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Capa do romance Filho do Amanhã-O destino da humanidade na decisão de um homem

Filho do Amanhã-O destino da humanidade na decisão de um homem

Forças celestiais e infernais duelam pela alma de Loan Horsham, um cavaleiro marcado desde o berço por Deus e pelo Diabo. Enquanto Lúcifer usa seduções e pactos sombrios para corrompê-lo, o herói enfrenta conspirações mortais que definirão o futuro da humanidade. Entre intervenções divinas e o peso de seu destino, Loan encontrará no amor por uma simples camponesa a força necessária para resistir ao mal e guiar o mundo rumo à salvação espiritual.
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Capítulo 3

Seus pensamentos fizeram com que se sentisse agoniado, e agora não mais conseguia reprimir os lamentosos acontecimentos que selaram seu âmago.

Loan contou vagarosamente sua desventurada história repleta de dissabores.

Dias atrás, se não estivesse ferido daquela forma, talvez tivesse relatado os fatos aos membros da Igreja, já que foi destituído para sempre dos laços familiares.

Agora, ele nem mesmo sabia onde estava, talvez muito longe do antigo lar. Seus sonhos foram consumidos pelo destino, fazendo-o perder qualquer esperança de sua vida aproximar-se de uma realidade próspera e abençoada.

Ele era duro até consigo mesmo, o que não era surpresa para os nobres que deveras o conheciam. Horsham também o conhecia bem e conhecia a linhagem que o gerara. Isso o fazia sentir falta das aulas de combate que praticava com um espadachim e esgrimista muito habilidoso: seu pai. E agora, Rúbia era o único ser humano ali presente, mesmo nada sabendo a respeito dela; entretanto, era nela que estranhamente depositava toda a sua confiança.

Ele se lembrava nitidamente de tudo. Sabia que outros burgueses murmuravam coisas más a seu respeito; todavia, o que mais o magoava realmente não era o acontecido no comitê, mas sim o que ocorreu na noite em que retornou ao castelo dos Horsham.

A sensação era como o arfar de um chacal que está prestes a morrer, no instante em que testemunha o olhar repulsivo de seus parentes. Vagarosamente, contemplou triste o choro de sua mãe, cujas lágrimas molharam seu requintado vestido, ao mesmo tempo em que ela tinha os delineados lábios lacrados ante a autoridade do consorte.

Seus irmãos ausentaram-se, pois nenhum deles queria ser seu intercessor. Como a maioria dos jovens nobres daquela época, Loan aguardou pacientemente a presença do pai, para ouvir ou receber algum tipo de represália, após ter cometido algo que desmoralizou a imagem da família.

Porém, mesmo angustiado, respeitou a lei familiar e sua tradição, algo que para ele significava honra e disciplina.

Então lá estava ele, o conde Horsham, um homem de estirpe, que descia lento os degraus de pedra, de peito ereto e com o manto de opressão estampado no olhar. Ao mesmo tempo, escondia seu coração partido, indeciso com o que iria pronunciar. Mesmo assim, foi ter com ele.

E, naquela noite, o conde declarou ao filho o preço de sua vergonha, a sentença formulada, e o perdão esperado lhe foi negado.

O destemido moço, com a expressão contrita, observava a mão ferida do fidalgo, que fora talhada pela espada e cujo sangue havia comprado a vida de um membro da família: a sua. Em troca dessa redenção, Loan teria que deixar de ser um dos Horsham e abdicar de suas raízes e dos laços familiares que antes lhe pertenciam por direito. Acima de tudo, deixaria de representar a Ordem do Leão, título que simbolizava o respeito e os poderes entre os senhores bretões.

Depois, o conde deu a ele a parte que lhe cabia de sua herança e ainda lhe forneceu um bom cavalo. Também lhe entregou comida e água por uma semana, além de uma capa vermelha, mas sem o brasão da família, transformando-o em um viajante qualquer, sujeito até a mendigar uma noite de abrigo.

Montando em seu cavalo, compreendeu que aquilo não era um sonho. O ex-nobre foi obrigado a ignorar a piedade de sua mãe, dos servos e das amas, acatando a ordem do pai sem opor-se a nada. Tudo o que ele pôde fazer foi menear a cabeça debilmente e de maneira desfalecida, afastando-se em seguida.

Loan partiu para terras distantes, rumo a um novo destino, sem nenhum medo de se arrepender e sem olhar para trás, como lhe foi ordenado.

Saindo de Londres, passou por longas e densas florestas, além de estradas estreitas, viajando muito até chegar a Birmingham, totalmente convicto de que iniciaria uma nova vida, por novos ideais.

Queria nascer de novo; me lavei daquela escravidão monárquica, para encontrar a verdadeira riqueza com meu Deus! O que me faria falta seriam os meus entes, e nada mais - acrescentou Loan à jovem. — Sabe, depois que fui banido de meus domínios, tive um exemplo para carregar por toda a vida. Meu pai pôs a honra e a posição social acima de tudo, até mesmo da família, e isso jamais farei com outra pessoa. Com clareza, tive plena convicção de que, de tudo o que foi dito àqueles homens, nada havia sido em vão. Abandonar tudo por amor a Deus era meu maior desejo, pois queria ser diferente deles. E ele sabia que eu estava lutando para tornar a vida melhor para todos e construir um lugar de amor e solidariedade para os filhos do amanhã, para que não se sujassem com a imundície chamada ganância.

Mas isso é muito triste... Como pudeste passar por tudo isso e ainda continuares perseverante? - indagou a moça.

É pela crença em Cristo, o verdadeiro Verbo do Deus Vivo. Foi pela procura obstinada desse tesouro celeste que perdi tudo o que mais amei e conquistei neste mundo. Mas, se te apegares à fé viva e não medires a potência do visível e do invisível, torná-la-ás a cura das feridas, o alívio para a alma, e será também a esperança e o bálsamo para teu coração contrito.

Ele havia dado quase tudo o que tinha para as pessoas que nada possuíam. Doara seu melhor cavalo para um pequeno e modesto sitiante, que perdera seu pangaré ao ter a pata quebrada. Como o dinheiro lhe era escasso, sem outro animal para ajudá-lo a arar a terra, o pobre, com sua esposa e filhos, certamente enfrentaria muitas dificuldades para sobreviver.

Com o ouro que possuía, Loan ajudou a muitos sem pestanejar, comprando mantimentos para quem não tinha o que comer e ainda providenciando remédios para os enfermos. Assim, demonstrou o verdadeiro sentimento de amor ao próximo, sem pedir nada em troca a nenhum deles, e logo foi se tornando amigo do povo. Todos gostavam dele, inclusive os fundadores do povoado.

Embora tudo aquilo fosse gratificante, na verdade, o que realmente queria era tornar-se um discípulo de Deus, entregar-se a Ele de coração e alma e manter sua natureza ligada a Cristo Jesus.

Ao lado de peregrinos, o cavaleiro do leão rumou para uma nova jornada. Saiu de Birmingham, indo para Kidderminster, depois Stourport. Após muitos dias, chegaram às margens do Rio Severn. Atravessando- o, pararam em Gloucester para um breve descanso. Totalmente obstinados, partiram no dia seguinte em direção à longínqua Shepton, não muito longe do Canal de Bristol. Levam alguns dias e noites, mas, para os peregrinos, isto é apenas uma simples rotina aventureira.

Chegando ao seu destino, o solitário viajante separou-se da caravana e foi a um mosteiro antigo.

O frio avançava por toda parte. As matas enegreciam quando o brilho do sol escapava ao seu alcance. Nesta hora, os insetos apareciam bailando e a claridade se afrouxava após o dia. Iniciava-se o crepúsculo.

Na abadia, os frades o recebiam com muito carinho, mas a alegria deles tornou-se ainda maior quando o abade ficou sabendo qual era a intenção daquele inesperado visitante: instruir-se nas aprendizagens religiosas, exercitar-se e passar provações a que se sujeitam naquela ordem.

Para tornar-se um monge, Loan, como noviço, passou por uma longa penitência, para a remissão de seus pecados e para a purificação da alma. Depois renunciou a si mesmo, jurando um voto solene de castidade, rejeitando os deleites da carne, os manjares desta Terra, e os perigos do vil tentador e seus sete pecados mortais para servir somente ao Deus vivente.

Após passar pelo culto de ascensão e ordenação em nome do Nosso Senhor, Horsham teve seus cabelos cortados e suas unhas aparadas; em seguida, foi cuidadosamente trajado pelos membros do mosteiro e se tornou, então, um súdito a serviço da moralidade e das leis da Igreja.

Vestido de um traje mongil, ele recolheu as roupas antigas e atirou-as ao fogo. À medida que as chamas começavam a lambê-las, seu espírito sentia estar se desenleando para sempre do perverso mundo. Pela primeira vez se rejubilou com uma paz que jamais sentira antes. E assim permaneceu por sete meses.

Em uma noite calma e serena, o novo frade dormia tranqüilo em sua simples cama, quando, de repente, um clarão surgiu rasgando o ar à sua frente e o despertou. Uma aparição surpreendente e magnífica tornou o ocupante daquele aposento aterrorizado e ao mesmo tempo alerta.

Por um longo momento, seus olhos castanhos examinaram fixamente o lume, que vagarosamente atenuava seu brilho, mostrando com clareza que a luz viva apenas abriga e protege o verdadeiro visitante. E, após alguns segundos, a luminosidade desapareceu por completo, e em seu lugar apareceu um menino lindo e de face inocente. Seus cabelos são longos e brancos como a neve e seus trajes ofuscam a visão por tamanha alvura.

Parado perante ele, a figura se pronunciou: - Loan.

- Quem és tu... E o que queres de mim? - indagou surpreso.

- Não temas, cavaleiro do leão, pois estou aqui por ordem do "Grande Rei", para te dar a boa nova.

As manifestações claras e determinantes daquela criança tocaram fortemente seus sentimentos, levando brandura ao seu coração, algo que a riqueza material jamais lhe daria.

Então, disse o menino:

- Eis que meu Senhor, teu Deus, agradou-se de ti, pois deste aos pobres os teus bens e não te arrependeste disso; cuidaste dos doentes e ajudaste os necessitados sem pedir nada em troca. Por isso, as tuas orações, que dedicaste incansavelmente, o Senhor recebeu por bem-aventurança.

E, vendo o anjo, Loan prostrou-se na sua presença e, inclinando a cabeça para levar sua face ao chão, disse-lhe:

- Não te curves diante de mim e não faças nada para me reverenciar! Deves louvar o Unigênito de Deus, dar-lhe graças e engrandecer Seu poderoso Nome.

O monge, levantando-se devagar e com os olhos inundados, indagou:

- Que ato benéfico fiz para merecer essa honra gloriosa? Porventura irei contigo para o paraíso? O emissário da luz estreitou os olhos, respondendo pela segunda vez:

- Mereceste honras aos olhos de Deus com as tuas obras, e Ele escolheu-te dentre todos os homens da Terra por causa de tua caridade e coragem, pois negaste as ilusões deste mundo e enxergaste os tesouros do céu. Tu e o fruto da tua futura geração sereis abençoados grandemente. Tuas ações converterão corações, tanto como são os grãos de areia que estão na praia. Tua mão será a rocha que passará para as próximas dinastias o que ainda há de vir, donde esmagarão a cabeça da serpente rubra através das épocas de sua linhagem, até que chegue o dia em que o Criador porá fim a todo este flagelo.

E Loan deu ouvidos ao varão, que continuou a falar que ele fora escolhido para lutar contra um terrível adversário, o qual não poderia ser morto por armas terrenas e que desencadearia um grande mal na Terra, caso não fosse detido.

Durante três dias, tu deverás preparar-te em espírito, para que não caias em fraqueza. Serás valoroso como o fogo e o broquel nas lutas, pois o que vais enfrentar é maior do que todo o sofrimento do mundo. Horsham escutou atento às revelações sobre o que estaria por vir.

Terminado seu pronunciamento, o emissário de luz se apartou dele do mesmo modo que chegou.

O monge não relutou, pelo contrário, sentiu em seu coração toda a fé se manifestando como brasa e envolvendo sua alma com o fogo da virtude. Horsham sentiu as lágrimas brotando, pois nunca antes tinha sentido tamanho conforto e o poder dos céus ao mesmo tempo. O ar do simples aposento cheirava a fragrância de rosas. Para seu fascínio, aquele aroma significava o perfume da santidade que pairava levemente no local.

E sucedeu que, após três dias, uma visão misteriosa apresentou-se às autoridades eclesiásticas das igrejas de cada país. E assim os países monárquicos formaram uma grande aliança. Cada exército seria liderado por seus comandantes, e cada brigada seria auxiliada por uma horda de guerreiros templários, no caso de o inimigo manifestar suas ações sobrenaturais. Após os países consumarem a junção de forças, reuniram-se vários regimentos responsáveis e experientes no conhecimento de guerra.

Essas instituições que foram criadas misturaram-se às ordens religiosas de padres, frades e seus membros. Além dos votos de pobreza, castidade e obediência, uma regra aprovada e muito antiga foi aceita pelo papa: tratava-se da Lei de São Bento. A diferença fundamental entre os regimentos e as ordens religiosas estava na função militar de combater com a mente pura e o coração limpo pelo supremo e verdadeiro Rei: Jesus.

Antes extinta com mão de ferro e fogo pela Igreja, agora restituída e constituída a nova Ordem dos Templários.

As ordens agiriam do mesmo modo que os templários predecessores no tempo das Cruzadas e eram formadas por três classes: a dos clérigos, que recebia a ordenação sacerdotal e encarregava-se do serviço religioso da instituição; a dos leigos, que representava o papel de escudeiros; e a dos cavaleiros, a força combatente templária, cujos membros foram recrutados exclusivamente entre os fidalgos, cabendo somente a eles o governo efetivo dessa ordem, bem como de suas províncias.

Para mim, aconteceu um fato inédito. Estava na capela rezando, com o crucifixo em minha mão direita, consolidado na plena comunhão com Deus, quando notei a presença de alguém que se aproximava pela porta da frente. Imediatamente avisei meus irmãos de fé e fomos até lá para recepcionar o visitante. Ao abrir a porta, vimos uma horda de soldados ingleses que haviam cercado o local, sob o comando do lorde cardeal.

Meus lábios e os dos meus irmãos frades ficaram cerrados ao mesmo tempo. A seriedade estava estampada nos rostos daqueles soldados e monges templários; um a um fitaram-nos em meio a tochas, na hora em que o lorde cardeal se aproximou de mim e, com lágrimas nos olhos, ajoelhou-se para implorar minha ajuda. Pediu a mim e aos membros clericais que o acompanhássemos. Cada militante, em seu momento íntimo de reflexão, fez o mesmo, abaixando suas longas lanças e tochas em reverência ao escolhido.

Ninguém pronunciava uma palavra sequer, ninguém se movia. Em todo aquele lugar o silêncio rezava em cada coração bretão. O que se passava nas almas daqueles homens de armaduras de malhas de ferro? Segurança, medo, dúvida ou havia uma forte crença, a mesma que o emissário do Deus Todo-Poderoso havia me presenteado?

