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Capa do romance Filho do Amanhã-O destino da humanidade na decisão de um homem

Filho do Amanhã-O destino da humanidade na decisão de um homem

Forças celestiais e infernais duelam pela alma de Loan Horsham, um cavaleiro marcado desde o berço por Deus e pelo Diabo. Enquanto Lúcifer usa seduções e pactos sombrios para corrompê-lo, o herói enfrenta conspirações mortais que definirão o futuro da humanidade. Entre intervenções divinas e o peso de seu destino, Loan encontrará no amor por uma simples camponesa a força necessária para resistir ao mal e guiar o mundo rumo à salvação espiritual.
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Capítulo 2

Grã-Bretanha (Inglaterra) Século XIV- Ano de 1318

O mal foi desencadeado pela ganância de um membro da sociedade druida. Por seu intermédio, o anjo negro Sammael, com sua serva Astaroth, perverteu, em atos de magia e por meio de mentiras ilícitas, a maior parte dos druidas, bardos e auguristas existentes na Europa. Sendo assim, como era uma classe respeitada por sua sabedoria e conhecedora dos poderes intermediários de suas tribos, os celtas submeteram-se cegamente à ordem daquele escalão hierárquico, que, formando chefes militares, recrutou cada soldado disponível até criar um grande e poderoso exército. Em seguida, eles uniram forças com os bárbaros saxões, alcançando o rendimento total da Inglaterra. Na seqüência, invadiram outras províncias da Europa com vasta força superior. Atravessaram o Canal da Mancha e atacaram a França, queimando vilas e saqueando as cidades, ameaçando a existência de toda a cristandade.

Foi uma época em que o medo e o terror prevaleceram sobre os povos europeus, denominada por muitos deles a "Era das Trevas".

Nesse tempo, havia a Inquisição (Antigo Tribunal Eclesiástico, também conhecido por "Santo Ofício"), para investigar e punir crimes contra a Igreja e a fé católica. Eles não poupariam ninguém, qualquer que fosse a causa, tudo por "amor" a Cristo.

A configuração do território era a de um bloco montanhoso, envolvido por um círculo de planícies. Aquelas montanhas, relativamente muito antigas e modestas, foram modeladas pelo oleiro escarlate da natureza. Sob os pés dos gigantes de pedra, um denso tapete verde parecia perder seu brilho natural, pois o sol poente cedia lugar à noite. Aos poucos, uma grossa neblina surgia com o avançar da escuridão, bailando por entre as árvores da vasta flora.

De repente, o santuário verde foi profanado por uma sombra que se movia sorrateira na penumbra. O solitário invasor caminhava quase aos tropeços, emitindo sons assustadores pela floresta de Nottingham, até finalmente avistar mais adiante uma enorme fortaleza.

Sangravam-lhe os pés nus, pois haviam sido fustigados pelas pedras pontiagudas do difícil caminho que percorrera. Castigado pelo cansaço da longa jornada, o desconhecido prostrou-se quase imóvel ao chão. Em seguida, lentamente e desajeitado, removeu o capuz, revelando sua identidade. Era uma mulher jovial, porém seus cabelos estavam maltratados pela sujeira, e sua face, marcada pelas chagas do sofrimento.

Afagado em seus frágeis braços, envolto em uma capa vermelha, via-se outra figura que se movia vagarosamente. Condoída, a viajante inclinou a cabeça em direção ao pequeno ser com um desdito olhar, lamentando-se ao perguntar:

- Siegfried, por que o destino é tão cruel a ponto de nos separar?

Por certo tempo, permaneceu ali ajoelhada, aconchegando ao colo a linda e delicada criança, que mal podia sorrir para sua geratriz; somente a observava, sem entender as lágrimas frias caindo e molhando a fina pele de seu rostinho.

- Tu és meu sangue e minha preciosidade, e para guardar a tua vida terei de abdicar da minha. Mesmo que cometa esse terrível pecado, a lembrança de tua formosura ficará gravada em meu coração, por todos os anos de minha existência.

- Meu ato salvará tua vida — declarou a jovem, direcionando o olhar às muralhas escuras de um castelo sinistro, lugar de sua última deixa.

Então, seus lábios feridos sussurraram a história de toda a sua vida, como se aquele pequeno pudesse entendê-la.

- Teu avô, além de ser bem-sucedido, foi um comerciante honesto e honrado. Um perfeito e educado cavalheiro galés, muito respeitado pelos lordes da nobreza. E eu, sua filha, era a única família que ele tinha, já que mamãe não estava mais conosco, pois contraíra uma terrível enfermidade e morrera.

Após uma pequena pausa, prosseguiu:

- Fui uma donzela cheia de sonhos; queria o que todas desejavam: achar aquele que me tomaria em seus braços volumosos e, com intenso carinho, colocaria-me na sela de seu cavalo, para juntos cavalgarmos felizes, rumo às estrelas, vivendo dias deliciosos de paixão e noites tórridas de amor infinito. Mas nem tudo é o que esperamos... Acontecimentos... tive muitos em minha vida, fatos marcantes... lindos... Alguns estranhos também me ocorreram...

Relembrar seu passado era doloroso; no entanto, havia algo que alimentava sua esperança de um dia ser feliz...

Todas as vezes que o Sol exibia sua fulgurante face pela manhã, ela balançava seus cabelos dourados, banhando-os nos seus primeiros raios. Em seguida, entoava jubilosas melodias para seu "Protetor Celeste". De repente, como resposta ao seu afeto, uma águia nunca vista por outros olhos mortais, branca como a neve que cobre as cordilheiras, emergiu do nada e ficou dando voltas circulares em torno da jovem, indo vagarosamente pousar em seu delicado braço.

Então, essa magnífica ave fixou seu olhar no dela, e uma voz mansa preencheu a mente da virgem: --- Rúbia, tu cantas com a pureza de teu coração, e minha essência viaja na eterna carruagem da tua voz.

Seus ouvidos e seus olhos eram os únicos a testemunhar a aparição, privilégio que sempre a emocionava. Depois, uma brisa refrescante, provinda do bater de suas asas, esvoaça levemente os cabelos da moça. Assim o formoso pássaro celeste despedia-se, regressando para a imensidão do céu azul, feito um anjo que retorna ao paraíso.

Mas, na realidade, ela queria muito mais do que aquele mundo de ternura. Rúbia Lands desejava a felicidade de constituir um lar, ter sua própria família e viver com ela os seus anos. Porém, mesmo bajulada por inúmeros cavaleiros e jovens trovadores que a cobiçavam com olhares penetrantes, ela sempre soube que nenhum deles fazia parte de seus sonhos.

Certo dia, seu pai chegou ao mercado cabisbaixo e de semblante pálido, tossindo muito e quase sem fôlego. Pedia a ela, aos murros, que abrisse rápido a maciça porta. Assim que a porta foi aberta, o mercador entrou, seguindo para uma cadeira por trás do balcão. E, logo que se sentou, limpou o suor que lhe escorria pelo rosto.

Só Deus sabia o que teria acontecido a ele, mas Rúbia logo entendeu o porquê de tudo isso.

No momento em que a moça entregou uma caneca de água fresca ao pai, seus ouvidos captaram sons de passos que vinham logo atrás. O Sr. Lands estava acompanhado de um homem estranho, possuidor do título de chanceler, um nobre muito conhecido na Grã-Bretanha, encarregado da Justiça e da guarda dos selos. Seu nome: Henrique Howell. E, para ela, este foi o dia de maior infortúnio em sua vida, pois de alguma forma estranha e sem explicação, a linda moça de cabelos loiros foi anunciada a ele por seu genitor. Não que Rúbia tivesse experiência no assunto, mas lhe parecia que ele estava sendo forçado a fazer algo que seu íntimo desaprovaria.

Por dias seguidos, esse lorde visitava, sempre no mesmo horário, aquele humilde estabelecimento. Sua voz era calma, porém fria; suas roupas eram das mais finas e seus dedos estavam sempre ornados de anéis cintilantes.

Pensando no passado, as horas deslizavam e a Lua movia-se vagarosamente pelo céu noturno. Em sua mente cansada, a jovem ainda se lembrava, com clareza, da maneira funesta com que o fidalgo a olhava.

Aquele olhar malicioso transmitia uma maldade petrificante toda vez que o sentia percorrer seu corpo. Com os joelhos colados em terra, Rúbia narrava ao rebento seu flagelo, sem reparar em outra presença envolta nas sombras, que assistia atenta à cena, abeirada ao peitoril da janela, na torre próxima às muralhas da fortaleza.

