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Capa do romance Seguindo no trem azul

Seguindo no trem azul

Sarah nunca esqueceu o garoto que conheceu na infância. Ao retornar do internato, ela o reencontra no trem azul, mas Tristan agora é o capataz de confiança de seu pai. Apesar da paixão, João Mackerson não aceita o romance devido ao preconceito e às diferenças sociais. Esse amor resiste ao tempo e à tragédia, transformando Sarah em uma mulher disposta a tudo. Em busca de reparação e vingança, ela cobrará cada dívida do passado com sangue, olho por olho.
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Capítulo 3

Tulipa, 1911. Fazenda Mackerson.

- Sarah, querida, precisa me prometer que vai ficar bem. – pediu Lia.

- Eu não quero ir, Lia. Não quero. – pediu Sarah chorando no colo da babá.

- Precisa ir, meu amor. É uma ordem do seu pai.

- Mas eu não quero. – teimava ela.

Marla entrou porta adentro, perguntando:

- Por que ela está chorando, Lia?

- Não quer ir, senhora. – explicou Lia pacientemente.

- Por que isso, Sarah? Por que não quer viajar?

- Não quero ir sozinha, mamãe!

- Precisa ir, Sarah. Já está com 11 anos. Quando chegar em Deolinda estarão esperando por você. Quando sua irmã partiu era ainda mais nova e não fez isto. Todas as mulheres da família Mackerson frequentaram este internato Sarah e você certamente não fugirá à regra.

- Mamãe, você poderia ir comigo? Eu tenho medo.

- Não estará sozinha, Sarah. Muitas pessoas estarão no trem. É a grande inauguração dele e você estará lá, garota! Quantas pessoas queriam esta passagem e não conseguiram. Por sorte seu pai é muito influente e conseguiu. – disse Marla sorrindo.

- Mas eu não quero... – insistiu Sarah.

- Se insistir com este choro e teimosia seu pai vai ficar aborrecido. E pode até mandar Lia embora para castiga-la. Quer isso, Sarah? Quer que Lia vá embora por sua causa?

Sarah olhou para Lia. Não, não queria que Lia fosse embora por sua causa. E sabia que seu pai poderia fazer isso se quisesse.

- Eu irei sem contestar. – disse Sarah tristemente, limpando as lágrimas.

- Isso, Sarah. Seja uma boa menina e tudo correrá bem. – disse Marla saindo do quarto.

Sarah abraçou Lia que estava sentada ao seu lado na cama.

- Lia e se eu for e você não estiver aqui quando eu voltar?

- Estarei, minha princesinha. Estarei sempre esperando por sua volta.

- Promete?

- Sarah, claro que prometo. Mas você também terá que me prometer uma coisa.

- O que quer, Lia? Eu prometo sim.

- Prometa que sempre lembrará de mim e não me esquecerá quando estiver longe.

- Prometo, Lia. Eu te amo.

- Sarah, você ainda é tão pequenina... apenas 11 anos. Por isso gosta tanto de mim. Quando voltar, dentro de 4 anos, já terá 15 anos, estará em idade para se casar, será quase uma mulher... Sua irmã quando partiu para o internato também era tão apegada à mim... Prometeu nunca esquecer-me. Mas quando voltou daquele lugar me odiava. Acho que me odiou simplesmente pelo fato de eu ser negra. Naquele lugar vão falar mal de algumas pessoas para você, querida. Talvez tentem lhe ensinar que nós negros não somos pessoas como vocês. Tente não acreditar em tudo, minha menina. Não deixe que mudem seu puro coraçãozinho. Você é tão diferente dos Mackerson... Prove para mim que crescerá diferente de todos, Sarah. Mantenha a pureza no seu coração, o amor, o afeto, as inquietudes desta cabecinha que sempre procura explicações para tudo.

- Nunca vou esquecer você, Lia. Gosto tanto de você. – Sarah abraçou a babá. – Por que não vai comigo, Lia?