No início ficamos apreensivos, mas logo fomos aliviados por suas palavras. O cardeal disse que vinha em nome da paz e que também tinha uma mensagem para minha pessoa. Falou-me em nome de todos os conclaves e prelados: que um anjo de luz mostrara a eles em visões, por meio de sonhos, os terríveis fatos que estavam prestes a sobrevir. Não tinha mais dúvida alguma: Deus tinha um plano de força para minha frágil existência.

A alguns membros da Igreja, por possuírem o temor e a obediência à doutrina divina, foi concedida a visão de que Loan havia sido escolhido para ser um cavaleiro ungido de luz, um guerreiro iluminado que traria a paz duradoura e o terror nas almas de todos os inimigos de Cristo: por ser donzel, não possuir nenhuma mácula carnal, ser abstinente, humilde e ter a prudência como virtude, ostentando um coração puro. A ele foi dada, como privilégio, a autoridade de liderar o exército britânico, sem chance de recusa. Pelas mãos do primaz, Loan recebeu novas vestimentas de guerrilha, tendo estampada, no peito da armadura, a cruz de malta - símbolo da ordem templária. Sua missão seria dizimar os adoradores da besta e manter a lei religiosa e primordial do cristianismo.

Alguns lordes protestaram a respeito, principalmente o chanceler, mas a Igreja reprimiu tal objeção, efetuando ordens papais das mais rígidas, para o apoio total a Horsham.

A Irlanda e toda a Grã-Bretanha uniram-se a Loan, em Birminghan, dizendo: - "Eis que somos o teu braço e a tua espada!"

Também vieram todos os monarcas e sacerdotes de vários reinos para aquele lugar onde o "cavaleiro do leão" fez com eles um juramento de alma. E, perante os olhos de Deus e dos homens, o cardeal untou com óleos consagrados as cabeças dos paladinos escolhidos para comando, para que eles recebessem as graças divinais e trouxessem, aliadas à sua coragem e força, a vitória de suas nações.

Todo o sul e sudoeste da Inglaterra se renderam de forma aterradora aos celtas, que, juntamente com os saxões de intenso poderio, conquistaram a França; em seguida, atravessaram o Canal da Mancha, invadindo aquele país, destruindo cidades e queimando vilas. Ricos e pobres, nobres e servos, plebeus e alforriados foram encurralados sem terem para onde fugir ou se esconder. Uma enorme multidão de dois mil patriotas foi impiedosamente massacrada. Homens foram enterrados vivos dos pés até o pescoço, para terem suas cabeças pisoteadas pelos corcéis dos cavaleiros inimigos. Crianças foram despedaçadas e as mulheres grávidas, atiradas ao fogo. E fizeram isso só para não terem de lutar com a próxima geração de cristãos.

Em Londres, por vários e tenebrosos dias, soldados e mercenários do conde Horsham tentaram resistir à pressão mortal dos bárbaros saxões, mas a máquina de assédio inimiga obteve uma grandiosa vantagem sobre suas tropas. Os anglos haviam rompido a forte resistência do castelo. Alguns deles conseguiram escalar a alta muralha com cordas, outros por meio de escadas, porquanto um grande exército havia conseguido derrubar o maciço portão. Do lado sul, os grupos de vigias foram facilmente vencidos. Os inimigos se agruparam e, bem enfileirados, dispararam flechas de suas bestas simultaneamente. Dois tentaram reter o ataque com os escudos, mas foram surpreendidos por lanças hábeis que zuniam ao vento, indo atravessar a parótida de um deles, que tombou sem desferir um suspiro sequer, e o peito do outro, que caiu muralha abaixo.

Aquele era o dia vermelho, misturado à carne chamuscada por óleo quente e membros despedaçados. Os sons eram agora os brados de ira e medo dançando no ar. Os saxões haviam tomado o castelo Horsham. Todos haviam sucumbido ante as armas e o poder de selvageria daqueles que foram enviados a Ragnarók.

Próximo dali, as planícies inglesas são constituídas por terrenos sedimentares, alternados de camadas resistentes e friáveis, o que resulta num relevo típico: as rochas sólidas são formadas de calcários e arenitos.

Contudo, na Bacia de Londres, onde se originam diversas das demais elevações da região, exatamente ali desenrolou-se uma batalha brutal. O exército do Reino Unido lutou corajosamente com esperanças de repelir as forças rebeldes que dominavam a batalha.

Os brados eram constantes, enquanto espadas e lanças afoitas visitavam as entranhas dos adversários. Mas as brigadas destroçadas dos inimigos fugiam em pânico quando as forças de Loan Horsham, o valoroso paladino do leão, os perseguiam com fé em seus corações, gritando em alta voz louvores ao Deus vivo. Dessa forma, os lobos vorazes foram reduzidos a cordeiros assustados, e os poucos que sobraram não podiam compreender como eles, sendo os mais hábeis e os mais bem armados, foram facilmente vencidos por aquele esquadrão de soldados, sendo que a maioria era constituída de fazendeiros e camponeses.

E as turbas de combatentes celtas de tudo fizeram para resistir ao ataque de selvageria pura dos bretões, que neste instante os assolava. Os três primeiros a avançar perderam a vida estripados pelos golpes da afiadíssima espada de Loan.

Um dos rebeldes largou sua lâmina, já que o escudo não mais existia, numa tentativa inútil de segurar as próprias vísceras que se derramavam da barriga aberta. Outro celta, não gostando do que viu, lançou traiçoeiramente sua lança contra as costas de Horsham, mas, por um súbito instinto, ele se desviou com grande velocidade, indo calar para sempre o outro combatente, que segurava as entranhas em suas mãos ensangüentadas. O soldado olhou para Loan em estado de choque ao ver seu companheiro de combate empalado, cujo corpo deslizava inerte no cabo da lança rumo ao chão carmesim. Ao mesmo tempo, ficou admirado com a agilidade daquele inglês, pois nenhum homem que usasse uma armadura daquelas jamais se esquivaria da forma que ele fez.

Voltando em si seu espírito de animalidade, o soldado celta desembainhou a espada e, desprendendo um grito de ódio, correu ao encontro de Loan. O cavaleiro templário também correu na direção do seu inimigo e, rápido como relâmpago, o celta foi abatido num simples zumbido de lâmina, forçando a garganta a cuspir sua cabeça metros adiante. Com a armadura pintada de sangue, Loan apenas se virou para avaliar o resultado de seu feito.

Seria preciso um oceano de palavras para descrever tamanha matança. Melhor seria apenas dizer: - "Quando o clangor desta batalha terminará?".

Agora o campo estava cheio de cadáveres mutilados e nenhum soldado celta sobrevivera.

Do lado oposto, os guerreiros sobreviventes e muitos dos feridos levemente comemoravam a vitória de pé, com toda a euforia; outros, ajoelhados, recuperavam lentamente o fôlego, em meio ao rio vermelho. Toda vez que Loan erguia sua espada era como um estandarte-guia para um novo combate. Vencida a batalha, uma estrela luminosa anunciava que a procurada vitória resplandecia diante daquele povo. A alegria e o louvor para o Pai Celeste, ante o obstáculo vencido, eram explícitos em seus rostos, mas também perdurava a tristeza e a dor deixadas por aqueles que haviam partido.

Verdadeiros varões de honra e coragem, que deixaram para trás seus pertences e suas famílias para lutar por suas terras e edificar o nome de Deus, tornaram-se mártires para os que ficaram e exemplo para gerações futuras.

Então, essas tropas partiram para Hackney, com destino a Wandsworth, em Londres. Chegando próximos às correntes do Rio Tâmisa, pararam. Em seguida, os fadigados homens montaram acampamento no local para poder passar a noite, porque o sol já era quase posto.

Loan recusou o conforto das tendas e escolheu alguns soldados para que ficassem de sentinela durante algumas horas, enquanto a maioria preparava-se para dormir. A seguir, pegou uma das pedras daquele lugar, envolveu-a com sua capa salpicada de sangue seco e a fez de cabeceira, deitando-se no solo frio. Adormeceu, então. Pela primeira vez, em doze dias de guerra, dormiu profundamente.

E sonhou... Viu dois seres que investiam um contra o outro, numa luta infinda, que nenhum deles conseguia vencer: uma águia branca lutava contra um enorme e demoníaco dragão escarlate, cujas cabeças são símbolos dos pecados mortais.

De repente, a ave mística foi atingida na asa pelas venenosas garras do enorme réptil. E, diante da grave agressão sofrida, suas forças escaparam de sua matéria, e as asas pesaram a ponto de ela cair num baque forte no chão.

Totalmente imobilizada e fraca mediante o terrível confronto, nada podia ser feito, ficando totalmente à mercê de seu adversário. Parecia o fim certo, pois o ser feito de trevas se aproximava revolto, ocultando toda a esperança de que a ave pudesse sobreviver.

Ele estava totalmente determinado a estraçalhá-la, de tal modo que não restassem vestígios do inimigo para enfrentar novamente.

De novo, os músculos da criatura se retesaram e, quando as unhas vorazes estavam perto de alcançar seu objetivo, surpreendentemente um relâmpago foi cuspido dos céus, atingindo a fera bestial, que gritava com lamentos pungentes, fazendo estremecer todo o firmamento da Terra.

O demônio nada entendera daquele ataque brusco, enquanto seu enorme e pesado corpanzil se arrastava em caminho reto sobre o pó da terra. Seu orgulho foi maculado, coberto pelos tecidos da hesitação e do vacilo, entretanto suas mandíbulas malditas pressagiavam a vingança e a morte contra aquele que ousou afrontá-lo.

Então, de súbito, a abominação reptiliana finalmente sentiu, sem nenhuma sombra de dúvida, uma mudança. Ouviu cantares de anjos e de arcanjos que louvavam incessantemente o nome Daquele que se chama Santo e Supremo, que é exaltado e elevado o Teu pensamento, pois grande é o Seu poder.

A fera rugiu com grande ira, soltando lufadas de enxofre de suas muitas narinas, mas uma luz, embora fraca, distante e vinda dos altos céus, esbofeteou os olhos vermelhos do monstro, que se retraiu num ato de assombro. As nuvens vinham alvas, flutuando soberanas no céu, e a aurora que estava por trás delas vinha expulsando aquela paisagem espectral.

De repente, naquele momento solene, houve um novo clarão, como se as massas anuviadas tivessem lançado um arco-íris branco ligando-as à terra. Em forma de uma ponte arqueada e causticante de brilho, a besta escarlate bramia e sibilava de ódio, como se adivinhasse o que estava por vir. Em sua forma extrema, desprendia faíscas, e sobre ele vinha retumbando pelas nuvens um grande leão incandescente, que desceu sobre a ponte iluminada, desprendendo de sua boca um rugido, que saiu com grande estrondo. A criatura da escuridão se sentiu inquieta, assistindo à cena em rosnados, como se estivesse tomada por um desespero repentino, vendo com terror seu pior inimigo se aproximar rapidamente dela. Com toda a imponência e poder, o leão pôs-se entre o dragão e a desfalecida ave caída, que piava num apelo de socorro.

O belo animal, contemplando sua angústia, seguiu em seu socorro e, com todo o cuidado, tocou-lhe a asa ferida, realizando uma cura milagrosa por meio da chama que brotava de sua pata. Mas não cauterizou apenas a parte ferida, e sim realizou a cura da chaga fatal, que já se alastrava por seu corpo. Agregando renovadas forças, abrindo intensamente suas asas e sentindo-se ainda mais forte do que antes, a águia devolveu-se ao céu.

Então a fera flamejante voltou sua atenção ao sáurio bestial. Rugindo com os sons de muitos trovões, lançou-se contra a criatura rubra. O dragão-demônio não esperou pelo ataque e, bradando para o leão, atirou-se encolerizado ao seu encontro.

Foi grande o estrondo causado pelo choque dos dois. Eles se combateram de forma árdua e ferina, como verdadeiros titãs. Lutaram ferozmente, até que o felino de chamas douradas pisoteou a cabeça-líder da besta, cuja boca vomitava injúrias contra o Reino do Altíssimo.

No ar, a ave branca resplandeceu como a luz das estrelas, crocitando num tom ecoante, imergindo contra o dragão-maligno, que já se encontrava subjugado. E as garras do pássaro iluminado arrancaram das órbitas os olhos da besta-fera, para que não mais engane a humanidade com suas burlações astutas. Desprendendo maldições de sua boca imunda e possuída pela ira, o monstro foi horrivelmente tragado pelo poço da própria cegueira, e nunca mais seria visto.

Acima dos dois animais, o pássaro e o leão, um Ser fulgurante como o Sol fez-se presente. E, com uma voz mansa e serena, falou-lhes:

- Sou vosso Deus e Criador. Há muito contemplo vossa obediência e a fé que habita vossos corações, semelhantes a uma rocha inabalável, pois não se deixam burlar pelas trevas e nem pelas riquezas temporais. E por isso os abençoarei, darei a vós a semente da minha Palavra. E dela nascerão os filhos valorosos, que combaterão as hostes malignas e darão uma visão além àqueles que ainda não veem. Eis que estarei convosco e vos protegerei por onde quer que forem. De ambos farei jóias de minha coroa e não vos deixarei até que hajais feito o que vos digo.

Assim que as expressões verbosas e repletas de luz penetraram fundo no coração dos dois seres, eles olharam um para o outro e, para espanto de ambos, admiraram-se: o leão de fogo havia se transformado em um homem, enquanto no lugar da águia luminosa surgira uma linda mulher. E eles estavam trajados com vestes inigualáveis, com brancura jamais vista na Terra.

Após presentearem um ao outro com um sorriso angelical, os dois ataram as mãos e caminharam felizes para o lume celeste.

Despertando repentinamente do sono, os lábios de Loan começaram a murmurar: - O Senhor esteve aqui comigo, neste lugar; deu-me novamente a graça desta visão. Tremendo, prostrou-se de joelhos e disse:

- Meu Deus, por que mostrais para este servo indigno essas revelações?

Ouvindo apenas o ruído do rio, e olhando fixo para o céu, mais uma vez indagou: - Que inimigo será este que assolará ainda mais esta terra tão sofrida?

Novamente os sons da natureza:

- Nesta visão, no meu entender, represento o leão candente; mas quem é a mulher que ostenta o símbolo da águia? Porventura ela é a chave que preciso para vencer o mal?

Mais uma vez o silêncio perdurou, como resposta ao seu apelo. Entretanto, persistindo na fé que habita seu coração, o cavaleiro proferiu palavras em tom baixo, de oração. E sua exaltação seguiu por horas.