Aquela pequena cidade, onde outrora ela cantava para Deus, foi transformada em um pântano de sangue. Henrique Howell mostrou ser o único e verdadeiro tirano, mantendo como lema-chave a ambição e a devassidão acima de tudo, como exclusiva forma de satisfazer seu bel- prazer. Ele muito contribuiu com o massacre de milhares de inocentes, pois o tédio de sua malevolência atingia o auge por onde quer que passasse. Mas isso não bastava.

Com sua grande influência, em pouco tempo dobrou as legiões de soldados, moldados aos vícios lupinos e à luxúria sem fim. Grande foi o número de camponesas violentadas; saqueavam seus lares como maneira de coletarem impostos e matavam seus homens por estarem tramando contra a realeza. Os que não eram entregues cativos para a Inquisição eram mantidos prisioneiros para trabalhar como servos. Aqueles que tentavam fugir eram abatidos pelas hastes de pontas farpadas dos flecheiros. Ali era um lugar onde os clamores dos desesperados nunca eram ouvidos, e os oprimidos eram sentenciados à própria sorte. Essa sombra de medo e morte alastrou-se como uma peste por toda a Grã-Bretanha. Todavia, surgiu um conflito ainda maior e mais perigoso do que as ações covardes de Howell.

A aparição de um exército pagão na Inglaterra fez com que os lordes e os membros feudais das igrejas católica, anglicana e ortodoxa pusessem a plebe e os patriotas como suspeitos de estarem unindo forças com os celtas e os saxões. Esse fato, que provocou o injusto aumento excessivo de impostos e a ruptura de tensões sociais, criou uma tempestade de revolta em todo o povo.

Rúbia olhou o vazio, com ar ausente, perdida em suas negras recordações do passado, sem saber que lá na torre, no interior de um quarto sombrio, adentrou um vassalo robusto, parando e prostrando-se diante da presença daquele ser que permanecia imóvel junto ao parapeito.

- Chamou-me, milady? - indagou o vassalo.

Através da escuridão, um tétrico rosnado ecoou pelas paredes, seguido por um vento gélido que percorreu todo o aposento. Todavia, isso não intimidou o guarda, que permaneceu firme em sua posição. -- Que quereis vós que eu faça, milady? - perguntou novamente.

Então, a sombra encapuzada moveu-se lentamente, revelando os olhos vermelhos, que brilhavam ante o serviçal, e declarou por telepatia o que seus lábios carmins se recusavam a falar.

- Como quiserdes. Tudo será feito conforme o vosso desejo - confirmou-lhe, levantando-se. E, ausentando- se, fechou a porta atrás de si.

Dada a ordem, a mulher misteriosa devolveu a atenção à plebéia que permanecia defronte às muralhas do colosso de pedra.

Enquanto isso, Rúbia tomou para si o cálice amargo de sua vida:

- Meu pai tornou-se mais uma vítima daquele monstro, pois não podia pagar os altos tributos exigidos. Mediante isso, Howell tirou proveito da situação, pois havia sido contagiado pela pureza juvenil da bela moça. Agora, como testemunha ocular, ela contava ao pequeno Siegfried todas as suas desditas raízes. Rúbia, como tantos outros, implorava por um pouco de justiça, na esperança de que ela ainda viesse a prevalecer. Mas, para um homem vil como Howell, a palavra "justiça" era apenas um conto de fadas, porque seu único deus era a riqueza material. E, a todo custo, usaria os métodos mais sórdidos que conhecia, somente para realizar o desejo que tinha pela moça. Mesmo a influência do pai dela junto aos suseranos não foi o suficiente para impedi-lo de realizar seu intento.

Inconformado pela ordem recebida de seu superior, o chefe do feudo, Howell usou o momento a seu favor, atacando de outra maneira, ainda mais eficaz: astutamente, conseguiu duplicar os impostos, como forma de pressionar o povo e de chegar ao seu querer: a bela campônia.

A intensa névoa rodopiava ao redor de Rúbia, trazendo à tona os lampejos de seu sofrimento.

Aquele homem chantageou o teu avô, dizendo que, caso não fosse com ele, enviaria uma mensagem ao rei, alegando que o povoado estaria conspirando contra a coroa real, o que resultaria na morte de meu genitor e único protetor e na dos demais. Temi no momento em que os guardas do tirano apontaram aquelas lanças em direção ao peito de meu pai.

Fazendo um último apelo, a jovem caiu em prantos aos seus pés, implorando para o verdugo a vida de seu pai e prometendo que se submeteria à sua vontade, caso ele o poupasse. Rúbia deixou-se levar pelo amor àquele que a criou desde sua meninice. Após ter perdido sua genitora para a peste, seu pai tornou- se a única riqueza que possuía na vida.

Os dias se passavam, e a bela calipso era mantida cativa em uma mansão recém-construída, totalmente às custas dos esforços de pessoas menos afortunadas daquele povoado. Suntuosamente mobiliada, localizava-se a alguns quilômetros da Vila Harleck, onde morava antes.

Era uma tarde chuvosa. Apesar de ela se sentir prisioneira, Henrique permitia que sua musa de cabelos longos cuidasse dos afazeres domésticos, com as demais serviçais. No entanto, permanecia sob os olhares vigilantes e ousados de seus subordinados.

Certo dia, Rúbia se viu só em suas ocupações diárias; as serviçais tinham sido dispensadas de suas funções e os guardas dispersados de seus postos rotineiros, permanecendo em cômodos mais afastados. Ao cair da tarde, a calmaria do momento foi quebrada pelos sons de passos que vinham em sua direção. Seu coração disparou palpitante de pavor ao notar que eles pertenciam ao senhor daquela mansão. Seus olhos brilhavam a cada passo dado. Sua língua áspera circundava a boca, demonstrando sua nítida intenção. Ela tentou fugir, mas a ação desatinada e brutal de Howell sobrepujou todas as tentativas da moça em repelir seu ataque. As forças lhe escaparam do corpo e seus ouvidos testemunharam os sons de vestes sendo rasgadas. A frágil vítima foi brutalmente arremessada de encontro ao piso frio do salão. Contida de horror macabro, demonstrou constantemente com gritos seu medo, segundos antes de sentir as mãos quentes do ímpio nefasto tocando e apertando seus seios firmes e desnudos. Os braços dele envolveram sua figura feminil e a deixou como uma lebre à mercê de uma serpente.

Em seguida, Howell levantou uma das mãos e começou a acariciar a face macia da mulher, enquanto a outra massageava o mamilo esquerdo. Com o polegar sob seu queixo, Henrique imobilizou o rosto dela.

- Por que tentas resistir? Bem sabes que isso é inútil! - disse ele, sorrindo.

O tirano viu que os olhos dela ficaram repentinamente úmidos; ainda assim, levou a mão que segurava o seio por baixo do vestido, descendo levemente pelo corpo, escorregando-lhe os flancos.

- Sou o único homem que a matará de prazer; não resistas; tão somente convide-me a satisfazê-la.

Howell desceu a boca até aos lábios dela, até introduzir sua língua por entre os dentes da campônia. A jovem, por sua vez, pensou em arrancar o músculo móvel da cavidade bucal de seu violador, porém se sentiria imunda se provasse o gosto do sangue sujo daquele animal, e também temeu pelo o que viria depois.

Ela começou a chorar.

- Eu.. .te... odeio — disse gemendo.

Em sua ávida loucura, o chanceler não mais agia em seu estado normal, pois, ao ver as lágrimas serpenteando o rosto dela, começou a sorvê-las.

Rúbia não teve outra escolha a não ser sucumbir diante daquela ação humilhante. Num ritmo frenético e contínuo, Howell roçou seu corpo ao dela, buscando o prazer e a satisfação que tanto esperou. A pobre moça estava deitada no chão de pedra, com as pernas abertas e quase sem nenhuma vestimenta; os braços alvos e delicados imobilizados.

A alegria doentia do chanceler atingiu o ápice ao ver os perfeitos e belos contornos daquele corpo jovem e perfumado. Uma perfeição magnífica, como a veracidade de um diamante, e linda demais para ser apenas uma plebéia. O arfar desenfreado de sua respiração invadiu como aguilhões as narinas de Lands, trazendo repulsa e ânsia. Sorriu como um demente e, sem piedade alguma, penetrou-a violentamente, rasgando sua pureza de maneira grotesca. Ele gemeu, extasiado em sua satisfação animalesca.

Ela pranteou, num sofrimento igual à dor de um pássaro que cai ao ser transpassado por uma seta pontiaguda. Totalmente abalada por ter sido violentada, desmaiou. E ele, nada mais escutou: nenhum sussurro, nenhum protesto e nenhuma reprovação do ato vindo de sua presa. Na sua voraz embriaguez pelo corpo sedutor da estonteante diva, realizou freneticamente, e de diversas maneiras, seu profano vitupério, gritando alteradas vezes seu concluído orgasmo.