- Não posso, minha menina. Agora pare de chorar. –disse ela limpando as lágrimas que teimavam em cair no rosto branco e delicado da menina. – Vamos procurar seu pai para que ele a leve logo antes que você perca a partida do trem.

Quando Sarah chegou à sala João, Marla e Júlia estavam à sua espera.

- Despeça-se de todos, Sarah. – ordenou o pai rispidamente.

Sarah deu um longo abraço na mãe, outro na irmã.

- Aquele lugar não é nada bom, Sarah. Mas garanto que você irá se acostumar. – falou Júlia.

- Não a deixe mais insegura do que está, Júlia. – censurou Marla.

Júlia riu. Sarah teve um pouco de medo. Foi dar outro abraço em sua amada Lia, mas foi impedida por João, que pegou-a pelo braço, levando-a dali.

Enquanto caminhavam pelo campo alvo e verde, Sarah continuava com uma imensa vontade de chorar. Mas não podia pois seria severamente castigada pelo pai. Havia sido ensinada que não poderia chorar e caso o fizesse nunca na presença dos outros. Mas sabia que na presença de Lia poderia fazer isso... Na verdade com Lia ela sempre podia ser ela mesma, falar o que pensava, chorar, fazer perguntas sobre o mundo todo.

O caminho foi longo, ainda mais com o silêncio que pairava entre os dois.

Quando Sarah chegou na estação ferroviária ficou ainda mais nervosa. Haviam tantas pessoas... Nunca em sua vida havia visto tanta gente num mesmo lugar. Falavam alto, alguns gritavam, a maioria sorria, crianças choravam, havia bastante poeira ao longe, que o vento trazia para perto deles. Sarah sentia que poderia ser pisoteada a qualquer momento enquanto olhava para cima para ver as pessoas.

- És uma privilegiada, Sarah. – disse João. – Este trem é atualmente o mais famoso do país. É a grande promessa de fartura para nosso estado e para prosperidade do país. E você poderá fazer parte da viagem inaugural dele. Ele é muito veloz... Em pouco mais de um dia você estará em Deolinda. Você tem uma cabine reservada para dormir ou se preferir poderá ficar lá sozinha. Quando quiser ir até lá é só pedir para um funcionário.

- E o que eu faço quando chegar em Tulipa? – perguntou ela ansiosa.

- Uma das freiras responsáveis pelo internato estará esperando por você. Basta fazer sempre o que ela mandar e tudo ficará bem. Quando voltar, será uma moça, estará preparada para o casamento. Saberá se comportar como uma verdadeira dama. É o mínimo que precisa para ser uma verdadeira Mackerson. E até aprenderá a ler, que sempre desejou.

- Papai, pode me acompanhar até o interior do trem? Eu tenho medo. – falou ela num tom quase implorador.

João olhou firmemente para a filha. Ela intensificou o semblante de tristeza, para ver se ele se compadecia. Não que seu pai fosse um homem que se compadecesse de alguém, mas talvez ela sendo sua filha pudesse mudar isso, pelo menos naquele dia. E ela conseguiu. João lhe deu a mão e foi com ela para o interior de um dos vagões.

Ele acomodou-a em um banco próximo da janela, alegando que olhar a paisagem lhe faria bem. Ali era o restaurante. Havia uma mesa à sua frente, com biscoitos enfeitados com merengue e chá quente. Haviam pessoas entrando e saindo o tempo todo, todos muito eufóricos. Homens davam tapinhas nas costas uns dos outros e falavam coisas que ela não entendia. Todos cumprimentavam seu pai cordialmente. Tudo assustava a menina.

- Não tenha medo, Sarah. Tudo vai sair conforme o esperado. – disse João. – Adeus.

Ela tentou, mas não conseguiu evitar as lágrimas. Logo começou a limpá-las com a palma das mãos, lembrando da proibição de chorar em público.

- Adeus, papai.

