
Segunda Chance, Novo Destino
Capítulo 2
Com o corpo gelado e a respiração suspensa, Mariana acordou. Não em um hospital, nem no limbo, mas em seu próprio quarto, na casa de barro batido da sua infância. O cheiro de terra molhada e de café coado invadiu seus pulmões. Era real. Ela havia voltado.
A memória do fim era nítida, uma ferida que não cicatrizava com a morte. O vento frio no topo do prédio, o rosto de Lucas, seu marido na vida passada, contorcido em um ódio que ela jamais imaginara. Ele a segurava pelo braço, a barriga de cinco meses dela era um volume de esperança que estava prestes a se espatifar no chão.
As palavras dele ainda ecoavam em sua mente, mais cruéis que a própria queda.
"Se você não tivesse trocado as notas com a Isabela, ela não teria morrido. Isso é o que você deve a ela!"
E então, o empurrão. A sensação de vazio, o grito silencioso, a escuridão. Ela e seu filho, mortos. Por um crime que não cometeu.
Naquela vida, Mariana havia sido a filha exemplar. Tirou a maior nota no ENEM, conforme o acordo bizarro que seu pai, um garimpeiro sonhador e ganancioso, havia feito. A filha com a melhor nota se casaria com Lucas, o filho do fazendeiro mais rico da região. A com a pior nota, com o "tolo" da aldeia vizinha.
Ela se casou com Lucas. Isabela, sua irmã mais nova, incapaz de aceitar o casamento com o "tolo", se enforcou no dia seguinte. Lucas, o viúvo de coração partido da sua noiva original, foi amparado por Mariana. Ele se mostrou um marido carinhoso, atencioso, até o dia em que a levou para o alto daquele prédio.
Tudo tinha sido uma farsa. A troca de notas. O suicídio. O luto de Lucas. Tudo um plano para que ele ficasse com ela, a noiva "premiada", e se livrasse da irmã incômoda.
Mas agora, o jogo havia virado. Ela estava de volta ao dia da divulgação dos resultados do ENEM.
Ela se levantou da cama, as pernas ainda trêmulas. Do lado de fora, ouviu a voz do seu pai, João, animada.
"Isabela! Minha filha, que orgulho! A maior nota da região! E você, Mariana... que vergonha. A nota mais baixa."
Mariana respirou fundo. Nesta vida, a história seria diferente. A vingança seria seu prato principal.
Ela saiu do quarto. Isabela estava no centro da pequena sala, o rosto radiante, segurando o papel com o resultado. Seus pais, João e Lúcia, a abraçavam, cheios de orgulho. Eles nem olharam para Mariana.
Isabela tinha trocado os resultados novamente, secretamente. Ela achava que tinha garantido o casamento dos sonhos.
"Pai, mãe," Mariana disse, com a voz calma, cortando a celebração. "Eu aceito o acordo."
Todos se viraram para ela, chocados. Isabela a olhou com escárnio.
"Aceita? Aceita se casar com o tolo? Que bom, porque é o que você merece."
"Sim," Mariana confirmou, olhando nos olhos da irmã. "Eu aceito. Vou me casar com o tolo."
Naquele momento, Lucas entrou na casa sem bater, um sorriso arrogante no rosto. Ele veio parabenizar Isabela, seu futuro sogro, e consolidar seu poder. Ele viu Mariana e seu sorriso vacilou por um instante, substituído por uma falsa preocupação.
"Mariana, eu sinto muito pelo seu resultado. Mas não se preocupe, você não pode se casar com aquele homem. É perigoso. Eu posso conversar com meu pai, talvez a gente arranje outra coisa para você…"
Era o mesmo discurso da vida passada. A mesma farsa. Antes, ela tinha acreditado em sua bondade. Agora, ela sentia o veneno em cada palavra. Ela se lembrava claramente de como, no dia da prova, ele a havia atraído para um galpão abandonado com a desculpa de lhe dar uma última dica e a trancou lá dentro, garantindo que ela não chegasse a tempo. Ele sabotou seu futuro uma vez. Não aconteceria de novo.
"Não preciso da sua ajuda, Lucas," Mariana disse, a voz fria como gelo. "Cuide da sua noiva. Eu vou cuidar do meu noivo."
Ela se virou e voltou para o quarto, deixando para trás uma sala cheia de pessoas confusas e um Lucas com o rosto pálido, a máscara de bom moço começando a rachar. Ele sabia. De alguma forma, ele sentiu que ela sabia de algo. A caça havia começado.
Você pode gostar





