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Capa do romance SIMPLESMENTE JOHNNY- Entre o Amor e a Máfia

SIMPLESMENTE JOHNNY- Entre o Amor e a Máfia

Johnny é um homem enigmático que surge na vida dela como um cliente gentil, mas esconde um poder sombrio. O que parecia um romance intenso revela-se um perigo mortal quando ela descobre sua ligação com a máfia japonesa. Aterrorizada, ela tenta escapar, mas a obsessão dele não conhece limites. Em meio a fugas e segredos, o casal mergulha em um destino irreversível onde o amor e a morte caminham lado a lado. Será a paixão capaz de sobreviver ao submundo do crime?
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Capítulo 3

Fechei a porta do apartamento atrás de mim com cuidado demais, como se qualquer ruído pudesse denunciar algo que nem eu mesma sabia nomear. Encostei as costas na madeira fria e respirei fundo, sentindo o coração bater descompassado, ainda fora do ritmo normal.

Eu estava em casa.

Mas alguma coisa em mim ainda não tinha voltado.

O apartamento estava escuro, silencioso, e por um instante aquele silêncio me pareceu mais pesado do que nunca. Dei alguns passos até o banheiro quase no automático, tirei a roupa sem pensar e entrei no chuveiro antes mesmo da água esquentar. Quando o jato quente finalmente tocou minha pele, fechei os olhos.

E então ele veio.

Não como uma imagem vulgar, não como culpa imediata. Veio como sensação. Como lembrança do toque. Da forma como minhas costas tinham relaxado sob as mãos dele, como se o mundo inteiro tivesse desacelerado só para nós dois.

Apoiei as mãos na parede do box, sentindo a água escorrer pelo meu rosto.

Naquela noite…

Na minha mente…

Eu não tinha feito sexo.

Eu tinha feito amor.

Essa constatação me atingiu com força, arrancando o ar dos meus pulmões. Não foi rápido. Não foi mecânico. Não foi vazio. Houve cuidado, silêncio, presença. Houve uma intimidade que eu não lembrava de já ter sentido antes, ou talvez nunca tivesse permitido sentir.

O jeito como ele me olhou ainda queimava dentro de mim. Não como quem compra, mas como quem enxerga. Como se eu não fosse apenas um corpo disponível por algumas horas.

E isso me assustava.

As lágrimas começaram a cair sem que eu pudesse impedir. Misturaram-se à água quente, escorreram livres, porque ali, sozinha, eu não precisava fingir força. Chorei porque jamais imaginei trabalhar num lugar como aquele. Porque jamais imaginei aceitar aquela proposta. Porque uma parte de mim se sentia errada… e outra, perigosamente aliviada.

Se não fosse aquela noite, eu não sabia o que teria feito.

Saí do banho ainda tremendo, me enrolei na toalha e sentei na beirada da cama. Meu olhar foi direto para a bolsa jogada no canto do quarto. O envelope ainda estava lá, intocado desde que eu chegara.

Levantei devagar, e peguei a bolsa, quando abri o tal envelope, o ar pareceu faltar.

Não era apenas o cachê padrão. Não era apenas o valor que Mara explicara, com aquela voz neutra, como se falasse de algo banal. Havia muito mais ali. Muito mais.

Minhas mãos começaram a tremer.

Fiz as contas uma vez. Depois outra. Conferi nota por nota, como se tivesse medo de estar enganada. Mas não estava. Aquele dinheiro pagava o aluguel atrasado. Pagava a conta de luz com aviso de corte. Pagava o mercado que eu vinha adiando, fingindo não perceber a geladeira cada vez mais vazia.

Sentei no chão com o envelope apertado contra o peito.

E chorei.

Chorei de alívio. Chorei de vergonha. Chorei de medo. Chorei porque, apesar de tudo, eu estava respirando outra vez. Porque, pela primeira vez em dias, eu não precisava decidir entre comer ou pagar uma conta.

Eu me sentia mal. Nunca pensei que pisaria num lugar como aquele. Nunca imaginei que aquela seria a saída. Mas também não sabia para onde iria se tivesse que sair daquele apartamento. Não tinha para quem ligar. Não tinha para onde correr.

E isso doía mais do que qualquer julgamento moral.

Guardei o envelope na gaveta mais funda do guarda-roupa, como quem esconde um segredo que ainda não sabe lidar. Fui até a cozinha, abri a geladeira vazia.

Amanhã eu compraria comida.

Amanhã eu pagaria contas.

Amanhã… talvez tudo fosse diferente.

O celular vibrou sobre a mesa, me arrancando dos pensamentos. Meu coração disparou sem motivo lógico, celular carregado, notificações chegando. Peguei o aparelho com as mãos ainda trêmulas e vi a notificação de e-mail.

Abri.

Li uma vez. Depois li de novo.

“Temos o prazer de informar que você foi selecionada…”

Meu corpo inteiro pareceu amolecer. Escritório de advocacia. Centro da cidade. Início imediato. Manhã seguinte.

Sentei outra vez, agora com um riso que veio misturado ao choro. Um riso incrédulo, frágil. Aquela era a chance. A saída. A prova de que aquela noite não precisava me definir.

Eu não precisaria voltar naquele lugar.

Essa ideia trouxe um alívio quase físico. Nunca mais aquele corredor iluminado demais. Nunca mais a voz controlada de Mara. Nunca mais aquela mistura perigosa de medo e curiosidade.

Foi só uma noite, eu repetia para mim mesma.

Só uma noite.

Preparei algo simples para comer, e fui descansar. Quando me deitei, apaguei a luz e tentei dormir com a sensação de que, finalmente, a vida tinha me dado uma trégua.

Mas foi o rosto dele que veio.

A voz baixa. O silêncio confortável. As costas largas cobertas de tatuagens que pareciam contar histórias que eu jamais ouviria.

O jeito como ele me tocara como se eu fosse algo precioso, não algo descartável.

Virei na cama, irritada comigo mesma.

Não fazia sentido.

Não era real.

Não podia ser.

Repeti isso até o sono me vencer.

Na manhã seguinte, acordei cedo demais. Escolhi a melhor roupa que tinha, simples, discreta, limpa. Prendi o cabelo, passei maquiagem suficiente apenas para esconder o cansaço. No espelho, encarei meu reflexo por alguns segundos.

Era um recomeço.

Quando saí do prédio, o sol ainda tímido tocou meu rosto, e eu respirei fundo. Havia esperança, sim. Mas havia algo mais, uma sensação estranha que eu ainda não sabia nomear.

Algumas noites não terminam quando o dia amanhece.

Algumas ficam à espera.

E eu ainda não fazia ideia de que aquela noite tinha acabado de começar a me seguir.

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