Antes mesmo de ela poder falar outra palavra vieram alguns homens e disseram para João que o governador precisava falar com ele. E ele se foi, sem sequer olhar para trás, deixando a pequena Sarah ali, frágil, sensível, com medo e completamente indefesa. Estava sozinha no meio de todas aquelas pessoas estranhas. Ela fechou os olhos, respirou profundamente e pensou em sua história favorita, que Lia contava todas as noite, sobre Sandy, a garotinha que conseguiu voar. Lembrava de cada parte: “... a garotinha que não tinha medo e nem sequer sabia de seus poderes. Mas um dia, quando corria perigo, o maior perigo de sua vida, ela fugiu correndo muito e subiu no telhado de uma velha casa para se esconder. Quando percebeu que a feiticeira negra estava próxima ela se viu sem chances e se jogou lá do alto. Mas não teve medo naquele momento. Foi muito corajosa, como sempre. Abriu os olhos e os braços... e saiu voando como um pássaro. Foi aí que ela descobriu que todas as pessoas corajosas tem um pouco de magia guardada em algum lugar para o momento que precisarem. E ela, Sandy, perseguida toda sua vida pela feiticeira, podia agora fazer qualquer coisa que quisesse, inclusive voar...”

Como Sarah amava aquela história e como queria ser como Sandy. Pedia para Lia contar várias vezes a mesma história antes de dormir e na maioria das vezes conversavam sobre a menina, sobre sonhos, sobre magia. O trem apitou, assustando a menina. Em seguida foi partindo lentamente. Todos começaram a bater palmas, tanto quem estava dentro como quem estava fora do trem. Sarah também aplaudiu, sem entender muito bem o porquê de estar fazendo aquilo. Ao lado de Sarah sentou-se uma mulher muito elegante, alta, pelo clara, cabelos longos e encaracolados. Vestia um vestido de pura seda cinza claro e usava um lindo chapéu com laço cinza da cor do vestido. Ela usava batom rosa nos lábios. Como Sarah achava lindo mulheres de batom... e aqueles vestidos... Um dia teria tantos vestidos de seda que nem saberia qual usar! Ela tomava seu chá em uma xícara de porcelana pintada à mãe e havia pedido brioches doces.

- Por que me olha tanto? – perguntou a mulher.

- Nada. – falou Sarah olhando para o outro lado rapidamente, disfarçando.

Ela conseguia ver a paisagem passando pelos seus olhos tão rapidamente. As casas, o verde, o rio, as árvores... o trem andava tão rápido.

Aquele lugar pelo qual o trem passava ela reconheceria de olhos fechados, só pelo cheiro. Era a Fazenda Mackerson. Ela não conseguiu conter a emoção e levantou de seu assento. Queria ver toda a fazenda dali. Podia ver todos os peões trabalhando na plantação. Começou a gritar pela janela... Mas ninguém escutava ela. Já quase nos limites da outra fazenda conseguiu ver Lia ao longe, acenando e correndo pelos campos verdes. Lia estava vendo ela! Uma imensa felicidade tomou conta de si. Lá estava sua Lia... sua amada Lia.

- Adeus, Lia, eu te amo. – gritou ela acenando veementemente.

- É sua babá? – perguntou a senhora que se sentava à sua frente.

- Não... é minha mãe. – mentiu Sarah.

As duas mulheres começaram a rir.

Sarah sentiu-se imensamente triste naquele momento, sendo zombada por aquelas duas mulheres que não conhecia. Levantou-se e foi correndo dali, de vagão em vagão, abrindo e fechando portas. Muitas pessoas, todos os vagões lotados. Depois de algum tempo ela chegou ao que imaginava ser o último vagão. Não haviam mais pessoas e sim malas de viagem... muitas, inúmeras, de todas as cores e tamanhos. Em duas caixinhas num canto dois cachorrinhos confortavelmente acomodados.

