
Seis Anos de Amor Envenenado
Capítulo 2
Os olhos de Alexandre se arregalaram ligeiramente com minha declaração abrupta, uma sombra fugaz de surpresa cruzando seu rosto antes de ser substituída por sua calma habitual. Ele olhou de mim para o celular, depois de volta para mim, a notificação da mensagem ainda cruelmente visível. "Conversar, querida? Sobre o quê?", ele perguntou, sua voz suave, suave demais. Ele pegou o celular, o polegar já pairando sobre a tela, pronto para dispensar a notificação. "Agora, acho que você só precisa descansar."
Mas a mensagem não seria dispensada. Era uma ligação. E ele atendeu. "Sim?" Seu tom era seco, profissional, um contraste gritante com os doces apelidos que ele havia prodigalizado a Carla horas antes. Ele se afastou alguns passos, virando-se ligeiramente de costas, como se para proteger suas palavras de mim. "Não, agora não é um bom momento. Eu te disse, estou com a Helena... Sim, sim, eu sei. Estarei aí assim que puder. Apenas... seja paciente." Ele encerrou a chamada, seus ombros rígidos.
Ele se virou para mim, um sorriso de desculpas estampado no rosto. "O dever chama, meu amor. Uma crise no escritório. Você sabe como é." Ele se moveu em direção à porta, já vestindo o paletó. "Descanse um pouco. Voltarei assim que puder. Não se preocupe com nada." Ele me mandou um beijo, um gesto que pareceu totalmente performático, e então ele se foi, a pesada porta de carvalho se fechando atrás dele.
Não se preocupe, pensei, uma risada amarga borbulhando em minha garganta. Não se preocupe com a mulher que você acabou de beijar, com os suplementos que você está me forçando a tomar, ou com o filho que você está ativamente me impedindo de ter. As palavras vazias pairavam no ar, um eco cruel.
Dormir era um conceito distante. Fiquei ali, de olhos bem abertos, observando as luzes da cidade piscarem pela janela. Cada rangido do prédio antigo, cada sirene distante, parecia amplificar o rugido da traição em meus ouvidos. As horas se arrastaram, cada minuto um gotejar lento e agonizante de constatação.
Pouco antes do amanhecer, um barulho agudo e estrondoso quebrou o silêncio opressivo. O grito de uma mulher, seguido pela voz retumbante de um homem, subiu da rua abaixo. Saí da cama, atraída para a janela por uma curiosidade mórbida. Do outro lado da rua, um casal do prédio em frente estava tendo uma discussão muito pública. Ela o acusava de infidelidade, sua voz crua de dor. Ele gritava negações, o rosto contorcido de raiva. Era um quadro confuso e desolador, um espelho refletindo minha própria realidade estilhaçada.
De repente, uma mão apertou meu ombro. Eu ofeguei, virando-me. Alexandre estava atrás de mim, o rosto pálido, os olhos arregalados. "Helena! O que você está fazendo? Saia da janela. Não olhe para essa sujeira." Ele me puxou para trás, seu aperto surpreendentemente forte. Ele foi até a janela, seus movimentos rápidos e decisivos, e fechou as pesadas cortinas de veludo, mergulhando o quarto na penumbra. "Nojento", ele murmurou, balançando a cabeça. "As pessoas não têm respeito pela privacidade."
Ele se virou para mim, sua expressão suavizando-se em uma máscara de preocupação. "Você está bem, querida? Parece abalada. Você não deveria se expor a tanta feiura." Ele estendeu a mão, seus dedos traçando minha bochecha. "Nossa casa é um santuário, lembra?"
Recuei de seu toque, um arrepio percorrendo meu corpo. "Alexandre", minha voz era plana, desprovida de emoção. "O que você realmente acredita que define lealdade? E amor?"
Ele piscou, pego de surpresa. "Que pergunta estranha, meu amor. Lealdade é devoção inabalável, claro. E amor... amor é o que compartilhamos, Helena. Um vínculo inquebrável. Uma promessa de para sempre." Ele sorriu, aquele sorriso charmoso e ensaiado. "Falando em para sempre, eu estava pensando... é seu aniversário hoje. Quero comemorar direito. Só nós dois. Um jantar luxuoso, talvez? O que seu coração desejar."
Nesse momento, uma batida suave veio da porta. Dona Joana enfiou a cabeça para dentro. "Sr. Alexandre, tem uma visita lá embaixo. Uma moça. Ela diz que precisa falar com o senhor com urgência."
O sangue de Alexandre sumiu de seu rosto. "Uma... visita? Quem? Não estou esperando ninguém." Sua voz estava tensa, com um toque frenético. "Diga a ela que não estou disponível. Diga para voltar mais tarde."
Meu coração batia forte. Ela. Tinha que ser ela. "Quem é, Alexandre?", perguntei, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. Movi-me em direção à porta, meus olhos fixos na sugestão de tecido vermelho visível pela fresta.
Ele tentou bloquear meu caminho, sua mão se estendendo. "Ninguém importante, querida. Apenas uma analista júnior do escritório. Um mal-entendido."
Mas era tarde demais. Ela passou por Dona Joana, seu vestido vermelho uma faixa de fogo contra a elegância contida do nosso corredor. Carla Gomes estava ali, um sorriso triunfante no rosto. Seus olhos encontraram os meus, um brilho frio e calculista em suas profundezas. Ela me deu uma piscadela lenta e deliberada.
Minha respiração ficou presa na garganta. O mundo girou. Alexandre, parado, o rosto uma máscara de horror. Carla, ousada e sem vergonha, bem aqui na minha casa.