Em plena madrugada, Loan se levantou um tanto entristecido e, pegando a pedra que havia usado como cabeceira, guardou-a na sela de seu cavalo. Em seguida, juntou-se a seus homens antes do alvorecer para o desjejum, reuniu as tropas e prosseguiram a viagem,

Chegando a Wandsworth, ali pararam para se reabastecerem de provisões. Na cidade, todo o regimento se dispersou: uma parte encaminhou seus cavalos às cocheiras para alimentá-los, outros deles foram ao ferreiro no intuito de consertar ou afiar suas armas, e alguns poucos buscaram cerveja nas tavernas, para limpar o pó de suas gargantas secas.

Os olhos curiosos dos valentes homens foram atraídos pela deslumbrante feira, situada na rua central da cidade, por onde, em meio a inúmeras mercadorias e tentadoras ofertas, Loan e seus homens trafegaram em silêncio, observando, muitas vezes, mulheres devassas que se ofereciam a todos que por ali passavam e mercadores desonestos, com suas eloquências astutas.

O líder guerreiro estava apreensivo, pois estavam em um ninho de víboras, no centro do furacão e, contudo, nenhuma emboscada havia sido efetuada. Muito menos um alarme sequer. O que será que os saxões e os celtas estariam planejando? pensava ele.

Enquanto isso, na taverna "Gralha Cinzenta", alguns dos seus muitos homens, cansados pelo tédio de nada estar acontecendo, lançaram-se ao prazer embriagante do vinho. Os cônjuges infiéis buscavam consolo e se curvavam ante as falsas carícias das rameiras da estalagem, cometendo todo tipo de concupiscência, que suas esposas jamais fariam.

De repente, em meio à euforia dos beberrões, um grupo de homens de semblantes sisudos adentrou sem ser notado, pois muitos soldados já se encontravam embriagados e vários deles estavam entregues à devassidão. Despreocupados e descuidados, ignoraram por completo a presença dos estranhos que os circundavam como uma matilha esfaimada.

A única recepção foi a do cão do taverneiro, que surgiu sorrateiro em meio às mesas dos fregueses, iniciando seu ladrido contra aquela horda. Apesar do desdém dos indivíduos, o animal continuava a mostrar seus dentes e a rosnar ameaçadoramente, até que uma figura misteriosa, vestida com um casaco largo, tendo a cabeça coberta com estranho capuz púrpura, entrou pela porta principal da taverna. Removendo a cobertura sobre a cabeça, revelou ser uma bela e deslumbrante mulher. Os olhos da lady de cabelos esvoaçantes fitaram firmes os do animal. Então, a atitude do cão mudou totalmente. De latidos selvagens passou a dar gemidos assustados, vindo a fugir do local.

Ela contemplou um risonho soldado terminando de esvaziar sua caneca de cerveja. No mesmo instante em que ela piscou, uma espada voraz riscou o ar, decepando a cabeça daquele que havia dado o derradeiro gole.

Os olhares aterrorizados dos presentes mesclaram-se aos grunhidos de fúria dos adversários, que apenas esperavam por um sinal para poder dar início à sua sanha assassina.

À medida que as mãos de alguns combatentes deslizavam sorrateiras ao cabo de suas lâminas, o braço feminino da misteriosa diva se levantou para o alto. Então, o grito de guerra foi anunciado pelos lábios da desconhecida, oprimindo a esperança de muitos que ali estavam. E a investida deu origem a uma batalha sangrenta, enquanto sua líder nada mais fazia: somente observava.

Atemorizado, o dono da taverna abrigou-se às pressas detrás do balcão. Ele se manteve imóvel, pasmado perante a carnificina que se desenrolava em seu estabelecimento. As peles dos assassinos foram banhadas pelo líquido espesso que brotava em abundância das veias arteriais de suas vítimas, bêbadas demais para poderem manter-se de pé.

Aquela mulher macabra assistia a tudo dando gargalhadas que arrepiariam as rochas mais resistentes. Era um espetáculo maravilhoso, considerou ela. O som descomunal das armas em atrito, a luta mortal daqueles blocos de homens enlouquecidos para matar, e outros desesperados para sobreviver, envoltos numa perfeita comunhão avassaladora; tornava-se um casamento de sangue e ódio.

O número de corpos despedaçados por lâminas aumentava; alguns gravemente feridos, mas ainda vivos, contorciam-se como cobras no chão. Mais aterrorizante que o gemido dos desditosos mutilados, das cadeiras e mesas destruídas, eram os gritos selvagens dos guerreiros e o rumor de espadas e machados implacáveis desunindo a carne dos ossos dos presentes.

Dizendo uma frase, a fêmea áspide proferiu seu ultimato:

- Que as almas dos que nos enfrentam pereçam no fogo do tormento eterno, pois eu sou o caminho destes que me renegam! E acrescentou de maneira sarcástica: Sou a perpétua MORTE!

Naquele mesmo instante, as feições da mulher estranhamente mudaram. O nariz e o queixo modelados, os olhos grandes e belos dominavam sua fisionomia. Os cabelos longos e lisos, pintados pelas trevas, e a pele branca adotavam uma forma indizível do ego profano e inexplicável do horror, despertando a atenção daqueles que permaneciam em combate.

A filha do obscuro aproximou-se um pouco mais e, com toda a aberração formada diante dos presentes que ainda restaram, ela cravou as unhas das mãos, uma em cada lateral da face, arrancando todo o rosto. O terror dominou ambos os lados. Eles ficaram sem saber o que fazer, se atacavam aquela criatura ou se incitavam um duro conflito para que se matassem uns aos outros; já que a alternativa de fugir daquele lugar ficara totalmente fora de questão. De repente, uma força invisível estilhaçou o aço de seus instrumentos cortantes, privando-os de qualquer esperança de sobrevivência. Um redemoinho formou-se sem volta dela, enquanto sua face foi ao chão, derretendo-se no piso, semelhante ao chumbo que é atirado ao fogo.

Um vento quente emanou ligeiramente sobre o grupo de homens aflitos, e um poço negro surgiu bocejando, no lugar que dantes habitado por um rosto, que momentos atrás apresentava o lindo semblante de uma deusa.

De súbito, serpentes ardentes jorravam de dentro daquele buraco escuro, bramindo sons de arrepiar. Alertados pelo bramir das anomalias, alguns homens reuniram o pouco de coragem que lhes restava e, empunhando todo tipo de destroços, resolveram encarar os demônios. Mas antes que pudessem expressar qualquer tipo de reação, os répteis incandescentes se lançaram nas parótidas dos audaciosos combatentes ou enrolaram-se em seus corpos.

Eles se contorciam desesperadamente, sentindo o brasido toque das coisas diabólicas; num dantesco calor, os pulmões e as entranhas foram queimados, à medida que iam apertando-lhes violentamente a carne. Os dentes em brasa das cobras laceravam as gargantas dos soldados, que nada mais podiam fazer, senão tornarem-se frutos maduros, prontos para serem colhidos pela morte. Nem mesmo o inocente proprietário da taverna escapou ao ataque voraz das abominações, que, num golpe mortal e certeiro, extirparam a dentadas os seus pulmões.

De repente, todo o recinto passou por um tipo de explosão. O enxofre e o fogo alastraram-se por todo aquele lugar, inclusive por algumas casas que estavam próximas.

Devido ao estrondoso barulho, os olhos dos habitantes se assombraram e as faces de muitos empalideceram, despertando a atenção de Loan e de seus homens, que correram rapidamente para o local da tragédia, tendo sempre as armas em punho. Olhando para aquela gigantesca fogueira, Horsham observou atônito, sem saber como aquilo teria acontecido. E, imóvel, passou alguns minutos observando o acontecimento funesto, juntamente com os outros guerreiros e com os pacíficos e assustados moradores da cidade. O local estava sendo tomado por uma cordilheira combustiva e a fumaça negra se assimilava a nuvens piroclásticas que iam moldando imagens e formas de monstros famintos, cujos braços gasosos se estendiam para a platéia aflita.

Com tristeza pelos companheiros, ele nada pôde fazer, além de assistir às chamas ardentes incinerando seus desventurados corpos. Porém, os habitantes olhavam para o intenso fogo e tinham os cabelos eriçados de pavor, ao verem, no incêndio, uma figura encapuzada, envolvida por uma túnica enorme, surgindo daquele cenário infernal, parecendo uma fênix que emerge do fumo de uma fornalha. Abandonando a parede ardente atrás de si, a figura satânica pronunciou-se insolentemente, num desafio ao comandante cristão:

- Loan, o gladiador do leão celeste, um néscio sincero, um inepto desviador das coisas mundanas e um serviçal de meu inimigo!

O tom das palavras daquela feiticeira fez com que os soldados erguessem seus olhos turvos rumo ao comandante. E, aproximando-se de Horsham, um dos homens falou:

- Capitão, este demônio que saiu do fogo declarou conhecer-te. Por acaso, fazes parte disto?

Ele ignorou as críticas do vassalo porque seu coração estava coberto de tristeza: os mesmos homens que outrora lutaram valentes ao seu lado agora estavam mortos; e os outros, desconfiados dele, mediante a declaração ousada daquela bruxa, que dissera ter o devido conhecimento de sua pessoa.

Virando-se em direção ao macabro ser, disse-lhe:

- Quem és e donde vens? Que mal fiz para receber a tua violência e a dúvida de meus soldados, execrável criatura?

E a figura maligna respondeu:

-Tu serves a um Deus inútil, e ainda deseja nos desafiar? Escutai, ó servo ignóbil. Desiste de lutar em vão, e una-se à sua "verdadeira mestra". Presta-me reverência ou morrerás como um fraco que és!

Então falou Horsham:

- Um dia morrerei, ser bestial, mas como um verdadeiro cristão, e não como tu queres: será com uma espada na mão e com louvores a Deus nos lábios! Não estarei de joelhos quando a vida de meu corpo for tirada! - completou Loan, com ira.

Sua posição ereta, numa atitude de desafio à oponente, foi elogiada por ela, ironicamente: - Ha, ha! Para um mísero mortal, até que tu ostentas fortes palavras, filho da Inglaterra!

Com a rapidez de um gato, um dos soldados bretões transpôs a multidão assustada e, com um machado nas mãos, arremeteu violentamente o mortífero instrumento contra a rainha do mal que ali permanecia.

E ela, voltando a face oculta para o agressor, apenas gesticulou para que uma força invisível devolvesse o metal prateado e pesado ao verdadeiro dono. Da mesma forma que foi, retornou, atravessando brutalmente a armadura, indo alojar-se na frágil carne do soldado, destroçando-lhe as costelas e o coração. O desventurado nem teve tempo para gritar, caindo no chão áspero, segundos antes de as trevas da morte extinguirem sua chama de vida.

A mórbida visão instilara, com um impacto, o medo no coração de muitos. Irrompeu, então, o desespero na maioria da multidão e as pessoas correram para todos os lados, tentando buscar a segurança de seus lares.

A última coisa de que aquele inglês vai se lembrar é do terror estampado nos rostos da aglomeração de gente em fuga, desfalecendo ainda mais a fé de seu coração. Naquele momento, os gritos de mulheres e crianças devolveram à brigada o ódio animalesco, e eles, vagarosamente, avançaram.

Mas, cansado de ver tamanha matança, o grito de Loan Horsham ecoou entre eles:

Parai! Não deixeis que vossas mentes se corrompam dessa forma! - E o altivo inglês puxou a espada da bainha, intervindo, ao colocar-se entre a diabólica mulher e seus homens, que gritavam por vingança:

Saia da frente, capitão, ou nós te desmembraremos juntamente com esta serpente! Loan respondeu:

- Esta terra será amaldiçoada se uma gota de sangue dessa feiticeira for derramada aqui!

A ímpia, admirada com o confronto de Loan e seus soldados, removeu o capuz, revelando o brilho de sua beleza demoníaca. E, com um sorriso sarcástico, ela declarou a Horsham:

- És realmente um valoroso combatente, servo do leão. Mas, cuidado, pois nosso reencontro será inevitável; e, quando isso ocorrer, aí então testarei tua bravata.

Ao dizer isso, a filha de Sabath elevou os braços para o alto e, por segundos, todos os olhos se fecharam com uma luz reluzente que parecia irromper dos portões do tempo e do espaço.

E, assim, quando os olhos do estupefato povo se abriram, nada mais restava naquele lugar, a não ser uma fumaça florescente e fétida, juntamente com as cinzas quentes e fumegantes de seus mortos.

Após haver se recuperado da ação desesperada, Loan nada mais respondeu e, desviando a atenção, olhou para o céu. Seus ouvidos testemunharam os lamentos de muitos que, indignados, encaminharam-se para diferentes lados, ficando apenas ele, um homem desalentado que permanecia em pé e totalmente parado no meio daquela rua central.

A noite caiu e a cada hora havia a expectativa de que alguma calamidade voltasse a suceder. Os soldados bretões reuniram-se em vários grupos e comentavam, em murmúrios, a atitude do líder. Eles acreditavam que Loan tivesse traído a Ordem Sagrada, pisando nas leis de Cristo e abandonando sua Pátria, pois havia intervido a favor de uma serva do diabo ao frear o ataque da turba. Loan teria de ser punido por esse crime, e, se falhassem, seus homens acreditavam que um grande castigo viria das mãos de seus superiores, que os lançariam impiedosamente à fogueira. Mas como poderiam condenar seu comandante se essa questão é debatida somente pelos membros do tribunal eclesiástico que compõem a Inquisição? Durante a sórdida reunião, um deles acabou por dizer que, como Loan estava perturbado diante de tanta violência, talvez não tivesse parado para refletir sobre quantos perderam a vida naquele incêndio. Decidiram então que, assim que ele fosse dormir, enviariam um homem de confiança, sem o conhecimento de seu superior, para levar a falsa notícia para Birmingham: a heresia de Loan Horsham.

costumeiramente, o guerreiro-chefe afastava-se das tropas, para orar sozinho, e em seguida repousar seu fatigado corpo. E assim o fez naquela noite.

Os traidores, vendo que era a oportunidade esperada, sem mais delongas, enviaram um mensageiro a Birmingham.

Enquanto isso, durante a oração, Loan foi vencido pelo cansaço da debalde luta, vindo a adormecer rapidamente.

O sonho invadiu-lhe a mente pelas nuvens brancas do desconhecido e ele ouviu um chamado atrativo, fraco e longínquo. Era seu nome que ecoava por espaços infinitos e pelo túnel do tempo.

Sem nenhuma arma para defesa, apoiado em sua pouca fé em Deus, mesmo fraco e confiante no instinto de guerreiro, Loan atravessou a neblina fria, alcançando um corredor luminoso. À sua frente viu uma escada adornada de jade e subiu por ela. Seus olhos admiraram tamanha suntuosidade. E assim escalou degrau após degrau, até atingir o alto, onde uma figura de vestes brancas aguardava-o pacientemente.

- O quê? Quem és tu, um fantasma? - Palavras de temor foram ditas pelo guerreiro, que retrocedeu.

- Não temas, sou eu. Já não te lembras mais de mim, guerreiro contrito? - respondeu o ser divino que se aproximava vagarosamente do homem.

-Como saberei se tu não fazes parte das artimanhas daquela bruxa? - indagou.