Sarah sentou-se no chão, colocou a cabeça entre as pernas e chorou. Chorou sem medo, sem repressão. Chorou enquanto tinha lágrimas. Chorou sem saber quanto tempo se passou. Pensou que realmente queria ser filha de Lia. Tanto Lia quanto todos os demais empregados de seu pai lhe tratavam com mais afeto que sua própria família.

Ela percebeu o chão sujo de terra. Com muita raiva passou as mãos com força sobre aquela terra e depois esfregou nos braços, até que ficassem marrons, da cor de sua querida Lia. Por que ela não nascera como Lia? Por que não nascera filha de Lia?

Não conseguia parar de chorar tamanha tristeza que tomava conta de si.

Ela ouviu um barulho e assustou-se:

- Quem está aí? – pergunto ela limpando as lágrimas rapidamente.

- Não tenha medo.

Ela olhou para o garoto moreno que surgia no meio das malas. A claridade da janela sob o sol iluminava-o completamente, quase como se fosse uma aparição.

- Quem é você? – perguntou ela.

- Meu nome é Tristan. – disse ele.

- O que está fazendo aqui?

- Não falo com pessoas que não sei o nome. – disse ele.

- Meu nome é... Sarah. – disse ela apreensiva.

- Por que está aqui, Sarah? Por que está chorando? –perguntou ele sem sair do lugar, parado, olhando para ela.

Ela tornou a limpar as lágrimas. Um estranho estava vendo ela chorar.

- Desculpe-me. – falou Sarah.

- Por que me pede desculpas?

- Por estar chorando na sua frente.

- Eu não me importo. –falou ele com sinceridade.

- Mas eu não posso chorar na sua frente. Uma mulher não pode chorar na frente dos outros. – falou ela quase que para si mesma.

- Mas você não é uma mulher. É uma menina. –falou ele firmemente.

- Sou... Sou quase uma mulher. – falou ela um pouco irritada com o que ele falara.

- Por que chora, Sarah? Por que está se sujando deste jeito?

- O que você está fazendo aqui?

- Eu perguntei primeiro.

Ele era tão firme em suas perguntas e respostas que Sarah não via outra alternativa senão responder.

- Eu... Estou muito triste. –falou ela.

- Por que uma garota tão bonita e rica como você poderia estar triste?

- Não queria partir. Não queria ir para Deolinda.

- O que irá fazer em Deolinda?

- Vou para um internato para moças.

- Por quê?

- Meus pais querem que eu vá.

- Eles estão com você no trem?

- Não.

- Então não vá para lá. –disse ele encontrando a solução.

- Como se fosse possível não obedecê-los. – disse ela.

- Sarah, você está sozinha neste trem sem conhecer ninguém? Não há alguém acompanhando-a até Deolinda?

- Sim... estou sozinha. E você?

- Sim... Também. –falou ele olhando para o lado, desviando o olhar dela.

- Seus pais também lhe mandaram para um internato? – perguntou ela.

- Claro que não. Eu nem tenho pais. –disse ele.

- Você não tem pais? – perguntou ela. – Mas isso é possível?

Ele riu:

- Sim, é possível.

- Nunca pensei que pudesse haver pessoas sem pais. – confessou ela.

- Está viajando na primeira classe? – perguntou ele.

- Primeira classe? – perguntou ela sem entender a pergunta.

- Um lugar cheio de janelas, comida boa, gente bem vestida. – falou ele.

- Sim... tem tudo isso. –falou ela.

- Então é na primeira classe. O lugar onde os ricos viajam. Dá pra ver olhando para você que é rica.

- Você também está lá, Tristan? – perguntou ela.

- Não... Estou viajando aqui mesmo.

- Com as malas? – perguntou ela sorrindo.

- Sim, com as malas. – riu ele.

Ele ouviram o barulho de um das portas se abrindo.

- Não diga à ninguém que estou aqui, Sarah. Por favor. – pediu ele falando bem baixinho e se escondendo entre as malas.

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