"Ora, ora, se não é a Sra. Pires", Carla ronronou, sua voz pingando de uma doçura venenosa. Ela me olhou de cima a baixo, um desprezo torcendo seus lábios. "Ainda se segurando, pelo visto."
Uma onda de fúria gelada me percorreu, uma sensação tão intensa que quase pareceu um golpe físico. Forcei-me a respirar fundo, a firmar minhas mãos trêmulas. "E quem seria você?", perguntei, minha voz calma, quase distante. Era uma performance, uma tentativa desesperada de manter o controle. "Acho que não fomos apresentadas."
Alexandre, encontrando sua voz, correu para frente. "Carla! O que você está fazendo aqui? Eu te disse para esperar!" Ele se virou para mim, um turbilhão de desculpas frenéticas. "Helena, querida, esta é Carla Gomes, uma nova analista de marketing júnior da empresa. Ela é... ela é muito ambiciosa. Um pouco excessivamente zelosa, talvez."
Carla riu, um som áspero e irritante. Ela alisou o vestido, revelando um chupão mal disfarçado em seu pescoço, uma marca vermelha fresca e vívida contra sua pele pálida. Seus olhos, ainda fixos nos meus, me desafiavam a reagir. "Ah, não precisa de apresentações, Sr. Pires. Tenho certeza de que a Sra. Pires sabe exatamente quem eu sou." Ela passou a língua pelos lábios, um gesto provocador direcionado diretamente a mim.
Meus punhos se fecharam. A imagem daquele chupão, o olhar zombeteiro em seus olhos, alimentou uma raiva fria e ardente. Mas eu a contive, forçando um sorriso educado. "De fato", eu disse, minha voz mal passando de um sussurro. "Bem, Alexandre, tenho certeza de que sua 'analista júnior' tem assuntos urgentes. Talvez você devesse cuidar disso."
Alexandre olhou de mim para Carla, seu rosto uma mistura de alívio e medo. "Sim, sim, claro. Venha, Carla. Vamos conversar no meu escritório." Ele praticamente a empurrou em direção ao seu escritório, lançando um olhar nervoso por cima do ombro para mim. "Não demoro, Helena. Não se preocupe."
Não se preocupe. As palavras de novo. Enquanto ele desaparecia com Carla em seu escritório, ouvi a voz dela, baixa e sedutora, seguida pelos sussurros apressados dele. Minha mente disparou. Isso não era um caso casual. Era uma exibição descarada, uma reivindicação feita bem na minha sala de estar.
Alexandre, que uma vez me perseguiu com tanta paixão, que me prometeu o mundo, havia mudado. O homem que me cobriu de atenção, que memorizou minhas flores e meu pedido de café favoritos, agora era um estranho. Ele me cortejou incansavelmente, um namoro turbulento que me arrebatou. Ele era tudo que eu sempre sonhei, apagando o gosto amargo do casamento desfeito dos meus pais. Ele era meu futuro seguro, meu amor constante. Ou assim eu acreditava.
Agora, essa ilusão jazia estilhaçada no chão, espalhada como vidro quebrado. Eu tinha que saber mais. Eu tinha que ver a extensão total dessa traição. Eu o seguiria.
Esperei até que a casa ficasse quieta, até que o carro de Alexandre saísse da garagem novamente, com Carla, sem dúvida, acomodada no banco do passageiro. Entrei no meu próprio carro, meus movimentos precisos, mecânicos. A mesma estrada, o mesmo destino. Meu coração era um tambor no meu peito, batendo um ritmo frenético de pavor e determinação.
Desta vez, Alexandre parou em um estacionamento isolado atrás de uma clínica pequena e discreta. Ele ajudou Carla a sair do carro. Ela agarrou o estômago, uma careta de dor cruzando seu rosto. Ela parecia mal, sua pele pálida, um leve brilho de suor na testa.
O braço de Alexandre a envolveu instantaneamente, seu rosto uma máscara de preocupação. "Você está bem, querida? É o bebê?"
O bebê. A palavra me atingiu com a força de um golpe físico, tirando o ar dos meus pulmões. Agarrei o volante, minha mente lutando para processar o que eu acabara de ouvir. O bebê.
Carla se apoiou nele, sua voz fraca, mas ainda com um estranho tom de triunfo. "Acho que são só umas contrações de treinamento. Nada para se preocupar. Mas sabe, o enjoo matinal tem sido terrível." Ela olhou para ele, os olhos arregalados. "Você tem certeza de que quer seguir com isso, Alexandre? É o nosso segredinho, não é? Nossa surpresa preciosa."
Os dedos de Alexandre acariciaram seu cabelo, sua expressão terna, quase reverente. "Claro que é nosso segredo, Carla. Nosso menino precioso. Nada ficará no caminho da nossa família." Ele olhou para a barriga inchada dela, uma mão possessiva repousando ali. "Você sabe o quão importante isso é para mim. Para minha família. Um filho."
Um filho. Um legado. Minha mente girou. Todos aqueles anos, todos aqueles "chás de fertilidade", todas aquelas esperanças vazias. Enquanto eu engolia anticoncepcionais, ele estava criando uma família com outra pessoa. Um filho. A expectativa não dita de seus pais, aquela da qual ele me protegeu tão cuidadosamente, agora estava sendo cumprida por esta mulher.
Meu mundo desabou. O chão sob meus pés cedeu. Senti um abismo frio e vazio se abrir dentro do meu peito. A dor era tão profunda, tão absoluta, que me pôs de joelhos.
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