- Escute, homem de alma ferida, assim como um seixo atirado ao mar é levado aos lugares mais distantes da imensidão, as epopeias do mundo terreno abalaram o equilíbrio celestial.

A voz do anjo alertou o coração de Loan, que parou de falar, deixando apenas seus ouvidos colherem cada dissertação que o emissário de luz lhe transmitia. Estava bem consciente daquilo, de que o ser à sua frente era verdadeiramente um guardião militante de Deus.

- O Senhor, nosso Deus, tem te observado atentamente, Loan, filho do leão ardente. Entristeceste o coração do Criador e envergonhaste Seus olhos com tuas obras. Destes ouvidos ao Pai, mas na missão que te foi enviada, pela falta de discernimento, permitiste que teu inimigo te confundisse, fazendo-o agir conforme a própria vontade dele.

E acrescentou:

- E por causa da tua inépcia, batalhas duríssimas virão a ti, entre as quais tu mesmo poderás condenar o futuro de todos os seres viventes.

Então, Loan replicou:

- Sê mais claro, porque não entendo o que queres me dizer!

- Vem, mostrar-te-ei tudo o que for necessário para que possas entender. Mesmo um tanto desorientado, o guerreiro obedeceu.

Então, o anjo passou os dedos reluzentes em sua fronte. Em instantes, Loan foi arrebatado em espírito e ouviu atrás dele uma dantesca voz, como a de um trovão:

- O que presenciarás, grava na tua memória e envia como mensagem para as igrejas, para que temam a doutrina da Lei, pois só assim fugirão da ira do inferno! Olhe por entre a janela dos mortais e verás o que poucos tiveram a oportunidade de contemplar.

Mesmo com receio, Loan novamente submeteu-se à divina voz, aproximando-se lentamente. De repente, uma brisa abriu a janela celeste, causando espanto aos seus olhos. E o terror invadiu-lhe a alma.

Viu, então, o futuro da raça humana: a luta entre os Estados da Europa se iniciaria em 1914, durando quatro anos. O cruzado percebeu os motivos sem fundamento e contemplou embasbacado aquelas visões. Seus olhos colheram, sem acreditar, os frutos da evolução do homem. Máquinas motorizadas em vez de cavalos, metralhadoras e granadas e terríveis bombas atômicas substituirão os arcos e as flechas, as lanças e catapultas tornar-se-ão totalmente obsoletas mediante uma era que virá.

Ele sentiu-se impotente, cético e admirado, porém nauseado e frouxo com o choque das cenas: o antagonismo germano-eslavo nos Bálcãs, as ambições colonialistas da Alemanha e a corrida armamentista intensa na Europa a partir de 1905. Seus olhos testificaram que mais de oito milhões de pessoas perecerão, e que vinte milhões ficarão gravemente feridas.

A imagem de um novo inferno apresentou-se diante do cavaleiro: a sombra da Segunda Guerra que se alastrará como uma praga no ano de 1939, quando alemães invadirem a Polônia, a Inglaterra e a França, e estes países declararem guerra a eles. Por isso, milhões de pessoas perderão inocentemente suas vidas. Ao olhar perplexo do cavaleiro, homens ditadores e políticos ousadamente apareceram desafiando os céus em busca do poder. Falsas seitas recheadas de dogmas, por meio de profetas enganadores e blasfemadores, tentavam seduzir toda a humanidade.

Multidões de pessoas, em noites e noites, ignoravam as disciplinas cristãs e o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, para concluírem pactos de sangue em nome de entidades do mal, em encruzilhadas, cemitérios, florestas e locais satânicos, na desesperada busca por fama, riqueza e prazeres da carne.

A ciência, aliada à ganância, avançava em grandes proporções, buscando suplantar a lei da criação divina, por meio de clonagens humanas, de animais e de alimentos transgênicos. Viu o uso de células- tronco não para o benefício humanitário, mas para fins egoístas e ambições desmedidas. A água, um presente do Todo-Poderoso para todos os seres vivos do planeta, estava sendo armazenada em dutos e comercializada a preço de ouro.

O templário observa, com tristeza, loucos contestando com divagações extremas os feitos de Deus e tentando igualar-se a Ele, com suas novas criações, achando-as são perfeitas, pisando de forma vergonhosa nos Mandamentos Sagrados. Outros, negando Sua santa existência, afirmando que a humanidade fora gerada por extraterrestres ou que tem grau de parentesco com os símios.

Ao vislumbrar os cristãos sendo caçados como animais, suas córneas se inundaram de amargas recordações. O amor e a fé de muitos se esfriam diante de tanta opressão em suas provações.

E o guerreiro viu a natureza se vingar dos homens, com furacões, vulcões, tsunamis, terremotos e outros flagelos, como castigo por sua abusiva ganância.

Pasmado diante das cenas aterrorizantes mostradas pelo emissário de luz, Loan tentou desviar a atenção, mas inexplicavelmente seu rosto petrificou-se e seus olhos se recusaram a fechar.

- Eis a fonte de todo esse sofrimento! - afirmou o ser divino.

As visões tornaram-se cenas gigantescas, criando uma tempestade de imagens que penetraram em sua mente.

Ele observou outro anjo, o mais belo e mais grandioso de toda a falange, mas que, por sua desobediência em desafiar o Criador, teve a ignomínia de ser rejeitado por Deus e, em seguida, expulso do Paraíso Celeste.

Lançado pelo Arcanjo Miguel por dimensões incontáveis, proferia, em sua queda, blasfêmias de vingança contra Aquele que o repeliu. Caiu na boca esfomeada do inferno, onde a fome de almas nunca é farta, e os globos oculares dos homens se fecharam para não vislumbrar os horrores que lá habitavam.

Loan sentiu o aroma de frescor de seu acompanhante. O medo que habitava em sua alma se extinguiu, dando-lhe ao espírito a segurança imposta pela presença serena daquela luz.

O demônio deseja a primazia total sobre a raça humana, pois a guerra em que tu combates é insignificante comparada à trama que essa criatura abissal planejou.

E prosseguiu:

- Em seu projeto maligno, ele pretende distorcer as Sagradas Escrituras e alterar o futuro da Terra.

O cavaleiro continuou imóvel, porém alerta. De repente, um grito de expulsar o coração pela boca escapou dos seus lábios, enquanto seu corpo oscilava para trás. Ele vislumbrou multidões, nações inteiras de seres humanos, ricos e pobres, homens, mulheres e jovens, estendidos nus, horizontalmente na terra, proferindo num coro desordenado toda a sua agonia. Seus ventres rasgavam-se de dentro para fora, num processo mesclado de dor e loucura infinita, roubando a visão dos moribundos, que mal conseguiam enxergar um vegetal lenhoso e bizarro, de aspecto monstruoso, emergindo de cada um deles. As raízes repugnantes agora serpenteavam ousadamente sobre os cadáveres e, ao encontrarem um lugar apropriado, penetravam profundamente em suas carnes, músculos e nervos, passando de forma incisiva e brutal, indo fixar-se nas partes articulares dos ossos.

Os corpos se empalideciam à medida que as raízes sugavam os fluidos vitais daquelas figuras que um dia foram humanas, nutrindo as árvores arcanas, que revigoravam-se com o hospedeiro, após seu nascimento. Agora eram as árvores que se tornavam hospedeiras de uma geração de demônios.

A floresta macabra só tinha um objetivo: extinguir todos aqueles criados à imagem e semelhança de Jeová, para depois repovoar a Terra com uma nova e profana raça; tudo para impedir o "Juízo Final".

De repente, um semblante satânico apresentou-se na janela mística, fazendo Horsham retroceder. - Meu Deus!

O anjo respondeu, com toda a mansidão de sua voz:

- Não temas, estás protegido nas mãos divinas do Criador; o demônio não o vê. - E tranquilizando-o: - Não é contra os tormentos terrenos que o Senhor te quer em combate, mas sim contra as hostes malignas nas regiões celestiais. O Hades oculto existe e monstros espirituais podem ser invocados pela língua que os decreta. Depois de tomarem conta das vítimas, remetem-nas ao mais profundo abismo de imoralidade humana, onde, nada restando delas, se lançam somente ao desejo de privar-se da própria vida. Foste trazido aqui para receber uma arma contra o monstro cruel que está por vir!

Confuso, Loan indagou:

- Mas por que eu? Já não vos basta minha fé e minha espada? Derramei rios de sangue para proteger meu país. Honrei a palavra de Deus... Ela foi para mim um escudo...

Então, o anjo replicou:

- A fé é um oleiro que modela o coração, que te faz vaso novo para o Salvador. Se não a tivesses, acaso seria merecedor de todas essas revelações? Tens um bom coração, porém não usas tua prudência para discernir as obras celestiais; tu fostes embaraçado pelo devorador de almas, guerreiro precipitado.

O templário emudeceu.

- Com tua espada, cortastes extremidades contrárias. Erraste em tua batalha, pelejaste contra a carne, quando devias fazê-lo contra o espírito ímpio que veio ao teu encontro. Destes ouvidos ao teu orgulho e ao prelado, homens que acreditaram ser privilegiados pelo Rei Eterno, mas não o são, pois não fazem a vontade Dele. E, pela cegueira de seus próprios pecados, foram enganados por uma falsa visão, provinda do adversário de suas almas. E tu, juntamente com eles, te tornaste boneco nas mãos do gênio impiedoso. Loan, indignado, indagou:

- Dizes-me que fui enganado?! Mas foste tu que me disseste para proceder dessa forma.

- Minha fala somente ouviste, porém não a compreendeste. Torno a dizer-te que tua árdua batalha será contra um inimigo espiritual que nenhum artefato terreno poderá matar.

Loan tentou opor-se, porém nenhuma censura partiu de seus lábios, pois os fatos apresentados eram tão verdadeiros e transparentes que de forma alguma teria meios para contestá-los.

Diz ao Rei que minha falha foi imperdoável. Não sou digno de completar a tarefa a mim incumbida. Ouvindo o melodrama do cruzado, o enviado divino sorriu, dizendo:

Loan, responde-me. O que significa Deus para ti?

- O Supremo Criador do universo, Mestre do tempo e do espaço, Pai do amor e da bondade, Senhor da misericórdia. Somente Ele é digno de Majestade...

- Se sabes com tanto afinco, por que te é difícil crer no que acabas de dizer? O silêncio do cavaleiro veio como resposta ao anjo.

Loan Horsham, sabes que Deus Pai é misericordioso e perdoa todo aquele que se arrepende, por pior que seja seu ato. Ele te conhece desde o ventre de tua mãe e nunca errou em Sua escolha. Portanto, preparar- te-ei para o que está por ocorrer.

Que posso fazer sendo apenas um homem?

O Imperador da bondade é infinito de poder; espalha onde não podes juntar, faz aparecer onde não existe, amarra as águas em Sua cintura e segura o vento com as mãos. Ele se torna presente em tudo e escolhe um fraco para que possa confundir o forte. E é por esse motivo, acima de tudo, que te trago a peça necessária para o combate.

E acrescentou:

-Teu país temporal um dia findará, mas tu, se fores fiel na tua jornada, habitarás uma Pátria infinita de amor; como todo aquele que teme Seu Nome e pratica Sua justiça.

Loan ficou admirado com as palavras fortes do ente celeste.

Este é teu destino. Caberá somente a ti impedir que mortais inocentes passem por esse suplício. Ergue a tua mão direita, Loan, cavaleiro do Deus Vivo.

Completamente surpreso, aquele homem levantou a palma direita de sua mão, como ordenou o emissário. Subitamente, o ser divino começou a levitar e uma luz o revestiu.

Horsham, de pé, olhou o mensageiro iluminado, encarando o dantesco sol infindo. Relâmpagos brancos partiam de sua aura como serpentes incandescentes. O cavaleiro não desviou o olhar e, apesar do fulgor, a luz não lhe feriu os olhos. Pelo contrário, refrigerava-lhe a alma.

Em questão de segundos, as inúmeras faíscas atingiram a mão mortal do escolhido, gravando em sua palma um misterioso símbolo.

- Está feito. Tu possuis o dom necessário para vencer o mal, mas toma cuidado com a regente da escuridão, que fará tudo para confundir tua fé.

Eu me lembrarei.

- Tudo o que é importante já te foi mostrado. Guarda o que viste em teu coração, e fé e confiança em teu espírito. Eles te fortalecerão na guerra final.

Abruptamente, o lugar e o anjo desapareceram. Então, ele se viu repentinamente caindo num vácuo branco.

Despertando num estado de apreensão, Loan se levantou do leito improvisado e, quando olhou para a palma de sua mão direita, os cabelos eriçaram em sua nuca: havia um símbolo estampado. Os contornos eram os de uma pomba, uma figura branca, um pequeno pássaro que representa a paz entre os homens. Amanheceu e o Sol nasceu por trás das planícies. Pouco depois, o comandante e as guarnições partiram de Wandsworth. Alguns levaram consigo o peso da culpa em suas consciências, outros conservavam o medo do sobrenatural, por terem contemplado coisas que seus olhos antes duvidavam.

Lentamente, um dos imediatos se aproximou de Horsham e perguntou:

Milorde, perdoe minha ousadia de me aproximar assim, no entanto devo dizer-te que ouvi um boato entre os homens de que tu protegeste uma bruxa de ser morta por eles. Alguns deles falam em motim.

Ele retrucou:

- Eles são ingênuos e infames como velhas. Será que esses hipócritas não entendem que não estamos lidando com uma simples guerra? O inimigo demonstrou não ser deste mundo e nossas espadas são inúteis contra ele!

E confirmou:

- Estes homens são livres; eles podem voltar para casa, se desejarem. Fazer bastante amor com suas esposas e se embriagar até morrer. Quem sabe os vermes terão um paladar deleitoso ao degustarem da carne desses covardes!

- O que queres dizer? - indagou o soldado, espantado com a ousada frase.

- Estou querendo dizer que, se eu houvesse permitido que atacassem aquela aberração, esses corajosos guerreiros que tu observas agora estariam servindo de comida aos abutres e às varejeiras que vagam por carne morta.

O homem ficou surpreso com as palavras de seu capitão e assentiu em silêncio, pois a justificativa tinha total fundamento. Entretanto, como convencer os outros, se suas mentes estavam entorpecidas demais para entender isso?

O dia passou e as tropas de Loan seguiram para o último estágio.

Os exércitos de outros países conseguiram dizimar por completo as forças adversárias, recuperando seus territórios natais. E agora se preparavam para reforçar os regimentos ingleses, para a retomada total de Londres.

Os arqueiros galeses não serão vistos, pois chegarão pelos flancos; a maior parte dos aliados da França virá do sul da Inglaterra, por Brighton; e os recrutados irlandeses se aproximarão pelo canal de Bristol.

Duas semanas depois...

O último e decisivo combate da história seria travado exclusivamente em Londres, onde meses atrás o solo inglês havia sido banhado de sangue, tornando-se um enorme tapete escarlate.

