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Capa do romance Scorpions

Scorpions

Hugo viu sua vida desmoronar após a morte do pai e o vício da mãe. Vítima de abusos de seu padrasto, ele encontrou refúgio nos Scorpions, um grupo de jovens traumatizados liderado por Roberto e Aquiles. Agora, dividido entre a sede de vingança contra o monstro de seu passado e a inesperada tentação de um novo amor, Hugo enfrenta um dilema moral. Ele deve decidir se consumará sua retaliação ou se evitará se tornar aquilo que mais odeia no mundo.
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Capítulo 2

Semi-Internato Feminino de Ametista

— Rosa, julga que se saiu bem na prova final?

Rosália parou no meio do corredor do colégio ao ouvir a pergunta da sua colega de classe que vinha correndo na sua direção. Quando se virou para responder, a jovem ajeitou os óculos no rosto, intimidada pelo olhar hostil.

— Óbvio que sim! Eu nem mesmo precisava fazer essa porcaria de prova, já tenho nota para me formar desde o terceiro bimestre. A professora obrigou-me a fazer a prova por pura implicância comigo!

— Hum... Ela te deu zero no último trabalho...

— Essa filha da mãe acusou-me de plágio, sendo que fui a primeira a entregar! Mas a queridinha, maravilha do planeta, entregou praticamente uma cópia do meu trabalho duas semanas depois, e a acusada de plágio fui eu!

Rosália bufou e voltou a caminhar com a colega a seguindo como uma sombra.

— Eu não sabia disso, pensei que casos de plágio causavam expulsão.

— Eles causam, mas no meu caso, tudo foi obviamente armado. Como aquela vaca teve acesso ao meu trabalho?

Mara arregalou os pequenos olhos que herdou do pai coreano e ajeitou os óculos mais uma vez com o dedo médio.

— Oh, pensa que a Diana roubou o trabalho no armário dos professores?

— Não sei, mas se tivessem chamado o conselho do colégio para investigar o caso, a culpa dela seria evidente e a consequência seria Diana ser expulsa. A professora se fingiu de boazinha e anulou a nota do trabalho.

— Que tanto protegem essa garota, né?— Comentou com uma careta.

— Nem me fale! A professora ainda me obrigou a fazer essa porcaria de prova de recuperação de retardado! — Rosália desabafou e revirou os olhos.

— Não fala assim, eu também tive que fazer a prova! — Com o cenho franzido e os lábios formando um pequeno bico de contrariedade. — Acho a matéria de números imaginários muito difícil... Sem falar em geometria, não dá para imaginar figuras em terceira dimensão nem a pau, e não consigo decorar as fórmulas.

Rosália deu de ombros e as duas viraram no corredor na direção do dormitório.

— Como você consegue fazer contas de cabeça? — Mara perguntou com um suspiro.

— Sei lá! Eu lembro das coisas, sabe? Números e fórmulas ficam na minha cabeça como se fosse a casa deles.

— Nossa! Eu queria ter esse dom! Passei a semana estudando para essa prova e não sei se vou conseguir tirar os seis pontos que preciso...

— Você reclama de barriga cheia! Como consegue entender e lembrar de tudo das aulas de Filosofia e História? Fora que fala inglês e espanhol como se tivesse nascido nesses países. Se não fosse a sua ajudinha em História eu teria me dado mal...

— Talvez os nossos cérebros tenham gostos diferentes. — Disse Mara, sorridente. — Ah, e obrigado por deixar a prova no canto, consegui copiar algumas respostas.

— "Uma mão lava a outra" e blá blá blá... Não foi nada.

— Rosa! — A voz melodiosa de Diana ressoou pelo corredor quando elas estavam na porta do dormitório. — Que bom que te encontrei aqui, preciso muito falar contigo.

Rosália fez um muxoxo antes de se virar na direção da voz com um grande sorriso falso no rosto. Mara, que era alguns centímetros mais alta que Rosa, teve que levantar a cabeça para encarar Diana, que além de mais alta, ainda estava a calçar uma bota de saltos altos da última moda.

— Oi, Diana, já terminou a prova, "querida"? — Se cumprimentaram com dois beijos estalados no rosto.