Melancolia e revolta estavam misturadas em seu semblante. O anjinho aconchegado em seus braços seria afastado de seu convívio, por motivos que só ela conhecia.

Na torre, a dama oculta, usando de meios inefáveis do místico, ouve e acompanha os argumentos da infeliz, mantendo sempre um sorriso sarcástico nos lábios, sem demonstrar nenhuma expressão de emoção.

Sem sombra de dúvida, elas eram espécies completamente diferentes. Como aquela mulher encantadora e ao mesmo tempo sem nenhuma comoção podia friamente contemplar as angústias e inseguranças da outra mulher, que sofria suas lamúrias debaixo de um ar gélido, se ambas eram da mesma natureza?

Por outro lado, Rúbia sentiu seus pensamentos atingirem ainda mais seu coração e seu espírito. Ela via o mundo como morada de trapaceiros e o destino como um ladrão de esperanças, que não tinha honra.

- Por vezes agonizante, fui forçada a ser sua concubina. Fiquei dias e dias vagando no próprio inferno carnal, realizando atos escusos e sem moralidade. Até que um dia, a luz do consolo brilhou sobre mim, deixando para trás todas as chagas do meu pesar. Mesmo provindo de um ato deplorável e de um homem a quem dediquei o ódio como sentimento, me senti regozijada, recompensada de toda aquela aflição. Eu seria mãe pela primeira vez, sentiria um filho, uma vida se mexendo dentro do meu ventre!

As lágrimas serpentearam por sua face e os lábios novamente proferiram fatos dolorosos:

- Quando seu "pai" soube, toda a sua infrangível arrogância e petulância se estilhaçaram por completo.

As palavras de Rúbia, por serem verdadeiras, feriram a fundo, em ferro quente, o orgulho de Howell assim que soube que iria ser pai. Ele não conseguiu conter-se e ficou enlouquecido. Aquela gravidez foi interpretada pelo algoz como sendo um ato de sacrilégio. Ele a tinha somente como uma mera distração para seus desejos sexuais; uma meretriz que podia ser descartada a qualquer instante.

Os pensamentos daquele homem ficaram moldados em ponteiros de um relógio que parecia ter retornado no tempo, regredindo a uma época mesolítica. Com todo seu desdém, declarou a muitos que seu corpo nobre tinha sido maculado pela lama da miséria. Para ele, a mulher havia se tornado uma maldição gerada pela plebe, para suplantar a dinastia de sua família.

O homem que representava a lei e os interesses do rei, e constantemente abusava do poder que lhe era confiado, estava agora vulnerável diante da simples gravidez de uma plebéia.

- "Poderia eu, um milorde de sangue azul, aceitar um herdeiro bastardo concebido por uma meretriz?" - com toda a modéstia acrescentada de cinismo, Rúbia repete as palavras proferidas pelo tirano.

Em seus olhares infecundos, ela pôde ver suas intenções malignas com relação ao filho. Ele consumia-se pelo ódio, por não haver tido a coragem de executar um crime tão desaprovado pela fidalguia, como também pelo fato de que iria perder a amante pela qual tanto lutara.

- Quando esse sofrimento irá findar? Será que há um fim para isso? - acrescentou ela às suas páginas de lágrimas.

Sim, naquela noite havia um meio de ter esperanças. Deus ouviu suas preces.

As nuvens trajadas de chumbo e enfeitadas por clarões de incontáveis relâmpagos rasgavam impiedosamente a virgindade do céu noturno, e a chuva abençoada caía pesada sobre os campos galeses. Aos poucos a chuva se intensificou ainda mais e os minutos que se seguiram tornaram- -se horas.

No aposento, o medo veio na forma de arrepios sobre o corpo de Rúbia, fazendo-a puxar com as mãos o lençol para cima, até a altura do pescoço.

Já o vil suserano socou de leve o batente da porta, confirmando sua chegada. - Está chovendo demais lá fora, tu não achas, vadia? - comentou com bocejos.

Rúbia assentiu gesticulando com a cabeça, embora ela sentisse pavor e nojo pelo teor decrépito daquelas palavras.

- Quero fazer um brinde a essa maldita tempestade. Tomara que os raios incendeiem toda a raça plebéia!

- bradou Henrique, com a caneca cheia. E sem perder nenhum segundo sequer tomou a bebida de uma só vez, jogando a grande vasilha de prata à sua direita.

O nobre cambaleante deu três passos em direção à cama e logo percebeu que havia bebido demais. O último caneco que tomara foi o golpe decisivo. Voltou os olhos brilhantes e débeis para Rúbia; eles dançavam feito as ondas do mar ao toque pesado de um furacão. Um oceano em fúria, enegrecido pela tormenta de dentro de sua própria cabeça.

Howell foi vencido pelo poder embriagante do forte e doce vinho. Caminhando sem firmeza e sem dizer nenhuma frase, despencou como tora seca sobre a cama de uma maneira um tanto desajeitada. Não deu a mínima atenção a Rúbia, que estava deitada ao seu lado. Encolhida e assustada, pensava numa possível noite de horrores carnais, já que relutar seria impossível, mesmo que quisesse. No entanto, ao contemplar o repugnante amante num profundo estado de inconsciência, percebeu que a esperança renascera, pois o destino concedia a oportunidade imediata para a fuga, pensamento que rondava sua mente todos os dias. Lands ficou admirada, pois ele nunca a deixara uma noite sequer em paz, mas naquele momento o destino havia interferido nos planos do algoz, que preferiu embriagar-se a consumar suas horas de prazer como era de costume.

Com extrema mansidão, suas frágeis mãos tatearam sobre as roupas do ébrio. E, com os gestos sorrateiros como os de uma raposa, conseguiu apoderar-se das chaves. Mesmo sentindo-se fraca devido aos maus tratos que passara, vagarosamente desenleou os grilhões que a mantinham cativa, presa à cama. Trêmula, porém liberta das cadeias de ferro, a mulher cuidadosamente levantou-se do leito, mas sempre com os olhos despertos e fixos naquele que podia tornar a sua permanência ali ainda mais desagradável, como podia também dar fim à sua existência, caso fosse descoberta.

Desconfiada e alerta, como uma pantera acuada, ela transpôs a porta. Seguindo a passos leves e rápidos, chegou ao corredor à frente. Mais adiante se deparou com um guarda que, como muitos, passava todo o seu turno "vigiando", mas acompanhado pelo manto do sono.

Lá fora, os pingos da forte chuva pareciam pedregulhos, metralhando o telhado do casarão e sufocando os passos da fugitiva.

Ela avaliou o índice de periculosidade da sentinela. Passá-lo talvez não fosse tão difícil, a questão era como fazer isso. Perdida em pensamentos na busca por soluções, notou uma espada embainhada junto à parede.

Sempre temendo pela represália que sofreria caso fosse flagrada, não refletiu nem por um instante sobre vida do vassalo e apanhou instintivamente a arma. Mesmo sendo um tanto pesada, sua força de vontade era ainda maior. Segurou-a com ostentação e preparou-se para selar o destino do homem à sua frente, caso fosse necessário. Tal ação fustigava seus princípios, porém não lhe restara outra opção para seguir com um pouco mais de tranqüilidade seu caminho.

Sorrateira, foi ao seu encontro. De repente, os olhos do vigilante despertaram em espanto. Ela não hesitou, desferindo o golpe certeiro e fatal com as únicas forças que ainda lhe restavam.

A lâmina ensangüentada escapou de suas mãos, no mesmo instante em que o corpo da sentinela tombou inerte no chão frio e verteu seu líquido vital. E a cabeça, que fora lançada metros adiante, pairava ainda quente sobre o piso liso do corredor, direcionando-se para sua assassina, tinha olhos agonizantes e um filete de sangue escorria lento pelo lado esquerdo da boca. Essa cena teve sua nitidez aumentada pelo clarão de um raio.

Ela não conteve as lágrimas, porém, com toda a firmeza, engoliu o grito de terror que estava prestes a escapar de sua garganta, ao mesmo tempo em que as faíscas dos relâmpagos cortavam vorazmente os céus enegrecidos.

Pensou em cerrar os olhos e permanecer imóvel, até que tudo aquilo acabasse. Mas, de repente, deu um tapa em seu próprio rosto e tomou a decisão: precisava sair dali.

Numa formidável reação, Rúbia conseguiu aos poucos conter o ritmo da respiração, não se deixando desesperar pelo que fez. Ultrapassou as portas finais sem chamar a atenção dos demais guardas, dando as costas à mansão que fora sua agonia e a tudo o que havia dentro dela.

Do lado de fora, a jovem se deteve por um momento. Contemplou a densa chuva, sentindo-a tocar-lhe o rosto. O vento uivava uníssono, como se entoasse um cântico de louvor à sua coragem, e a natureza chorava feliz, como se de alguma forma os pingos apedrejantes e refrescantes estivessem lavando-lhe o corpo e a alma de todo tipo de humilhação à qual foi submetida, limpando-a da imundície daquela tirania insana, renovando e libertando seu ser de toda a profanação libertina.

