desculpas não vão apagar a situação, mas estou sendo sincero agora. Espero que compreendas, já tive tantas mulheres que se aproximaram de mim, ou melhor do príncipe, que fiquei inseguro. Eu iria te contar, pois você, como já disse, conquistou meu coração. Vamos começar de novo: - Muito prazer, meu nome é Principe Kalil Mahad, de uma pequena ilha na Polinésia. Tenho 33 anos, sou solteiro, estava de férias quando te conheci, e realmente a minha família trabalha no ramo das joias e tudo o mais que falei. Quero ter a chance de te conhecer melhor, que tal viajar comigo para nos conhecermos?
- Eu, viajar com você? Impossível Kalil, daqui algumas horas meu rosto estará em todos os noticiários de Nova York, e quem sabe no Brasil ou pelo resto do mundo? Eles vão descobrir quem sou e pode imaginar o que dirão? “Uma jogadora da loteria do Brasil ganha prêmio duas vezes, uma ao jogar e outra ao conhecer o príncipe...” Será um caos, com certeza, e tudo que nunca quis na vida foi ser reconhecida em qualquer lugar.
- Sarah, independente de eu ser um príncipe e você uma empresária de sucesso, somos adultos, solteiros e independentes. Não podemos parar nossas vidas por causa do que os outros dirão ou pensarão sobre nós.
- Não devemos mesmo, mas eu não consigo me imaginar nos tabloides, sendo alvo de tantos comentários, eu prezo muito pela descrição.
- Jim já está aqui em Nova York, ele vai encontrar os repórteres e fará o impossível para não divulgarem as suas fotos. Venha comigo, vamos viajar...
- Não Kalil, não podemos... – não terminei de argumentar, pois era difícil resistir aquele charme, toda a sedução do seu toque, da sua voz ao meu ouvido. Não resisti e concordei em ir com ele para onde quer que fosse.
Tantas coisas aconteceram e só havia passado 1 dia. Será que aqueles acontecimentos seriam apenas sorte, ou o destino mudando minha vida novamente.
Você pode gostar





