
Seu Sacrifício, Sua Fria Indiferença
Capítulo 2
O mundo girou ao meu redor, um caleidoscópio vertiginoso de lustres de ouro e sussurros abafados. Tudo o que eu achava que era real, tudo o que eu acreditava sobre Dante, se estilhaçou em um milhão de pedaços dolorosos bem ali no saguão do The Peninsula. Meu peito parecia oco, como se alguém tivesse arrancado meu coração e deixado uma cavidade vazia e dolorida. Cada olhar terno, cada sussurro possessivo, cada risada compartilhada com Dante de repente parecia manchada, uma imitação cruel de um amor que pertencia a outra pessoa.
Naquele exato momento, um alarme súbito e agudo soou pelo hotel. O caos irrompeu. As pessoas gritavam, correndo para as saídas. Um incêndio? Uma bomba? Fiquei paralisada, observando Dante e Júlia. Ele instintivamente a puxou para perto, protegendo-a com seu corpo, seu olhar fixo nela, alheio à multidão em pânico. "Júlia, você está bem?", ele murmurou, sua voz carregada de preocupação frenética. Ele nem sequer olhou ao redor. Ele não me viu.
Uma onda de pessoas passou por mim, uma maré de medo. Alguém bateu com força no meu braço ferido, enviando uma onda de dor lancinante através de mim. Gritei ao tropeçar para trás, caindo com força contra um pilar de mármore, minha cabeça batendo na pedra fria. Minha visão embaçou. "Dante!", sussurrei, minha voz perdida na cacofonia. Estendi a mão, um apelo desesperado, mas ele já estava se movendo, guiando Júlia em direção a uma saída de emergência discreta, de costas para mim. Ele segurava a mão dela, a cabeça inclinada para a dela, uma imagem de devoção. Ele a estava protegendo. Assim como me protegeu no acidente de carro. Mas desta vez, não era eu quem ele estava salvando.
A promessa, o voto que ele fez após o acidente, ecoou em meus ouvidos: "Eu sempre vou te proteger, Clara." Uma mentira cruel e zombeteira. Minha cabeça latejava, uma dor surda se espalhando pelo meu crânio. A dor no meu braço ardia, mas não era nada comparada à agonia lancinante em meu coração. Ele a escolheu. De novo. Como sempre faria.
A escuridão se insinuou nas bordas da minha visão. Os sons da multidão em pânico desapareceram, substituídos por um zumbido em meus ouvidos. A dor, tanto física quanto emocional, tornou-se insuportável. Senti-me escorregar, sucumbindo ao abismo negro.
Quando acordei, o cheiro forte de antisséptico encheu minhas narinas. Eu estava em uma cama de hospital, os lençóis brancos e estéreis um contraste gritante com a seda luxuosa da minha própria cama. Minha cabeça ainda latejava e meu braço estava enfaixado. Uma voz suave me assustou.
"Ah, você acordou."
Virei a cabeça. Júlia Soares estava ao lado da minha cama, um delicado lenço de seda enrolado no pescoço, fazendo-a parecer frágil e etérea. Seus olhos grandes e expressivos estavam fixos em mim. "Graças a Deus", ela suspirou, sua voz suave, quase angelical. "Eu estava tão preocupada. Depois que te encontrei inconsciente no saguão, chamei ajuda imediatamente." Ela fez uma pausa, um pequeno sorriso triste brincando em seus lábios. "Eu praticamente salvei sua vida, Clara."
Meu olhar endureceu. Salvou minha vida? Ela me encontrou depois que Dante me abandonou por ela. Suas palavras pareciam veneno. Não disse nada, apenas a estudei, minha expressão cuidadosamente em branco.
"Dante ficou tão angustiado", ela continuou, sua voz pingando simpatia. "Ele estava tão preocupado comigo, sabe, com a minha condição. Mas eu disse a ele: 'Dante, a Clara precisa de você! Ela é sua esposa!' Mas ele... ele simplesmente não conseguia me deixar." Seus olhos se arregalaram, fingindo inocência. "Ele te ama muito, claro. Mas alguns laços... são simplesmente diferentes, não são?"
Meu sangue gelou. Ela estava gostando disso. Cada palavra era um punhal cuidadosamente colocado, torcendo na ferida. "Minha condição", ela disse. Aquela que ela fabricou, sem dúvida, para atraí-lo de volta.
"Sabe, Dante e eu", ela começou de novo, baixando a voz conspiratoriamente, "tivemos uma história de amor épica. Cinco anos atrás, antes do meu diagnóstico de câncer, éramos inseparáveis. Ele ia me pedir em casamento. Tínhamos tudo planejado. Nosso futuro. Nossa casa. Até os nomes dos nossos filhos." Ela observou meu rosto, procurando por uma reação. "Você entende, não é? Alguns amores, eles nunca morrem de verdade. Eles apenas... pausam. Por um tempinho."