Logo, o alerta de sua consciência a demovia de seus pensamentos. Assaltada pela compulsão de dominar a emoção, a mulher de cabelos longos seguiu até uma das cavalariças, onde, sem muito esforço, adquiriu uma montaria. A chuva colaborou já mais fraca e possibilitou a fuga do ginete, que disparou a galope, deixando para trás aquele sofrido cárcere.

Seus pensamentos voltaram-se para a frágil criança, hospedada em seu útero, um pequenino anjo que viria a este mundo para abrandar seu sofrimento e preencher de esperança toda a sua vida. Só não sabia seu futuro, e muito menos o que o destino teria a lhe oferecer.

- Eu fugi para que tu pudesses sobreviver! - declarou Rúbia, em alta voz. Após isso, lembrou-se dos territórios belos e maravilhosos por onde passara e dos amigos e inimigos despercebidos que conquistara. Aquela nova região se caracterizava tanto pelo desenvolvimento das atividades rurais, praticadas na criação de gado bovino e ovino, como também pela cultura de legumes, frutas e flores, nas amplas planícies que separavam os maciços de pedra. O clima era ameno, de características marcantemente oceânicas, um bom lugar para quem tentasse conquistar a paz.

Diante dessa paisagem, um sorriso escapou de seus lábios, enquanto sua face refletiu uma vez mais o brilho da nova esperança.

De Gales, a amazona partiu para o Vale do Wye, próximo às montanhas negras. Mais adiante, ela parou em um vilarejo. Por causa da grande solidariedade daquele povoado, a corajosa viajante conseguiu, sem nenhuma dificuldade, um abrigo e ali pernoitou.

No dia seguinte, já provida de água, remédios e mantimentos, prosseguiu viagem, indo passar por Hay, chegando, após uma longa jornada, a Hereford e finalmente a Ross, na Inglaterra. Lá o destino se encarregava de aproximar as pessoas. De uma forma carinhosa, a filha de Gales conquistou a amizade e o apoio de uma caravana de nômades refugiados do conflito, decididos a tentar a vida em outras regiões. Rúbia parecia mais tranqüila do que aborrecida com a situação e, sem nenhuma objeção, resolveu partir com eles.

Após atravessarem o Rio Severn, chegaram a Gloucester; depois passaram por Stroud e Tetbury, seguindo direto para Bath. Percorreram campos desconhecidos, correspondentes à península que se

projeta entre o Canal de Bristol e o Mar da Mancha, e chegaram à região constituída por três condados: Cornuália, Devon e Somerset.

Como verdadeiros pioneiros que são, desviaram-se de um acampamento saxônio de vigília, percorrendo as terras altas por trechos longos de Tauton Hills, cuja maior parte é formada de arenito vermelho e está mais à frente do território maciço e granítico de Dartmoor. Por um longo tempo, Rúbia Lands seguiu caminho por cidades e províncias desconhecidas, suportando as duras ações naturais do clima e as dificuldades apresentadas. Um sacrifício nobre para alguém que buscava tão somente ser feliz.

Dias e noites se passaram, até que, finalmente, chegaram a um vilarejo ignorado, de onde os nômades seguiram adiante, deixando para trás a pioneira que os acompanhara por províncias longínquas. E, como acontecia nos diversos lugares que percorreu, ali também foi calorosamente recebida pelos moradores. Passado certo tempo, Rúbia, já no sexto mês de gestação, cativava a todos com seu carisma e sua afável solidariedade. Entretanto, sua ingenuidade a impediu de perceber os olhares curiosos e penetrantes de uma velha que por ali andava todas as noites, em busca de esmolas e refúgio.

Dois meses e alguns dias depois...

A necessidade da vida cotidiana cessara e os camponeses retornavam a seus lares, desgastados por um longo dia de dragagem no campo. Era chegado o crepúsculo, e o ar gélido manifestava-se aos poucos, envolvendo a paisagem da flora com o manto da noite, distorcendo sua beleza natural e dando-lhe um aspecto assustador.

Em meio ao ar noturno, saindo do humilde casebre e andando com um pouco de dificuldade devido ao peso da barriga, Rúbia levava consigo um cântaro de barro, seguindo rumo ao poço para pegar água. Abeirada junto a ele, lentamente foi girando a roldana de madeira, descendo o balde às suas profundezas. Subitamente, uma figura se aproximou. Era uma velhinha de estatura baixa, cujo corpo estava coberto de panos mal-ajambrados. Seus cabelos eram brancos feito leite e sua face, castigada pelo tempo.

Rúbia sentiu uma onda de calafrios espalharem-se por todo o seu corpo no instante em que seus olhos pairaram sobre a estranha. Então a ouviu perguntando-lhe:

- Olá. Qual é o teu nome, minha querida?

- Rúbia... - murmurou ela.

- Que fazes aqui, Rúbia?

- Estou tirando um pouco de água fresca.

Encostada à beirada da cisterna escura, a estranha velhinha cruzou os braços para avaliar o esforço da moça.

Após um curto silêncio, a mendiga perguntou novamente:

- Pelo jeito, a barriga te incomoda para fazeres as tuas atividades corriqueiras, não é mesmo? A jovem, cabisbaixa, nada disse. Porém, a outra insistiu.

- Tu não és casada? Não tens ninguém que te ajude? - especulou a mulher.

Land's olhou para ela com desagrado e, não suportando tantas interrogações, lhe respondeu:

- Existem somente eu e meu filho, que ainda não nasceu. E a única e suficiente ajuda que obtive foi a dos aldeões daqui, que com muito carinho e bondade acolheram-me. Deram-me um lar e comida, mas não é por causa do meu estado que eu não posso cuidar de mim mesma!

- Oh! - surpreendeu-se a mulher, olhando com os olhos engordados em direção ao casebre. - Desculpa, criança, não tive a intenção de incomodar-te.

Pediu licença e foi embora o mais depressa que pôde.

No instante em que a camponesa viu aquela senhora pobre movendo-se cabisbaixa, seu coração bateu forte no peito e, açoitada pelo arrependimento, clamou, dizendo:

- Por favor, esperai um instante... De súbito, a mendiga se deteve.

- Peço-te que me perdoe, pois ando muito assustada...

A velha imobilizou os lábios em um sorriso desdentado, enquanto a observava por um momento. Em seguida, andou até ela, dizendo:

- Não, minha cara, sou eu que tenho de pedir-te perdão. E, num gesto repentino, aproveitando-se de sua proximidade, agarrou bruscamente o antebraço da desprevenida moça.

A sombra do medo envolveu Rúbia, deixando-a em estado de inércia.

Com olhar de uma loba faminta, a não tão indefesa velhinha manifestou palavras que gelariam o próprio inferno:

- Eu vejo o pânico pulsar em teu coração. Siiiiim! Vieste de muito longe, só para encontrar a paz que outrora te foi negada. Foges de um homem perverso, um lorde, que plantou em teu útero a semente da sua geração, e que agora deseja destruí-la. Mas não te preocupes mais, pois este filho que esperas é a chave que abrirá as portas de um grande futuro. Pois está escrito que se levantariam falsos profetas para agirem como o Deus Todo-Poderoso. Contemplai o Dia da Ira, quando o Verdadeiro Regente do homem reduzirá os hipócritas a pó!

Os olhos da campônia se retesaram de lágrimas.

- Cuidado para não desviares de teu destino, ó sacerdotisa reprodutora! Tu ainda testemunharás com o queimor presente em sua alma quando as carnes dos pecadores e incrédulos apodrecerem e caírem de seus ossos, e as suas línguas deteriorarem dentro de suas bocas. Pois as minhas palavras são as palavras de meu Deus. E essas dissertações são como uma mordida agonizante de uma serpente. Uma vez ferida por ela, sua chaga nunca mais sarará e a áspide de minhas palavras são "Renovação"!

A mendiga declarou isso em tom agourento, com os olhos engordados por entre as órbitas e tomada de grande cinismo e eufemismo.

Rúbia, automaticamente, retraiu seu braço da mão gélida da nefasta. E, com frases abrasantes, retrucou o que lhe disse aquela mulher:

- Sejas tu quem for, deixe-nos em paz! - E, ao evadir-se rapidamente do local, deixou cair o cântaro de barro, que se estilhaçou próximo aos pés da apavorante figura.

- De leone serpentem habitabit}! - declarou a velha mendiga, gargalhando e analisando a camponesa que corria assustada.

Entrando às pressas na cabana, Rúbia trancou a porta e, tomada pelo desespero, prostrou-se ao chão, em prantos. Um grito de horror escapou de sua boca, enquanto inclinava a cabeça para baixo.

