
SEMPRE SUA LUCE.
Capítulo 2
- Tá! Só não demora muito.
- Por que você não se vira garota? Não percebeu que ele está
ocupado? – diz Kate e depois de dizer isso começou a tocar Jason
naquele lugar. Sim, nesse mesmo que você está pensando.
Nojento.
Não era obrigada a ficar ali presenciando essa cena, então ignorei o
comentário idiota e sai andando. Melhor chegar atrasada do que
ficar traumatizada vendo Kate enfiar a língua na orelha do meu
irmão.
No caminho acabei parando no Joe's, uma cafeteria pequena que
tem no bairro. Não é só porque fica aqui pertinho porque Joe faz o
melhor café da cidade! Gosto de vier aqui, me sentar e tomar café
tranquila, enquanto lia alguns livros que Joe deixava no balcão para
os clientes. Esse é um dos meus lugares preciosos, aqui eu não
preciso pensar nem me lembrar de nada. Joe já está tão habituado
comigo que não deixa ninguém se sentar na minha mesa e até
mesmo comprava alguns livros velhos no sebo para mim.
- Bom dia Ems, hoje eu vi que você se atrasou um pouco, está tudo
bem? – pergunta quando chego ao balcão.
- Nem me fale Joe, está tudo bem sim eu só me atrasei mesmo.
Sabe como é complicado lá no lar né, um banheiro só para gente
demais. – ri.
- Claro, - sorri de lado, quase me fazendo desmaiar - já deixei tudo
prontinho para você. O de sempre, não é mesmo!?
Joe é uma das pessoas que embelezavam o bairro, o lugar podia
não ser lá essas coisas, mas foi aqui que eu cresci e conheci as
melhores pessoas da minha vida, incluindo ele. Joe é negro de
olhos castanho escuros, forte (deliciosamente forte) e tem quase a
minha idade, uns 22 anos. Ele é lindo, tanto por dentro como por
fora (principalmente por fora) e nunca o vi sem um sorriso no rosto.
- Hmm... Como sempre o cheiro está ótimo Joe, você é um máximo!
– digo pegando meu pedido. Entrego o dinheiro a ele, pego um dos
seus livros em cima do balcão e quando estou saindo o ouço me
chamar.
- Oh.. Espera – diz passando os dedos rapidamente naqueles seus
lindos cachos, os bagunçando ainda mais – Emma.. Er.. Você vai
fazer algo hoje à noite? Sabe, quando sair do trabalho? – depois de
dizer isso me encarou com aqueles olhos escuros, que nem
jaboticaba, de um jeito pidão, mas muito, muito sexy.
- Acho. Acho que não, por quê? – digo fingindo não ligar e surtando
por dentro.
Para tudo! Joe vai ENFIM, ALELUIA, me convidar para sair?! Já
estava desistindo, sério! Sabe quantos brownies eu tive que comer
para que isso acontecesse? Muitos, milhares! Estou perto de virar
um bolinho ambulante e minha bunda super concorda com isso.
- Ótimo, eu tenho um par de convites para uma festa no Granni's.
Queria saber se você gostaria de ir comigo.
Ai Deus, com esses olhos aí meu querido vou onde você quiser
principalmente se esse lugar for o Granni's, que é simplesmente a
melhor balada da cidade. As melhores festas acontecem somente
uma vez no mês e só entra quem é convidado.
Mas é claro que eu respondi diferente.
- Ah... Pode ser. Me manda o endereço e o horário, ok?
- Ok, então está marcado! – responde com uma piscadinha.
Dei um sorriso tímido e fui saindo rindo internamente dessa situação
(uma risada interna bem histérica, diga-se de passagem). Esperava
por um convite dele há uns três meses, acho. No início fui lá não
porque o café era ótimo, mas porque o cara que o fazia era lindo.