Uma verdadeira aliança entre os reinos monárquicos reuniu e liderou seus melhores combatentes de várias províncias, cidades e aldeias. Quase todo o continente europeu sucumbiu ante a invasão avassaladora de uma raça bárbara e tirana.

De início, o império contrário encontrou pouca resistência, mas a Igreja, com os nobres de outros países, anexou uma poderosa aliança de guerrilha, para resistir, aniquilar e retomar as terras que lhes foram furtadas abusivamente.

A batalha duraria um dia, mas seria como uma eternidade: os poucos que sobrevivessem contariam seus mortos, enquanto outros, com suas mentes turvas, se lançariam adiante, submergindo em sonhos, almejando a tão esperada paz.

Os feridos e os inválidos de outras batalhas preparar as flechas e afiaram-lhes as pontas. Barris de óleo foram transportados por carroças, e feixes de lanças, entregues aos soldados. Por fim, duas linhas de ataque foram formadas pelos exércitos de cada país. Numa região ao norte, já não tão próxima da capital, o dia se tornou testemunha da danação que se aproximava, e o eco dos tambores se juntou ao chocalhar das lanças e ao tilintar do aço puro.

Todos os sons foram abafados pelos tropéis do combate.

O forte encontro de titãs se iniciou. Os arqueiros galeses e ingleses despacharam uma chuva maciça de flechas contra os invasores. Do outro lado, os guerreiros das trevas se defendiam como podiam, usando imensos escudos; mas alguns foram abatidos. Então, terminada a primeira ofensiva, o exército negro bradou, desafiando a capacidade e a autoridade de seus oponentes.

Os comandantes das guarnições ordenaram à cavalaria um ataque avassalador contra os rivais, que não cessavam de gritar. A alegria da tropa montada durou pouco, pois, na sanha afoita de massacrar os inimigos, nem perceberam que o campo estava cheio de buracos escavados, uma armadilha mortal.

À medida que as patas dos eqüinos penetravam nos pequenos orifícios, as blasfêmias de selvageria dos ulanos se transformaram em vozes esganiçadas, com o estalar dos ossos de patas quebradas dos animais, que tombavam, esmagando alguns dos cavaleiros caídos. Um a um, foram caindo como moscas, causando espanto e preocupação aos exércitos aliados.

Com as pernas quebradas, um cavaleiro rastejava atordoado no chão úmido, quando, de súbito, notou uma substância viscosa fixada em quase toda a sua armadura. Desesperado, o condenado adivinhou o plano deles e, em prantos, implorou por misericórdia. A histeria ecoou no grito do grande líder de armadura negra, que teve a face encoberta, jamais vista pelo seu regimento. A resposta ao apelo dos soldados feridos foi um silvo de setas inflamadas. Instantes depois que as hastes de fogo atingiram o alvo, as chamas surgiam como invocadas do inferno, cobrindo os vivos e os mortos. Homens e equinos tinham seus lamentos cessados para todo o sempre. A combustão ardente era alimentada pelo óleo que antes fora esparramado deliberadamente em boa parte do campo de batalha.

O fogo e a fumaça começaram a escurecer o local, tornando-se uma imensa muralha ardente e impedindo a investida dos dois lados: tanto os aliados quanto o exército maligno, ambos recuaram temporariamente até que as chamas se acalmassem e a visão se tornasse evidente.

No centro de Londres, as hordas de Loan surgiram do leste, enquanto os exércitos liderados por nobres e auxiliados por outros templários vieram do oeste. Ao se unirem em forças, esmagaram o infeliz exército do mal, transformando a sede inglesa em um dantesco mausoléu de cadáveres e sangue.

Já era tarde, mas o céu demonstrava que a noite havia se deitado sobre o resto do dia. O horizonte estava negro, por nuvens pintadas pelo chumbo escuro, trincadas pelas imagens de relâmpagos reluzentes, e o vento uivava como uma trombeta do Juízo Final. E o agitado e pesado ar procedia de uma grande tempestade que estava se manifestando no meio da extenuante e sangrenta batalha. Repentinamente, as nuvens foram chamuscadas por um clarão branco, de onde muitos raios golpeavam os campos, seguidos dos estrondos ensurdecedores dos trovões. Parte do agregado nuvioso que dominava a atmosfera começou a girar de maneira assustadora, donde chamara a atenção dos muitos soldados que estavam sobre a muralha da última fortaleza que ainda resistia com avassaladora firmeza. Vários grupos ficaram imóveis, atemorizados com o que estava acontecendo no céu. Chegaram a pensar que era a presença da fúria estarrecedora da Deusa-Mãe, acreditando que um mau presságio estava por vir. Concluíram que sua divindade não estava nada contente com aquela decisiva batalha.

Tais disciplinas de atenção que demonstraram fizeram com que os arqueiros galeses desferissem centenas de flechas, que zuniam terrivelmente sobre as ameias. Várias setas arrancavam faíscas das pedras molhadas, outras resvalavam nos elmos dos vigias celtas e muitas atravessavam as gargantas que nada fizeram para se defender. As armaduras de outros que caíam se tornaram inúteis, pois as pontas das hastes facilmente se alojavam no tórax e despedaçavam os crânios junto aos elmos.

Embora a muralha fosse bastante larga e tivesse nove metros de altura nos quatro cantos, de modo que cinco homens poderiam trafegar livremente sobre o passadiço e o parapeito, muitos tentavam a todo custo mantê-la em sua posse. Em alguns pontos havia ameias nas pedras, e através delas os arqueiros das muralhas retribuíam uma saraivada de flechas contra os inimigos lá embaixo.

O acesso ao parapeito do grandioso muro era feito por escadas maciças em forma de meia-lua, uma do lado direito e outra do lado esquerdo, que desciam até o pátio externo do forte. Também no pátio havia uma grande escadaria larga no meio, que conduzia à parte central da muralha. E era por ela que um formigueiro humano abastecia os arqueiros que ainda resistiam.

Os corpos dos mortos eram banhados em óleo e depois empilhados junto ao portão frontal, para bloqueá- la como uma imensa barricada. E, sem nenhuma comoção por seus entes ou amigos de batalha, quatro homens estavam com as tochas em riste, prontos para cremar os mortos, no caso de o inimigo tentar invadir o lado interno da fortaleza. Mas, se porventura alguns deles conseguissem cumprir a façanha de transpor a pira de carne em chamas, seriam imediatamente recepcionados pelo grupo de anglos que esperava pacientemente com suas bestas recheadas de setas afiadíssimas.

Os vigias arqueiros disparavam suas flechas, aglomerando em combate as figuras inglesas, irlandesas e francesas, num tapete escarlate, preto e prateado. Com os gritos da batalha, os celtas e os anglo-saxões unidos em braço forte tentavam bravamente em campo reter o inimigo seis vezes maior em número e que vinha como um tsunami iminente.

- Vamos, meus guerreiros, mostrem a eles o inferno! - gritou Horsham.

Com o suor escorrendo dos poros, queimando impiedosamente os olhos e as feridas, presentes de uma guerra irascível, um denso tapete de homens e lâminas escrevia sua história nas páginas do vento. As penas eram as espadas, molhadas na tinta carmesim tirada sem nenhum remorso das tinteiras humanas. No forte grito do cavaleiro, os homens foram ainda mais estimulados pelo ânimo ao verem seu valente líder abrindo caminho sobre a horda inimiga, que, tombada sobre a terra molhada de sangue e de chuva, começava a derramar suas lágrimas, nada mais podendo fazer além de estrebuchar e perecer.

Como chacais esfaimados por carne fresca, os soldados franceses, de músculos retesados, anteciparam a ação de sua ousadia, enquanto uma grande série de escadas de madeira estava sendo posta à beira da muralha. Os flecheiros celtas e saxônicos enfileirados na beira empurravam desesperados o quanto podiam as escadas, enquanto disparavam dardos e flechas inflamados continuamente. Alguns franceses eram abatidos; muitos deles encontravam o fim ao se espatifarem com as escadas, esmagando seus companheiros em terra num baque seco e aterrorizante. Mas a resistência deles era facilmente fraquejada, pois três fileiras de arqueiros irlandeses reagiram ainda mais vorazmente.

Muitos deles caíram como moscas, e aqueles que sobreviveram à queda tinham as costelas quebradas por chutes e gargantas atravessadas por lanças afoitas. As tochas que tremeluziram do meio do campo até a entrada do portão aos poucos iam se apagando. As gotas da tempestade caíam com grande intensidade, e relâmpagos se projetavam sobre as sombras dançarinas e vorazes, atuando em plena devastação sobre um palco dantesco rubro e de corpos mutilados.

No entanto, os ingleses lutavam de forma organizada e ousada. Numa carroça improvisada, jazia um imenso tronco de carvalho, com uma grande ponta na dianteira. Aqueles homens não se importavam com mais nada, muito menos com a história de cada um deles. Tudo o que mais almejavam era pôr o portão abaixo a todo custo, não importando quantas vezes eles tentariam.

Todos agrupados, corriam simultaneamente empurrando aquele pesado tronco como um aríete, indo e vindo vezes seguidas, em estocadas cada mais violentas. O afogo tomou conta dos internos, pois o único entrave que tinham era o portão principal da fortaleza e sabiam que, se seus inimigos entrassem, seriam estripados como porcos. O comandante responsável por aquele castelo havia sido abatido minutos atrás por uma flecha irlandesa. A muralha já não era tão intransponível como antes, e a defesa havia caído. Os franceses conseguiram subir pelas escadas e escalar com cordas pelo muro. Em poucos minutos, quase todos os guerreiros da defensiva foram neutralizados. Mais um pouco e escorregariam do passadiço rumo às escadarias laterais e central, para tomarem posse do pátio principal. Os vigias feridos amaldiçoaram sua deusa por tê-los abandonado na amplitude da necessidade. Quinze dos melhores soldados da França neutralizaram os escudos e as espadas dos celtas, e os saxões, sem terem tempo de manusear suas imensas lanças, tornaram-se presas fáceis, com facas, machados e espadas separando suas cabeças dos ombros.

Os olhos dos combatentes afligidos ficaram baços, e apenas se arregalaram de terror quando testemunharam o som forte de um trovão e o romper do portão principal. A barricada de corpos ardentes, divisa única no extinto portão, foi varrida sem nenhum índice de honra. Os invasores saltaram sobre os corpos e se jogaram um a um contra as paredes da entrada principal.

Assombrados ao verem tamanha crueldade, os homens deixaram cair suas armas e se prostraram com grande clamor no chão encharcado. Naquele momento, os ingleses e os templários, com os aliados que antes estavam embalados numa batalha infinita, subitamente pararam diante deles. Os raios faiscavam sobre vossas cabeças, e os trovões retumbantes, sincronizados com a pesada chuva que desabava, eram o único som audível naquele instante.

Mas também se ouvia os murmúrios chorosos dos derrotados e o escárnio dos vitoriosos. Loan Horsham, seguido por cada comandante e autoridade do seu próprio regimento, foi da entrada até o corredor do pátio principal. Olhou triste para o que restou dos portões: a madeira e as vigas grossas totalmente despedaçadas; as barras de ferro, que outrora mantinham firme e presa a densa madeira, agora se encontravam desarticuladas; os fortes pregos tortos; e as imensas dobradiças arrancadas do lugar e partidas ao meio.

Loan voltou para o comandante francês ao seu lado e disse:

- Conseguimos, lorde Dontesqueier! O último trunfo de nossos inimigos acabou de fenecer agora. O castelo de Londres pertence novamente ao rei e à Inglaterra.

O lorde francês sentiu que as palavras de Loan soaram como um final que há tempos não chegava. E a chuva que caía era para limpar as marcas de uma guerra acirrada e sofrida. Ele também desprendeu um brado, em francês. Muitos de seus homens também gritavam e erguiam suas armas para o alto. De repente, não só eles, mas todos estavam rindo e comemorando do seu jeito boas previsões para o futuro. Diziam que a esperança promissora havia retornado e a invasão de toda a Europa havia finalmente findado.

Os militantes liderados pelo leão britânico, com outros oficiais, irromperam as fronteiras da capital, enfrentando e dizimando sem nenhuma compaixão as tropas célticas e saxônicas, reconquistando cidadessemi-destruídas.

Muitos dos que lutaram ouviram os zumbidos de setas vorazes, entrecortados pelos gritos de feridos que pereciam em luta e pelos brados da guerra. Eles entraram com ímpeto pelos portões de vários castelos, massacraram os invasores que defenderam as muralhas e nenhum guerreiro ímpio foi poupado.

Já a Igreja incumbiu-se de um rígido procedimento de interrogatório, seguido de tortura e, por fim, a condenação de todos os hereges.

Líderes celtas, saxões e sacerdotes druidas foram capturados para julgamento nos bancos dos réus. Jovens e velhos, inclusive mulheres druidisas e saxônicas, sacerdotisas de uma confraria que venera Odin, senhor de Asgard, a Deusa-Mãe e o espírito místico da árvore, todos foram interrogados, julgados e sentenciados à morte pelo inquisidor-mor, pois preferiram morrer a ter de aceitar Cristo como seu verdadeiro Salvador.

As mulheres consideradas bruxas tinham seus seios despedaçados por tenazes em brasa e depois eram colocadas em grandes sacos de couro, em cujas pontas havia pedras amarradas, para, em seguida, serem lançadas vivas ao rio.

Já os hereges recebiam um tratamento muito diferente da Inquisição: a passagem por uma longa penitência de suplício era completada, antes de serem agraciados com a morte. Muitos foram enforcados em Londres, a mando da Igreja; outros foram queimados, para que sua existência nociva não mais incomodasse os cristãos. A medida que os corpos eram devorados pelo fogo, o sangue pingava ou as veias rompidas estouravam e chiavam nas incandescentes brasas. Tudo o que aqueles moribundos infelizes desejavam naquela hora de pura agonia era ter o líquido carmesim suficiente para acabar com as chamas.

Passados alguns meses, no castelo recém-restaurado do rei, o dia era ocupado por um festim em comemoração à sua grandiosa vitória sobre os arautos do contrário. As canções dos menestréis, acompanhadas por melodias de flautas, pequenas violas, liras, harpas e tamborins, inspiravam-se apenas no morticínio, e as gargalhadas ecoavam entre os matadores de homens.

Uma sátira irônica foi proferida por um soldado bretão, que se regozijava ao dizer que estava embriagando-se não com vinho, mas sim com o sangue dos inimigos cujas vidas tiraram.

Quanto a Loan, ele não se alegrou nem um pouco; ao invés disso, envergonhou-se. Lembrou-se do martírio das pessoas e ao mesmo tempo da obrigação de estar servindo em vão a sua pátria. Sentiu-se desiludido, pensando que estaria protegendo os inocentes dos inimigos de Deus, embora o anjo o tivesse repreendido.

Ao esfregar suas cicatrizes, parecia sentir o cheiro de carne retalhada entupir suas narinas. Mas era o peso de culpa no seu espírito, que jamais se extinguiria. Em sua mente havia uma sensação de sentir-se usado e sujo.