O frio habitava a noite no vilarejo. A solitária moça estava em seu humilde quarto, deitada de lado, em um leito improvisado de capim, apenas forrado por um lençol amarelado, e seu corpo, coberto e aquecido por peles grossas costuradas umas nas outras. A barriga já imensa a incomodava, pois o bebê chutava constantemente em seu ventre, como se desejasse conhecer imediatamente a face de sua mãe. Demonstrando um extremo carinho e cuidado, ela ignorava as dores, acariciando o ventre com gestos leves e circulares. As mãos escorregavam delicadamente sobre aquela pequena vida. Seus lábios de boneca entoavam melodias reconfortantes como um bálsamo para ambos. Como resposta ao seu ato de amor, era presenteada com movimentos tênues e singelos dos pezinhos do bebê, como se ele entendesse aquele carinho.

Pronunciando palavras em baixa voz, ela declarava seu imenso amor ao filho:

- Tu és a luz divina que Deus me concedeu, e bendigo o Teu Santo nome, ó Senhor, por este presente que me destes.

O tempo se arrastava como o deslizar de um caracol, até que finalmente ela dormiu. O véu do sono cobria sua mente cansada, levando-a a transpor os portais dos sonhos. Lá o caminho da imaginação é livre.

A jovem se viu em um vazio luminoso, com apenas uma estrada da qual não enxergava o fim, mas por onde se pôs a caminhar. Ao seu redor, apenas um vácuo de luz. A medida que andava no caminho do inexplicável, impressionou-se com as cores no ar, que mudavam diante de seus olhos. Ora se tornavam verdes como esmeraldas, depois se transmutavam em uma tonalidade azul-anil, variando alternadamente para uma cor carmesim. Em seguida, houve uma junção de outras cores mescladas com as luzes que antes avistara, como se estivesse entrando no empíreo.

A cada passo, a sensação de curiosidade aumentava intensamente. Um dócil brilho reluzente a rodeava, passeando vagarosamente sobre um mar irradiante. Ela então atravessou a luz e o sonho transformou-se num mundo perverso, absorvendo a razão de sua mente. Suas córneas foram eletrocutadas com algo tão repentino que se arregalaram. Ante o choque, verteu falas calmas em brados aterrorizantes:

- DEUS MEU, TENDE MISERICÓRDIA DE MIM!

A sua frente, um castelo negro materializou-se bruscamente. Seu aspecto não era apenas assustador; mais do que isso, se mostrou bastante perturbador para a mente humana, o que não combina com uma arquitetura como aquela: um edifício bizarro, constituído por uma tecnologia arcana. As formações da maciça fortaleza pareciam insondáveis, porém reais, e aliavam-se a uma conjuntura de apavorantes anomalias.

Das fontes laterais das muralhas, jorrou sangue pútrido. Nas paredes dos muros, pessoas totalmente nuas desprendendo gritos que não são deste mundo. Uma a uma, estavam sendo pregadas às paredes com os ossos de suas próprias costelas por criaturas de aparências abomináveis e distorcidas, horríveis demais para o entendimento humano. E, numa atividade diabólica infligida a esses monstros, as desesperadas vítimas estavam sendo estripadas vivas. Como a agonia nunca demonstrava ter fim, nenhum deles conseguia o afago consolador da morte. Mesmo em estado de sofrimento eterno e manietados por seus próprios ossos, as abominações rasgavam os ventres dos moribundos com dentes e garras afiadas com os quais, em seguida, regurgitavam de suas bocas bestiais um organismo negro, viscoso e mole que se debatia constantemente, querendo enlouquecidamente se alojar nas enormes mutilações expostas.

Dentro dos corpos ainda vivos dos cativos, eram depositadas, nas horríveis fendas das terríveis feridas grandes e purulentas, larvas carnívoras que se banqueteavam com os intestinos dos escravizados; donde dispersavam gritos e choros ainda mais agonizantes e ininterruptos.

Em meio àquele horror, Lands tentou retroceder, mas seu corpo não obedecia. Por estar perto demais da desmesurada fortaleza, a mulher sentiu-se tragada por uma força invisível que a fez levitar, arrastando-a para a entrada do pesadelo vivo.

Feito uma alma condenada, enclausurada pelos incontáveis milênios de sofrimento negro, seu corpo foi violentamente puxado em direção ao portão gigantesco no formato de um triângulo. As portas da entrada erguiam-se ligeiramente para cima, dando-lhe passagem ao se debaterem em pleno ar.

No interior daquela decrépita fortaleza, sua matéria, já desprovida de forças, percorreu flutuando ainda mais rápida, passando saliências concêntricas, formadas de corredores que seguem até o coração do castelo, algo jamais visto por olhos humanos, uma construção aterradora e totalmente inadmissível à razão da consciência.

Ficou tão pasma observando o execrável aspecto do lugar que não percebeu o que ainda estava por vir. Seu momento de distração durou poucos segundos, pois, repentinamente, seguida por um som estrondoso, uma dantesca aberração emergiu bocejando de uma lagoa de plasma fétido e coagulado. Chicoteava sua face, inserido naquela imagem medonha, arrepiando os poros da mera mortal.

Com um olhar esbugalhado, Rúbia contemplou uma árvore monstruosa. Seu tronco era constituído de carne apodrecida, retirada dos corpos de muitos moribundos. Em seus galhos, os frutos eram cabeças humanas que blasfemavam seus pecados, e as folhas, serpentes escarlates que vomitavam vermes. As raízes, semelhantes a trombas de mastodontes, bailavam ferozmente; em suas pontas, cabeças iguais às de tubarões, com dentes afiados, mastigavam a própria língua.

No interior da árvore, um bolsão transparente que se assemelhava ao útero de uma mulher, pulsava feito um coração fatídico. Dentro dele, mergulhado em líquidos pustulentos, habitava um nefasto ser ligado a um cordão umbilical: um monstro abissal de sete cabeças e dez chifres. Em cada uma das cabeças, diademas de fogo, e, na principal, um nome: "Mistério".

No punho da criatura, uma terrível espada exalava trevas, com uma lâmina vampiresca que tragava, de forma insaciável, as almas dos menos afortunados que ali pereceram.

O coração dela parecia saltar pela boca, no momento em que sentiu uma horripilante mão agarrando seu ombro esquerdo.

E, num grito aterrador, despertou.

- Rúbia, acorda! O que está acontecendo contigo?

Com a testa molhada de suor e as pupilas dilatadas pelo pânico, Rúbia observou espantada sua amiga que, coincidentemente, segurava seu ombro na mesma posição que havia visto no pesadelo. Atemorizada, retraiu-se e sentou-se em seguida.

- Que fazes aqui? - indagou trêmula.

- Eu ouvi gritos, por isso vim correndo para cá - explicou a outra camponesa, sem nada entender.

Embora a colega estivesse ao seu lado, parecia estar distante. Com as mãos na face, não conseguia compreender os horrores que haviam sido projetados em sua mente.

Quem era a criatura incubada no interior daquela árvore monstruosa?, indagou para si. E por que eu estava presente em um lugar que mais parecia ser o próprio inferno?

Fora um pesadelo tão inacreditável e insano que ela, até agora, sentia-se incapaz de obter as respostas para aquele enigma macabro. Sua amiga permaneceu de pé ao lado da cama, pois sentira uma pontada de piedade ao reparar no estado de Rúbia, e mais uma vez perguntou:

- O que há contigo? Por que dizes estas palavras tão estranhas? E o bebê, como está?

De olhos semicerrados, ela virou-se para a camponesa e seus lábios trêmulos proferiram o aflito desabafo:

- Elizabeth, não agüento mais este tormento; todas as noites me vejo perseguida por pesadelos horríveis! Preciso me confessar para alguém, caso contrário, ficarei louca!

Tomada de preocupação e curiosidade, Elizabeth se acomodou ao lado da moça, esperando em silêncio a revelação. Então, deixando escapar um suspiro, a afligida começou a falar. Recostada na cabeceira do leito, a outra presente escutou atenta a amarga história.

Por muito tempo, Rúbia manteve segredo sobre aquele que a fez sofrer. Pelo menos desde o dia em que chegou ao vilarejo. Novamente, a mistura de alívio e tristeza invadiram seu simples coração. Como mãe que havia de se tornar, e com muitas atribulações, temia pela vida da criança. Esse fato a forçou a tomar a decisão de revelar a identidade do pai de seu filho.

Entretanto, Elizabeth pensou que ela estava inventando tudo aquilo e, como não queria criar nenhum problema, lhe disse:

- Não te preocupes mais, refletiremos sobre teus receios amanhã; procura descansar agora. - Desculpa ter te usado como testemunha de cena tão vergonhosa e tomado teu tempo - falou Rúbia.