Meu último quase namorado deve ter sido há uns dois anos, sem
brincadeira. Precisava de uma mudança na minha vida e como já
disse, conseguir essa proeza foi um grande sacrifício que se
consistia em muitos, muitos bolinhos.
- Calma.. Emma, espera! – disse Joe, tirando o avental e correndo
para me alcançar, já estava virando a esquina quando me
encontrou.
- O-oi, o que foi? – Nossa dessa vez foi bem rápido, já vai me
dispensar? Desistiu? Será? Ah.. mas eu nem estava querendo tanto
assim. Vou ao Joe's todo dia pelo café, claro que não tem nada a
ver com aqueles braços fortes que ele tem, ou aqueles olhos
penetrantes e extremamente sexys. Eu não preciso disso! Se eu
estiver carente é só chamar o Jason para sair comigo, claro que ele
vai me deixar sozinha nos primeiros instantes que encontrar uma
que se esfregue nele e...
- Ems, primeiro, como vou te avisar se não tenho o seu número?
Segundo, posso estar com avental e cheirar a muffins, mas sou um
cavalheiro. Te busco lá no lar às 20h00, pode ser? – Acho que ele
era o único homem que conseguia cheirar a muffin e ainda ser
gostoso demais.
- Ah S-sim... Cla-claro. Pode ser... Está ótimo... Perfeito... Tá bem
bom assim... Muito bom...
Ok, agora para de falar que nem uma retardada Emma, só sai
andando antes que o cara desista de verdade. Joe deu mais um
daqueles sorrisos esplêndidos, que me fazem pensar em coisinhas
(bem safadas) e voltou para a cafeteria.
Ai, preciso mudar.
Não a minha rotina, estou falando do meu jeito. Preciso ser mais
legal, mais solta, se não vou morrer seca, sozinha com 27 gatos,
todos com roupinhas e nomes estranhos como Jeremiah, ou Sir
Joseff. Essa ideia de como será meu futuro é fruto da exagerada e
irritante imaginação de Jason. Ele sempre me diz isso quando eu
recuso ir para casa com alguém do bar. Porque perder a virgindade
com um estranho bêbado de um bar do subúrbio é o sonho de
qualquer garota.
Claro.
Todo esse drama começou quando eu contei a ele que era virgem,
por mais incrível ou deprimente que pareça. Ele ficou rindo da minha
cara por uns dez minutos e depois que percebeu que era verdade
ficou abobado. O pior disso é que eu não sou uma virgem qualquer,
eu sou totalmente virgem. Acho que nem cheguei ao fim da primeira
base. Eu nem sequer sei o que se faz na primeira base.
Eu sei, eu sei... Decadente! Mas para ser sincera, eu nunca tive
vontade de entregar a minha estrelinha a ninguém ou qualquer outra
coisa. Pode ser que Joe mude essa realidade hoje à noite. Não me
julgue, não sou fácil! Apenas quero parar de ser a única virgem
patética no lar. Isso não é algo tão simples assim? Pelo menos todo
mundo fala como se fosse.
Enfim, já estou bem atrasada para o trabalho agora. Ao menos Joe
me deu uma boa notícia hoje, vou pensar nela quando eu quiser
socar a cara do meu chefe quando chegar à empresa. Ele vai
começar outro discurso da esperança lá e eu não estou nem um
pouco a fim de ouvir. Tudo bem, eu estou errada de chegar assim
tão atrasada, mas todos os dias, sem nenhuma exceção, eu faço
meu trabalho com extremo êxito e ainda continuo fazendo após o
horário. E você acha que ele paga minhas horas extras? Aham, se
eu fosse esperar por isso já estaria morta em decomposição. "Então
porque você fica após o horário Emma?" Você deve estar se
perguntando. Porque este era um jeito de evitar voltar para o lar,
porque no fim do dia eu não tinha nenhuma casa para voltar. Lar era
o nome do local, mas eu sabia que lá não era o meu verdadeiro
lugar. Esse era meu último ano lá, pelo menos esse é o meu
objetivo. Nem que eu alugue um lugar do tamanho de uma azeitona,
eu saio daqui! Preciso ter pela primeira vez a minha casa, o meu lar.
