
Salvação ou Pesadelo: O Jogo Dela
Capítulo 3
Eu me escondi no quarto de hóspedes, o cômodo que mal usávamos, e fechei a porta sem fazer barulho. Minhas mãos tremiam. Eu me sentei no chão frio, tentando processar o que tinha acabado de ouvir. A conversa continuou por mais alguns minutos, com Sofia repetindo com firmeza sua lealdade a Ricardo e dispensando as preocupações de Marcos como se fossem um incômodo menor.
"Ele vai superar," ouvi ela dizer, e senti um nó no estômago ao perceber que ela estava falando de mim. "O Leo precisa de mim. Ele não vai a lugar nenhum."
A certeza na voz dela era a parte mais cruel. Ela não estava apenas me enganando, ela estava confiante na minha ignorância, na minha dependência.
Cada memória feliz dos últimos dois anos se transformou em veneno. O jeito que ela me olhava, os jantares que preparava, as vezes que me abraçava quando eu tinha pesadelos com o acidente. Tudo era uma performance. Uma atuação para manter o fantoche quieto. Ela não estava me curando; estava administrando a minha dor para que não virasse um problema para o verdadeiro amor da vida dela.
A porta do escritório se abriu e ouvi seus passos no corredor. Prendi a respiração.
"Leo? Chegou mais cedo?"
Sua voz era doce, cheia de uma falsa surpresa e carinho.
Ela abriu a porta do nosso quarto, depois me chamou de novo. Fiquei em silêncio, o coração batendo tão forte que eu tinha certeza que ela podia ouvir.
Finalmente, ela abriu a porta do quarto de hóspedes. A luz do corredor a emoldurou.
"Amor, o que você está fazendo aqui no escuro?" ela perguntou, o tom cheio de uma preocupação fabricada.
Ela se aproximou e se ajoelhou na minha frente. Seu perfume, que eu sempre amei, agora me sufocava.
"Você está bem? Parece pálido."
Ela estendeu a mão para tocar meu rosto, e eu tive que usar toda a minha força de vontade para não recuar. O toque dela queimava. Era o toque de uma traidora, de uma cúmplice.
"Só... um dia cansativo," eu murmurei, a voz saindo rouca.
"Vem, vamos para a cama. Eu cuido de você," ela disse, com a mesma ternura que usou para me enganar por dois anos.
Naquela noite, eu esperei. Esperei até que sua respiração se tornasse profunda e regular, o sono tranquilo de alguém com a consciência limpa, ou de alguém que era mestre em se enganar. Deslizei para fora da cama, o corpo rígido de tensão. Fui até o escritório. O laptop dela estava sobre a mesa, aberto.
Eu sabia a senha. Era a data do aniversário dela. A ironia era doentia.
Comecei a procurar. Não demorou muito. Havia uma pasta protegida por outra senha, mas eu tentei a data de aniversário de Ricardo e funcionou. Meu estômago se revirou.
Dentro, estava o inferno.
Fotos do acidente. Fotos que eu nunca tinha visto. O carro dos meus pais, esmagado. E o carro de Ricardo, com a frente danificada. Havia vídeos de câmeras de segurança de uma loja próxima, a qualidade ruim, mas clara o suficiente. Eu vi o carro de Ricardo, em alta velocidade, passando por um sinal vermelho segundos antes do impacto.
Havia documentos. O relatório policial original, que mencionava a velocidade de Ricardo e a violação do sinal. E havia a versão final, a oficial, com parágrafos inteiros alterados, mencionando uma "possível falha nos freios" do carro dos meus pais. Havia e-mails trocados entre Sofia e outro advogado, discutindo como "mitigar os danos" para Ricardo e "concluir a narrativa" o mais rápido possível.
Era tudo ali, em preto e branco. A prova irrefutável da culpa dele e da cumplicidade dela.
Mas o pior ainda estava por vir.
Dentro daquela pasta, havia outra. O nome era apenas "R.".
Eu cliquei.
Não eram documentos do caso. Eram fotos. Dezenas, talvez centenas de fotos de Ricardo. Ricardo sorrindo em uma festa. Ricardo na praia. Ricardo dormindo, em uma foto que parecia ter sido tirada de perto, intimamente. Eram fotos que mostravam uma obsessão.
Rolei pelas imagens, sentindo um vazio me consumir. Então, eu vi uma foto de um evento da empresa dela, de um ano atrás. Eu estava lá. Nós três estávamos na foto: eu, Sofia e Ricardo, todos sorrindo para a câmera. Mas nesta pasta, a foto estava diferente.
Eu tinha sido cortado.
Era apenas Sofia e Ricardo, sorrindo um para o outro.
Em outra foto, de um piquenique, a mesma coisa. Minha mão, que estava no ombro dela, foi cuidadosamente apagada, deixando apenas a silhueta fantasma dos meus dedos.
Eu não era apenas um dano colateral. Eu era invisível. Um espaço em branco a ser preenchido ou apagado conforme a conveniência dela.
Naquele momento, a dor se transformou em outra coisa. Uma clareza fria e afiada. A tristeza deu lugar a uma determinação gelada.
Eu não ia apenas sofrer. Eu não ia apenas confrontá-la.
Isso era muito pouco.
Eu ia desaparecer.
Abri uma nova aba no navegador e comecei a pesquisar. "Como cancelar um CPF". "Como fechar conta bancária permanentemente". "Rotas de ônibus para a fronteira".
O plano começou a se formar na minha mente, peça por peça. Ela me transformou em um fantasma na vida dela. Agora, eu me tornaria um na vida real. E quando eu sumisse, levaria comigo a verdade, pronta para explodir e destruir o mundo perfeito que ela construiu sobre os ossos da minha família.
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