- Somos muito unidas e jamais te deixarei só. Vamos, tenta relaxar; tens que pensar no filho que terás - e acomodou-a na cama, vindo a afastar-se em seguida.

Repentinamente, algo invadiu o pensamento da moça, que, confusa, chamou a amiga que saía: - Elizabeth?

- Sim, o que queres?

- Como tu entraste aqui, se a porta estava trancada?

A pergunta abalou a ambas, e Elizabeth não só pensou que Land's era uma pessoa estranha e aflita, como também que parecia ser bastante alienada.

O silêncio foi quebrado:

- Estás um tanto equivocada, pois, quando cheguei, a porta estava entreaberta... - A afirmação pegou Rúbia de surpresa, enchendo-a de assombro, fazendo-a lançar um olhar de busca ao redor. - Não! Não pode ser! Tu não viste uma mendiga de aspecto fúnebre andando por aí?

- Não... — disse Elizabeth.

Era uma senhora estranha e assustadora, que andou me dizendo coisas horríveis sobre meu bebê, e depois disso saí correndo. Lembro-me de que, em seguida, tranquei a porta com uma corrente em um cadeado... Elizabeth percebeu que Land's estava muito perturbada, exprimia um amontoado de devaneios, realmente uma situação embaraçosa.

- Amiga, minha gente trabalha no campo há anos e, por mais humilde que seja, cada um tem seu próprio lar. Nasci aqui e, em todo esse tempo, jamais vi essa velha peregrina que tu mencionaste.

- Elizabeth, estás me dizendo que inventei tudo isso?

Então, o olhar da colega desfaleceu e ela se retirou do quarto sem mais nada a dizer. A voz de Rúbia se perdeu nos quatro cantos das paredes, enquanto suas mãos frágeis percorreram a face suada.

Elizabeth deixou a cabana um tanto desconfiada daquela história e do porquê de Lands afirmar tais absurdos. Verdade ou mentira, ela tomou aquilo como um indício de que a camponesa se perdera na paixão por algum jovem aventureiro. Depois, por certo, fora expulsa de casa por ter desonrado a imagem íntegra da família. Por isso peregrinara muito, até chegar à vila. Por outro lado, a plebeia poderia estar dizendo a verdade e, diante disso, não quis aproveitar a oportunidade de se tornar uma "dama da nobreza" por meio do herdeiro que esperava. Nesse ponto, era deveras difícil saber qual seria o fato que envolvia aquela estranha vida. Refletindo por algum tempo, foi vencida pela dúvida e deixou a especulação de lado. Havia muito que fazer, além de consolar a pobre infeliz. Resolveu, assim, não querer mais saber da vida íntima da colega sonhadora.

O desânimo tomou conta do corpo e do espírito de Rúbia, e naquela mesma noite ela foi quase dominada pelo medo. Deitada em seu leito, lutava arduamente para não dormir, mas a força avassaladora do sono a sobrepujou. Atingindo o auge do descanso, os sonhos giravam em sua mente, num turbilhão de vozes e falas a perturbarem seus pensamentos.

De súbito, o sono lhe foi novamente tirado, mas, dessa vez, por um tom mais elevado. Um timbre cujo som assemelhava-se ao crocitar de um pássaro e que, mesmo originando-se à distância e do lado de fora da cabana, chegava com nitidez aos seus ouvidos.

Alguns minutos se passaram e, sem dar muita atenção, simplesmente mexeu-se para o lado, cuidadosamente, no intuito de achar certo conforto, pois a barriga a perturbava um pouco.

Outra vez, ela escutou o misterioso ser piar com mais intensidade, e uma vez mais. Ignorou-o, não levando em conta a eventualidade do acaso. Minutos depois, quando tudo parecia estar calmo, a jovem gestante teve sua tranqüilidade abalada, pois aquele ruído voltou a manifestar-se ainda mais alto, deixando-a confusa e acima de tudo curiosa.

Assim, levantando-se lentamente e com sono, retirou-se do quarto, passou pelo cômodo seguinte e dirigiu-se até a porta.

Assim que saiu, seu coração foi tomado de sobressalto, tão admirada que estava pela esplendorosa visão. A tristeza se dissipou instantaneamente. Ao erguer seu rosto em direção ao céu enluarado, avistou admirada um intenso clarão sobrevoando o vácuo estrelado. De dentro daquele lume de luz, uma águia branca se revelou. A mesma que tempos atrás havia pousado em seu antebraço, enquanto a donzela entoava seus cantos melodiosos para Deus, na época em que vivia feliz em sua terra natal.

Atônita e com os olhos banhados de lágrimas, contemplou a magnífica ave que brilhava intensamente, voando em círculos sobre sua cabana. Rúbia deu uma longa risada, pois se sentiu abençoada diante

daquele evento miraculoso. Para uma mulher que vivera desenrolando os pergaminhos de puro sofrimento, aquela cena a ungiu com o bálsamo de pura paz, acalentada pela presença divina de um Pai Universal.

Mas havia algo estranho. De uma maneira curiosa, aquele ser alado fazia acrobacias um tanto desconcertantes, como se a chamasse em seu auxílio, por meio de voos rasantes, demonstrando com sinais o pedido de que o acompanhasse para algum lugar.

Mesmo um pouco ressabiada, a moça resolveu seguir a águia alva. Mas, antes de prosseguir, a camponesa estendeu devagar o braço, em posição reta, porque precisava ter certeza se aquilo era fruto de uma imaginação alienada ou um presente dos céus enviado solenemente para sanar todo o seu temor. De alguma forma, queria ter a conclusão pelo contato.

O pássaro pareceu entender a fragilidade e o receio emanados do íntimo da jovem, mas, constatando sua concordância, pousou suavemente em seu antebraço, como fazia no passado. E assim que Rúbia sentiu o toque macio da ave rara reconheceu que se tratava mesmo de sua amiga que há muitos anos não via. Exibiu um sorriso longo de felicidade, dobrou sem pressa o braço, vislumbrando com intenso respeito o ser de notável beleza, plurnagem e formosura. Piando inúmeras vezes, a figura alada comunicou-se com ela num diálogo entre dois seres, mulher e natureza juntas, ligadas em um fascinante e profundo estado de comunhão. Então, de repente, a jovem estendeu o antebraço, donde o pássaro se lançou para o alto, voando em direção à mata.

Ao entender a mensagem que lhe foi enviada, a mulher ignorou as dores e o peso de seu ventre e vagarosamente encaminhou-se para a floresta sinistra, iluminada pela rainha de prata.

Passo após passo, ela penetrou no santuário natural, tendo por companhia e guia a amiga alada, que permaneceu voando em meio às árvores. O vento noturno e frio ondulava os trajes em volta da graciosa figura de uma calipso gravídica. Os raios do luar filtravam-se pelas frestas da flora, e a trilha à frente se alongava, expondo uma paisagem mais espessa e estreita.

Apesar da impressão de que havia algo à espreita em meio às sombras dos carvalhos, Rúbia agiu tranqüilamente; ela não sentiu nenhuma sensação de perigo iminente ou de aflição, mas sim a proteção divina que aquecia sua alma com as asas da fé.

O cansaço quase a dominou, e um minuto a mais seria o suficiente para que ela caísse de joelhos; porém, o que aconteceu a seguir renovou-lhe as forças.

Ela viu a luz adiante desaparecer e, em seu lugar, avistou a imagem de um homem tombado; um cavaleiro que, gravemente ferido, murmurava baixo em aflição. Tinha no seu peito uma flecha longa e negra mista em carmesim, plantada profundamente, talvez a centímetros do coração.

A seta pontiaguda havia causado danos enormes a outros órgãos, e o sangue vertia em abundância. Completamente desvalido, ele mal podia se mexer: sua armadura estava em pedaços, a malha de ferro rasgada em várias partes, completamente fragmentada, e o corpo daquele desconhecido totalmente ensangüentado. Ele mais parecia uma alma que havia fugido do inferno.

A primeira reação dela foi de aproximar-se ainda mais do pobre homem. O coração da moça demonstrou um intenso estímulo de piedade, porém, dada sua circunstância atual, o odor do sangue daquele indivíduo lhe chegou até o nariz, de modo que lhe causou enjoo e teve de se agarrar ao tronco de uma árvore. Sentiu, pois, a cabeça rodar e o estômago entrar em grande turbulência. Foi visitada em seguida por ânsias de vômito, o que era natural naquele momento, e o frio intenso da noite ressecava a pele fina de sua face. Um suor fétido e febril escorria rubro sobre o rosto do forasteiro, que balbuciava baixinho gemidos delirantes. Olhando para cima, Rúbia não mais encontrou sua parceira voadora, que misteriosamente havia sumido. E tudo o que contemplou foi o céu de estrelas, onde a rainha Lua continuava a brilhar soberana. Imaginou então, naquele momento delicado e decisivo, que o pássaro fulgurante poderia ter sido um anjo enviado por Deus para amparar aquele pobre moribundo que se

encontrava em agonia. E o militante, com os olhos enfraquecidos, quase não conseguia enxergar o semblante piedoso da mulher postada à sua frente.

