
Segredos no Palácio
Capítulo 3
Vitória tentava resistir. A cada manchete maldosa, a cada colunista insinuando que era "desequilibrada", ela escrevia cartas, enviava mensagens, ligava para jornalistas conhecidos. Mas nada era publicado. E quando alguma palavra sua surgia nos jornais, aparecia distorcida, moldada para confirmar a narrativa de que a primeira-dama sofria de crises emocionais graves.
Henrique continuava afastado desde a festa no Palácio. Evitava confrontos diretos e até mesmo suas ligações. A distância encoberta por diversos compromissos e reuniões intermináveis.
Certa tarde, durante um almoço no Palácio, ela decidiu enfrentar o marido diante de secretários e assessores.
- Você está por trás disso, Henrique. - Sua voz tremia, mas carregava uma força quase desesperada. - Quer me destruir para manter sua imagem intocada.
Henrique apenas sorriu, erguendo as mãos como quem não compreende a acusação. Olhou em volta, convidando silenciosamente as testemunhas a partilhar do seu fingido espanto.
- Estão vendo? - disse ele em tom sereno. - É disso que falo. Essa instabilidade não pode continuar.
Como num roteiro bem ensaiado, dois homens de jaleco branco se aproximaram. "São profissionais, Vitória, só querem ajudar", murmurou uma das assessoras. Mas para Vitória, era uma emboscada.
- Não! Isso é uma armação! - gritou, tentando se desvencilhar. - Eu não sou louca!
Os convidados assistiram à cena em silêncio constrangido, sem mover um dedo. Quanto mais ela lutava, mais reforçava a impressão de histeria. E no fim, foi levada pelos corredores, as mãos presas, os olhos arregalados.
Nas semanas seguintes, a história foi alimentada em pequenas doses à imprensa. Notas frias falavam de "cuidados médicos especializados" e de "um tratamento necessário para preservar a saúde da primeira-dama". Nunca se dizia o nome da clínica, nem se mostrava uma imagem atual dela. Apenas especulações, cuidadosamente controladas.
Lá dentro, Vitória lutava contra diagnósticos contraditórios e doses crescentes de remédios que entorpeciam seus pensamentos. Às vezes tinha clareza suficiente para perceber que tudo era manipulação; noutras, mergulhava em dúvidas, perguntando a si mesma se realmente havia enlouquecido.
Os meses passaram. As notícias rarearam, até desaparecerem por completo. E quando, finalmente, surgiu a nota oficial do divórcio de Henrique Valença, a opinião pública recebeu a notícia com indiferença. Para todos os efeitos, Vitória já estava apagada - dos holofotes e da memória coletiva.
No gabinete silencioso, Heitor Andrade brindou com o governador.
- Agora o senhor está livre, Henrique. - Sorriu, satisfeito. - Livre para recomeçar.
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