
Scorpions
Capítulo 3
Hugo terminou a sua prece diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima e fez o sinal da cruz. Mais uma noite em que o seu sono foi invadido por imagens e cenas de um passado sombrio. Não importava quanto tempo havia passado, como alguém poderia se acostumar com pesadelos tão reais?
Pousou o terço com cuidado sobre um lenço cor de rosa, adornado com um bordado cheio de falhas, mas que para ele, tinha grande valor sentimental. Aquele foi o primeiro presente que ganhou desde a morte do pai. O segundo, na verdade, pois seu terceiro em comando, Aquiles, fez uma arte especialmente para ele, porém, alguém especial o havia alertado que um punhal dificilmente poderia ser considerado um bom presente...
"Esse é um bom presente, vê? Eu mesma bordei, e a cor combina comigo, para que seja para você uma lembrança de mim, quando eu não estiver por perto!"
Ela não fazia ideia do quão comovido ele ficara quando revelou que tinha bordado o lenço com as próprias mãos. Alguém perder tempo para fazer algo para ele, com tanto carinho e sem esperar nada em troca...
Passou o dedo suavemente sobre o bordado, como se temesse danificá-lo, antes de dobrá-lo em volta do terço e devolvê-lo à caixinha de madeira que ficava ao lado da imagem da sua santa de devoção.
Depois de anos, acorrentado num porão, não se sentia mais humano. Ele era apenas a "fera", um animal liberto em noites especiais para rinhas humanas, ou para eliminar um inimigo do "monstro"...
"Eles vão pagar, todos eles, um por um!"
Esse era seu mantra todas as manhãs, era o que o mantinha de pé nas suas noites escuras, antes de ser resgatado.
Foi para o banheiro da sua suíte tomar uma chuveirada matinal. Fria, gostava da dormência que a água fria causava no seu corpo pelas manhãs, embora naquele dia a água não estivesse tão fria, já que a primavera havia chegado.
Após o banho, parou diante da pia do banheiro para aparar a barba e o bigode, que mantinha bem curtos. Usar a pele escanhoada era algo impensável, pois carregava no rosto a marca da violência sofrida no passado, parte escondida pela tatuagem no lado esquerdo do rosto: o ferrão ao lado da sobrancelha e a figura de escorpião, artisticamente criada e confeccionada por Aquiles, se expandia até a boca, com as garras escondidas pela barba. Era como usar uma máscara que o permitia seguir como uma nova pessoa e se olhar no espelho sem odiar a si mesmo.
A tinta da tatuagem escondia uma grosseira e repelente cicatriz...
Após completar a sua rotina matinal, voltou para o quarto para se vestir, apenas com uma toalha em volta da cintura. A primeira coisa que viu foi uma calça de linho azul-marinho esticada sobre a cama e sapatos pretos bem engraxados no chão.
Estalou a língua contrariado e buscou com os olhos a pessoa responsável por aquilo.
O roupeiro estava com as portas abertas e Juanita, distraída, arrastava os cabides de um lado para o outro, indecisa sobre qual camisa escolher para ele.
Ela era afilhada da governanta da mansão, e tinha servido como válvula de escape na cama há alguns anos.
— O que está fazendo aqui, Juanita? — Perguntou contrariado.
Ela deu um gritinho assustada e virou-se com as mãos no peito. Forçou um sorriso e ajeitou o vestido leve de algodão, que deixava suas belas e torneadas pernas á mostra.
— Nossa, Hugo, você me assustou!
— O que disse?
O tom de voz dele era baixo e sombrio. Ela arregalou os olhos ao se dar conta de que tinha cometido um deslize. A intimidade que tinham era puramente sexual e Hugo exigia respeito de todos debaixo de "suas asas"
— Desculpa, senhor Hugo, quer dizer, mestre. Me perdoa, mestre!
— Pelo que exatamente quer que eu te perdoe, Juanita?
Ele deu dois passos em sua direção e foi o suficiente para que parasse bem na frente dela, barrando o caminho, seus olhos cintilavam com um prazer sinistro ao vê-la desconcertada.
— Eu faltei com o respeito ao te chamar pelo primeiro nome, mestre.
Ele deu mais um passo, lento e deliberado, dando a ela a chance de reagir ao seu movimento e recuar, de costas tocando a porta do roupeiro.
Juanita estava encurralada, mal podia respirar sem que o cheiro do pós-barba dele invadisse suas narinas. Seu rosto estava na altura de seu peito desnudo, forte e musculoso, adornado por pequenos pelos pretos como os que tinha no rosto e cabeça, A pele, brilhando devido às gotas residuais do banho.
Moveu os dedos da mão inconscientemente, desejando ter permissão para tocar.
— Fez algo pior do que dizer meu nome, você está no meu quarto! — Ele vociferou em um tom monótono.
— Eu- eu... — Ela gaguejou. Não havia cometido apenas um deslize ao dizer o seu nome tão casualmente, estava no seu quarto sem permissão. — Eu... Eu só queria te ver, é... Senti sua falta!
— Hum...— Ele ergueu a mão e tocou o seio direito usando o dedo indicador e médio e deslizou os dedos até que o bico dos seios se eriçassem. — Você sabe muito bem que não gosto que entre no meu quarto. — Aprisionou o mamilo entre os dedos e beliscou.
Juanita gemeu de dor, mas não se afastou. O encarou, fechou as pernas e pressionou as coxas, desejando o toque dele em outro lugar. Ele abriu a mão e espalmou o seio dela, iniciando uma massagem.
— Mestre, por favor...
Hugo prosseguiu massageando o seio dela e levantou um pouco o vestido, mas fingiu não ouvir sua súplica.