Devido à perda excessiva do líquido vital e do esforço para manter-se consciente, as pálpebras pesavam-lhe cada vez mais, fazendo-o desfalecer.

Ele sentiu o breu das trevas vagarosamente se manifestando em seus olhos, como se estivesse imergindo no útero das sombras. Então desmaiou.

Ele avistou a esperança nascendo novamente, leve e descompassada, sorrateira na noite fina. Transpondo os véus da morte, imigrando em direção à luz da vida, abandonando atrás de si a amante frígida, das quais muitos guerreiros não escapam. O ar fresco passou pela face cansada, e lá fora o brilho do sol espalhava-se ao vento, provando-lhe que ainda pertencia ao mundo dos vivos.

Nos dias que se seguiram, Rúbia Land's precisou do apoio de todos do vilarejo e das habilidades medicinais de um velho médico para poder ajudá-lo.

Nesse dia, ele acordou vagarosamente do suposto mundo dos mortos. - Eu... Estou...? - perguntou o paciente, envolto em faixas por todo o tórax.

- Tu realmente tens a ajuda dos céus, pois sangraste em excesso. Toma deste caldo grosso; isso irá ajudar- te a recobrar as forças.

- Onde... estou? Que faz uma mulher grávida aqui neste lugar? Rúbia explicou devagar:

- Estás seguro em minha cabana. Encontrei-te quase morto na floresta. Por não ter forças suficientes para erguê-lo, voltei e pedi ajuda aos aldeões para que fossem comigo resgatar-te.

Mesmo sentindo muitas dores, o homem demonstrou gratidão e simpatia pela jovem:

- Gostaria de agradecer os cuidados que tu e teu povo tiveram comigo. Sinto que, se tu não tivesses me encontrado, meu fim seria concluso - disse isso segurando delicadamente a mão da moça.

Embora estivesse lúcido, ele estava um tanto lento e desconfortável mediante a gravidade dos ferimentos. Sua mente estava desordenada, mas mesmo assim conseguiu projetar nela o retrato de uma guerra sangrenta, lançando-o em pensamentos fúnebres. Esfregar seus lábios machucados não apagava da memória o horror de ver gente sendo mutilada por espadas e lanças impiedosas. Essa não é uma situação prazerosa, nem uma que se queira sentir novamente, porque o flagelo que sentira em sua carne fora apenas um espinho na pata de um felino, se comparado à aflição que ora habitava cruelmente sua alma.

- Tu deves ser um combatente. Concluo pelo pouco que restou de tua armadura. Mas como foste parar naquela mata, e quem o atacou dessa forma? - perguntou Rúbia, que, envergonhada, afastou sua mão da dele, tomando em seguida certa distância.

- Mulher, tu perguntas demais.

E ela silenciou, enquanto ele continuou:

- Por outro lado, foste tu que me salvaste. Então, tenho uma dívida para contigo. E dispensou-lhe um sorriso, mesmo entristecido com as aflições do corpo.

Por certo tempo, aquele homem de porte robusto a observou, encantado com a sensualidade aprazível de sua beleza jovial, deixando a moça quase sem jeito e avermelhando seu rosto formoso.

- Como te chamas? - perguntou ele.- Rúbia...

- Estás com o semblante rosado, por acaso tens receio de mim? Ela, por sua vez, sorriu timidamente.

- Não é isso... É que nenhum dos homens que conheci fez-me sentir dessa forma. - Como assim?

Rúbia cruzou os braços e o olhou com atenção. - Deixai pra lá.

Então, ao notar que havia à sua frente uma delicada flor do campo, usou de brandura em suas palavras e demonstrou todo o seu apreço pela jovem, quando declarou sorrindo:

- Rúbia, não precisas ficar acanhada na minha presença. Na verdade, tua companhia é de grande valor. --- Vê, ajudaste-me a esquecer um pouco as dores.

As palavras do cavaleiro invadiram o local como um aroma de rosas, perfumando tudo à sua volta. O som agradável daquela voz vinha de forma graciosa, limpando o coração delicado e a alma aflita da mulher de toda desconfiança. Assim, sentindo-se amparada por aquelas frases eloquentes, sentou-se próxima a ele.

- Tu falas como se fosses um nobre, um rei. Quem tu és, donde vens e por que me dizes palavras tão agradáveis? - indagou a formosa camponesa, calma e lentamente, mantendo sempre os olhos semi- abaixados.

- Já te disse, salvaste-me a vida, e meus agradecimentos, mesmo sendo sinceros, nada são comparados ao teu ato. E já que desejas saber sobre mim, eu te contarei - respondeu com carinho. - Não é fácil dizer-te o que passei, mas tudo bem...

Ela retribuiu sua fala com um olhar alegre, dizendo: - Podes confiar em mim.

- Meu nome é Loan Horsham; pertenci a uma família de remanescentes da sagrada Ordem do Leão... Pertenceu?!

- Sim. De todos os membros da família, eu fui o único a abdicar de todos os privilégios. E queres saber por quê?

- Sim.

- Havia um fator estranho em minha vida. Por mais bem-sucedido que fosse e cobiçado por muitas donzelas, aqui dentro, no fundo do meu coração, sentia que algo me faltava - disse, tocando de leve o peito envolto de faixas. E Loan iniciou a odisséia de suas raízes, apesar de um pouco fraco, decidido a revelar tudo a ela.

Ele era filho do conde Charlie Horsham, um homem severo e muito respeitado pela sociedade fidalga, assim como temido por seus adversários.

Por meio de inúmeras vitórias em guerras travadas, a família gerou uma insígnia nobre. Sua heráldica era o brasão do leão candente, título recebido como significado de soberania e força.

Para Loan, todos os títulos e as propriedades não passavam de mera ilusão. As batalhas travadas, os inimigos massacrados, para quê? Procurava um significado para aquilo.

E Rúbia ouviu uma história de lutas fúteis, cobiças insanas e desejo pelo poder.

Depois do tempo próprio, as horas avançaram, e a luz dourada do sol se avermelhava rápido. O crepúsculo velado estava cada vez mais escuro, permitindo apenas ao vento gélido apresentar a noite em meio ao farfalhar de galhos e folhas que caíam fenecidas das árvores.

Quietas estavam as ruas de Birmingham. Os poucos que as percorriam moviam-se com a rapidez de um gato. As pessoas mostravam seu desdém negando-se a olhar para o céu, desacreditadas de que Deus ainda estaria lá.

Mesmo em suas casas, com portas trancadas, mercados e estalagens fechados, aquele povo podia ouvir claramente cânticos entoados em uníssono. Na praça, reuniam-se grupos de sacerdotes encapuzados de preto, que prostravam-se, gritando sobre as pedras brancas e ásperas do pavimento. Não só o vilarejo, mas também toda a região estava em pânico total, pois aquela horda de sacerdotes enaltecia o nome da Deusa Mãe. E seus seguidores aumentavam de maneira impressionante. Muitos cristãos que já haviam perdido a fé foram convertidos e experimentaram o poder do lado negro que desafiava todos os nobres, e o conselho feudal da Grã- Bretanha media forças contra sua deusa.

Em boa parte, quase todas as crenças religiosas estavam sendo apagadas pelo ceticismo. Permitiram que a escuridão fizesse um ninho sobre eles, entre os quais, a cada nascer do sol, um corpo era encontrado com os membros estripados nos altares de seus próprios templos, como oferendas aos deuses pagãos. Pressionados pela maior parte da plebe e pelos senhores feudais, juntaram-se em plenário reis, governadores, marqueses, duques, condes e toda a burguesia do clã de cada país, para debaterem o grave assunto e a perigosa situação.

Participaram também os prelados, os capelães e os membros de variadas igrejas, na tentativa pacífica de ajudar os fidalgos a esquecerem suas divergências políticas e religiosas e a formarem uma assembléia que fizesse o exame daquela questão avassaladora.

Muito foi falado a respeito dos trágicos acontecimentos ocorridos em suas terras natais e no resto do mundo, especialmente na Inglaterra e nas amplas regiões de toda a Grã-Bretanha.

Após algum tempo de discussões, organizaram uma comitiva que acompanharia as idéias e as estratégias necessárias para darem solução ao caso.

