
Seguindo no trem azul
Capítulo 2
A velha senhora sentou-se exatamente ao seu lado. Natasha fingiu nem notar a presença dela e continuou escrevendo. Não satisfeita, a pessoa ao lado baixou a cabeça quase entrando em seu bloco de anotações, sem disfarçar que estava tentando ler. Natasha fechou o bloco sem muita cerimônia e deixou-o descansando em seus joelhos, colocando a caneta em cima.
Mas a mulher continuava olhando para o bloco. E depois ficou olhando fixamente para Natasha, que percebeu estar sendo observada atentamente. Ficou muito incomodada e se viu perguntando:
- Tudo certo, senhora?
- Sim... sim...
Natasha respirou fundo. Não tinha vontade nenhuma de fazer aquela viagem. E ter como companhia aquela senhora agradável não seria nada bom. Decidiu fingir que não estava incomodada e voltou a anotar.
- Por que escreve sobre o trem? – perguntou a mulher.
Natasha suspirou. Detestava viajar acompanhada a qualquer lugar. Preferia ficar com seus próprios pensamentos. Para ela viajar sentada sozinha era terapia. Aliás, adorava ficar sozinha consigo mesma. Então já imaginou se desse conversa para a idosa. Sabia que os velhinhos adoravam conversar por horas e ela odiava.
- Gosto de anotar coisas. – disse ela sem olhar para mulher. Quis parecer irônica, mas não sabia se havia conseguido.
- Este trem não era assim....
Natasha fechou os olhos e recostou sua cabeça no banco. Pensou em trocar de lugar... mas como fazer isso sem ser rude?
- E pensar que esta é a última viagem do trem azul... – falou ela em tom de lamento.
Natasha não respondeu e nem se moveu. Deixou bem claro que não queria conversar. Fechou os olhos.
Ela continuou:
- Agora é praticamente um dia até Tulipa... chegaremos lá às 10 horas da noite de amanhã.
O trem apitou novamente, assustando Natasha. Lentamente começou a se movimentar sobre os trilhos, fazendo um barulho chato. Seria assim pelas próximas 24 horas? Ela não suportaria.
- Não se preocupe, logo o barulho vai parar. – falou a velha senhora como se adivinhasse os pensamentos dela.
Natasha abriu os olhos e levantou a cabeça, um pouco impressionada.
- Sabe, este trem não deveria parar... ele tem tanta história para contar. – falou a mulher com um suspiro.
Natasha olhou nos olhos da mulher. Uma sensação estranha invadiu seu corpo. Sabia que ela tinha muito a contar... e que queria contar. Certamente dentre suas histórias sabia um pouco sobre o trem azul. Decidiu conversar um pouco, pois certamente a senhorinha não desistiria mesmo de tagarelar durante a viagem. O que Natasha mal poderia imaginar é que a história dela era a história do trem azul.
- Sabe bastante coisas sobre este trem? – perguntou Natasha.
- Se eu sei? – ela riu... um sorriso bonito, dentes brancos de dentro da boca já bastante enrugada. – Este trem é a minha vida, menina. Os momentos mais importantes da minha vida foram aqui.
- Então viajou muito nele?
- Meu nome é Sarah. – disse ela estendendo a mão para Natasha.
Natasha apertou a mão gelada.
- Então me conte. – pediu Natasha pouco interessada no nome da mulher.
- Não falo com pessoas que não sei o nome. – rebateu ela.
- Me chamo Natasha.
- Natasha... – disse ela lentamente. – Tenho uma neta que se chama Natália.
Natasha não entendeu a comparação.
- Nem acredito que esta é a última viagem do trem azul. – lamentou ela novamente.
- A última. – confirmou Natasha. – Do trem azul. – entendeu que a senhora poderia já não estar tão lúcida, devido à sua idade.
O trem apitou novamente, fazendo Natasha dar um salto assustada.
- Assustou-se? – perguntou ela docemente.
- Odeio este barulho. Para que serve? Há necessidade disto?