Capítulo 3
Cruelford
Acabei indo de ônibus. Era "tarde" demais e peguei um trânsito
enorme no caminho, mas essa era a melhor alternativa. O metrô é
vazio e bem mais limpo, mas demorava demais e fica a uns quatro
quarteirões de distância do meu trabalho.
Para melhorar furei minha meia calça quando entrei correndo no
edifício Crawford. Ele é um dos maiores e mais altos da rua, todo
espelhado, com um quê de superioridade comparado aos outros ao
seu redor. No primeiro andar está a sua recepção toda em mármore
claro, uma cor próxima ao bege, e com muito vidro. Para entrar você
deve ter uma carteira de identificação com nome e cargo, mas só os
funcionários da plebe, eu como exemplo, precisam disso. Para os
chefes e empresários isso nem é necessário, só é preciso olhar para
o grande Rolex em seu pulso ou seu terninho impecável de marca.
Não sei nenhuma marca de terno cara, mas nem preciso, o que sei
é que qualquer que seja sua marca, só a gravata deve valer a minha
vida e mais um pouco, ainda ficaria devendo.
Entrei na recepção e passei correndo por Gabe, o recepcionista,
para conseguir pegar o elevador. Trabalho no 9º andar, o que é bom
porque a cozinha fica no 7º, e a maravilhosa e melhor máquina de
café do mundo fica no 12º, então nem preciso de elevador. Quando
cheguei ao meu andar já sabia que o senhor Maxon estava me
esperando, como sempre.
- Minha sala, agora! – Ele ama gritar comigo. Deve ter uns 45 anos,
loiro alto, sempre está de terno tons de cinza e até que dava um
caldo. Mas ele é tão irritante que consegue ficar feio.
Fui correndo para sua sala, no fim do corredor do departamento.
Quando entrei ele logo fechou a porta com tudo atrás de mim, dessa
vez eu até que senti um pouquinho de medo. Só um pouquinho.
- Senhorita Smith, estou cansado de tanto chamar sua atenção por
conta dos seus atrasos. A Senhorita trabalha para mim há um ano e
nesse tempo todo acho que nunca a vi chegar na hora, você sabe
qual é o horário que deve estar aqui na empresa? Às vezes penso
que não!
- Desculpa senhor Maxon, é que eu acabei me atrasando – ele era
tão irritante, não acredito que já o aguento há um ano.
– Isso eu já percebi senhorita! – disse ele, gritando. Não te disse,
ele ama gritar comigo.
- Sim, mas ontem fiquei até as 22h00 aqui na empresa, repassei
todos os relatórios da semana inteira. Fiz também suas planilhas de
custos e investimentos, está tudo com o departamento de
atendimento e pronto para entregar ao cliente. Sei que não justifica
o meu atraso senhor, mas não estou prejudicando o meu trabalho
aqui na empresa por chegar atrasada, eu sempre compenso em
horas extras. – Isso sem nenhuma bonificação, é claro.
- Disso eu estou ciente, sei muito bem o que cada funcionário em
meu departamento faz – não parece – Porém, como a senhorita
mesmo disse, isso não justifica os seus atrasos. Estou sempre
tentando te ajudar, sei que o seu passado não foi fácil, estou a par
dos problemas e dificuldades... – Blá, blá, blá como você é sofrida e
sua vida é uma droga, era só o que eu escutava. Sabia que como
sempre ele iria entrar com esse discurso da garota esperança,
estava até demorando – Enfim, vou te dar mais uma chance como
sempre, mas desta vez não desperdice! Vou ficar de olho em seu
serviço, qualquer deslize seu já sabe, RUA! – gritou ele, mas uma
vez.
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