Os Horsham também se faziam presentes. Ao lado de seu pai e de seus irmãos, Loan sentia a repugnância percorrer suas entranhas, e o palpitar do seu coração foi aumentando cada vez mais no decorrer daquela reunião. Ele já tinha ouvido muitos rumores, mas aquele discurso foi tomado como uma atitude herética, pois eles apenas discutiam como poderiam ocultar seus tesouros dos olhos da plebe e do exército ímpio, caso a guerra fosse iminente. Propriedades e animais seriam prioridade de proteção; recrutariam os jovens, os velhos fazendeiros e depois as pessoas saudáveis da zona urbana, para lutarem pelos seus reis e pelos senhores feudais, que, dessa maneira, estariam prestando auxílio a seu país. As igrejas seriam defendidas a todo custo contra a depredação dos invasores, nem que isso custasse as vidas dos servos e dos alforriados.

As palavras foram sendo sussurradas lentamente de sua boca, mas algo o forçava a gritar como um louco. Tamanho fora o asco que seu ser mal pode se conter e, levantando-se do auditório, o homem bradou em alta voz:

- Vós! Matilhas de lobos insaciáveis, como podeis julgar serdes justos, se sacrificais o vosso próprio povo sofrido, permitindo que pessoas, assim como ovelhas, se arremetam à lâmina do machado do inimigo? Sois iguais a chacais que comem da carniça de suas riquezas e depois, não satisfeitos, devoram- se uns aos outros como abutres esfaimados!

A multidão burguesa ficou totalmente emudecida, diante daquelas ousadas e pesadas frases que surtiram o efeito de um chicote de espinhos, açoitando o orgulho de todos que se julgavam importantes naquele recinto. Alguns deles chegaram até a deslizar os dedos no cabo de suas armas, enquanto a chuva de protestos continuava a atingi-los numa violenta declaração:

- Hereges! Como podereis escapar da ira de Deus? Arrependei-vos de vossas iniquidades, e abandonai essa fortuna ilusória, que vos levará a arderem no lago de fogo do inferno! E verdade que devemos defender nossa terra amada desses bárbaros, mas que lutemos todos juntos sem que tenhamos que usar a nossa gente oprimida como escudo. E, se tivermos que tombar, morramos então como verdadeiros varões de honra e não como os covardes que aparentais ser!

Homens com olhares irados murmuravam entre eles; já outros formavam um cerco contra o opositor, que continuou:

- Vós comestes uma vespa e, no entanto, vomitais uma serpente. Bendito será aquele que se humilha e louva o nome de Cristo com dignidade, pois não foi para isso que Ele criou este mundo, para que pudessem manchá-lo com o sangue dos inocentes!

- É Loan, o filho do conde Horsham... - sussurravam indignados.

Não suportando o tamanho ultraje, o conde esbofeteou violentamente o rosto do filho e, num ato de furor, puxou a espada da bainha, levando a lâmina ao rosto de seu próprio rebento. Loan não entendeu de imediato por que o conde fizera aquilo.

- Por que bates no meu rosto e, em seguida me ameaças com a tua espada, pai?

- Cala-te, seu maldito! - retrucou Charlie Horsham. - Desonraste a sabedoria deste conselho e a imagem da família com tuas ofensas e calúnias! Embriagaste-te tanto, a ponto de usares os Ensinamentos Sagrados para maculares o meu nome?

Durante um momento, o silêncio pairou naquele local. E, então, veio o grito do primaz:

- Sacrilégio! Esse jovem, além de nos sujeitar à vergonha, também é um assecla do diabo, e sua alma terá de ser purificada. Prendei-o e o preparai para o juízo do Santo Ofício!

Todos os fidalgos, tomados pela euforia, exigiam sua morte, enquanto os guardas se aproximavam para efetuar a prisão.

Com o corpo ereto, numa atitude de desafio aos seus, o conde Horsham estendeu seu braço com a palma aberta em direção aos subordinados; logo em seguida, intercedeu pela vida de seu rebento.

- Por favor, eminência! Rogo-vos que perdoeis a imprudência de meu filho, que, mesmo sendo um varão, pouco sabe das dissertações heréticas que aqui proferiu.

Novamente alguns nobres silenciaram. Outros, porém - a minoria - discordaram do pedido de Horsham. Então, um grito repentino surpreendeu a todos:

- Caro milorde! Todos que aqui estão ouviram claramente essas heresias e ficaram completamente perplexos com essa insanidade verbal. Contudo, vós pedis ao Tribunal Ministerial da Santa Madre Igreja para que redima o perjúrio deste homem?

De forma alguma desejo suplantar vossa autoridade — replicou Charlie, em objeção àquele nobre que o encarava com um olhar de lobo. E, voltando-se ao cardeal-patriarca, argumentou com engenhosa sabedoria:

- Mas vós, como ministro de Deus, e com toda a vossa sabedoria, bem deve saber que a misericórdia é uma virtude e o perdão é um dom dos céus que lhe foi dado.

Ao ouvir tais palavras, o cardeal e os membros da classe clerical sentaram-se em suas cadeiras e, com olhares soberbos, avaliaram ponderadamente o clamor do fidalgo com todo o conhecimento que possuíam. Por um breve tempo, eles confabularam, até que, dada a decisão final, o primaz fitou os olhos no conde.

A expressão séria do prelado desconcertou ainda mais o nobre, e ele sentiu como se uma garra de aço esmagasse seu coração. Contudo, permaneceu em silêncio, esperando o veredito.

- Se vós realmente dizeis a verdade, provai a todos aqui presentes que ele não é um traidor da Santa Igreja de Deus e nem da pátria de Vossa Majestade!

Aliviado e ao mesmo tempo aborrecido, Charlie Horsham dirigiu um olhar frígido a Loan, enquanto desembainhava sua lâmina. E com a espada em punho afastou-se de Loan, em segundos realizou um ato ousado que poucos teriam coragem de executar.

- Com a vivacidade do meu sangue, provarei a fidelidade de minha família à coroa real e principalmente para vós, eminência!

Suas palavras deslizaram juntamente com o sumo espesso, assim que o aço afiado talhou a palma da sua mão esquerda. Tal audácia causou assombro a muitos que protestavam. O sangue vertido daquele nobre devolveu àquela turba de senhores feudais a honra medíocre que achavam terem perdido.

Os irmãos de Loan, condoídos pela vergonha que o pai passara, prestaram-lhe auxílio. Entre eles, um despojou-se de sua capa e envolveu com todo o cuidado a mão ferida que sangrava excessivamente. Naquele momento, era lorde Horsham que se sentia laçado pela desonra e, em voz baixa, ordenou que os vassalos e seus filhos, exceto aquele que o humilhara, seguissem-no imediatamente.

Loan tentou justificar-se, mas foi abruptamente barrado por seus irmãos, que o menosprezaram. As lágrimas brotaram de seus olhos castanhos e pela primeira vez sentiu a solidão abraçá-lo. Sua mente

ficou confusa e, nesse momento, poderia ser comparado a um anjo expulso do paraíso: abandonado pela sua própria estirpe e rejeitado por seus amigos.

Em silêncio, Loan percorreu a passos lentos o piso liso do salão, em meio aos opressores que se entreolhavam em silêncio. Ele foi tomado repentinamente pelo receio e pela vergonha, sentindo em seu coração uma grande relutância pelo que havia feito e uma aversão de si mesmo.

De repente, outra figura robusta interpôs-se entre ele e a saída. Como prova de provocação, lançavam- lhe insultos:

- Ei, cão! Acaso achas tu que o sangue vertido deste lorde foi mesmo o suficiente para restituir as máculas de injúrias, às quais nos expusestes? - dizia Howell, com um tom ferino e opressor.

Loan levantou seu olhar em direção à face inescrupulosa daquele homem que ostentava o título de chanceler. Sorrindo e com pena, mesmo com o pesar que havia abatido seu espírito, não hesitou sob nenhuma circunstância em lhe responder:

- Se tu não tivesses pecado contra ti mesmo e contra Deus, certamente aceitarias a verdade com muita mansidão, pois ela não nos leva à perdição, mas nos ajuda a encontrar a Paz Eterna, algo que os teus tesouros corruptíveis não te podem dar. Mas, como cometeste vitupérios ante teus semelhantes, a "verdade" te feriu como uma faca de dois gumes, transpondo a tua alma vaidosa.

Loan reparou que a mão do chanceler estremeceu junto à lâmina embainhada. Por um momento, ele ficou ali observando, estudando a reação daquele homem que a qualquer instante poderia estar com sua arma em punho e cobrar com a vida o preço de seu orgulho ferido.

- Tens muita coragem, fazes jus à tua raiz - disse o fidalgo, com palavras que mais pareciam a morte se anunciando.

Houve uma pequena pausa, tempo suficiente para que se conhecessem. Então, sem mais nada a dizer, Howell abriu espaço para Horsham, que seguiu direto, sem nenhuma preocupação de olhar para trás.

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