
Silêncio Ensurtdecedor: Onde Estavas, Marido?
Capítulo 3
Desta vez, a resposta é quase imediata. O meu telemóvel vibra na minha mão.
É o Diogo.
"Ficaste maluca? Divórcio? Agora?"
A sua voz, através da chamada, está cheia de raiva, não de preocupação.
"O teu pai acabou de morrer e já estás a pensar em divórcio? Não tens respeito por nada?"
"Respeito?", a minha voz treme. "Tu estás na casa da tua ex-namorada a consolá-la enquanto a tua mulher está de luto sozinha. Onde está o teu respeito por mim, Diogo?"
Ouve-se um silêncio do outro lado. Consigo ouvir a voz da Bia ao fundo, a perguntar o que se passa.
"A Bia precisa de mim, Clara. O pai dela morreu por causa do teu!"
A acusação atinge-me com força. O ar falta-me nos pulmões.
"O meu pai não teve culpa. Foi um acidente."
"Um acidente que ele podia ter evitado! Ele estava a conduzir! Ele é o responsável!"
"E tu és meu marido! A tua responsabilidade é comigo!"
"A minha responsabilidade é fazer o que é certo! E agora, o certo é estar aqui com a Bia. Ela está devastada, não tem o apoio que tu tens."
"Que apoio? A tua mãe e a tua irmã, que me culpam pela morte do pai delas?"
"Elas estão apenas a dizer a verdade! Para de ser egoísta! O mundo não gira à tua volta, Clara. Cresce!"
Ele desliga.
Olho para o ecrã do telemóvel, incrédula.
Egoísta. Eu sou a egoísta.
As lágrimas que segurei durante dias finalmente caem. Choro silenciosamente, o corpo a tremer com soluços que não fazem barulho.
Choro pelo meu pai. Choro pelo meu casamento desfeito. Choro pela mulher que me tornei, uma sombra na minha própria casa.
Passados uns minutos, o meu telemóvel toca outra vez. É a Dona Elvira. Atendo.
"Clara! O que é que disseste ao meu filho? Ele ligou-me, furioso! Divórcio? Tu atreves-te?"
A sua voz é estridente.
"Como é que podes ser tão cruel? O Diogo já se sente culpado o suficiente pela morte do pobre do Senhor Almeida, e tu ainda lhe fazes isto? Tu não tens coração?"
"Eu não fiz nada", respondo, a voz rouca do choro. "Foi ele que me abandonou."
"Abandonou? Ele está a ser um homem de verdade, a assumir a responsabilidade! Coisa que o teu pai não fez! Se queres culpar alguém, culpa o teu pai por ter matado um homem inocente!"
Ela desliga na minha cara.
O veneno nas palavras dela queima.
Olho à volta do quarto. As nossas fotos de casamento na parede parecem uma piada. O Diogo a sorrir, a abraçar-me. Era tudo mentira?
Pego numa mala de viagem debaixo da cama.
Começo a arrumar as minhas coisas. Roupas, livros, as poucas recordações que tenho da minha mãe.
Não posso ficar aqui mais um minuto.
Esta casa não é o meu lar. Talvez nunca tenha sido.
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