Meu peito se apertou, um peso esmagador. Cada memória feliz com Dante, cada momento íntimo, passou diante dos meus olhos. Eu era apenas uma reprise? Uma substituta para o futuro perdido dele com ela? O pensamento era uma cobra venenosa, enrolando-se em meu coração, espremendo a vida para fora dele. Eu era apenas um tapa-buraco. Alguém para preencher o vazio até que seu verdadeiro amor retornasse.
Mas eu não lhe daria essa satisfação. Forcei um sorriso frágil em meu rosto. "Que... nostálgico", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Parece verdadeiramente... épico. Uma tragédia, na verdade, que vocês não puderam terminar sua história então. Mas a vida continua, não é, Júlia? As pessoas mudam."
Ela piscou, sua fachada cuidadosamente construída vacilando por uma fração de segundo. "Bem, sim, claro", ela gaguejou. "Mas Dante... ele é um homem muito leal. E tão protetor. Ele nunca superou de verdade o que tivemos, sabe. Ele apenas... encontrou uma distração." Seu olhar se perdeu, depois voltou para o meu, afiado e calculista. "Você não acredita realmente que ele te ama, não é? Não como ele me ama."
Eu ri, um som seco e sem humor. "Júlia, querida", eu disse, minha voz de repente tingida com um veneno inesperado. "A diferença entre você e eu? Eu não preciso de uma doença terminal para manter um homem. E certamente não preciso ficar deitada em uma cama de hospital, implorando por atenção, para provar meu valor." Meus olhos se estreitaram. "Você não está morrendo, está? Apenas buscando simpatia. Um truque muito velho e muito transparente."
O rosto dela corou. "Como você ousa!", ela sibilou, sua fachada angelical desmoronando. "Você não sabe pelo que eu passei!"
"Ah, eu acho que sei", contrapus, minha voz ganhando força. "Você é uma pianista talentosa, não é? Um toque tão delicado. Mas sua performance de 'A Morte do Cisne' está um pouco exagerada, mesmo para uma artista clássica." Inclinei-me para mais perto, minha voz caindo para um sussurro perigoso. "Você se acha tão esperta, não é? Fazendo-se de vítima, tentando recuperar o que perdeu. Mas você é apenas insegura, Júlia. Você está com medo porque sabe que, mesmo com toda a sua história, todos os seus contos trágicos, Dante me escolheu."
Seus olhos brilharam. "Ele me escolheu há cinco anos!"
"E ele se casou comigo há cinco dias", retruquei, um brilho triunfante em meus olhos. "E agora, eu sou a esposa dele. Um fato que você parece desesperada para mudar." Meu sorriso se alargou, frio e predatório. "Então me diga, Júlia, você está realmente doente, ou apenas verde de inveja?"
Antes que ela pudesse responder, uma enfermeira entrou apressada, verificando meus sinais vitais. "Sra. Mendes, você não deveria se agitar", ela repreendeu gentilmente. "Você levou uma pancada e tanto na cabeça." Ela olhou para Júlia. "O horário de visitas está quase no fim, senhora."
Os lábios de Júlia se contraíram. Ela me lançou um olhar cheio de puro ódio. "Isso não acabou, Clara", ela cuspiu, sua voz baixa e venenosa. "Dante vai voltar para mim. Ele sempre volta." Ela se virou para sair, depois parou na porta. "Ah, e a propósito, acabei de mandar uma mensagem para o Dante. Disse a ele que estava me sentindo fraca e precisava dele. Ele estará aqui a qualquer minuto. Vamos ver para quem ele vem primeiro, que tal? A ex 'delicada' ou a esposa 'forte'." Um sorriso cruel tocou seus lábios enquanto ela saía, deixando-me com o coração acelerado e uma sensação crescente de pavor.
Meu peito se contraiu, mas me forcei a respirar. Não. Ela não venceria. Eu não iria quebrar. Não de novo. Fechei os olhos, tentando conjurar o rosto de Dante, sua ternura recente. Mas tudo o que vi foi ele a protegendo, de costas para mim.
Ouvi passos se aproximando, firmes e decididos. Meu coração saltou, depois despencou. Era Dante. Minha respiração ficou presa na garganta. Era isso. O momento da verdade.
Ele apareceu na porta, seus olhos percorrendo o quarto, depois pousando em mim. Por uma fração de segundo, vi preocupação, talvez até alívio. Minha esperança vacilou. Então ele se virou, sua voz áspera de urgência. "Enfermeira! Em que quarto está Júlia Soares? Ela me mandou uma mensagem. Está se sentindo mal."
Meu sangue gelou. Ele nem sequer olhou para mim, de verdade. Ele não perguntou sobre minha cabeça, meu braço, a queda. Ele simplesmente passou direto pela minha porta, a caminho dela. O ar saiu dos meus pulmões em um suspiro irregular. Ele a escolheu. Ele sempre a escolhia.
Engoli o nó na garganta, forçando-me a virar, a olhar pela janela para o horizonte movimentado de Hong Kong. A enfermeira, alheia, apontou-o pelo corredor. "Ela está logo ali, Sr. Castilho."