- Eu amo este barulho... – falou ela fechando os olhos e em seguida abrindo novamente. – É ele que me dá forças para viver. Na verdade foi o que me manteve viva por tantos anos.
Natasha ficou atenta. Certamente ali estava sua história. Sinceramente não tinha muito interesse na vovó que contaria a história do seu grande amor que talvez tenha partido para a guerra a bordo do trem e nunca mais voltou... mas ela sabia muito sobre o trem no passado e sua real importância. Seria quase uma aula de história sem precisar fazer pesquisa. Vivenciaria cada detalhe sobre o trem que um dia teve alguma importância para as pessoas, as cidades...
- Por que o apito tem tanta importância para a senhora? – perguntou Natasha.
- Sabe, quando ele apita, a cor do trem é a que você quiser... e você pode se permitir sonhar.
- Não entendi. – falou Natasha confusa.
- Se você ouve o apito do trem mas não o vê não sabe como ele é... imagina-o de qualquer outra forma, menos da maneira como é. E ele é realmente diferente de todos os trens.
- Por quê? – Natasha ficava cada vez mais sem entender nada.
- Porque ele é o trem da minha vida. – falou a senhora firmemente.
- Para onde a senhora está indo? – perguntou Natasha curiosa.
- Para Tulipa, última parada do trem azul.
- Qual a importância do trem para a senhora? – tentou Natasha uma resposta mais sensata.
- Por favor, me chame de Sarah querida.
- Qual a importância do trem... Sarah?
- Sabia que eu estava aqui na primeira viagem do trem azul?
Natasha ficou incrédula. Ali estava o que ela procurava mas achava impossível de conseguir: alguém que conhecia a história do trem azul. E o fato de ela ter estado na primeira viagem era simplesmente muito melhor do que ela esperava. Inacreditável.
- Esteve na primeira viagem e agora está na última. – arriscou Natasha para ver se ela começava logo a contar sua história para não perder muito tempo.
- Esta não é só minha última viagem no trem azul. É a última viagem da minha vida.
- Não pretende viajar nunca mais? – Sarah já se via fazendo perguntas sem querer.
- Não... nunca mais. Estou retornando para Tulipa para terminar minha missão nesta vida e cumprir meu destino.
Natasha sentiu uma sensação estranha. Cada vez a velha senhora a deixava mais confusa.
- E qual é seu destino. – Natasha ouviu-se perguntando.
- Faz muitas perguntas, menina. Como é mesmo seu nome?
- Natasha.
-Tantas perguntas, Natasha... Por quê?
- Um pouco de curiosidade.
-Tenho uma pergunta para você, Natasha. Acredita no amor?
Natasha foi pega de surpresa. Nunca ninguém lhe perguntou sobre isso. Nunca ela se perguntou sobre isso. Ao certo nem sabia o que responder. Não sabia se acreditava ou não no amor. Sempre fora tão realista e fugia do amor. Sua vida era baseada na praticidade e qualquer compromisso com um homem não lhe deixava satisfeita. Quando via que estava se apegando à alguém preferia se afastar, com um enorme medo de perder sua liberdade. Sim... sua liberdade era o seu grande amor. Sua independência. Lutara tanto para ter seu espaço que não queria que ninguém tomasse conta dele. Não... não acreditava no amor. Ele só existia em contos de fada. E se tinha um coisa que nunca lhe interessou, nem quando pequena, foi conto de fadas.
- Não sei. – ela preferiu responder.
- Eu na sua idade já sofria muito por amor... Morria de amor. – disse ela com olhar longe.
Natasha olhou no fundo daqueles olhos azuis profundos, dentro daquela pele bastante enrugada, castigada pelos anos. O que aqueles olhos escondiam? Sarah mexia com alguma coisa dentro de Natasha que ela tinha medo de descobrir.
- Quem é você? – Natasha perguntou confusa. Seria alguém mandada por Jonas para confundi-la em sua matéria?
- Sou Sarah, como já lhe disse. Não estou aqui por acaso, querida. O destino marcou nosso encontro aqui.