— Ah, sim, terminei. — Diana abraçou-a sorridente. — Eu tinha o gabarito, acredita? Ai, já pensou se eu tirar dez? O meu pai vai ficar tão orgulhoso da minha nota!

— Vai contar-lhe que você colou a prova inteira?

— Claro que não, não sou idiota! — Diana respondeu horrorizada com a possibilidade do seu pai, tão austero e rígido, descobrir as suas peripécias no colégio.

Rosália esticou o pescoço e a encarou como quem encara um animal estranho. Será que a natureza compensou a beleza de Diana tornando-a obtusa? Porque, tinha definitivamente o cérebro preguiçoso. Não que fosse burra, pois era esperta e ardilosa, mas era tão imersa na sua bolha de fantasia, que não sobrava para outros assuntos que não fossem do seu interesse imediato. Sabia tudo sobre artistas de cinema, produtos de beleza, maquiagem, última moda, exercícios para manter a forma...

No que se tratava de disciplinas escolares, era uma negação. Não conseguia manter a atenção em nada por mais que cinco minutos e detestava ficar sentada muito tempo. Ao não prestar atenção nas aulas e sofrer uma crise de espirros sempre que tentava abrir um livro da biblioteca, como poderia aprender?

Já beleza... Ao lado de Diana, Rosália sentia-se um patinho feio, aliás, qualquer outra garota ao lado de Diana era um patinho feio.

Diana tinha longos cabelos negros como a noite, tão sedosos e brilhantes que dava vontade de tocar, ou raspar a careca dela e fazer um cobertor... Eh... Rosália tinha pensado em fazer isso no ano anterior quando tiveram uma briga. Por sorte de ambas, mudou de ideia.

Além dos cabelos de sonho, Diana tinha um sorriso cativante, dentes perfeitos e o mais belo e expressivo par de olhos azuis, que, para dar mais inveja a nós, meros mortais, escureciam ou clareavam dependendo do tempo.

Não era ridículo algo assim?

Se o céu estava escuro ou era noite, os olhos pareciam quase violetas, mas no verão, com sol a pico e céu claro, os olhos dela ficavam da cor do céu. Não era apenas isso, os lábios eram rosados, rosto ovalado, nariz pequeno e arrebitado, sobrancelhas perfeitas e um corpo escultural de modelo de capa de revista.

Ok, Rosália admitia para si mesma que, algumas vezes, a sua falta de paciência com Diana era causada por uma pontinha de inveja. Se, pelo menos, Diana fosse uma pessoa má, mesquinha ou cretina, poderia transferir os seus sentimentos para o desprezo, mas não... Apesar de uma pitada de egocentrismo, Diana era uma pessoa divertida, alegre, simpática, extrovertida, tinha um projeto de ajuda às crianças carentes, até mesmo visitava um orfanato uma vez por mês!

Como não amar?

Ou seria melhor perguntar: como não odiar?

Rosália suspirou. Fazer o quê, se nem todos eram favorecidos pelos deuses?

— O que você queria falar comigo, Diana?

— Ah, é! No próximo fim de semana vou fazer uma festa na piscina de casa para arrecadar fundos para ajudar um pequeno asilo que descobri num bairro não longe daqui. Você acredita que os velhinhos estão sem roupa de cama e urinol? Sem falar nos produtos de limpeza, que a diretora falou que sempre acabam.... Não podemos deixá-los na mão, não é mesmo? Afinal, pode acontecer com qualquer um de nós!

Rosália pensou em corrigi-la e afirmar que isso jamais aconteceria com Diana. Ela era rica e linda, provavelmente ficaria ainda mais rica casando com algum magnata do petróleo, ou um príncipe árabe... vai saber?

— Quer me convidar para a festa?

— Claro! Vai ser meu pedido de desculpas pela encrenca com o trabalho e você ainda terá a oportunidade de ajudar os velhinhos fofos do asilo, o que acha? Ah, e pode levar a sua amiguinha Marta também.

— Mara, eh... meu nome é Mara. — Mara finalmente se pronunciou, surpresa por Diana se referir a ela e incluí-la no convite, visto que desde que tinha se aproximado, parecia não tê-la notado.

