
Seu Casamento por Piedade, Minha Volta Feroz
Capítulo 2
Ponto de Vista: Aurora Espinoza
Minha mão tremia enquanto eu pegava meu celular, a tela ainda exibindo o post triunfante e odioso de Kiara. Meu coração batia tão forte que parecia que ia explodir no meu peito. A raiva era um líquido quente e escaldante, queimando os últimos vestígios da minha alegria de noiva.
"Essa Kiara", eu disse, minha voz trêmula, mas estranhamente firme. Estendi o celular para Caio, a tela brilhando. "Essa Kiara é sua esposa."
Os olhos de Caio se arregalaram, um lampejo de choque genuíno finalmente quebrando sua fachada composta. Sua mandíbula se contraiu, e a máscara calculada que ele usava evaporou, substituída por um pânico cru e furioso.
Ele arrancou o celular da minha mão, seus dedos surpreendentemente fortes, e encarou a tela. A cor sumiu de seu rosto, deixando-o pálido como um fantasma. Ele rolou pelos comentários, seus olhos dardejando, sua respiração curta e irregular. O vídeo, a certidão de casamento, a declaração presunçosa de Kiara — estava tudo lá, inegável.
O silêncio pairou pesado no quarto, sufocante e denso com acusações não ditas. O som distante da música do casamento lá embaixo parecia uma piada cruel.
Então, Caio, ainda segurando meu celular, soltou uma risada curta e oca. Era um som desprovido de humor, frágil e falso. Ele olhou para mim, seus olhos agora sem calor, cheios de uma raiva fria e calculista.
"É isso?", ele zombou, acenando com o celular de forma desdenhosa. "É por isso que você está tão alterada? Isso é a tentativa patética de uma garota desesperada para chamar a atenção." Ele jogou meu celular de volta na cama, a tela piscando brevemente o rosto triunfante de Kiara antes de escurecer.
Meu próprio celular. Minha própria prova. Ele já estava tentando apagar, negar.
"Patética?", repeti, minha voz se elevando. "Caio, ela postou uma certidão de casamento! Com o seu nome! Ela está dizendo que é sua esposa!"
Ele jogou as mãos para o alto em exasperação. "Ah, pelo amor de Deus, Aurora! Você é tão ingênua! Você realmente acha que eu me casaria com alguém como ela? Uma estagiária obcecada? Você acha que eu colocaria em risco tudo o que construímos, tudo o que temos, por... isso?" Ele gesticulou vagamente, seu desdém palpável.
"Então o que é, Caio?", exigi, aproximando-me, minha raiva finalmente encontrando sua voz plena. "Explique! Explique por que meu noivo, no dia do nosso casamento, tem uma certidão de casamento com outra mulher!"
Ele hesitou, seus olhos percorrendo o quarto como se procurasse uma rota de fuga. Então, uma nova máscara desceu — a do herói sobrecarregado, o salvador compassivo.
"Tudo bem", disse ele, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. Ele parecia cansado, sobrecarregado, como se eu fosse a única a lhe causar problemas. "Você quer a verdade? A verdade feia? Então se prepare, Aurora, porque não é bonita."
Ele se sentou na poltrona macia, a cabeça entre as mãos, fingindo angústia. "A Kiara... ela sempre foi um pouco... perturbada. Obsessiva. Você se lembra como ela era, mesmo naquela época. Sempre à espreita, sempre observando."
Eu me lembrava dela sendo quieta. Não obsessiva. Mas eu ouvi, um pavor frio se torcendo em minhas entranhas.
"A avó dela", ele continuou, sua voz baixa e pesarosa, "estava morrendo. Em estado terminal. Kiara veio até mim, em lágrimas, praticamente implorando. O último desejo da avó dela, Aurora. O último desejo da avó moribunda era ver Kiara estabelecida, casada com um bom homem." Ele olhou para cima, seus olhos suplicando por compreensão. "Ela inventou toda essa história sobre nós, sobre ela ser meu 'amor secreto' todos esses anos. E a avó dela... acreditou. Ela realmente acreditou que Kiara e eu estávamos destinados a ficar juntos."
Meu queixo caiu. "Você se casou com ela por causa do desejo de uma avó moribunda?" As palavras tinham gosto de cinzas. Minha própria avó moribunda queria me ver casada. Ele teria se casado com uma estranha por ela também?
"Foi um casamento por pena, Aurora!", ele insistiu, sua voz se elevando em desespero. "Um puro ato de caridade! Eu não podia dizer não. Não para uma velha moribunda. Eu pretendia anular imediatamente depois que ela falecesse. Uma anulação rápida e silenciosa. Ninguém jamais saberia."
Ele se levantou, vindo ficar diante de mim. "Eu ia te contar, é claro! Depois que a anulação fosse finalizada. Mas então... então a avó dela melhorou, por um tempo. E então ela faleceu, há apenas alguns dias. Eu ia cuidar da papelada esta semana, antes da nossa festa, mas com tudo acontecendo..." Ele parou, gesticulando vagamente para o quarto opulento, para o vestido de noiva que eu usava.
"Então, você simplesmente esqueceu?", sibilei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Você esqueceu que estava casado com outra pessoa? Você esqueceu de anular antes de ficar aqui, horas antes do nosso próprio casamento, e prometer sua vida a mim?"
"Não, claro que não!", ele gritou, tentando me alcançar de novo. "Eu nunca esqueci de você, Aurora! Você é a minha vida! Isso... isso foi um lapso momentâneo de julgamento, um ato de compaixão que saiu do controle. Eu juro a você, Kiara não significa nada. Ela é uma garota manipuladora e obsessiva que se aproveitou da minha boa natureza."
