
Sofia: A Música da Vida
Capítulo 3
Eu não tinha tempo para o desespero. Olhei para o rosto esperançoso de Sofia e uma determinação fria tomou conta de mim. Eu não ia deixar a história se repetir.
"Sofia, pegue seu violino. Nós vamos ao Conservatório agora. Esqueça o que seu pai disse. Nós vamos resolver isso sozinhas."
A confusão em seu rosto era evidente, mas ela confiava em mim. Sem fazer mais perguntas, ela guardou o violino no estojo e me seguiu para fora do nosso pequeno apartamento. Pegamos o ônibus, e a cada parada, minha ansiedade crescia. Eu precisava chegar ao Maestro Antunes. Mesmo sem a carta, ele era amigo do meu pai. Ele tinha que se lembrar de mim, da promessa.
Chegamos ao imponente prédio do Conservatório Nacional. O lugar exalava poder e tradição, com suas colunas de mármore e portas maciças de madeira. Era o sonho de Sofia, e eu podia ver a admiração em seus olhos. Mas para mim, parecia uma fortaleza inimiga.
Fomos direto para a recepção. Um segurança com uma expressão entediada e um uniforme impecável nos barrou antes mesmo de chegarmos ao balcão.
"Pois não? Onde as senhoras pensam que vão?"
Sua voz era fria, e seu olhar nos media de cima a baixo, reparando em nossas roupas simples, na minha aparência cansada.
"Eu preciso falar com o Maestro Antunes. É urgente. Eu sou Maria, filha do Maestro Camargo."
O nome do meu pai costumava abrir portas. Não dessa vez.
O segurança soltou uma risadinha de escárnio.
"O Maestro Antunes? Filha, todo dia aparece alguém aqui dizendo que é parente de alguém importante. Ele não está recebendo ninguém hoje."
"Por favor, é muito importante. Diga a ele que é a filha de Augusto Camargo. Ele vai me receber."
"Eu já disse que não. Ele está em uma reunião muito importante e depois sairá para uma viagem. A agenda dele está fechada."
Uma mentira. Eu senti no fundo da minha alma. Eles estavam me bloqueando. Joana e sua família já tinham se movido.
"Eu não vou sair daqui até falar com ele!" – minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
A pequena confusão atraiu olhares. Pessoas que passavam, alunos e professores com seus ares de superioridade, começaram a nos observar. Ouvi sussurros.
"Olha lá, mais uma tentando forçar a entrada."
"Coitada da menina, que vergonha a mãe está fazendo ela passar."
O rosto de Sofia ficou vermelho. Ela puxou minha manga, sussurrando.
"Mamãe, vamos embora. A gente volta amanhã com o papai."
"Não, Sofia!"
E então, eu as vi. Joana e sua filha, Laura, saindo de um corredor lateral. Joana usava um vestido caro e joias brilhantes. Laura, com um sorriso presunçoso no rosto, carregava um estojo de violino que parecia custar mais do que o nosso aluguel de um ano. Elas estavam acompanhadas pelo meu sogro, que caminhava com a postura de um rei.
Joana parou na nossa frente, um sorriso venenoso nos lábios.
"Maria, querida. Que surpresa desagradável. Veio trazer a… Sofia para um passeio? Que pena que vocês não podem entrar. Este lugar é para pessoas com talento de verdade."
Meu sogro olhou para mim com puro nojo.
"Eu não acredito na sua audácia. Tentar usar o nome do seu falecido pai para conseguir favores? Você não tem vergonha? Ricardo me avisou que você estava ficando desesperada."
A humilhação era pública. As pessoas ao redor agora tinham uma história completa para fofocar. A costureira louca e sua filha tentando dar um golpe no Conservatório. Sofia se encolheu atrás de mim, as lágrimas brotando em seus olhos.
"Isso é uma injustiça! Sofia é mais talentosa que a Laura e vocês sabem disso!" – eu gritei, a raiva me consumindo.
Joana riu alto.
"Talento? Querida, talento não paga as contas. E certamente não compra influência. Enquanto você costurava seus panos de prato, nós estávamos construindo relações. O mundo é assim. Aceite."
Ela se aproximou e sussurrou no meu ouvido, para que só eu ouvisse.
"O Maestro Antunes foi 'promovido' para uma viagem de intercâmbio de última hora. Ele só volta daqui a dois meses. Até lá, a vaga da minha Laura estará mais do que garantida. Fim de jogo, Maria."
Ela então se virou e, como se nada tivesse acontecido, falou alto para o segurança.
"Segurança, por favor, retire essas duas daqui. Estão perturbando a ordem."
O segurança, agora entendendo quem mandava ali, se aproximou com uma nova hostilidade.
"Senhora, por favor, se retire. Ou serei forçado a usar a força."
Ele agarrou meu braço. O toque foi bruto, desnecessário. Eu me senti completamente impotente. Olhei para o rosto choroso de Sofia, para o sorriso vitorioso de Joana, para os olhares de pena e desprezo ao nosso redor. Fomos expulsas para a rua como se fôssemos lixo.
Sentamos num banco de praça em frente ao Conservatório. A cidade parecia barulhenta e cinzenta. Eu não tinha para onde ir, não tinha a quem recorrer. A esperança que senti ao acordar naquela manhã se transformou em pó.
"Mamãe, vamos para casa." – disse Sofia, com a voz embargada.
Eu não respondi. Estava perdida em pensamentos, tentando encontrar uma saída, qualquer saída. O sol estava se pondo, e a noite chegava com a promessa de mais escuridão. Decidi que não voltaríamos para o nosso apartamento. Ricardo poderia aparecer lá. Precisávamos de um lugar seguro para passar a noite, para eu poder pensar.
Encontrei uma pensão barata e suja a alguns quarteirões de distância. O quarto era pequeno, com cheiro de mofo. Sofia adormeceu rapidamente, exausta pela humilhação e pela tristeza. Eu fiquei sentada na beira da cama, olhando para a escuridão, quando ouvi um barulho na porta.
Achei que fosse o gerente da pensão. Abri a porta e dei de cara com dois homens grandes e com cara de poucos amigos. Reconheci um deles, era um dos seguranças do Conservatório, o que não estava de serviço.
"A senhora Joana mandou um recado." – disse o primeiro, com um sorriso maldoso. "Ela disse para você e sua filha sumirem da cidade e esquecerem essa história de Conservatório. E para garantir que você entenda…"
Antes que eu pudesse reagir, ele me empurrou para dentro do quarto com força. Eu caí no chão. Sofia acordou com o barulho, gritando. O segundo homem agarrou minha filha, tapando sua boca. O primeiro veio para cima de mim, seu punho fechado. O ataque foi rápido, brutal e covarde. A dor explodiu no meu rosto e no meu corpo. A última coisa que ouvi antes de perder a consciência foi o grito abafado de Sofia.
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