
Sete Anos de Mentira, Agora Rainha
Capítulo 2
Ponto de Vista de Ana Monteiro:
Não sei quanto tempo fiquei deitada no chão frio da cozinha. O tempo parecia se esticar e se deformar, cada segundo uma eternidade de gritos silenciosos. Quando finalmente me levantei, meus membros pareciam pesados, desconectados do meu corpo. O relógio no balcão parecia zombar de mim. Um monumento à minha própria estupidez.
Olhei novamente para as duas cartas. A do advogado, Frederico Amaral. O nome não significava nada para mim. Um bilionário recluso da tecnologia de uma era passada, uma figura tipo Howard Hughes que havia desaparecido da vida pública décadas atrás. Uma órfã como eu não teria nenhuma conexão com um homem assim. Tinha que ser um engano.
A outra carta, no entanto, não era engano. Era a verdade, fria, dura e inegável.
Meu celular vibrou de novo. E de novo. Um ataque implacável. Amigos — ou pessoas que eu pensava serem amigas — me enviando links para as notícias, suas mensagens uma mistura de pena e curiosidade mórbida.
Então veio uma mensagem de um número que eu não reconheci. Meu polegar pairou sobre ela, depois pressionou.
Era uma foto. Karina. Ela estava mostrando a mão esquerda, o diamante monstruoso brilhando sob um lustre. Seu sorriso era triunfante, predatório. A legenda era simples.
"Ele me disse que você era só uma empregada. Parece que ele estava certo. Obrigada por aquecer o lugar pra mim."
Uma nova onda de náusea me atingiu. Lembrei-me de ajudar Heitor a escolher um presente de aniversário para Karina alguns meses atrás. Uma delicada pulseira de diamantes. Ele disse que era um bônus por seu trabalho excepcional. Eu até sugeri o design, pensando que era um gesto gentil para minha protegida de olhos brilhantes. Eu tinha sido tão cega. Eu mesma entreguei o machado ao meu carrasco.
Forcei-me a respirar, o ar prendendo na minha garganta como cacos de vidro. Outra mensagem soou, desta vez um e-mail com um assunto que cortou o ruído: "Convite: O Círculo Apex."
Meus dedos, desajeitados e trêmulos, o abriram. Era um convite formal para me juntar a um clube exclusivo e clandestino para os arquitetos e desenvolvedores de software de elite do mundo. Aqueles que trabalhavam nas sombras, os verdadeiros gênios por trás da tecnologia global. Eles me chamaram pelo nome que eu usava nos fóruns de programação da deep web, um nome que apenas um punhado de pessoas conhecia: "Fantasma".
"Admiramos seu trabalho na arquitetura central da Castilho Inovações há anos", dizia o e-mail. "Seu talento não deveria permanecer nas sombras. Ficaríamos honrados em tê-la conosco."
Uma única risada histérica me escapou. Na mesma hora em que minha vida foi despedaçada, uma porta que eu nunca soube que existia estava se abrindo.
Respondi instantaneamente. "Eu aceito. Seria uma honra."
Uma pequena e desafiadora faísca de vida se acendeu no deserto congelado do meu coração. Não era muito, mas era algo. Algo que era meu.
Minha mente disparou. Eu precisava de um plano. Não podia ficar aqui. Esta casa, esta vida, era tudo uma mentira. Pensei no bebê. Meu bebê. Não dele. Nunca dele. Minha mão repousou sobre meu estômago ainda plano, um instinto feroz e protetor surgindo dentro de mim.
Então me lembrei da primeira carta. O advogado. Frederico Amaral. Era um tiro no escuro, um agarrar desesperado e insano a um pedaço de destroço flutuante, mas era tudo que eu tinha. Encontrei o escritório de advocacia online, meus dedos voando pelo teclado. Encontrei a linha direta do sócio principal.
Ele atendeu no segundo toque, sua voz calma e profissional.
"Aqui é Ana Monteiro", eu disse, minha própria voz soando oca e distante. "Recebi uma carta sobre Frederico Amaral."
Houve uma pausa, e então o tom do advogado mudou, tornando-se mais caloroso, quase reverente. "Sra. Monteiro. Estivemos tentando encontrá-la por muito tempo. Seu pai..."
"Meu pai?" A palavra soou estranha na minha língua. "Eu não tenho pai. Sou órfã."
"Isso não é verdade", disse o advogado gentilmente. "Frederico Amaral é seu pai biológico. Ele tem procurado por você desde que você se perdeu."
O chão pareceu sumir debaixo de mim pela segunda vez naquele dia. Meu pai. Um bilionário recluso da tecnologia. Era demais. Era impossível. Mas em um mundo onde meu casamento de sete anos era um fantasma, talvez o impossível fosse a única coisa em que restava acreditar.
"Eu... eu preciso de ajuda", sussurrei, as palavras rasgando minha garganta. "Estou grávida. E estou indo embora."
"O que você precisar, Sra. Monteiro", disse o advogado, sua voz firme e tranquilizadora. "Os recursos do seu pai agora são seus recursos. Para onde devemos enviar um carro?"
Dei a ele o endereço, minha mente um borrão. Desliguei o telefone. Olhei para o bolo de aniversário que eu havia assado, as palavras "Feliz 7 Anos, H" escritas com uma cuidadosa caligrafia de chocolate. Com uma onda de fúria fria, peguei-o e o atirei contra a parede. Ele se espatifou, o creme doce e o chocolate rico escorrendo pela parede branca e imaculada como sangue. Um fim perfeito, bagunçado e final.
Adeus, Heitor.
Apaguei todos os vestígios de mim mesma da casa, fazendo uma única mala com meus laptops, discos rígidos e os poucos itens pessoais que eram verdadeiramente meus. Quando estava prestes a desligar meu celular para sempre, uma última mensagem chegou.
Era de Karina. Era um vídeo.
Meu polegar, agindo por conta própria, pressionou play. A tela se encheu com o rosto de Karina, corado e presunçoso. Ela estava em um quarto de hotel, apoiada em travesseiros, vestindo uma das camisas de Heitor. O som estava abafado, mas eu podia ouvir a voz dele, baixa e íntima, ao fundo.
"Tem certeza de que ela não vai ver isso?", ouvi-o murmurar.
Karina deu uma risadinha, um som que me deu arrepios. "Claro que não, bobo. Ela pensa que sou sua doce e pequena protegida. Ela até me ajudou a descobrir que tipo de presentes você gosta."
Ouvi o farfalhar dos lençóis, depois a voz de Heitor, mais próxima desta vez, tingida de uma diversão preguiçosa que me cortou mais fundo do que qualquer raiva. "É mesmo? Bem, você pode agradecê-la por mim mais tarde."
O vídeo cortou.
O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão. A bile subiu pela minha garganta, quente e amarga. Não foi apenas uma traição. Foi uma conspiração. Eles estavam trabalhando juntos, rindo de mim, usando minha confiança e meu amor como armas contra mim. A mentoria, a "admiração", a amizade — tudo foi uma performance calculada.
Por quanto tempo? Por quanto tempo eu fui a tola deles?
O som de um carro entrando na garagem quebrou o silêncio sufocante. Minha fuga. Minha nova vida.
Eu não olhei para trás.
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