
SOB A PROTEÇÃO DO SULTÃO
Capítulo 2
mulher estava completamente fora do seu campo de visão.
Iman se moveu para desafivelar o cinto e se certificar de que ela estava segura, mas Nabih agarrou seu braço e balançou a cabeça solenemente. Iman praguejou por entre os dentes.
— Nós vamos morrer! — o embaixador choramingou. — Nós todos vamos morrer!
— Dá pra você ficar quieto? — Iman grunhiu. — O seu pânico não vai mudar as coisas.
Eles estavam perdendo altitude e as máscaras de oxigênio caíram. Iman pegou o equipamento que balançava na sua frente, puxou o tubo plástico para iniciar o fluxo libertador de ar e, ao puxar a máscara para o seu rosto, lançou um olhar ansioso para a parte de trás do avião.
Os guardas não permitiriam que ele se levantasse; muita coisa dependia da segurança dele. O palácio já estava em alvoroço porque ele tinha decidido fazer essa viagem, especialmente considerando a gravidade da doença de seu pai... mas alguém tinha que tomar uma atitude. Ainda havia um reino a ser governado e seu pai não tinha condições de viajar.
Ouviu-se o clique do interfone sendo ligado, a voz do piloto parecendo mais distorcida do que de costume:
— Estamos com sorte, pessoal. Há uma pista de pouso abandonada que eu acredito que conseguimos alcançar. A aterrissagem vai ser um pouco difícil, então se segurem.
A tensão na voz do piloto era evidente, mesmo através do chiado do interfone. Iman olhou pela janela e viu, lá fora, o chão que rapidamente se aproximava.
Logo, a voz do piloto reverberou novamente:
— Preparem-se par—
O avião inteiro chacoalhou. Iman foi jogado para frente, o cinto de segurança cortando fundo seu tronco. Ele ouviu gritos e uma grande batida foi ouvida na traseira do avião, seguida por um berro estridente.
O coração de Iman quase saiu pela boca.
A mulher!
O avião deu uma guinada e se inclinou perigosamente enquanto a paisagem passava acelerada pelas janelas, mas Iman já estava removendo a máscara de oxigênio e desafivelando o cinto. Usando os bancos como apoio, ele foi se agarrando até a parte de trás, ignorando os gritos irritados dos guardas.
Tudo estava parado quando ele chegou à cauda da aeronave. Balcões e prateleiras, arrancados das paredes, bloqueavam a passagem.
— Mulher! — ele gritou. — Responda!
Desesperado, ele ouviu somente o silêncio... até que escutou a voz dela, e seu coração deu um pulo.
— É sério? — respondeu ela, com a voz muito baixa. — Você não consegue nem lembrar do meu nome?
Fechando os olhos, Iman segurou o riso. A danada ainda respondia com atitude, mesmo à beira da morte. Ele gostou disso.
— Me diga seu nome e talvez eu tire você daí.
— É Natalie.
— Tudo bem, Natalie. Você está sangrando?
— Terrivelmente.
A voz dela estava surpreendentemente forte e ele esperava que não fosse nada sério, mas não queria perguntar e piorar as coisas.
Tentou levantar o armário que estava no caminho, mas não conseguiu nada.
Olhou para trás e encarou seus homens, ainda congelados nos assentos.
— Ajudem-na. Agora.
Eles ainda estavam visivelmente abalados ao removerem seus próprios cintos de segurança e caminharem vacilantes em sua direção. Mas não adiantou. O espaço era tão pequeno que não cabia mais de uma pessoa por vez, e uma só pessoa não era suficiente para mover nada do lugar.
— Parece que vai demorar um pouco — ele disse a ela.
— Típico! Homens não conseguem mesmo manter promessas. — Ele a ouviu responder.
A porta da cabine abriu e os dois pilotos apareceram cambaleando.
O piloto, amparando o copiloto, perguntou:
— Está todo mundo bem?
— A aeromoça está presa, mas todos os outros estão bem — disse Nabih, com a voz trêmula.
— Ótimo. Nosso sistema de comunicação foi danificado na batida — disse o piloto. — Não há vazamento de combustível, mas acho melhor que todos deixem a aeronave.
Ele abriu a porta e se afastou. O embaixador se adiantou para ser o primeiro a sair.
Um dos homens de Iman o puxou.
Iman se desvencilhou dele.
— Não vou deixá-la aqui — ele rugiu. — Você faz o que eu mandar, e não vamos deixá-la aqui pra morrer.
— Vossa Alteza, sinto muito, mas não vamos deixá-lo aqui. Não podemos fazer nada por ela agora, mas vamos buscar ajuda.
A tensão aumentava e o piloto interveio.
— Há uma saída de emergência na cauda. Temos mais chance de chegar até ela por lá.
Ele sinalizou para que o acompanhassem.
Compreendendo que não havia nada que pudesse fazer por ela dentro do avião, o príncipe saiu rapidamente. A aeronave tinha parado em ângulo, com parte do trem de pouso amassada, então foi fácil pular para fora. Depois dele, todos saíram.
Ele olhou em volta e apontou para o segurança mais próximo.
— Haydar. Vá com um dos pilotos, e com o Embaixador Cham, e consiga algum transporte para nos tirar daqui. Ou pelo menos encontre uma maneira de se comunicar.
O copiloto, que agora conseguia permanecer em pé sem ajuda, aquiesceu, arrumou a postura e começou a andar na direção do hangar mais próximo. O segurança o seguiu e o embaixador correu para não ficar para trás.
A voz de Iman estava mais forte quando ele se virou para os dois outros seguranças e ordenou:
— Vocês dois! Não sairemos daqui enquanto aquela mulher estiver presa, entenderam?
