
Sofia: A Bailarina Quebrada
Capítulo 3
A porta do porão se abriu novamente no dia seguinte. Desta vez, era uma figura pequena que descia as escadas com hesitação. Meu filho, Lucas. Meu coração, já tão machucado, se contraiu. Ele tinha apenas cinco anos, mas seus olhos já refletiam a frieza de seu pai.
Clara o segurava pela mão.
"Lucas, querido, vá dar um 'oi' para a Sofia", ela disse com sua voz doce e venenosa.
Lucas se aproximou, mas parou a uma distância segura. Ele olhou para mim, para minhas roupas rasgadas, meu cabelo emaranhado, meu rosto pálido. Havia confusão e um pouco de medo em seus olhos.
"Mamãe...", ele começou, a palavra soando estranha em seus lábios.
Eu tentei sorrir. "Oi, meu amor."
Ele franziu a testa. "A tia Clara disse que você é uma mulher má. Ela disse que você a machucou e que agora ela está doente por sua causa."
As palavras dele foram diretas, sem maldade infantil, apenas repetindo o que lhe foi ensinado. Mesmo assim, doeram.
"Isso não é verdade, Lucas", sussurrei.
"É sim!", ele gritou, dando um passo para trás. "Você não é minha mãe! A tia Clara é minha mãe! Ela cuida de mim! Você só fica aqui neste lugar feio!"
Ele pegou uma pequena pedra do chão úmido e a jogou na minha direção. A pedra era pequena, inofensiva, e caiu perto dos meus pés, mas o gesto partiu o que restava do meu coração.
"Lucas!", a voz de Eduardo soou do alto da escada. Ele desceu rapidamente e agarrou o braço do menino. "O que eu disse sobre jogar coisas?"
Ele não olhou para mim. Sua repreensão ao filho parecia mais sobre manter a ordem do que me proteger. Ele puxou Lucas para perto de si.
"Vamos, Clara. Ele não deveria estar aqui", disse Eduardo.
Enquanto eles se viravam para sair, eu reuni minhas últimas forças.
"Eduardo", chamei.
Ele parou, mas não se virou.
"Você sempre soube", eu disse, a voz firme apesar da fraqueza. "Lá atrás, na academia de dança. Você sempre soube que Clara roubou minha coreografia, não é?"
Houve um longo silêncio. O ar ficou tenso. Clara olhou para ele, um pânico sutil em seu rosto.
Eduardo finalmente se virou. Seu rosto era uma máscara indecifrável. Ele não disse sim, mas seus olhos não mentiram. Seu silêncio foi a confissão mais alta que eu poderia ouvir. Ele sempre soube. Ele sabia que eu era a vítima, mas escolheu ficar do lado dela. Porque a obsessão dele por ela era mais forte que a verdade, mais forte que o amor que ele um dia jurou sentir por mim.
"Eu vou te curar, Sofia", ele disse de repente, a voz estranhamente suave, quase uma promessa. "Eu prometo que você vai ficar bem."
As palavras dele soaram como uma piada cruel. Uma sentença de morte disfarçada de promessa. Ele me "curaria" me matando para salvar Clara. A ironia era tão amarga que um riso seco escapou dos meus lábios.
"Seu amor é uma mentira, Eduardo", eu disse, olhando diretamente em seus olhos. "Sempre foi."
Por um momento, vi uma rachadura em sua fachada de gelo. Uma sombra de dor, de algo que eu não conseguia identificar. Mas desapareceu tão rápido quanto veio. Ele se virou e subiu as escadas, levando nosso filho e sua amante com ele, me deixando sozinha na escuridão mais uma vez.
Fechei os olhos, exausta. Minha mente vagou para o passado, para um tempo em que a escuridão não existia. Lembrei-me da noite em que Eduardo me pediu em casamento. Estávamos em um pequeno restaurante italiano, a luz de velas dançando em seu rosto. Seus olhos brilhavam com uma adoração que eu acreditava ser real.
Ele se ajoelhou, segurando uma pequena caixa de veludo. "Sofia", ele disse, a voz embargada de emoção, "você me salvou. Você me deu uma nova vida. Deixe-me passar o resto da minha vida te amando. Case-se comigo."
Eu chorei de felicidade. Eu disse sim. Eu acreditei em cada palavra.
Uma dor aguda no meu peito me trouxe de volta à realidade fria do porão. A lembrança, antes tão doce, agora era veneno. O amor que ele prometeu era a mesma arma que ele usava para me destruir. Aquele homem de joelhos, com os olhos cheios de lágrimas de amor, e o homem que agora queria arrancar um órgão do meu corpo, eram a mesma pessoa. E a parte mais assustadora era que, talvez, em sua mente doentia, ele acreditasse que estava fazendo as duas coisas por amor.
---
Você pode gostar





