
Silêncio
Capítulo 2
A enfermeira encostou a porta, Rainbow estava olhando de forma preocupada para a mesma, que ajeitou seus óculos.
— Não se preocupe Emanuelle, foi apenas um corte em seu ouvido, o que provavelmente ocorreu, foi que Jéssica ficou desorientada devido ao chacoalho que ela recebeu.
A garota fez várias perguntas, não estava convencida de que Jess estava realmente bem, a escola sempre encobria estes tipos de 'incidente' para não sujar sua reputação, ainda mais se tratando de uma aluna estragada, como chamavam aqueles cujo possuem alguma deficiência. O diretor chegou para intervir na situação, um homem corpulento, que sempre vestia um terno surrado e velho, de cor marrom e tinha os poucos cabelos que lhe restavam lambidos para o lado, ele colocou sua mão pesada no ombro de de Emanuelle, que recuou ao toque dele.
— Está tudo bem, Emanuelle. Você fez bem em trazer a senhorita Jéssica direto para a enfermeira, agindo de forma controlada durante um incidente, irei mencionar em seu currículo, claro, se confirmar a versão de que a senhorita Jéssica passou mal e feriu seus ouvidos devido uma queda.
A vontade dela agora era de partir para cima daquele homem, pegar seu colarinho e perguntar se ele havia enlouquecido! Aquilo era um comportamento inaceitável, era um absurdo que os culpados não recebecem uma devida punição.
— E quanto a quem fez isso? Como fica Aiko e Marie?!
— É a última semana de aulas, Emanuelle e apesar de não ser uma aluna tão exemplar quanto você, Aiko tem um grande futuro pela frente no ramo heróico. Não iremos manchar seu currículo com uma bobeira como está, ainda mais quando se trata de uma estragada.
Ela teve que controlar cada força de seu ser para não energizar suas mãos e acertar aquele homem com tudo que tinha, de todas as coisas terríveis que o mundo tem, nada a deixava mais furiosa que uma injustiça.
— Eu não vou me calar. Isso é uma conduta anti heróica, permitir que alguém como ela seja uma super heroína é cuspir em todo ideal de justiça que temos.
O homem se aproximou um pouco mais de Rainbow, deixando sua figura ainda maior, para intimidar a garota, claro que apenas sua imagem não seria capaz de coagir alguém tão determinada quanto ela, mas o poder em suas mãos sobre o destino daqueles jovens, determinava que era ele quem ditaria o rumo dessa história.
— Eu posso manchar o seu por seu temperamento e claro, por uso indevido de seus dons, contra a jovem Aiko, testemunhas não faltam. Tirando suas chances de ser uma super heroína e claro, se eu emitir ao governo um pedido de revogação do auxílio daquela estragada, por má conduta, ela seria enviada a um reformatório, estamos entendidos?
Aquele homem era sujo, Rainbow não se deu ao trabalho de responder, apenas virou as costas aquele homem e caminhou de forma decidida pelo corredor, após alguns passos, ela olhou para trás, no fundo dos olhos daquele homem que a fazia sentir nojo no momento, para lhe fazer uma promessa:
— Quando eu for a Embaixadora da Justiça, as coisas serão diferentes, não deixarei homens como você manipularem a justiça.
Por ordem do diretor, Jéssica foi liberada após o fim da aula, o diretor sabia que a mesma era uma garota extremamente passiva, por isso foi fácil convencer ela a aceitar sua versão da história, afinal, Jess não queria prejudicar os outros.
Com sua mochila nas costas ela deixou o colégio, morava sozinha desde os dez anos, sendo emancipada com a mesma idade, devido a consistência da atual sociedade, crianças órfãs que não eram cotadas para futuros 'grandiosos' recebiam apenas um auxílio monetário do governo e viviam por conta própria. Ela não pretendia ir direto para sua casa, ia passar antes num parque que a muito tempo havia sido abandonado, lá ela treinava em segredo todos os dias, longe dos olhares reprovadores e irônicos dos demais, como era um local muito afastado, raramente havia alguém por ali, mas neste dia, Jess queria com todas as suas forças que alguém tivesse passado ali e impedisse o que estava prestes a ocorrer.
Ela foi puxada pela mochila de forma violenta, caindo de costas ao chão, vendo os rostos de Marie e Aiko, ela tentou se levantar, mas desta vez foi agarrada pelos cabelos por Aiko, a fazendo cair de joelhos aos seus pés, se elas falavam algo e riam, Jess não conseguia saber, manteve sua cabeça abaixada na esperança de que demonstrando submissão, elas a deixasse em paz, muito pelo contrário, isso apenas inflamou Aiko que a levantou com as próprias mãos e a forçou de forma violenta contra a parede.
— Vou falar na altura dos seus olhos, sua maldita, para você entender, por sua causa eu quase tive meu histórico escolar manchado.
— Me desculpe... Aiko... eu nã...
Antes que o pedido de desculpas pudesse ser concluído, ela acertou um forte tapa em seus rosto, seus olhos negros pareciam o reflexo de sua alma para Jess, os olhos dela foram do negro para um vermelho escarlate, havia uma linha que Aiko jamais havia passado em todos esses anos atormentando, ela jamais havia usado seus dons em alguém, mas agora estava cruzando essa linha para ensinar está garota fraca qual era o lugar dela. Tudo começou a girar, Jess começou a ter flashs em sua memória de momentos terríveis de sua vida, pareciam que foram horas revivendo seus tormentos, até voltar a si mesma, vendo ainda Aiko em sua frente, com seus amedrontados olhos vermelhos. As memórias que Jéssica tinham eram especialmente terríveis, no momento que voltou a si, as lágrimas foram incontroláveis.
— Você é fraca, eu tenho nojo de você, NOJO! Você fica com sua voz de ratinho falando que vai ser um super heroína, você mancha todo um legado, querendo associar algo tão nobre a algo como você, você se quer consegue se defender, como vai salvar outras pessoas, ratinha? E agora, eu irei viver o que você sempre sonhou. Eu serei uma super heroína, eu me formarei numa acadêmia especializada na formação de super heróis, enquanto você, vai continuar chorando e fazendo as pessoas terem pena de você para conseguir o que quer!
Neste momento, seus olhos voltaram ao frio negro de antes, os braços que apertavam Jess contra a parede afrouxaram e ela se afastou, ela ficou apenas parada sem dizer nada até ambas saírem. Quando finalmente as duas garotas sumiram de vista, Jess correu para o parque, onde desatou a chorar sozinha, novamente, em parte pelo que havia ouvido de Aiko, mas o principal eram as lembranças que ela havia trazido a tona, lembranças de sua vida, dos piores momentos, em especial, um único momento, que era uma ferida que Jess não conseguia deixar cicatrizar, sozinha ela ficou até a noite, quando foi finalmente para casa, seu mundo era especialmente solitário, vazio e silencioso, sempre.
Jess faltou aos últimos quatro dias de aulas e com isso, ela havia se formado no ensino fundamental, o que viria de agora em diante, era o começo do resto de sua vida.
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