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Sofia: A Música da Vida

No leito de morte, ouço Joana e meu sogro celebrarem meu fim e revelarem como destruíram minha filha. Sofia perdeu sua vaga no Conservatório e tirou a própria vida após as manipulações deles. Consumida pelo ódio, dou meu último suspiro jurando vingança. Inexplicavelmente, desperto no passado, diante de Sofia e seu violino. Com esta segunda chance, vou proteger o talento dela e destruir aqueles que nos traíram, reescrevendo nossa história com sangue.
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Capítulo 2

O cheiro de desinfetante do hospital era a última coisa que eu sentia. Meu corpo estava frio, e cada respiração era um esforço imenso. Do lado de fora do quarto, ouvi a voz de Joana, a irmã do meu falecido marido.

"Finalmente essa mulher vai morrer. Foi só o Ricardo morrer que ela ficou assim, fraca. Não aguentou a pressão."

A voz do meu sogro, um homem que um dia chamei de pai, respondeu, cheia de desprezo.

"Ela nunca foi forte. Sempre foi uma costureira de quinta categoria, se achando grande coisa só porque o pai dela era um maestro. Ela e aquela filha inútil, Sofia."

Meu coração parou por um instante. Sofia. Minha Sofia.

Joana riu, um som cruel que arranhou meus ouvidos.

"Pelo menos nos livramos da Sofia primeiro. Foi fácil. Depois que o Ricardo morreu e não deixou um tostão para elas, foi só uma questão de tempo. A menina, com aquele sonho idiota de ser musicista, não aguentou quando a gente garantiu que a minha Laura conseguisse a vaga no Conservatório. Um empurrãozinho aqui, uma conversa ali… e a vaga que era da Sofia virou da Laura. A coitadinha não aguentou a humilhação. Soube que se jogou de uma ponte."

Não.

Não.

Minha filha. Minha talentosa, doce Sofia. O mundo ficou escuro. A dor no meu peito não era da doença, era de uma traição tão profunda que rasgou minha alma. Eu lutei por ela, trabalhei até meus dedos sangrarem para que ela tivesse uma chance, e eles… eles a destruíram por pura inveja. Minha última respiração foi um grito silencioso de ódio e desespero.

Então, abri os olhos.

A luz do sol entrava pela janela do meu pequeno apartamento. O cheiro não era de desinfetante, mas de café fresco e do tecido barato com que eu trabalhava. Eu estava sentada na minha cadeira de costura, a cabeça latejando. Olhei para o calendário na parede. 23 de abril. O dia antes do prazo final para a inscrição no Conservatório Nacional.

Eu estava viva. Eu tinha voltado.

Uma onda de choque e euforia percorreu meu corpo. Eu tinha uma segunda chance. Uma chance de salvar minha filha.

"Mamãe?"

A voz de Sofia, cheia de vida e esperança, veio do seu quarto. Ela apareceu na porta, segurando seu violino com um cuidado quase religioso. Seus olhos brilhavam.

"Você está bem? Parece que viu um fantasma."

Eu me levantei, minhas pernas tremendo, e a abracei com uma força que a assustou. Eu podia sentir o calor do seu corpo, o cheiro do seu cabelo. Ela estava aqui. Ela estava viva. As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem que eu pudesse controlá-las.

"Mamãe, o que foi? Está chorando de felicidade? Eu sei, eu também mal posso esperar! Amanhã é o grande dia!"

Eu a afastei um pouco, segurando seus ombros e olhando em seus olhos. A pureza, a inocência… tudo o que eles destruíram.

"Sofia, escute. Nós precisamos ir ao Conservatório. Agora."

"Agora? Mas a inscrição é só amanhã. E o papai disse que ia encontrar a gente lá para entregar os papéis."

Papai. Ricardo. Na minha vida anterior, ele já estava morto há um ano. Nesta vida, ele ainda estava aqui. E ele era parte do problema.

Uma lembrança fria me atingiu. A promessa. A promessa do meu pai, o maestro. Antes de morrer, ele me deu uma carta de recomendação pessoal para o diretor do Conservatório, um velho amigo dele. Ele disse: "Maria, se um dia você ou Sofia precisarem de ajuda, entregue isso ao Maestro Antunes. Ele honrará nossa amizade."

Essa carta era a nossa salvação.

"Sofia, espere aqui."

Corri para o meu quarto, o coração batendo descontrolado. Eu guardava a carta numa pequena caixa de madeira, junto com as joias baratas que herdei da minha mãe. Abri a gaveta, peguei a caixa. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui abrir a tampa.

Quando finalmente consegui, meu sangue gelou.

A caixa estava vazia.

O veludo vermelho onde a carta deveria estar estava nu. A carta não estava lá. Revirei a caixa, a gaveta, a cômoda inteira, jogando tudo no chão num pânico crescente. Mas eu sabia. Eu sabia que não a encontraria.

Ricardo.

Ele esteve aqui na semana passada. Disse que queria ver os documentos da Sofia para "ajudar". Ele era o único, além de mim, que sabia da carta. Ele a roubou. Ele já estava conspirando com sua família contra a própria filha.

Voltei para a sala, pálida como a morte. Sofia me olhou, sua expressão mudando de alegria para preocupação.

"Mamãe, o que aconteceu? Você não encontra alguma coisa?"

Eu não conseguia falar. O desespero ameaçava me engolir de novo.

Sofia sorriu, tentando me acalmar. Um sorriso inocente que partiu meu coração.

"Não se preocupe, mamãe. Se for algum documento, o papai deve ter pego para organizar tudo. Ele me disse no telefone ontem que ia cuidar de cada detalhe para garantir minha vaga. Ele é o melhor pai do mundo, não é?"

Aquelas palavras. A confiança pura da minha filha no homem que a traiu da forma mais cruel. A esperança dela era uma mentira, e eu era a única que sabia. A segunda chance que eu recebi parecia uma piada de mau gosto. O jogo já estava armado, e eu tinha acabado de acordar no meio dele, sem nenhuma peça na mão.

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