Loan viajava em pensamentos a relembrar os primeiros fatos que fizeram desencadear em sua vida todo esse mar tempestuoso. O passado voltava para assombrá-lo.

Era chegado o anoitecer e, na porta de seus aposentos, um dos servos anunciou a chegada de um inesperado visitante ao castelo dos Horsham, que desejava urgentemente ter uma audiência.

De imediato, um dos serviçais anunciou ao jovem nobre sua chegada:

Lorde Loan, perdoai o incômodo, mas está aqui um homem que deseja muito vos falar. Incitado pela curiosidade, disse:

Presumo que essa pessoa tenha algum nome... - Diz chamar-se Zélothy e é um franciscano.

- Dizei a ele que me aguarde. Descerei em breve.

Passados alguns minutos, Loan Horsham seguiu para a antessala onde aquele desconhecido transeunte o esperava.

- Sim, meu senhor, o que desejais?

Aparentemente aflito, o homem com vestes de frei levantou-se do divã às pressas e seguiu ao encontro dele.

O frei olhou fixamente para o homem de cabelos bem modelados e porte de verdadeiro gladiador. E percebeu então que era Loan, o herdeiro da casa dos Horsham. Concluiu ter chegado a hora de revelar um grande e terrível segredo.

- Não temos muito tempo, precisais ouvir o que tenho a dizer-vos... Pois não, dizei! - falou Loan com expressão de espanto.

- Deveis aceitar Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador, o mais breve possível. Perdoai-me, frei, mas já creio nisso...

Porém não está revestido do espírito, como mandam as Sagradas Escrituras da Bíblia. Pela santa conversão, limpareis o vosso interior de toda a perversão e enchereis vossa alma de luz e verdade proveniente do Espírito Santo de Deus. Somente assim podereis derrotar o rei dos demônios.

Loan tentou contradizê-lo, mas foi abruptamente interrompido pela voz desesperada do visitante:

Ele matou muitos para conseguir o que quer, e matará tantos quanto for necessário, para quebrantar vossa fé. Só por meio da magnificência de nosso Senhor Jesus poderá resistir ao manjar que irá oferecer-vos. - Aceitai o Salvador enquanto há tempo!

Em meio a palavras desconexas, Loan, um tanto indignado, buscava uma maneira para dar fim àquela desagradável situação. Ao mesmo tempo, procurava compreender por que o frei apertava firme aquela cruz de madeira que trazia presa a um cordão no pescoço.

- Perdoai-me, tenho assuntos inacabados a tratar, os quais exigem a minha urgência.

Disse isso dando-lhe as costas. Zélothy, por sua vez, de maneira eufórica, agarrou forte o braço do fidalgo, deixando-o tomado de sobressalto.

- Eu vos imploro, ouve o que tenho a dizer-vos. Conheci vosso avô e em sua casa testemunhei algo bizarro, pois na época éramos muito amigos. Ouve-me, eu vos imploro...

Contemplando tamanho medo estampado na face daquele homem, Loan mostrou-se caridoso e resolveu voltar a atenção para o alienado franciscano.

Muito bem, continuai. - deu um sorriso amargo.

- Necessito salvar-vos, só assim redir-me-ei com Cristo, pelo grande pecado que cometi. Todos aqui correm um grande perigo.

- Como assim?

- Sei tudo sobre um membro de sua família...

- Qual deles? - perguntou Loan, tomado pela curiosidade.

- Escutai-me: naquela noite, ajudei a trazer o mal à casa de seu avô; eu o vi voltar à vida...

- Mal?

Sim. O mal encarnado na aparência de uma mulher. - Quem? É alguém que eu conheça?

Não, esta mulher nefanda é diferente; com seu coração maligno, ela ressuscitou o...

De repente, outra figura entrou na sala, interrompendo o diálogo forte de ambos. Era o lorde Charlie Horsham, pai de Loan, com o olhar fixo no visitante.

- Queira desculpar-me a interrupção, frei. Admiro vosso interesse em visitar-nos e demonstrar seus conhecimentos religiosos para meu filho Loan; todavia, precisamos neste exato momento comparecer a uma importante reunião, na qual requisitam a presença imediata, minha e a de meus filhos. Podeis ficar à vontade até nosso regresso.

Sentindo-se frustrado, o franciscano respondeu:

- Agradeço-vos a amável hospitalidade, milorde. Mas, não vos incomodeis comigo, haverá outras oportunidades para dialogarmos mais sobre os desígnios de Deus.

ao dizer isso, cumprimentou Loan um tanto apressado e, sem que o conde percebesse, passou-lhe um pequeno papel durante o aperto de mãos.

- Ficai em paz.

Cabisbaixo, o frei retirou-se, rumando pensativo à saída daquela casa ilustre. Loan voltou seu pensamento àquela repugnante festa de vitória:

Essas pessoas enganam-se achando que estão fazendo a vontade do Pai, matando seus semelhantes, por pior que sejam, e usando com altivez sua autoridade, pensando cumprir a lei filantrópica de Jesus Cristo. Ao invés disso, estão semeando e cultivando a destruição para si mesmos, condenando e afirmando o sufrágio de suas almas para o desfrute do inferno, e satisfazendo o mal mediante ações atrozes.

Mesmo refletindo assim, ficou à mesa com os outros, observando-os em silêncio, mas permanecendo à parte das festividades. Após algum tempo, a maioria dos convivas se prostrara, num estupor de embriaguez.

Quando chegou a meia-noite, o guerreiro templário rapidamente se ausentou do salão de festas e, adquirindo algumas provisões, montou na sela de seu cavalo. Silenciosa e vagarosamente, aproximou-se dos portões, sempre bem vigiados. Com algumas palavras, ordenou às sentinelas que os abrisse, pois precisava partir com urgência. Em silêncio, os vassalos resignadamente obedeceram.

A noite caiu em sua profundidade, e havia muitas estrelas brilhantes no céu. Então em silêncio, Loan, a galope, dirigiu-se para o norte, tendo apenas os olhos e ouvidos atentos indo estrada adiante, com o vento noturno ondulando sua capa ao brilho da formosa Lua, que, como um farol, iluminava seu caminho.

No tempo de batalha em que esteve, depois de ver tantas vísceras esparramadas, bruxas serem queimadas pela Inquisição, pais de família mortos, deixando o pânico e o sofrimento como herança para os parentes vivos, Horsham aprendeu as lições básicas da árdua vida, ou pelo menos refletiu sobre elas, enquanto as horas deslizavam sorrateiras.

Apesar de ter sido rejeitado por seus entes no passado, ele sabia que tinha uma família; passados os terríveis dias de guerra, estava aflito, embora com esperança de reatar os laços familiares, após a crise que ambas as partes sofreram.

As horas já haviam deslizado pela rampa do tempo, e o cavaleiro estava só, passando no meio de um vale, onde houvera uma horrenda batalha. O lugar agora se tornara um antro de morte e putrefação. Os únicos sons que se ouvia eram o zunir das moscas e o bater de asas dos abutres que se banqueteavam com a carne pútrida dos soldados mortos.

Quando os primeiros raios do sol tocaram o solo, a neblina matinal dissolveu-se. Com isso, a vista mórbida da carnificina foi revelada. O cruzado repugnou-se diante de tamanha imagem de destruição que a guerra gerou; por outro lado, agradeceu a Deus, que lhe concedera habilidade e experiência suficiente para não ter se tornado mais uma vítima, como aqueles pobres coitados.

Observando o caminho, um tanto cuidadoso, o aventureiro solitário conduziu habilmente seu cavalo para que não pisoteasse os corpos mutilados nem as armadilhas em forma de buraco, onde ulanos em luta pagaram um alto preço diante do primitivo método dos inimigos. O sol erguia-se lentamente, e o combatente inglês quase se asfixiava com o penetrante fedor que se elevava no ar.

Tudo era pungente e cheio de desesperança. O mundo não havia acertado o passo, e ele pressentia que aquilo não acabara, sendo que qualquer coisa poderia acontecer... Qualquer coisa...

O tempo agora parecia passar bem devagar, e Loan, depois de viajar muito, finalmente chegou à casa, ou ao que restou dela. Seus olhos se arregalaram e um grito de horror brotou de sua garganta, ecoando nas paredes das ruínas. Os músculos dos braços ficaram tensos e os sentidos aguçados. Desceu rápido da montaria e correu até os escombros.

Ele sentiu a solidão abraçá-lo e o barulho de paredes ruindo. Loan reprimiu-se, pois as imagens daquele cenário triste lhe revelavam que sua casa fora profanada. Seus guardas, servos e pessoas a quem ele muito se afeiçoou durante sua infância agora estavam espalhados no chão, e suas carnes, de forma atroz, consumidas pelo fogo.

Todo o patrimônio construído por gerações não passava de cinzas. Tudo o que tinham de valor, ouro, tecidos de seda, especiarias em geral, havia sido furtado por aqueles verdugos animalescos.

Ele suspirou. Inconsolável, continuava andando sempre em frente, procurando algo em meio aos escombros, querendo ter certeza do destino de seus pais e irmãos, já que os serviçais estavam todos mortos. O cheiro fétido de carne queimada invadia-lhe as narinas, fazendo-lhe embrulhar as entranhas, em ânsias.

Virando-se para o lado, seu corpo inteiro estremeceu. A espada, da qual muitos sentiram o golpe letal, escapou-lhe da mão, e o coração pulsou com mais violência.

Ele avistou cinco túmulos enfileirados, feitos de pedras, e na frente deles, cruzes de cabeça para baixo feitas com galhos de árvores, contendo objetos pessoais. Era tudo que havia restado de uma estirpe de nobres.

Aproximando-se das sepulturas, ele cuidadosamente retirou pedra após pedra para confirmar o que a consciência confusa e aflita lhe dizia e esclarecer a dúvida que o torturava. O sobressalto veio com o cheiro acre que exalava dos corpos, agigantando ainda mais o fogo de sua ira: os cadáveres estavam sem as cabeças e sem vestimentas, e todos os corpos encontravam-se marcados pela tortura.

Os pensamentos do inglês sustentavam um intenso ódio pelos nobres e por si mesmo, no momento em que sua mão recolhia um anel, do dedo encaveirado de um dos cadáveres, contendo o emblema da família. Uma vez mais, sua mente foi visitada pelas recordações intrigantes que rodearam sua vida em meio a todo aquele sofrimento.

Loan chegou ao local indicado por aquele que o havia visitado um dia atrás. Sim, ele havia guardado bem aquele bilhete dos olhos de todos. Nem sequer pudera conversar com Zélothy, mas a curiosidade furtara- lhe o sono durante a noite; estava ansioso sobre o que aquele homem poderia lhe dizer. Achou apropriado o local para o encontro, pois jamais admitiria outra interrupção.

Mais adiante viu o frei sentado à beira do lago, onde pacientemente o aguardava, jogando algumas pedras na água, que se agitava lentamente.

Aproximando-se dele, anunciou:

- Muito bem, eis-me aqui. Dizei-me o que tendes a revelar.

Zélothy, porém, não fez nenhum movimento brusco. E, continuando a lançar as pedrinhas, começou a falar:

- Havia um sinal no céu que foi visto por muitos: uma mulher vestida do Sol, cujos pés apoiavam-se na Lua. Sua cabeça estava adornada com uma coroa de doze estrelas. Ela estava grávida e, com as dores do parto, gritava com ânsias de dar à luz. De repente, surgiu outro sinal no céu, e dele apareceu um dragão escarlate que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre elas sete diademas. Sua calda levou consigo a terça parte das estrelas e jogou-as sobre a Terra. Depois, a fera parou diante da mulher que havia de dar à luz, porque no momento em que a criança nascesse ele a devoraria. E ela deu à luz um varão que, com autoridade, haveria de reger todas as nações com vara de ferro. Mas seu filho foi arrebatado para o refúgio de Deus em seu trono. - E continuou: - O livro das revelações me ditou isso.

Não vim aqui para ouvir sermões de um frei louco! - replicou Loan.

- Será na forma de uma mulher que "ele" se manifestará. Mas seu tempo na Terra é curto. O corpo que ocupa não é apropriado para sua permanência, pois fica debilitado rapidamente e apodrece. Ele precisa de um corpo gerado pelos mesmos laços familiares, mas que possua seu sangue negro nas veias. Haverá um escolhido que será incitado a cumprir três profecias; e, no instante em que forem consumadas, Satã subjugará seu espírito e tomará sua carne como vestes. Assim ele poderá livremente travar sua terrível ofensa contra o Criador e seu Filho.- Escutai, acho que...

Ide para a Floresta Verdejante, em Nottingham. Lá, procurai o velho Mictã. Ele vos dirá tudo que precisais saber para que purifiqueis sua alma e seu corpo.

- O que dizeis? - bradou Loan, sem nada entender.

- Se não fordes resgatado pelo Pastor, serás massacrado pelo Lobo! - respondeu Zélothy no mesmo tom de voz.

- Vim para saber de vós por que minha família corre perigo. Sereis afastado dela...

- Como assim?

- A besta não deixará que fiqueis unidos. Vossos entes serão dizimados feito cordeiros, e isso vos fará cumprir a segunda profecia.

- O que me dizeis não faz sentido algum. Acaso estais embriagado?

- Um membro de vossa família é um assecla do demônio. Ele matará todos que amais e depois vos provocará para que toda a luz de vosso coração seja desfeita. E, quando a criatura obtiver êxito no que quer, semeará a semente arcana sobre a raça humana, e suas proles tomarão o lugar deles.

Basta!

Loan tentou impedir que Zélothy continuasse a falar, mas ele não lhe deu ouvidos e prosseguiu:

E, assim que não restar nenhum homem na Terra, ele cobrirá este mundo de trevas, com o sangue de bilhões de inocentes.

- Vós sois um louco! - gritou Loan irritado, por aquilo que achava não passar de uma "história absurda". Zélothy tentou convencê-lo:

- O mal tem de ser detido, agora!

Pedistes que viesse aqui. Cumpri minha parte. Agora, deixarei que vos embriagueis nessa loucura. - Vá a Nottingham e procure Mictã enquanto há tempo...

Loan retrucou:

- Eu vos ouvi; escutai-me agora: jamais quero estar em vossa presença novamente! Zélothy, em brados, avisou-o:

- Acautelai-vos! Sereis submetido a uma difícil escolha. Andareis sobre o corpo da serpente do desconhecido. Encontrareis em sua boca a verdade na forma de páginas, revelações de vidas passadas, que vos envenenarão a alma!

Sem querer ouvir mais nada, ele simplesmente montou em seu cavalo e deu as costas ao franciscano, que bradava em desespero.

Assim que escutou o primeiro trote de seu animal, Loan foi resgatado para a dura realidade, no mesmo instante em que apertava forte, em sua mão, o anel de seu falecido pai. Apesar dos conselhos que frei Zélothy lhe dera naquela época, o cavaleiro resolveu não levá-los em consideração, acreditando firmemente tratar-se de um lunático.