— É nova? — Perguntou se referindo a calcinha branca de renda que ela estava vestindo.
— Sim, senhor… Comprei dois, um branco e um preto com o dinheiro que me deu, especialmente para o senhor tirar de mim quando quiser!
— Hm... Gostei dela.
Hugo arriou a alça do seu vestido e passou a língua no outro seio, por cima do sutiã.
Ela fechou os olhos, boca semiaberta, concentrada na sensação que a língua dele causava nos seus mamilos.
— Isso, mestre, não pare, por favor!
No mesmo instante, ele se afastou e a deixou trêmula e decepcionada. Juanita era uma visão deliciosa, isso ele não tinha como negar. Morena, esguia, de curvas suaves sob um vestido simples, era uma visão tentadora com os olhos marejados, seios pequenos e empinados.
— Pensa que merece minha atenção depois de me desobedecer?
Ela levantou o olhar e deparou-se com os olhos frios e sem emoção de Hugo.
— Mas.. Mestre, o senhor ficou fora quase uma semana, amanhã vai viajar de novo...
— Foi uma boa menina, esperando o seu mestre voltar?
— Sim, senhor, eu juro! Eu só me deito contigo!
— Boa garota! — Ele ajeitou as alças do vestido dela, cobrindo o corpo que não estava interessado em usar naquele momento. — Essa é a razão pela qual trouxe um presente para você.
— Presente para mim? — Ela olhou em volta animada como uma criança, na esperança de encontrar algum embrulho.
— Lá em baixo, deixei o pacote com a Daniela para dividir entre vocês. — Ele afastou-se e largou a toalha no chão para se vestir.
Juanita nem aproveitou a visão do corpo nu de Hugo, pois estava terrivelmente decepcionada com as palavras dele.
— "Entre vocês"? De quem está falando?
— Ora, dê você e das outras protegidas que ainda moram aqui! Trouxe“kits”de perfumaria para cada uma de vocês, é o mesmo que escolhi para as suítes vips do hotel.
— Kits? — Ela perguntou com a voz falha, parecendo estar ofendida.
Hugo, que estava sentado na cama já de cuecas e calçando as meias e sapatos, suspirou contrariado. Não queria conversar e detestava ter que repetir o que já dissera. Imaginou que, contando haver um presente para ela, conseguiria se livrar da sua presença, pois estava com pouco tempo para se arrumar antes de uma reunião com fornecedores.
Achou melhor descrever o presente, para que ela se animasse em ir buscá-lo.
— Sim, essas coisas que vocês gostam: xampu, creme rinse, sabonete, desodorante, hidratante, talco... As outras garotas adoraram, então, decidimos trazer para todas vocês.
— Mas... É isso o presente?
— Não gostou do que eu trouxe? — Ele ergueu uma sobrancelha. — Você vive me pedindo essas coisas, o fornecedor disse que é um kit completo!
— Um kit igual para todas? — Finalmente verbalizou a razão de sua frustração
Ele levantou e vestiu a camisa.
— Óbvio, Juanita, sabe que trato todas como iguais aqui, ninguém é melhor que ninguém!
— Mas eu pensei que era um presente só para mim... Por que elas também têm que ganhar, se eu que sou sua garota?
As mãos dele que estavam ocupadas abotoando a camisa pararam e ele encarou-a com o rosto sério.
— Você não é minha garota, Juanita, sabe disso! A gente fode, enquanto for bom para os dois. É livre para cair fora e arrumar outro homem que queira brincar de casinha contigo.
— Mas... Nós saímos há anos, eu pensei que ia acabar me assumindo e a gente ia ficar juntos...
Hugo passou a mão pelo rosto e suspirou mais uma vez ruidosamente. O dia já tinha começado ruim, mais um pesadelo e agora essa conversa detestável.
— Juanita, não fantasie sobre mim, não sou do tipo que vai "assumir" uma garota.
— Mas... Somos bons juntos! — Ela tentou argumentar, sua expressão facial evidenciava a decepção.
— O sexo é razoável, gosto de te foder, isso é tudo o que tenho a te oferecer. Se quer compromisso, você é livre para tentar com outros caras.
— Outros caras? — Perguntgou ultrajada..
— Outros, outros, foda-se, faz o que quiser! A gente para por aqui, sem ressentimentos. Pode continuar a morar aqui, e se quiser trabalhar como a sua madrinha, lhe pagarei um salário razoável.
— Eu não vim para a cidade grande para ser empregada doméstica!
— Tanto faz, o problema é seu! Nós paramos por aqui, agora sai que tenho mais o que fazer!
— Não, espera! — Ela segurou o braço dele, mas logo afastou a mão ao ver a fúria nos olhos dele por ser tocado por ela. — Eu não quero parar, eu gosto do que a gente tem, eu entendi, sem compromisso.
— Tem certeza? — Ele encarou-a.
— Sim! Mas, mestre... já faz um tempo que a gente não... você sabe... e amanhã o senhor vai viajar de novo a trabalho!
Olhou-a de cima a baixo. Tinha razão, fazia um tempo que não se deitava com ela, aliás, fazia um tempo que não se deitava com ninguém. Estava precisando se aliviar um pouco, especialmente antes do encontro que teria no final de semana.
— Está certa, seja boazinha e me aguarde no seu quarto hoje à noite, vou chegar por volta das nove.
Juanita sorriu aliviada por ele não terminar com o que tinham e seguiu para porta do quarto.
— Juanita?
— Sim, senhor? — Ela parou a um passo do corredor e o olhou esperançosa.
— Vista o conjunto preto essa noite!
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