
Silêncio Ensurtdecedor: Onde Estavas, Marido?
Capítulo 2
O funeral do meu pai acabou há três dias, e o meu marido, Diogo, ainda não apareceu.
Ligo para ele, mas a chamada vai direto para a caixa postal.
Envio-lhe uma mensagem no WhatsApp. Apenas um tique cinzento. Ele desligou o telemóvel ou bloqueou-me.
A casa está silenciosa. O ar está pesado, com o cheiro a flores velhas e a café frio.
Na sala, a minha sogra, a Dona Elvira, está sentada no sofá, a ver televisão em volume alto.
Ela olha para mim com desprezo.
"Ainda estás com essa cara de enterro? O teu pai já morreu, não adianta chorar."
A minha cunhada, a Sofia, que está a lixar as unhas, acrescenta:
"Exatamente. E o Diogo está ocupado a ajudar a Bia. Ela está a passar por um momento tão difícil."
Bia. A ex-namorada do meu marido.
O pai dela também morreu, no mesmo dia que o meu.
Um acidente de carro. Os dois estavam no mesmo veículo. O meu pai conduzia.
"O Diogo está a ajudar a Bia?", pergunto, a minha voz sai mais baixa do que eu queria.
"Claro", responde a Sofia, sem me olhar. "O pai dela também morreu. Ela está sozinha, coitadinha. Não tem mais ninguém."
"Eu também não tenho mais ninguém", digo eu. "O meu pai era tudo o que eu tinha."
A Dona Elvira ri-se, um som seco e desagradável.
"Não sejas dramática, Clara. Tu tens a nós. A Bia não tem essa sorte."
"Além disso", continua a Sofia, "o meu irmão sente-se culpado. Se não fosse o teu pai a insistir em ir àquela reunião estúpida, o Senhor Almeida ainda estaria vivo."
A culpa. É isso.
Eles culpam o meu pai pelo acidente.
E o meu marido, em vez de me consolar, está a consolar a mulher que ele deveria ter esquecido há muito tempo.
O meu coração fica pesado. Sinto uma náusea.
"Vou para o meu quarto", digo, virando as costas.
"Melhor mesmo", ouço a Dona Elvira a resmungar. "Pelo menos lá não temos de olhar para essa tua cara."
Fecho a porta do quarto e encosto-me a ela.
O silêncio aqui é diferente. É um silêncio que grita a ausência do meu pai. E agora, a ausência do meu marido.
Pego no meu telemóvel. Abro o Instagram.
A primeira coisa que vejo é uma foto publicada pela Bia.
Ela está abraçada ao Diogo. Os olhos dela estão vermelhos de choro, e ele beija-lhe a testa. A legenda diz: "Obrigada por estares aqui comigo no pior momento da minha vida, Di. Não sei o que faria sem ti. ❤️"
A foto foi tirada na casa dela. Reconheço o papel de parede.
O meu marido está na casa da ex-namorada dele.
Sinto o meu estômago a revirar. Corro para a casa de banho e vomito.
Não há nada no meu estômago, só bílis amarga.
Quando me levanto, olho para o meu reflexo no espelho.
Estou pálida, com olheiras profundas. Pareço um fantasma.
O Diogo não me atende, mas está ativo nas redes sociais.
A decisão forma-se na minha mente, clara e fria.
Pego no telemóvel e envio uma mensagem ao Diogo.
"Vamos divorciar-nos."
Você pode gostar