— Ah, tá, — Diana a olhou confusa ao ser corrigida. — Marta, Mara, tanto faz. Você vai ser muito bem-vinda também, claro, exceto se pretendem passar o fim de semana com a família de vocês. — Disse o final da frase em tom de pergunta, mordendo o lábio na esperança de que aceitassem o convite.

— Para falar a verdade, a minha avó vem me buscar...— Murmurou Mara decepcionada por não poder ir a uma das famosas festas de Diana. — Muito obrigada pelo convite!

— Pôxa! — Diana fez beicinho, genuinamente chateada. — Que pena, na próxima não aceitarei recusas, hein! Você vem, né, Rosa, a sua família nunca vem te buscar mesmo. Não tem desculpas!

Quem ainda não tinha entendido a razão de Rosália amar e odiar Diana, já conseguiu entender agora? Ela não fazia aquelas coisas por mal, de verdade. Nos anos que estudaram juntas, Rosália teve tempo para aprender muito sobre os colegas de classe. Diana não tinha muita noção do peso das suas palavras e tentava resolver tudo com o seu belo e majestoso sorriso. O que irritava Rosália era que muitas vezes funcionava, inclusive com ela mesma, que apesar de estar pronta para xingar Diana, suspirou mais uma vez e respondeu com educação e um pouquinho de deboche:

— Pôxa... Que pena, mas justamente esse fim de semana o meu irmão virá me buscar!

Diana levou as duas mãos à boca para conter um gritinho, seus olhos azuis arregalados.

— Quando? Seu irmão vem? Por que não me avisou? Que horas que ele vem?

Diana tinha uma queda enorme por Aquiles. Todo rapaz que ela queria, arrastava um bonde por ela, mas bastava Aquiles aparecer que Diana se comportava como uma barata tonta e insegura, fazendo de tudo para impressioná-lo a cada visita.

E Aquiles, que não era nada bobo, adorava a atenção recebida.

— Ele não tem hora certa para vir, muito ocupado, sabe como é, negócios...

Mara olhou de soslaio para Rosália, sabia perfeitamente que a amiga estava mentindo e sentou na beirada da sua cama, prendendo o riso.

— Ai... Você diz a ele que mandei lembranças? Ah! Entregue esse bilhetinho com o número do telefone lá de casa para ele, caso já tenha instalado uma linha na casa de vocês, sabe como é...

Empolgada, Diana tirou um lápis e um bloquinho do bolso da mochila, anotou o número do telefone da sua casa, seu nome completo, beijou o papel para deixar a marquinha de batom e desenhou um coração ao lado.

— Farei isso, pode ter certeza! — Respondeu ao receber o bilhete.

Mentiu mais uma vez. Nunca entregou bilhetes nem número de garotas para o irmão, e nunca entregaria.

— Obrigada, amiga! Você é um amor! Bom, vou deixar vocês agora, sinto muito, mas tenho que convidar outras pessoas, beijos!

Quando Diana se afastou, Mara e Rosália se entreolharam.

— Por que mentiu para ela?

— Não aguento mais a cara de pena que ela faz quando ouve que ninguém virá buscar-me. Não sei porque ainda se importa, nunca passei nenhum dia fora desse lugar desde que cheguei...

— Pelo menos, pode ir à festa dela.

— Ah, não mesmo! Ela tende a querer fazer parzinho comigo e algum dos amigos estranhos dela nas conversas, imagine cara a cara.

— Até que são bonitinhos, pelo menos os que aparecem aqui...

— São todos tão bobos e infantis... Só sabem falar de futebol, quadrinhos, carros e festas...

— Ué, você adora festas sempre reclama de não poder ir nas que acontecem fora do colégio!

— Sim, mas é diferente... Essa eu não quero ir, e só faço o que me dá na telha!

Mara gostava muito de Rosália, a tinha como uma amiga muito querida e se interessava por tudo o que lhe acontecia. Ao notar a amiga se fechando, tentou continuar a conversa de uma perspectiva diferente.