Lembrou-se de que dera ouvidos a uma entidade, acreditando ser ele um anjo enviado por Deus. Deixou seu caráter ser reformulado pela obediência à lei divina em ser santo e anunciador da boa nova de sua conversão pelo Criador Majestoso do universo. Honrara com o coração as leis primordiais de Cristo, mas foi-lhe dada como recompensa, de sua fidelidade e submissão, a destruição da própria estirpe. Isso o fazia questionar-se.

O sentimento de culpa persistia, porém ela não era somente sua; refletia. Era também da Igreja e de todos os fidalgos de cujo grupo fazia parte. Sua mente o julgava: havia falhado com seus entes queridos, em um momento crucial. Sua crença estava acima de tudo, era seu único propósito, um dever sagrado. Ela o levou a renunciar o mundo por amor a Deus. E, no entanto, ele não pôde defender seus pais e irmãos, pois tinha a incumbência de retomar a Inglaterra das mãos dos adoradores pagãos.

Trágico e triste, todo o acontecido ficou gravado na memória e no semblante do leal guerreiro, de forma um tanto desesperadora. Indagava-se: onde poderia estar seu erro? Será que algum dia conseguiria livrar- se da sentença pela qual a consciência o condenava, para alcançar o perdão daqueles que foram mortos desprovidos do seu auxílio?

Neste momento, naquele lugar, a terra que antes inspirava poesias e beleza encontrava-se deflorada pelo terror da guerra.

Loan Horsham, o nobre pertencente à sagrada Ordem do Leão, estava com o coração sangrando pelo delito. Com a mente em conflito, despiu a mão direita da luva e, observando-a, pôs-se a meditar: Dias atrás, recebi na palma o símbolo de uma pomba, presente dado dos céus, por um anjo, para que fizesse frente às forças do mal.

Os olhos do cruzado engordaram-se de raiva e seus pensamentos foram tomados por uma nuvem negra. Sabendo que sua linhagem jamais voltaria ao seu convívio, uma blasfêmia projetou-se dos lábios. Sacou, então, um punhal da cintura e elevou-o para o alto.

- Eu renuncio à minha fé e a tudo que ela representa, e que o fogo do inferno consuma o maldito que me impôs este selo!

Impiedosamente, atravessou a lâmina pontiaguda sobre a palma da própria mão. Ao corte decisivo, o símbolo foi banhado de sangue.

Naquele momento, um relâmpago rasgou o espaço, ofuscando o límpido céu azul, e seu raio atingiu com força a terra, a alguns metros do transgressor. O peso do trovão fez estremecer o chão sob seus pés, como repreensão ao seu ato pecaminoso.

Loan já sentira muitas dores em seu forte corpo, mas nada comparado ao que estava sentindo com aquela gravíssima lesão. O sangue jorrava em abundância. No entanto, retirando a arma perfurante, ele não se deu por satisfeito e, ignorando o que acontecia à sua volta, novamente plantou o punhal na mão, na tentativa de desunir a marca da carne. Mediante tamanho sofrimento, Horsham emitiu um grito tão selvagem de agonia que poderia fazer desmoronar o restante das paredes que, por enquanto, permaneciam de pé. Prostrado ao lado das sepulturas violadas, o som estridente partiu de seus dentes cerrados, pois começava a arquejar, na tentativa enlouquecida de absorver o ar.

Após algum tempo, blasfemou:

- Nada mais... De ser lacaio de fantasmas!

Enfraquecido ante a imensa aflição e pela perda excessiva de plasma vital, lançou-se ao chão, ligando sua face ao pó da terra. Brados irados se converteram em prantos inconsoláveis. Chorou constantemente, desde a hora matinal até a hora da vigília. Seus sentimentos estavam quebrantados, e sua mente, inundada pela dor.

Ainda que coberto pela amargura, extraiu forças do espírito e juntou os corpos de seus familiares. E em respeito a eles ateou-lhes fogo, cremando-os, para não deixá-los à mercê de animais selvagens.

Dois dias depois...

Mal a noite caiu em Castle Bromwich, divisa de Birmingham, e as ruas já não estavam tão movimentadas quanto antes. Surgindo em uma delas, um cavaleiro invadia o seu silêncio, com o trote vagaroso de seu cavalo. Seu corpo estava quente, mas o calor que sentia não era provocado pelo clima, e sim pela chama da revolta que consumia sua alma. Percorrera campos verdejantes e passara por planícies áridas com o único objetivo de chegar àquele lugar.

Na mão mutilada, a agonia era opressiva e enervante. O animal estava entregue ao cansaço, e o combatente desacreditado tinha os pensamentos voltados para o cemitério que antes fora seu lar, e onde todos os seus parentes foram impiedosamente chacinados, restando deles apenas lembranças estilhaçadas. Por tudo isso, sua vida seria dedicada à caça dos assassinos, e somente com a vida deles vingaria sua família.

E a noite caiu na Inglaterra, feito uma mulher que se entrega ofegante ao seu amante.

O cavaleiro templário chegou ao fim da jornada, avistando à sua frente uma grande fortaleza. Descendo da sela de sua montaria, avançou lentamente até as dantescas portas maciças, escondendo o objetivo que somente ele conhecia.

No interior do castelo, em um aposento especial coberto de grande luxo, um homem, vestido com trajes exuberantes, preparava-se para deitar em seu leito, quando bateram à porta.

Transpondo-a, um dos serviçais anunciou, prestando-lhe reverência:

- Perdoai a falta deste vosso servo, eminência, mas há um cavaleiro que deseja falar-vos com extrema urgência.

- E quem é ele? - indagou o representante da Santa Igreja. -- Ele diz ser um nobre, um homem chamado Loan Horsham...

- Trate-o como tal! - retrucou o cardeal, admoestando a atitude irônica do serviçal. - Dizei a ele que irei recebê-lo.

- Sim ,eminência.

Envergonhado, o servo retirou-se dos aposentos.

Em outra parte do castelo, Loan estava apreensivo. Apesar da aflição pela qual passava, desejava falar às pressas com o ministro da fé, talvez apenas para desabafar e tirar o peso de seus ombros, seu tormento. Para ele, os minutos se tornavam uma eternidade e a paciência parecia esvair-se.

De repente, ouviu os passos de guardas que se aproximavam. Um deles declarou: Sua eminência irá cordialmente receber-vos, irmão Loan. Por favor, vinde conosco.

E foi. Andando por cômodos e corredores que percorria ao lado de outros membros da Ordem, ele observava a austeridade e a rigidez de toda aquela arquitetura.

Entrementes, num luxuoso salão da fortaleza de pedra, tendo apenas uma imensa mesa de madeira e uma cadeira que ostentava beleza em seus formatos melindres, o sacerdote estava sentado em ócio, os olhos fitos na porta, na expectativa de ouvir o que aquele cruzado tinha a lhe dizer. Não esperou muito, e a porta se abriu. O vassalo fez um gesto para Horsham entrar, anunciando:

Sir Loan Horsham, eminência.

A luminosidade tênue do corredor invadiu o salão momentos antes de ele adentrar o local e de a pesada porta fechar atrás de si. Com um olhar frio e passos firmes, Loan atravessou o recinto, ficando frente a frente com o prelado-mestre. Este se levantou e estendeu sua mão para o guerreiro; porém, ele se manteve imóvel, negando-se a prestar reverência a seu superior. O cardeal-patriarca nada comentou, mas seus olhos cintilaram com insatisfação pelo ato de desonra cometida pelo soldado-monge. Sentando-se, então, em sua confortável cadeira, disse:

Espero que tenhais um bom motivo para vir a esse castelo. Loan respondeu:

- Eu vos respeito.

Não me parece que tenhais sido sensato; nem mesmo honrastes minha autoridade. - Como disse, eu vos respeito - repetiu Loan ao lorde religioso.

- Podereis começar honrando a vós. Vós vos tornastes um guerreiro de Cristo e um bravo varão, cujas ações despertaram a atenção e os elogios do rei. Não dizeis nada sobre isto?

- Acabo de vir de minha casa, ou do que restou dela, e o que vi não me agradou nem um pouco. Minha família foi chacinada com os piores requintes de crueldade e seus corpos foram abandonados à própria sorte, refugos da terra, tudo isso por vontade dos nobres!

Eu soube disso. Meu fiel mensageiro trouxe-me a notícia desta terrível tragédia. Houve grande pesar da monarquia; infelizmente, foi uma perda profundamente lamentável.

Loan retrucou:

- A carne deles é a minha, eminência, e já carrega a estampa da Inglaterra!

Os bárbaros pagãos estão mortos e o que eles fizeram foi sepultado no inferno com eles! - respondeu o prelado. - Eu conhecia lorde

Horsham, vosso pai: um fidalgo de enorme grandeza. Não foi sem motivo que adotaram o emblema do leão candente. Além disso, morrer como um herói que defende sua moralidade fidalga é uma honra tanto para quem parte quanto para quem fica.

O ato não foi somente de meu pai; vi isto nele. Este título maldito e a riqueza que adquiriu espalharam-se em seu sangue como uma peste irreversível. A ordem monástica e a Inquisição acabaram com minha linhagem bem antes que os inimigos pudessem destruí-la.

O ministro eclesiástico replicou:

- Onde existir a altivez da plenitude, o imponente governo em responsabilidade e tamanha sede de poder, e até mesmo um sentimento de comiseração, o erro não será aceito perante os nobres; apesar disso, aprendemos e progredimos com as falhas. O império britânico te responde que és o único remanescente da sagrada Ordem do Leão. Ele está pronto para unir a vossa vida à dele, num grande futuro!

- Há outros caminhos que posso seguir - declarou Loan. O cardeal o contradisse:

- O caminho é Vossa Majestade, o Rei. Além de ter o poder de vos restituir vossa castigada terra, irá também condecorar-vos com títulos jamais sonhados. Ele vos dirá para não vos acorrentares a velhos ressentimentos de culpa e não vos apegares a uma sombra de impossíveis vinganças fúteis, pois o que aconteceu com os vossos não foi por procedência vossa. Todos nós dependemos do nosso rei. A independência perfeita não existe, e, no presente, o mundo é a monarquia. Tenho certeza de que vós escolhereis isso.

Loan visualizou bem a face do cardeal-patriarca e, deixando as palavras fluírem de sua boca, anunciou vagarosamente a resposta:

Neste exato momento, eu rompo minha aliança com a Igreja e renuncio às propostas de vosso rei.

As duras palavras do inglês surtiram efeito de um raio que divide uma árvore ao meio. Acendendo o fogo da ira e levantando os olhos para o templário, o cardeal lhe disse:

Atravessei por aquela porta e assentei-me nesta cadeira. Falei-vos com amizade, condolência e respeito, como teria falado com o próprio rei. Mas, quando me levantar daqui, serei a mão de Deus pronta para aniquilar todos aqueles que desafiam a coroa real! Há demasiados homens infames, com inveja e ambição, que tentam usurpar o trono de Vossa Majestade! Homens que se extinguiram para sempre deste mundo, tais como o líder deles, Jacques de Molay, e toda a sua ordem Templária, graças às primícias do céu que foram concedidas ao Santo Papa Clemente V e ao rei da França, sua majestade Felipe IV, esses importantes varões varreram aquela corja do mapa de uma vez por todas!

As palavras assustaram o cavaleiro, retorcendo suas feições, fazendo- -o balbuciar em réplica, quanto mais a dor tocava com uma estocada lancinante sua mão que ainda sangrava.

Ora, eminência, não foram os membros da Santa Madre Igreja que enviaram uma carta para Vossa Santidade, o papa, pedindo que restituísse a Ordem dos Templários em toda a Europa para que pudessem fazer frente aos inimigos de Cristo, e agora querem nos descartar num processo inquisitorial como se fôssemos algum tipo de moléstia? É isso que queres me dizer? - E acrescentou: - E não foi o próprio Jacques de Molay, antes de ser queimado na injusta fogueira da Inquisição, que anunciou ao rei e ao papa que eles teriam de comparecer diante do tribunal de Deus, antes que aquele ano terminasse?

O cardeal sorriu com uma afirmação irônica, embora as palavras de Loan causassem um furor sobejante em seu íntimo.

- "Eis que eu farei, aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem, eis que eu farei que venham e adorem, prostrados aos teus pés, e saibam que eu te amo. Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra. Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa." - relatou o prelado as escrituras.

- Poderias tu ser mais específico? - perguntou com um ar de indiferença.

- O que eu quero deixar bem claro, Loan, é que a Ordem dos Míseros Cavaleiros de Cristo nada mais é do que um arauto das trevas, veneradora de um ídolo místico e diabólico, do qual os antigos Templários bem antes de vós foram flagrados praticando ritos nefastos em suas cerimônias secretas. Sua pútrida devoção era entregue a um ser nefando sob a forma de uma cabeça com três faces hediondas, denominado Baphomet.

Ainda não me disseste o que eu quero saber. - replicou o cavaleiro.

- Supus que, em minhas atuais circunstâncias, seu cérebro selvagem inspiraria um pouco mais a inteligência, em vez de apenas manusear a espada. - disse o prelado.

Horsham o encarou com uma fúria silenciosa, sabendo que o cardeal queria lhe transmitir uma notícia nada agradável. No entanto, resolveu exprimir sua dedução.

- Entendi, queres me deixar claro que somos apenas meros fantoches, e que estaríamos nos moldando na coisa que predispomos a destruir, o mal cultivando o próprio mal. Que estaríamos usando o nome de Deus em vão como num baile de máscaras, para poder fazer o que bem entendermos: matar nossos semelhantes, estuprar mulheres indefesas, vender crianças e velhos só pra obter lucros e servir de adoradores de demônios só para conquistar riquezas e satisfação aqui na Terra. É assim que nos julgam, eminência?

Então, o prelado-mestre respondeu:

- Sua determinação e coragem em se expressar é surpreendente, devo dizer, mas, quanto à possibilidade que mencionaste, está repleta da mais nítida verdade.

Naquele exato momento, o cruzado percebeu quais seriam as intenções da Igreja e do rei. Um chicote de traição atingiu em cheio a devoção por seu país, terra pela qual antes daria sua vida com extrema honra. Por meses ele se dedicou com sentimento e sangue, fazendo transbordar com espírito combatente todo o seu valor de luta. Mas agora ele percebeu que era peça mais do que descartável, uma ameaça para toda a Europa, cada homem que se vestisse de manto branco com a cruz de malta vermelha estampada sobre o ombro esquerdo. Os novos templários, os hospitalários, os monges e os padres que compunham a Ordem seriam capturados, torturados e forçados a confessar, sem culpa, crimes de heresia, e seriam levados à morte pelo poder da Inquisição.