Eu podia ouvir seus passos se afastando, rápidos e sem hesitação. Ele se foi. Para ela. Uma nova onda de dor, mais fria e mais aguda do que qualquer ferimento físico, me invadiu. Ouvi uma conversa abafada do lado de fora da minha porta, umas duas enfermeiras fofocando. "Você viu isso? O Sr. Castilho correu direto para o quarto da ex-namorada. Mal olhou para a esposa!" "Ah, é sempre a ex, não é? Aquela que escapou."
As palavras eram como punhais, torcendo em meu coração já sangrando. O mundo do lado de fora da janela embaçou. Lágrimas, quentes e silenciosas, escorriam pelo meu rosto, misturando-se com o sangue fresco que vazava do curativo no meu braço. Cerrei os punhos, minhas unhas cravando em minhas palmas, a dor uma distração bem-vinda da agonia interior.
Assim que o médico terminou meu check-up superficial, exigi alta. "Preciso sair. Agora." O médico protestou, mas eu fui firme. Minha decisão estava tomada. Eu não ficaria mais um segundo neste lugar, neste país, nesta vida. Eu prepararia os papéis do divórcio. Eu o deixaria. Desta vez, para sempre.
Liguei para minha melhor amiga, Lia, as lágrimas finalmente rompendo minha compostura cuidadosamente construída. "Ele a escolheu, Lia. Ele realmente a escolheu." Minha voz falhou. "Ele passou direto por mim. Ele nem me viu."
"Aquele desgraçado!", a voz de Lia era um rugido furioso ao telefone. "Sério, Clara, saia daí. Saia da vida dele! Você merece muito mais."
"Mas... como?", sussurrei, novas lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Ele é dono de tudo. Ele controla tudo."
"Você é dona de si mesma, Clara Mendes!", ela retrucou. "E isso é a única coisa que importa. Volte para casa. Vamos dar um jeito juntas. Mas primeiro, encontre um advogado. Um implacável. Faça-o pagar por cada lágrima."
Desliguei, uma nova centelha de desafio se acendendo em meu peito. Ela estava certa. Eu era Clara Mendes. A noiva em fuga. Aquela que dirigiu um conversível para dentro de um espelho d'água. Eu não ia ficar aqui deitada chorando. Eu ia lutar.
Passei os dias seguintes em um borrão, cuidando dos meus ferimentos, reunindo minhas forças. A dor na minha cabeça e no meu braço desapareceu, mas a dor no meu coração permaneceu, uma pulsação constante e surda. Dante nunca mais voltou ao meu quarto. Nenhuma vez. Júlia, por outro lado, fez questão de me enviar arranjos de flores caros, porém totalmente de mau gosto. Cada buquê era um novo lembrete de sua traição.
Redigi os papéis do divórcio, meu advogado trabalhando rapidamente. Mas a equipe jurídica de Dante, sempre um passo à frente, encontrou uma brecha. Nosso acordo pré-nupcial, meticulosamente elaborado por meu pai, tornava quase impossível para mim sair sem perder tudo. Meu pai, em sua infinita sabedoria, havia garantido que eu estaria amarrada a Dante por correntes de ouro. Eu estava presa.
Mas Clara Mendes não ficava presa. Não por muito tempo.
Eu ansiava por uma fuga, uma maneira de anestesiar a dor roendo por dentro. Voltei para São Paulo, mas não para a mansão vazia. Procurei as baladas mais barulhentas, as festas mais exclusivas, perdendo-me em um turbilhão de luzes piscantes, música pulsante e emoções baratas. Dancei até meus pés doerem, bebi até minha cabeça girar e ri até minha garganta ficar rouca. A cada noite selvagem, eu tentava apagar a imagem das costas de Dante, de sua mão no braço de Júlia.
Uma noite, eu estava em um bar na cobertura, cercada por uma multidão de estranhos, um caleidoscópio de rostos bonitos e vazios. Pedi outro martíni, o meu quinto. Um jovem bonito, um dançarino profissional que eu conhecera uma vez, me lançou um sorriso deslumbrante. "Clara, você parece que precisa dançar para espantar alguns demônios."
"Demônios são meus parceiros de dança favoritos", eu disse arrastado, pegando sua mão. Giramos na pista de dança, movendo-nos ao ritmo pulsante. Ele era jovem, vibrante e totalmente despretensioso. Ele era tudo o que Dante não era. Por um momento fugaz, quase esqueci o vazio. Ele se inclinou para perto, seu hálito quente contra minha orelha. "Quer ir para um lugar mais... privado?"
Olhei em seus olhos, um impulso imprudente surgindo em mim. Por que não? O que eu tinha a perder agora? Eu estava livre. Ou pelo menos, estava tentando estar. Assenti, um sorriso desafiador em meus lábios. "Mostre o caminho." Meu celular vibrou na minha bolsa. Ignorei. Não me importava quem era. Eu cansei de me importar.
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