Suas palavras, antes tão convincentes, agora soavam ocas, como uma performance desesperada. A compaixão, a pena que ele afirmava ter sentido por Kiara, parecia um tapa na minha cara. E os meus sentimentos? E os sete anos que passamos construindo nossas vidas, nossa empresa, nosso futuro?
"Pena?", zombei, afastando-me dele. "Você se casou com ela por pena? Você sabe o que eu sacrifiquei por nós, Caio? Pela nossa empresa? Todas as minhas economias, minha herança, minha juventude! Cada noite mal dormida, cada feriado cancelado, cada centavo que eu investi para tornar nosso sonho realidade. E você... você está me dizendo que se casou com outra pessoa por maldita pena?"
Seu rosto endureceu. O salvador ofendido desapareceu, substituído por um empresário frio e calculista. "Ah, lá vamos nós", ele murmurou, revirando os olhos. "Sempre sobre o dinheiro, não é, Aurora? Sempre sobre o que você 'sacrificou'. Não me diga que de repente você vai se fazer de vítima e começar a listar suas contribuições."
Um calafrio percorreu minha espinha. "Vítima? Caio, estou usando um vestido de noiva para a nossa festa, e você está casado com outra mulher! Como você chama isso?"
Ele me encarou, seus olhos se estreitando em fendas. "Olha, estou tentando ser compreensivo aqui, mas você está sendo histérica. Isso é um mal-entendido menor, que eu posso consertar. Vou conseguir a anulação. Kiara não significa nada. Você significa tudo. Não estrague o nosso dia, Aurora." Ele enfiou a mão no bolso do smoking. "Quanto você quer? Para fazer isso desaparecer? Para esquecer toda essa bobagem da Kiara e nos casarmos?"
Ele tirou a carteira, um maço grosso de dinheiro visível dentro. Ele destacou algumas notas de duzentos reais, estendendo-as para mim. "Apenas pegue. Veja como um agrado pelos seus problemas. Agora, vamos nos casar."
O dinheiro pareceu um insulto sujo. Ele estava tentando comprar meu silêncio, comprar sua traição. Minha visão nadou com lágrimas de pura e inalterada fúria. Minhas mãos se fecharam em punhos, minhas unhas cravando em minhas palmas.
"Você acha que isso é sobre dinheiro?", sussurrei, minha voz tremendo de fúria contida. "Você acha que pode simplesmente me pagar?"
Ele deu de ombros, um movimento desdenhoso da mão. "Sempre é, eventualmente, não é? Apenas diga seu preço. Podemos resolver as ações da empresa, o que você precisar para se sentir... compensada. Só não hoje. Não agora." Ele deu outro passo em minha direção, seus olhos duros. "Não faça uma cena, Aurora. Você não gostaria de se envergonhar. Ou a mim."
Suas palavras eram uma ameaça, um aviso velado. Ele não estava pedindo; estava mandando. E naquele momento, algo dentro de mim se quebrou. Os anos de amor, de confiança, de construir algo juntos, se estilhaçaram em um milhão de pedaços irreparáveis.
Minha mão ainda segurava a rosa que ele me dera. Sem pensar, sem um único pensamento além do impulso primal de machucá-lo como ele me machucou, eu balancei. O caule espinhoso o atingiu na bochecha, deixando uma linha fina e vermelha.
Caio me encarou, seus olhos arregalados de incredulidade, depois se transformando em fúria pura e inalterada. A máscara gentil se foi, completamente. Este era o verdadeiro Caio, frio e cruel. Ele levantou a mão. Antes que eu pudesse reagir, sua palma conectou-se bruscamente com minha bochecha. A força do golpe me fez cambalear, minha cabeça estalando para trás. Tropecei, caindo pesadamente contra a cômoda ornamentada, a dor explodindo atrás dos meus olhos.
Meus ouvidos zumbiam. Minha bochecha ardia, uma marca de fogo de sua mão. Senti o gosto de sangue. Ele tinha me batido. No dia do nosso casamento. Depois de se casar com outra mulher. Depois de me fazer de louca.
Ele recuou, seu peito arfando, seus olhos brilhando com uma intensidade assustadora. "SUA VADIA!", ele rosnou, sua voz crua de ameaça. "Olha o que você me fez fazer! Você acha que pode simplesmente me agredir? Você acha que pode arruinar minha reputação, arruinar tudo pelo que trabalhei, e sair impune?"
Ele apontou um dedo trêmulo para mim. "A partir de agora, Aurora, a outra é você. Não ela. Você." Ele cuspiu as palavras, veneno pingando de cada sílaba. "E se você tentar criar problemas, se tentar me expor, eu vou garantir que você perca tudo. Cada coisinha. Começando pelo seu bom nome."
Suas ameaças, sua violência, sua total falta de remorso — foi um despertar brutal. Eu estava ali, minha bochecha latejando, meu coração doendo com uma dor muito mais profunda do que qualquer golpe físico. O homem que eu amava, o homem com quem eu deveria me casar, era um monstro. E eu estava presa.
Mas enquanto eu estava ali, olhando para seu rosto enfurecido e distorcido, uma determinação fria e dura começou a se formar nos pedaços estilhaçados do meu coração. Ele queria destruir meu bom nome? Ele queria que eu perdesse tudo? Ele logo aprenderia que Aurora Espinoza não era uma mulher que caía sem lutar. Ele aprenderia o que significava perder tudo de verdade.
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