A amplidão daquela discussão já estava atingindo seu auge. Dois homens em um salão, donde o brilho tremulante das grossas velas era sua testemunha e lá as bestas espirituais escarneciam como música sombria na mente do templário. Numa rodopiante revolta de sua alma guerreira, atravancado de indulgências sobre a própria vida, sobre as irremediáveis chagas infinitas, seus ouvidos foram forçados a coletar uma exposição sucinta de um fato.

Além disso, recebi uma mensagem de tuas tropas, alegando que tu protegeste uma serva do diabo. Eles olhavam para ti como um enviado de Deus, e o que dizem de ti hoje? Que não passas de um herege! — bradou o sacerdote. - Se permaneceres aqui, tornar-te-às um inimigo dos nobres!

Com um ar de desafio, Loan manifestou de modo claro e terminante o teor ousado de suas palavras:

- Já sou inimigo dos nobres.

Então o ministro eclesiástico, admirado pela pesada confissão, replicou:

Mesmo que queiras, não posso proteger-te da catástrofe pessoal se ficares aqui. Tu és uma ameaça grande demais, até mesmo para a Santa Madre Igreja!

Com pose desafiadora, Loan respondeu ao ministro eclesiástico:

Acaso me consideras um perigo por que lutei com virtude e fé sem exigir pagamento de ninguém? E prosseguiu:

- Esse erro não perdurará em minhas costas. Porém, não foste tu, eminência, que, com a ajuda oculta de alguns fidalgos e o apoio de outros templários corruptos, arrecadaste grandes quantias, cobrando altos tributos de todos os patriotas, e desviaste tudo dos cofres reais, só para realizar as mais diversas transações sem que ninguém pudesse acusar-te, pois temias por tuas vidas, com medo da Inquisição? Isso não é mesmo verdade, santo cardeal?

A existência daquelas alegações foi como o estilhaçar de um vidro após o impacto de uma pedra. Loan sabia que sua atitude poderia custar-lhe a vida, mas, confiando em si, ele aguardava atento a resposta daquele fidalgo eclesiástico.

- Destruíste por completo o emblema de tua família! Expuseste teu pai ao ridículo perpétuo. Ele derramou seu honrado sangue para salvar a tua ignóbil vida, e pelo que pude contemplar foi um gesto louvável, mas sem fins proveitosos! Aceitei o preço do sangue dele, para alcançares teu perdão e livrar-te do Santo Ofício! Em consideração à amizade e à memória de Charlie Horsham, ordeno-te que te retires deste país antes que eu clame a autoridade dos céus e o poder da Santa Madre Igreja, conferida a mim, para que te destrua pessoalmente, ser blasfemo!

Loan não teve coragem de reprová-lo, para não acender ainda mais sua fúria. Apenas reprimiu uma lamentação provocada pela ferida em sua mão, e em silêncio deu as costas ao ministro religioso, indo direto para a porta de saída.

Novamente as palavras do fidalgo atingiram os ouvidos do ex-templário, fazendo-o parar por instantes. - Deixe a Inglaterra, já tens o meu aviso!

Então, o cavaleiro retirou-se do salão a passos largos, deixando para trás o cardeal, que permaneceu pensativo e iracundo, apertando firmemente seus braços nos entalhes da cadeira.

Passando pelo corredor que antes atravessara, Loan viu um grupo de dez soldados templários montando guarda por alguns andares do castelo. O olhar rápido havia sido o bastante para alertá-lo. Em instantes, poderia ser capturado e submetido a torturas, para que confessasse, em falso, seu apoio ao mal. Embora se visse livre para ir e vir, ele sentiu algo penetrando sua alma, prevenindo-o de algum perigo.

Nada mais havia para ele naquele país de cobiça e corrupção. E, acatando a ordem da autoridade monástica, seguiu com seus passos firmes cruzando o pátio.

Da janela dos aposentos, o prelado-mestre lançava um olhar preocupado em direção ao solitário combatente, instantes antes de ele sair daquela fortaleza com seu cavalo, quando outro homem adentrou em seus aposentos.

- Mandaste-me chamar, eminência?

- Sim, Mordred. Temos um gravíssimo problema. Ordenai a um mensageiro que leve essa mensagem ao rei. Dizendo isso, o fidalgo, de túnica branca bordada com fios de prata, abriu uma caixa de madeira decorada artisticamente e, pegando um rolo de pergaminho, entregou-o ao vassalo. Nele estava escrito: Encontramos o corpo de milorde Loan em um altar, totalmente nu, desmembrado e terrivelmente desfigurado pelos auguristas que ainda restaram.

Enquanto isso, no presente...

As lágrimas de Loan rolavam por sua face ferida, fazendo com que Rúbia se compadecesse dele. Não fiques triste, estás entre amigos aqui.

Mesmo com os olhos molhados, ele se esforçou para sorrir.

São enunciações bastante consoladoras, mas sinto-me deslocado neste lugar; estou completamente perdido...

- Não te sentes seguro aqui? - interrogou a moça.

Segurança... Eu a sentiria com minha família... Isso se eles estivessem vivos - resmungou o homem. Sentindo-se magoada, a camponesa inclinou levemente a cabeça, enquanto Loan, ao reparar, disse, envergonhado:

- Desculpe-me, Rúbia, eu te molestei com minha grosseria...

- Não - balançou a cabeça como se o compreendesse. - Entendo o quanto sofreste, e que ainda não estás totalmente recuperado, mas o pior já passou. - a voz da moça lhe expressou ternura.

A mente dele já tinha se acasalado com o ódio, e o sentimento de furor já fazia parte do seu ser interior. Apesar das frases calmas e doces da moça, aquele homem continuava a insistir no passado.

Estava eu passando por Dartmoor, quando fui intrepidamente surpreendido por um grupo de homens encapuzados que se diziam ser entes dos celtas mortos e queriam obter seu consolo com a minha vida. Andando despercebido, Loan seguiu com sua montaria por uma trilha localizada no coração da mata, porém o que aconteceu a seguir quebrou toda a paz daquele lugar. Com muito alarde, uma turba encapuzada de túnicas negras surgiu em meio à flora. Avançando contra aquele cavaleiro solitário, os homens apresentavam uma intensa fúria lupina. O brado dos agressores aterrorizou o equino, pondo-o empinado sobre as patas traseiras.

No esforço de se manter montado no animal, Loan desequilibrou-se dos estribos, desabando ao solo, atingindo-o num impacto seco e doloroso.

Durante um momento, ouviu apenas o relinchar de seu cavalo, que fugia apavorado floresta adentro. Então, veio o grito feroz do líder, anunciando aos da emboscada que era chegado o momento exato para o ataque.

Mal se recobrando do tombo, Loan, guiado pelo desespero, foi forçado a ignorar a dor de sua mão direita, que voltara a verter sangue. Tateando às pressas a cintura, segurou firmemente o punhal e, levado pelo instinto, discerniu um dos agressores que se aproximava rápido para desferir-lhe o golpe mortal de seu machado.

No tempo certo, Horsham ergueu-se com a agilidade de uma serpente e o atacou como um tigre faminto, plantando sua lâmina na parótida do infeliz inimigo, não lhe dando tempo sequer para uma nova investida. No mesmo momento, outro encapuzado reagiu, arremetendo-se contra o cavaleiro na velocidade de um lobo, mas, com extrema habilidade, o corpo do templário girou, torceu-se e desviou- se, enquanto a lâmina inimiga apenas perfurou sua capa, deslizando inofensiva entre o braço e o peito.

Por sofrer um ataque direto, o hábil combatente apertou firme o cabo de sua arma mortífera e, lançando-a rápido, fracionou o capuz e o crânio do outro na altura das orelhas, com um só golpe.

Sentindo-se confortado, ele chegou a pensar que aqueles homens que o atacaram eram os mesmos que outrora mataram sua família. Sendo assim, manifestaram-se para pôr fim ao remanescente de uma poderosa linhagem. Isso o animou muito, revelando-lhe um sorriso cínico nos lábios.

Mas deteve-ve no súbito instante em que uma das figuras revelou-se para ele, desconcertando-o em sobressalto.

- Mordred? - admirou-se Loan, que por instantes se deteve.

- Tu não és digno de estar entre os vivos, pois inventaste perjúrios contra vossa eminência — respondeu Mordred.

- Perjúrios? Usando o nome Santo de Deus, tu e tua corja usais de métodos obscenos para atingires objetivos torpes! Não passais de excrementos podres! - respondeu Loan, com o ódio fumegando em seus olhos.

Quando Horsham correu em direção a Mordred, outra figura traiçoeira se precipitou sobre o ex- templário. Em vão, pois a tentativa se tornou fracasso quando o traidor sentiu o metal frio dilacerar suas entranhas. Percebendo uma nova investida, Loan, aflito, agarrou o indivíduo que, ainda vivo, bradava de dor e usou-o como escudo. O inimigo, sem demonstrar nenhuma piedade, atravessou o corpo do próprio companheiro. E a ponta da espada atravessou a armadura de Horsham, atingindo a malha de ferro apenas com um tinido.

De forma brusca, o renegado tentava retirar a arma das tripas do moribundo, que, em mortificação, arranhava a face do inglês. Cego por um momento, Horsham se libertou, arremessando brutalmente seu agressor contra uma árvore próxima.

Vencido pelo cansaço físico e fraco pela perda constante do líquido rubor, por causa do ferimento de sua mão, o cavaleiro cruzado cambaleou em direção à floresta, sabendo que seus algozes viriam ao seu encalço para terminar o serviço.

Com a vista embaçada, devido ao escarlate que vertia da testa, Horsham tentava manter-se em combate. Todavia, hesitou em desferir seu golpe, até ser tarde demais. O flagelo o abraçou como uma serpente que crava suas presas. No momento crucial em que sentiu uma flecha de ponta farpada trespassar o lado esquerdo do tórax e o aço frio da espada de Mordred atingí-lo por trás em seu flanco direito, diante de tamanho suplício a espada do cavaleiro do leão lhe escapou da mão, e suas forças se escassaram por lutar com um número maior de soldados.

Fatigado, Loan tropeçou e caiu.

A lucidez pouco a pouco foi sendo substituída pelo estado de inconsciência, e a locomoção de seu corpo, comprometida pela violência da luta.

Sem mais nada a fazer e tampouco a murmurar, ele aceitou a visita da eterna derrota. Sua respiração lentamente o abandonou, convertendo-se em arquejos angustiantes, e apenas seus ouvidos testemunharam as pragas proferidas pelos seus algozes, que, cuspindo nele, se preparavam para desencadear seus golpes de misericórdia. Mesmo contra seu desejo, ele desmaiou.

Hospedado em um casebre, agora já aconchegado num leito de capim, Loan usou seu braço para enxugar os olhos em lágrimas, enquanto Rúbia, penalizada diante da amarga história, delicadamente alisou os cabelos escuros do enfermo, carícias que se tornaram um bálsamo, consolando-o.

Ele não conseguia entender apenas uma questão: durante aquela batalha travada entre ele e seus rivais, como conseguiu sobreviver se estava desfalecido devido aos graves ferimentos? Eles estavam em maior número, o que o desfavorecia ainda mais. Quem o teria salvado? Que guerreiro teria intercedido em seu favor, sabendo que também correria o risco de perder a cabeça? E seus verdugos? Onde estariam? Que fim tiveram?

Durante certo tempo ficou se perguntando, mas, como sempre, a resposta nada mais era que um vácuo no desconhecido. Ao olhar a palma da mão ferida, observava-a tomado de admiração, pois outrora, num instante de ódio, havia retalhado violentamente o símbolo nela desenhado.

Sentia o corpo físico totalmente ferido e enlaçado pelas dores, exceto a mão direita, que havia sido, de alguma forma inexplicável, restituída dos cortes, deixando o desenho totalmente intacto. Loan pensou profundamente sobre a situação e concluiu que, apesar das blasfêmias, havia declarado contra os céus, e Deus, com sua infinita misericórdia, enviara um de seus emissários para salvá-lo da morte certa nas mãos daqueles desgraçados, embora não soubesse de que maneira. Depois, somente a mão direita foi restaurada; ainda mais bonita do que antes. Mas a nuvem da dúvida interpôs-se novamente entre a desconfiança e a fé.

- Acaso teria sido mesmo um anjo dos céus o responsável pela minha salvação? Se sua teoria estivesse correta, restava apenas uma indagação. Por que houve somente a cura de um único membro em seu corpo?

A pergunta se dissipou como fumaça que se espalha ao vento. Após algum tempo, logo lhe ocorreu que essa situação poderia ser uma nova e inesperada chance. Afinal, tinha uma missão e precisava cumpri-la a qualquer custo.

Todos os seres viventes corriam risco de extinção, e a Loan foi dada a tarefa de impedir isso. Abandonou a idéia de continuar a falar de sua vida com Rúbia. Pediu carinhosamente para ela que o deixasse só, pois queria descansar e, ao mesmo tempo, refletir. Durante esse tempo que escorria pela natureza humana, de todos do vilarejo que estavam preocupados com a saúde do forasteiro, apenas uma pessoa se sentia desapontada. Seu nome era Elizabeth Baldric, e ela não o via como membro daquela vila. Pelo contrário, Loan havia se tornado um embusteiro das atenções. Só ouvia dos aldeões de que maneira milagrosa aquele homem havia sobrevivido, mesmo no estado em que foi encontrado. Pelo visto, Rúbia havia abraçado a tarefa de cuidar daquele estranho forasteiro com grande zelo, mesmo grávida.

Rúbia se comportava como esposa dele; então ela suspeitou que ele fosse algum tipo de feiticeiro, ou coisa parecida, a ponto de sua melhor amiga parecer apaixonada por um homem que nunca viu antes. Elizabeth sempre mantinha os braços cruzados, observando com atenção a maneira carinhosa com que se tratavam. Principalmente, quando a camponesa o alimentava. Isso a afligia muito, fazendo-a menear a cabeça completamente contrariada.

Baldric se sentiu como uma peça descartável, uma serviçal que ajudou uma campônia galesa refugiada e solitária e que carrega uma vida em seu ventre. Ela estendeu a mão para essa mulher desamparada, dando o teto de sua própria cabana. Cedeu para Lands sua cama, enquanto dormia no chão sobre alguns cobertores de lã. Até a comida era divida em partes desiguais, por reparar que sua amiga comia por dois. Agora, quando esse cavaleiro apareceu do nada naquela noite, suas vidas mudaram completamente. Era como se o sentimento que Elizabeth sentia por Rúbia houvesse sido lançado no mar do esquecimento, e tal comportamento a deixou com o coração despedaçado.

Baldric não queria aceitar aquele fato ultrajante e foi em direção à choupana de uma velha, que muitos consideravam misteriosa. Acreditavam que ela possuía poderes sobrenaturais, além de predizer o futuro. Um resmungo partiu da boca de Elizabeth, e um arrepio percorreu a pele clara de seu corpo. Esfregou os braços em seu próprio manto, fechou os punhos e contraiu os dentes, na tentativa de controlar aquela sensação estranha.

Ela deu seus passos finais, olhou para trás para avaliar se alguém a observava e aproximou-se depressa da cabana.

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