— E o Félix? Vocês se encontraram ontem escondido e você me contou nada até agora!

— Ah...— Rosa tocou as bochechas que se tornaram rubras ao ouvir aquele nome. — Ai, amiga! A gente se beijou de novo ontem, e várias vezes! Aquele beijão, sabe?

— De língua?

Rosa se jogou na cama antes de responder:

— Sim! E foi tão estranho e tão incrível ao mesmo tempo. Eu não queria parar de beijar ele nunca, ainda mais que estava com gostinho de bala de menta! Vou encontrar com ele na sexta-feira de novo!

— Você é doida? E se te pegarem escapando?

— Não vão pegar e vai ser rapidinho, só um beijo de boa noite, foi o que ele prometeu.

— Ai, que inveja! — Mara deitou ao lado de Rosália, ambas olhando para o teto. — Tenho dezessete anos e nunca beijei ninguém e acredito que vou morrer virgem, nenhum garoto me quer! Só pode ter algo errado comigo!

— Não seja boba, não tem nada de errado com você! Só que, sempre que um garoto se aproxima de nós, você trava, parece que tem medo deles!

— Eu sei... não consigo controlar isso. Queria tanto ser como você- não, espera, queria ser como Diana. Ela consegue o garoto que quer tão fácil...

— É... — Rosália suspirou. — Eu também queria ser como ela...

— Ei, Rosália, acha que ela já fez "aquilo"? — Mara mudou o tom de voz ao pronunciar a última palavra e balançou as sobrancelhas.

— Sei lá... Se fez, deve ter sido com aquele rapaz da marinha ano passado. Lembra como ela estava apaixonadinha por ele?

— E ele era um super pão, né? Uma vez, ele veio de farda, lindo como um príncipe. — Mara suspirou. — Nossa... Nunca vi ninguém tão bonito!

— Se ela não fez com ele, foi boba, pois deveria ter feito!

Rosália virou-se, ficando com a barriga para baixo e os pés erguidos.

— Rosália! Como pode falar assim? — Mara virou-se também, imitando a posição da amiga. — Somos garotas direitas, de família!

— Ah, vá, como se não soubesse quem é minha família, Mara! Fora que, por acaso garotas direitas não sentem cócegas?

Mara era a única pessoa para quem Rosália havia contado sobre a sua vida privada e quem eram os Scorpions.

— Cócegas? — Perguntou Mara intrigada.

— Sim, aquelas cócegas que a gente sente na barriga, que vai até a pontinha do pé quando está beijando um garoto...

— Acho que isso não se chama cócegas...— Mara riu da palavra escolhida pela amiga.

— Tanto faz. Diana é uma garota direita mesmo que tenha feito "aquilo" com o marinheiro. Eu teria feito!

— Ah, eu não! Só vou fazer quando casar, ou quando me apaixonar perdidamente por um rapaz.

— E se você casar virgem e o seu marido for horrível na hora de fazer?

— Aí, a gente aprende um com o outro, ué. Vamos nos amar, podemos aprender juntos.

— Ai, que preguiça, Mara! — Rosália virou de lado e apoiou-se com o cotovelo, segurando a cabeça com olhar sonhador. — Os garotos podem fazer com quem querem e ninguém fala mal deles, custa saberem fazer "Aquilo" direito? Eu quero fazer com um rapaz que saiba o que fazer, que tenha experiência e que me faça sentir como uma deusa, como naquele livro! Nossa... As coisas descritas no livro, hum... me fazem sentir muitas cócegas!

As duas riram com vontade.

— Cadê o livro? Vamos ler um pouco antes do jantar?

Rosália foi até a cômoda, na última gaveta, bem no fundo, enrolada num vestido velho estava um livro. Na capa, exibia um homem musculoso, sem camisa, segurando uma ruiva seminua pela cintura no meio da selva. Ele a olhava com o rosto sério e cheio de desejo, enquanto ela o olhava de modo suplicante e lábios tintos entreabertos. O título era: Paixão Selvagem.

As duas deitaram lado a lado na cama de Rosália e puseram-se a ler, entre suspiros e risadinhas, a história que já tinha quase decorado pelas repetidas leituras.

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