
Sofia: A Bailarina Quebrada
Capítulo 2
A umidade do porão grudava na minha pele, fria e constante. O cheiro de mofo e terra era a única coisa que eu conhecia há meses. Eu costumava ser Sofia, a primeira bailarina, a mulher que dançava nos palcos mais importantes do país. Agora, eu era apenas um corpo definhando neste cômodo escuro, um segredo sujo que meu marido, Eduardo, escondia do mundo.
Tudo por causa dele. Eu o salvei de um acidente de carro que o teria deixado em uma cadeira de rodas para o resto da vida. Abandonei minha carreira, o balé, a única coisa que me definia, para cuidar dele, para construir uma família com ele e nosso filho, Lucas.
Mas o amor dele nunca foi realmente meu. Pertencia a outra. Clara, sua "musa" de infância, a mulher que agora vivia na minha casa, usava minhas roupas e criava meu filho.
A porta do porão se abriu com um rangido, derramando uma luz fraca pelas escadas. Meu corpo estremeceu, não de frio, mas de um pavor familiar. A silhueta de Eduardo apareceu no topo, alta e imponente. Ele não estava sozinho.
"Eduardo, querido, tem certeza que é uma boa ideia descer aqui? É tão sujo", a voz de Clara era melosa, falsamente preocupada.
Ele não respondeu, apenas desceu os degraus, seus sapatos caros fazendo um som oco na madeira velha. Ele parou na minha frente, seu olhar era frio, desprovido de qualquer emoção que eu um dia conheci. Eu estava encolhida em um colchão velho no canto, fraca demais para me levantar. Minha doença autoimune, negligenciada por tanto tempo, consumia minhas forças dia após dia.
"Sofia, levante-se. Temos visita", ele disse, sua voz um comando ríspido.
Clara desceu logo atrás dele, o perfume caro dela invadindo o ar mofado, um contraste doentio. Ela usava um vestido branco, parecendo um anjo em meio à escuridão. Um anjo da morte. Ela olhou para mim com um sorriso de pena, os olhos brilhando com malícia.
"Sofia, querida, você não parece nada bem", ela se aproximou, o tecido do seu vestido roçando no chão sujo. "Eduardo e eu estávamos tão preocupados."
Raiva, um fogo fraco, tentou se acender dentro de mim, mas eu mal tinha energia para respirar.
"O que vocês querem?", minha voz saiu como um sussurro rouco.
Eduardo cruzou os braços. "Clara não está se sentindo bem. O médico dela está vindo."
Eu olhei de um para o outro, uma sensação horrível se formando no meu estômago. Isso não fazia sentido. Por que trazer o médico de Clara aqui embaixo?
"E o que eu tenho a ver com isso?", perguntei.
Clara colocou uma mão no peito, uma performance barata de fragilidade. "O médico disse... ele disse que eu preciso de um transplante. Um rim. E é urgente."
O ar ficou pesado. Eu senti o olhar de Eduardo em mim, intenso e calculista.
"É uma pena que você tenha arruinado a carreira de dança dela anos atrás, Sofia", disse Eduardo, sua voz cortante. "Você roubou a coreografia dela, roubou a bolsa de estudos que era dela por direito. Você deve a ela."
A acusação era tão antiga e falsa que eu quase ri. Clara havia roubado minhas criações, não o contrário. Mas Eduardo escolheu acreditar nela, sempre nela.
"Eu não devo nada a ela", respondi, a voz um pouco mais firme.
Clara começou a chorar, lágrimas de crocodilo escorrendo por seu rosto perfeito. "Eu não queria pedir, Sofia, juro! Mas o médico disse que meu tipo sanguíneo é raro... e por uma coincidência terrível, é o mesmo que o seu."
O quebra-cabeça se montou na minha cabeça, as peças se encaixando com uma clareza aterrorizante. Eles não vieram me visitar. Eles vieram buscar um órgão. O corpo dele, que eu salvei. O meu corpo, que ele agora queria sacrificar pela mulher que amava.
"Você quer que eu doe um rim para ela?", perguntei, o horror fazendo meu coração bater descontroladamente.
"É o mínimo que você pode fazer para compensar o mal que causou", Eduardo declarou, como se fosse a coisa mais razoável do mundo. Ele queria a minha morte. Uma morte lenta na mesa de cirurgia, ou uma morte rápida pela negligência que se seguiria. Tudo para que sua musa pudesse viver.
Nesse momento, passos soaram na escada novamente. Um homem de meia-idade com uma maleta médica apareceu. Dr. Mendes. O médico da família de Clara, um cúmplice em sua teia de mentiras.
"Dr. Mendes, que bom que chegou", disse Clara, secando as lágrimas falsas. "A situação é crítica."
O médico olhou para mim com um ar profissional, mas seus olhos eram frios como os de um carrasco. Ele abriu sua maleta.
De repente, Clara soltou um gemido e cambaleou, caindo nos braços de Eduardo.
"Estou tonta... a dor...", ela sussurrou, fechando os olhos.
"Rápido, doutor! Não temos tempo!", Eduardo gritou, o pânico em sua voz era real. Pânico por ela.
Ele me olhou, e pela primeira vez, vi algo além da frieza. Vi uma determinação assassina. Ele realmente me queria morta. Naquele instante, no fundo do poço da minha existência, uma nova decisão se formou. Se eu ia morrer, não seria em silêncio. Eu usaria meu último suspiro para expor a verdade.
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