O piloto já estava trabalhando na porta de emergência.
— Está torta. Vamos precisar de alguma coisa pra forçar mais a abertura, se quisermos mesmo entrar lá atrás dela. Deve ter alguma coisa que possamos usar no hangar.
Iman balançou a cabeça em concordância.
— Vá. Leve os homens com você. Vai ser mais rápido assim.
Ele se ergueu para espiar pela pequena abertura, talvez grande o suficiente para passar seu braço até o ombro, no máximo. Não seria possível entrar ou sair por ali. Ele conseguiu ver, no corredor, uma parte das pernas nuas dela.
Tinha sangue pingando.
— Você consegue me ouvir? — ele gritou.
Sem resposta.
Ele tentou pensar em algo para dizer que a tirasse do sério.
— Você não serve para ser aeromoça — comentou. — Vou reclamar quando voltar.
Funcionou.
— É comissária. — ela disse com rispidez. — E eu tenho algumas palavras interessantes pra dizer sobre você também!
— Podemos comparar notas quando você estiver aqui fora — ele respondeu, com uma risadinha de alívio, antes de pensar mais um pouco. — De onde você está sangrando?
— Eu... eu não tenho certeza. Não consigo ver, e não estou sentindo nenhuma dor. Choque, talvez. Acho que se eu conseguir cortar o cinto de segurança, consigo sair daqui. Tem alguma coisa fazendo pressão nele e eu não consigo alcançar a fivela.
Imediatamente, Iman pegou o canivete que guardava no bolso.
— Você consegue esticar o braço? Colocar a mão para baixo, perto do joelho? — Ele viu a mão dela aparecer e tocar o chão. — Isso. Vou deslizar um canivete na sua direção.
Balançando o braço pela abertura, ele ganhou impulso suficiente e jogou o canivete pelo piso inclinado.
— Mova a mão para trás, só um pouco. — Ele a guiou. — Está bem entre os seus dedos.
Quando ela pegou o canivete, ele respirou aliviado.
— Obrigada — ele a ouviu murmurar. — Quase consegui.
Ela resmungou um pouco, mas logo em seguida soltou um gemido suave de vitória.
Iman segurou a respiração enquanto a via mexer as pernas. A estante grande que estava em cima dela oscilou e alguma outra coisa caiu, abrindo espaço na frente dele.
— Natalie!
— Cuidado, Vossa Majestade — ela grunhiu. — Ou vou achar que se importa.
Ela serpenteou para fora do assento e ele a enxergou de corpo inteiro enquanto se espremia pela abertura que agora era ligeiramente maior.
— É Vossa Alteza Real, na verdade — ele a corrigiu, ao mesmo tempo em que percebeu que o sangue que manchava o uniforme dela parecia vir do braço. — Serei Vossa Majestade apenas quando usar a coroa.
Ela se apoiou na parede e respirou profundamente.
— Me perdoe. Vou tentar lembrar disso — disse, secamente. Tirando o blazer, ergueu o braço para inspecioná-lo.
— Como está?
— Precisa de uns pontos. A dor na cabeça é pior.
Impaciente, Iman olhou em volta.
— Que demora! Pedi uma alavanca pra arrombar a porta. Vou verificar, já volto.
— Se eu morrer nesse avião, vou assombrar você pro resto da vida. Vou ficar grudada em você, reclamando de todo o café que você desperdiça — ela brincou.
— Ei, a culpa não é minha. Você que não sabe fazer uma xícara decente de café. — Sério, ele a encarou. — Não tenha medo. Volto em um minuto.
— Não estou com medo. Estou emocionada. Meu Príncipe, meu herói.
Ela colocou uma das mãos sobre o coração; ele riu e balançou a cabeça. Sob outras circunstâncias, ele estaria irritado com a atitude dela, mas se o sarcasmo a ajudava a lidar com o medo, ele podia suportar.
Ele desvestiu o paletó do terno, colocou-o no chão e saiu correndo até o hangar. Ao chegar, viu os pilotos vasculhando o lugar e encontrou o embaixador e dois seguranças reunidos em volta de um jipe, enquanto o terceiro segurança, murmurando entre dentes, tentava dar a partida.
Quando o motor ligou, todos comemoraram.
— Cabem seis pessoas. Vá buscar o príncipe — disse um dos guardas, mal-humorado.
— O príncipe está aqui e está se perguntando por que vocês não estão ajudando a abrir a porta do avião — Iman estava quase rosnando.
Amyad curvou a cabeça.
— Perdão, Alteza, mas sua segurança é a nossa prioridade central. Temos um veículo que podemos usar para conseguir ajuda e vamos mandar alguém de volta pra pegar a mulher. Por favor, entre.
Estreitando os olhos, Iman encarou friamente o homem.
— Cabem seis pessoas no carro. Todos vocês podem ir. Avise o palácio e consiga uma equipe de emergência. Um médico também, se encontrar algum.
— Não podemos deixar Vossa Alteza!
— Podem sim, porque só assim posso ter certeza de que vocês vão retornar — ele disse, calmamente. Sustentou o olhar, duro como aço, forçando Amyad a erguer a cabeça. — Essa é uma ordem do seu príncipe. Desobedeça e vou decretar o seu exílio. Entendeu?
Ele sabia muito bem como a sua família reagiria. A notícia da doença do seu pai ainda não tinha alcançado a maioria da população de Haamas, então o fato de Iman ter voado a Chicago para uma reunião internacional tinha sido mantido em segredo. Iriam varrer o acidente aéreo para baixo do tapete, subornariam todos que estavam no avião e fingiriam que nada tinha acontecido. Se alguém morresse, seria uma pessoa a menos para se preocuparem.
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