
Seu Jogo Cruel, o Coração Dela Partido
Capítulo 2
Na manhã seguinte, Clara sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com sua febre. Lembrou-se das palavras de Heitor da noite anterior, a crueldade casual em sua voz enquanto planejava a próxima "pegadinha" com Stella.
Ela caminhou em direção ao escritório dele, um lugar onde geralmente era bem-vinda. A porta estava entreaberta. Ela ouviu suas vozes novamente.
— Tem certeza de que isso é uma boa ideia, Heitor? Um sequestro falso parece um pouco demais — disse Stella.
— É perfeito — respondeu Heitor, sua voz suave. — Teremos as duas amarradas. Eu em uma videochamada. Terei que escolher quem salvar. Será o teste final do meu amor por você, querida.
O coração de Clara parou.
— Mas e se ela ficar com medo? E se ela realmente se machucar? — perguntou Stella, com uma falsa nota de preocupação na voz.
— Não se preocupe. É tudo encenado. Haverá um airbag. É a pegadinha número 98. Precisamos torná-la memorável antes do grande final.
O grande final. O casamento. Onde eles planejavam revelar tudo e rir dela.
— E se você começar a sentir pena dela? — Stella pressionou.
Houve uma pausa. Clara prendeu a respiração.
— Sentir pena da Clara? — Heitor riu, um som frio e vazio. — Nunca. Isso sempre foi sobre você, Stella. Sempre foi por você.
— Ah, Heitor — Stella ronronou, satisfeita. — Eu sabia que você ainda me amava mais.
Clara recuou da porta, seu corpo dormente. Sentia como se não pudesse respirar. Cada palavra de amor, cada toque terno dos últimos três anos era uma mentira. Uma performance.
Ela conseguiu voltar para seu quarto, desabando na cama. Seu corpo tremia.
Algumas horas depois, seu telefone tocou. Era Heitor.
— Oi, amor. Desculpe por ontem à noite. Sinto sua falta — disse ele, sua voz cheia de um calor falso. — Escuta, preciso que você faça algo por mim.
Ele precisava que ela entregasse um arquivo em uma mansão remota na serra. Disse que era urgente, para um negócio. Disse a ela para ir sozinha e não contar a ninguém.
— E Clara — ele acrescentou —, use aquele vestido branco que eu tanto amo.
Ela sabia que era uma armadilha. Era o começo da pegadinha número 98. Mas seu passaporte e identidade ainda estavam desaparecidos. Ele os tinha. Ele a estava controlando.
— Eu te devolvo seu passaporte e identidade logo depois que você entregar o arquivo — disse ele, como se lesse seus pensamentos.
Ela não tinha escolha. — Ok — sussurrou.
A viagem foi longa. Sua febre piorou e seu corpo doía. Quando finalmente chegou à mansão, o sol estava se pondo, lançando sombras longas e sinistras.
Quando estendeu a mão para a campainha, dois homens mascarados a agarraram por trás. Eles a arrastaram para dentro, a amarraram a uma cadeira e colocaram um saco em sua cabeça.
Quando finalmente tiraram o saco, ela viu Stella amarrada a uma cadeira em frente a ela. Stella estava chorando, sua maquiagem borrada. Era uma performance convincente.
Um laptop foi colocado na frente delas. A tela piscou e mostrou o rosto bonito e preocupado de Heitor.
— Heitor! Nos ajude! — Stella gritou.
Um dos homens mascarados, com a voz distorcida eletronicamente, disse: — Heitor Albuquerque. Você só pode salvar uma. Sua noiva, ou sua pequena artista. Escolha.
O rosto de Heitor era uma máscara de angústia. Ele olhou de Stella para Clara.
Por um segundo louco, o coração de Clara bateu com um pingo de esperança. Ele a escolheria? Depois de três anos, algo daquilo significou alguma coisa para ele?
— Eu escolho a Stella — disse Heitor, sem um momento de hesitação. — Eu pago qualquer coisa. Apenas a deixem ir.
Ele olhou para Clara, seus olhos cheios de uma falsa pena. — Sinto muito, Clara. De verdade.
Então ele desligou.
A esperança dentro de Clara morreu, final e para sempre.
Os homens desamarraram Stella e a levaram embora. Clara foi deixada sozinha no quarto escuro.
Então, os homens voltaram para buscá-la. Eles a arrastaram em direção a uma grande janela com vista para o penhasco.
— Ele não te escolheu — um deles rosnou. — Agora você paga o preço.
Eles a empurraram para o parapeito da janela. O vento chicoteava seu cabelo em seu rosto. Abaixo, havia apenas escuridão e o som das ondas quebrando.
— Por favor — ela sussurrou, sem saber a quem estava implorando.
Instintivamente, ela chamou o nome dele. — Heitor!
Então ela parou. Por que estava chamando pelo homem que acabara de condená-la à morte? Seu coração parecia estar sendo arrancado de seu peito.
— Nos dê o arquivo — disse o homem —, ou você vai para baixo.
Ela agarrou o arquivo contra o peito. Era a última coisa que ele havia pedido que ela fizesse por ele. Mesmo agora, alguma parte quebrada dela queria ser leal.
O homem de repente a soltou.
Ela perdeu o equilíbrio, seu corpo tombando sobre a borda. Enquanto caía, uma estranha sensação de paz a invadiu. Era isso. Era o fim da dor.
Ela fechou os olhos, esperando pelo impacto.
Mas ele nunca veio.
Ela aterrissou em algo macio, elástico. Um airbag.
Risadas explodiram ao seu redor. Os homens tiraram as máscaras. Eram os amigos de Heitor. Stella estava lá, olhando para ela de cima, um sorriso triunfante no rosto.
— Você realmente achou que ele escolheria você? — um deles zombou. — Foi tudo uma pegadinha, sua idiota.
— Ela realmente achou que ele a amava — outro riu. — Ela até chamou o nome dele antes de cair.
Clara ficou deitada no airbag, olhando para seus rostos zombeteiros. O mundo girava ao seu redor. A humilhação foi um golpe físico, pior do que qualquer queda. Esta era a pegadinha número 98. Um jogo que eles jogaram com sua vida, seu coração.
E ela havia caído completamente.
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