
Salvação ou Pesadelo: O Jogo Dela
Capítulo 2
Eu achava que tinha encontrado a salvação, mas era só o começo de um pesadelo ainda maior.
Minha vida tinha desmoronado anos atrás, quando meus pais morreram num acidente de carro que a polícia nunca resolveu direito, deixando um rastro de dívidas e um vazio que parecia impossível de preencher. Eu estava no fundo do poço, trabalhando em qualquer coisa para sobreviver, mal conseguindo pagar as contas.
Foi quando Sofia apareceu.
Ela era linda, inteligente, uma advogada de sucesso que parecia um anjo enviado para me resgatar. Ela me ouviu, me apoiou, e com o tempo, o que começou como amizade virou amor. Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti seguro, feliz, como se o passado doloroso pudesse finalmente ficar para trás. Morávamos juntos há dois anos, e eu estava começando a pensar em futuro, em casamento, em tudo o que eu tinha perdido.
Hoje à noite, eu cheguei em casa mais cedo, trazendo flores, planejando uma surpresa. A casa estava silenciosa, mas ouvi a voz de Sofia vindo do nosso escritório. Ela estava no telefone, e o tom dela era tenso, diferente do normal.
Parei no corredor, sem querer interromper.
"Marcos, eu já disse que não vou mudar de ideia," ela dizia, a voz baixa mas firme. "O caso do Ricardo está encerrado. Ninguém vai desenterrar isso."
Ricardo. O nome me causou um arrepio. Ricardo era um amigo de longa data dela, um cara charmoso e rico que eu nunca gostei muito. Havia algo nele que me deixava desconfortável, mas Sofia sempre o defendia.
A voz do outro lado, provavelmente seu colega de trabalho, parecia agitada, mas eu só ouvia o lado de Sofia.
"Eu não me importo com as 'consequências profissionais', Marcos. Você não entende."
Houve uma pausa.
"Eu faria qualquer coisa por ele. Qualquer coisa. Se isso significa arriscar minha carreira para garantir que ele fique bem, então que seja. Ele merece ser feliz, e eu vou garantir isso, não importa o custo."
Aquelas palavras me atingiram. Não era só lealdade de amiga, havia algo mais, uma devoção quase desesperada.
"Você está sendo ridículo," ela continuou, a voz subindo um pouco. "Ninguém vai descobrir. Eu cuidei de tudo anos atrás. As provas foram... ajustadas. O relatório foi finalizado. Acabou."
Meu sangue gelou. Provas ajustadas? Que caso era esse?
"Sua moralidade não me interessa agora, Marcos! O que importa é proteger quem é importante. E o Ricardo é importante. Mais importante que qualquer regra estúpida ou qualquer outra pessoa."
Outra pessoa.
Eu.
Ela estava falando de mim?
A ficha caiu de uma forma lenta e brutal. O "caso antigo" que ela estava encobrindo, o acidente que ela mencionou que as "provas foram ajustadas"... só podia ser um. O acidente que matou meus pais. Ricardo estava dirigindo o outro carro. Na época, a investigação concluiu que foi culpa dos meus pais, que o carro deles teve uma falha mecânica. Ricardo saiu ileso, sem nenhuma acusação.
Eu me aproximei de Sofia na época, destruído, e ela me "consolou". Ela me ajudou a lidar com a papelada, com o luto. Ela me segurou enquanto eu chorava.
Agora, tudo fazia um sentido horrível.
Não foi um resgate. Não foi amor.
Foi vigilância.
Ela se aproximou de mim para garantir que eu nunca descobrisse a verdade, para me manter sob controle, para proteger o verdadeiro culpado. Nosso relacionamento, minha casa, minha felicidade percebida... era tudo uma farsa. Uma mentira elaborada para proteger o homem que ela amava, o homem que destruiu a minha vida.
Eu recuei em silêncio, o buquê de flores caindo da minha mão e espalhando pétalas pelo chão. O cheiro delas de repente me pareceu enjoativo, como o cheiro de um funeral.
Eu não era o amor da vida dela.
Eu era o dano colateral.
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