- Por que você está aqui? – falou Natasha afastando um pouco o corpo de Sarah.
- Estou aqui para cumprir meu destino.
Natasha olhou para os lados. Pensou estar falando com um fantasma do trem azul. Haveriam fantasmas no trem azul? Não... não existiam fantasmas. O que ela estava pensando?
Sarah parecia entender seus pensamentos. Pegou a mão de Natasha docemente e disse:
- Não tenha medo de mim, querida. Sou apenas uma velha. Não sou uma bruxa nem uma assombração do trem azul.
Natasha apertou levemente a pele gelada e macia. Depois tirou sua mão rapidamente. Pelo menos Sarah era real. Ela olhou para os lados. Bem distante havia um casal naquele vagão. Olhou para a mesa vazia em frente às duas. Com dezenas de lugares vagos naquele vagão e tantos outros no trem por que aquela mulher fora sentar ali, ao seu lado?
- Natasha, será que poderia trocar de lugar comigo? Posso sentar-me à janela?
Natasha se recompôs em seus pensamentos. Achou uma ousadia da velhinha. Ficou um pouco irritada:
- Por que ao meu lado? Por que justo o meu lugar com tantos outros vazios?
- Minha primeira viagem, em 1911, sentei-me exatamente neste lugar.
Para Natasha o lugar era indiferente. Saiu de seu lugar e deixou que Sarah sentasse onde queria. Era só uma idosa conversadeira e inofensiva e certamente lhe incomodaria pelas próximas 24 horas de viagem. E logo passaria aquela viagem chata e ela ainda riria da situação.
Sentou-se de frente para Sarah, atenta à senhora.
Sarah podia ver Tristan à sua frente... sim ela estava em 1911, na primeira viagem do trem azul. Por que ela ainda estava neste plano? Por que ainda vivia? Tantos e tantos anos se passaram e sem querer ela não conseguiu conter e deixou uma lágrima cair.
- Sarah, está tudo bem? – perguntou Natasha.
- Por que não sabe se acredita no amor, menina?
- Não sei... talvez porque eu nunca tenha vivenciado na minha vida uma história real de amor. Porque acho que ele não faz bem para as pessoas... Não sei ao certo.
- Sabe, fui passageira na primeira viagem do trem azul e agora estou sendo também na última. Talvez eu seja uma privilegiada... Mas você é muito mais privilegiada do que eu.
- Por que acha isto?
- Porque vou te contar uma história inacreditável. Uma história que durou quase um século. Somente meu coração sabe tudo que eu passei nesta vida. Sequer meus netos souberam dos detalhes trágicos que aconteceram neste tempo. É uma história longa, muito longa, com muito sofrimento e dor. Mas no final, você vai acreditar no amor, menina.
Natasha olhou atenta para a velha senhora e pegou seu bloco e sua caneta. Estava ali sua história sobre o trem. O amor, o sofrimento e a vida pessoal de Sarah não importava muito, mas os detalhes das viagens estes sim tinham muita importância.
Sarah lentamente curvou-se e pegou o bloco das mãos de Natasha, jogando pela janela.
Natasha olhou-a confusa. Procurou na bolsa e não tinha pego outro. Olhou para o casal que estava afastado em outro banco e eles conversavam animadamente. Nem perceberam o que havia acontecido.
- Eu precisava daquele bloco. – falou ela brava.
- Tente não me interromper enquanto eu estiver contando a história. – falou Sarah sem se importar com o que havia feito. – É muito difícil voltar quando eu estou lá. Você não vai precisar anotar nada. Eu tenho certeza disto. Tudo vai ficar guardado aqui. – ela colocou a mão no coração de Sarah.
Natasha mesmo sem querer, viu-se fazendo sinal afirmativo com a cabeça.
- Se você fechar os olhos, menina, vai viajar no meu mundo.
Natasha fechou os olhos, como se aquilo fosse uma ordem. Jamais imaginou o quanto aquela história realmente mudaria sua vida para sempre. Não precisava muito esforço para entrar no mundo de Sarah. E realmente era muito, muito difícil sair.
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