
Seu Casamento por Piedade, Minha Volta Feroz
Capítulo 3
Ponto de Vista: Aurora Espinoza
As palavras de Caio, "A outra é você", ecoaram na minha cabeça, uma declaração arrepiante que solidificou tudo. A ardência na minha bochecha não era nada comparada ao gelo que se formava em minhas veias. Levantei-me, lentamente, meu corpo doendo, mas minha mente de repente clara. As lágrimas haviam parado. Havia apenas uma determinação fria e ardente.
Ele andava de um lado para o outro no quarto, passando a mão pelo cabelo, resmungando para si mesmo. "Isso é um desastre. Um desastre completo e absoluto. Tudo por causa daquela vadiazinha manipuladora da Kiara. E agora você, Aurora, botando mais lenha na fogueira. O que você estava pensando, me batendo?" Ele nem mesmo reconheceu o fato de que foi ele quem me bateu primeiro.
"Você realmente acha que pode simplesmente... me apagar?", perguntei, minha voz plana, desprovida de emoção. "Apagar nossos sete anos, nossa empresa, nossa vida inteira juntos, e simplesmente seguir em frente com sua noiva 'por pena'?"
Ele parou de andar, virando-se para mim, seus olhos ainda duros, mas agora tingidos com um lampejo de algo que eu não conseguia decifrar — talvez um toque de medo genuíno, ou talvez apenas irritação. "Aurora, não é isso que eu quero. Eu quero a gente. Kiara é um erro. Um lapso momentâneo. Eu te disse, vou consertar. Vou conseguir uma anulação. Vai ser como se nunca tivesse acontecido." Ele respirou fundo, tentando recuperar a compostura. "Você só precisa me dar tempo. E precisa parar de fazer ondas. Precisa ficar quieta sobre isso."
Ele caminhou até mim, estendendo a mão como se para me confortar, mas eu recuei antes que ele pudesse me tocar. A ideia do toque dele fazia minha pele arrepiar. A náusea, que tinha sido uma dor surda no meu estômago a manhã toda, intensificou-se, ameaçando me dominar.
"Ficar quieta?", repeti, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Caio, todo mundo já sabe. Aquele vídeo é viral. Kiara postou para o mundo inteiro ver."
Seu rosto se contorceu em descrença. "O quê? Viral? Não, não, isso é impossível. Ela não ousaria." Ele pegou meu celular de novo, seus dedos desajeitados enquanto tentava desbloqueá-lo. Eu deixei. Não havia mais sentido em esconder. O estrago estava feito.
Enquanto ele rolava a tela, seus olhos dardejando freneticamente, uma percepção arrepiante me atingiu. A náusea não era apenas nojo ou coração partido. Era uma sensação familiar, uma que eu vinha tentando ignorar por semanas. A menstruação atrasada. O cansaço. As mudanças sutis no meu corpo.
Eu estava grávida.
Do bebê de Caio.
O pensamento me atingiu com a força de um golpe físico. Um bebê. Nosso bebê. Um símbolo do futuro que havíamos planejado tão meticulosamente, agora manchado por sua traição monstruosa. Olhei para Caio, ainda absorto no caos online, seu rosto uma máscara de fúria e pânico. Este homem, este monstro, era o pai do meu filho.
Não. Não, eu não podia. Eu não podia trazer uma criança para este mundo tóxico e quebrado. Não com ele. Não com a sombra de Kiara à espreita, não com a memória de sua mão no meu rosto, torcendo meu coração em nós. O bebê merecia mais. Eu merecia mais.
Uma clareza fria e dura se instalou sobre mim. Isso não era mais apenas sobre mim. Era sobre cortar todos os laços com ele, cada pedaço da vida que havíamos construído. Meu filho, a vida inocente crescendo dentro de mim, merecia um recomeço limpo, um novo começo. E isso significava... recomeçar. Completamente.
"Caio", eu disse, minha voz cortando seu resmungo frenético. Fiquei de pé, ombros para trás, meu olhar inabalável. "Não haverá anulação. Não haverá conserto. E não haverá mais 'nós' nunca mais."
Ele olhou para cima, seus olhos vermelhos, ainda rolando pelos comentários virais. "Aurora, não seja ridícula. Isso é apenas um contratempo. Um pesadelo de relações públicas, sim, mas vamos administrar. Nós sempre administramos." Ele tentou um tom conciliador, sua voz suave, ensaiada.
"Não", eu disse, balançando a cabeça. Uma única lágrima escapou, traçando um caminho pela minha bochecha machucada. Mas não era uma lágrima de tristeza. Era uma lágrima de finalidade. "Não vamos. Porque eu cansei. Estou completa, total e irrevogavelmente farta de você."
Ele zombou, jogando meu celular de volta na cama. "Farta? Não seja infantil, Aurora. Você não tem para onde ir. Tudo o que você tem está ligado a mim, a nós. Nossa empresa, sua reputação, seu futuro. Você acha que pode simplesmente ir embora de tudo isso?" Seus olhos brilharam com malícia. "Você será arruinada. Desonrada. Você não será nada."
"Pode tentar", eu disse, minha voz mal passando de um sussurro, mas cheia de uma força nova e aterrorizante. Virei-me, uma determinação feroz queimando em minha alma. Saí da suíte, deixando-o de pé em meio às ruínas do nosso dia de casamento estilhaçado.
Não desci. Não vi os convidados. Passei pela minha mãe, que chamou meu nome, mas não parei. Saí do local, passando pelo manobrista perplexo, e entrei no ar fresco da noite. As luzes da cidade se borraram ao meu redor. Meu carro. Eu precisava do meu carro.
Eu dirigi. Não sabia para onde estava indo, mas sabia que não podia ficar. Não podia respirar o mesmo ar que ele. Não podia carregar seu filho. O peso do mundo pressionava sobre mim, mas em meio ao desespero esmagador, uma pequena faísca de rebelião tremeluziu. Eu não seria nada. Eu seria tudo. Eu recuperaria minha vida, minha dignidade e meu futuro. Começando agora.
Meu celular tocou. Era Caio. Deixei tocar. E tocar. Ele ligou de novo. E de novo. Acabei silenciando o celular, jogando-o no banco do passageiro. Não queria ouvir suas desculpas, suas manipulações, suas ameaças. Eu só queria focar na estrada à frente, nas escolhas impossíveis que eu tinha que fazer.
Dirigi até as luzes da cidade desaparecerem, substituídas pela escuridão silenciosa das ruas suburbanas. Minha mente era um turbilhão de emoções, mas uma decisão se destacava, nítida e inflexível. Parei o carro, minhas mãos ainda agarrando o volante. Eu sabia o que tinha que fazer. Por mim. Pelo futuro que não estava mais ligado a ele.
Eu interromperia secretamente minha gravidez. Era uma escolha dolorosa, de partir o coração, mas necessária. Esta criança merecia um começo imaculado, uma vida livre dos destroços do relacionamento tóxico de seus pais. E eu merecia a chance de curar, de reconstruir, de me tornar a mulher que eu deveria ser, desimpedida pelos fantasmas de um passado estilhaçado. Com a decisão tomada, uma calma estranha e oca se instalou sobre mim. Este foi meu primeiro passo para retomar o controle.
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