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Saga Colegial

Nesta narrativa sobre o amadurecimento, acompanhamos a jornada de jovens que dão os primeiros passos na vida adulta. Enquanto descobrem a complexidade do amor, os protagonistas precisam encarar desafios intensos que testarão seus limites. A trama mergulha em temas sensíveis como o preconceito, o abandono familiar e as sequelas de acidentes inesperados. É um retrato realista sobre superação e os laços formados diante das adversidades do destino.
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Capítulo 3

CAP 03 – LIVRO 01 - NOTIFICAÇÃO

Já no intervalo, me sento sozinha no refeitório. Não por ser a nerd abandonada por todos os outros que é tratada como se não fosse nada, mas por quê eu gosto disso.

Antes, usava o intervalo para continuar estudando e se alguém se aproximasse eu apenas levantava e iria para outro lugar, onde pudesse ficar sozinha com meus cadernos.

Porém, não faço mas isso, já que fui ameaçada pela tia Luci, que apensar de ser exigente, dizia que aquilo não era saudável.

No início, eu ainda tentava continuar com isso enquanto olhava para todos os cantos esperando ela aparecer. Porém, eu sempre me distraía com os estudos e quando lembrava de olhar, ela já estava tão perto que não dava tempo de guardar os cadernos e fingir.

Recebo uma nova mensagem e olho celular. Uma nova mensagem de Téo.

-[Eaí, Mel.]

-[Como vamos fazer o trabalho?]

Leio mais uma vez pela barra de notificação e fico encarando a tela do celular por um tempo, sem perceber, pensando se respondo ou não.

— Por quê fica me ignorando? — Me assusto com a voz dele, que se senta ao meu lado.

Encaro seu rosto, procurando uma resposta.

— Não gosto de responder mensagens. — Respondo a primeira coisa que passa em minha mente. Ele ri.

— Como vamos fazer o trabalho? — Questiona. — Você vai na minha casa ou eu vou na sua.

Rio, porém paro ao perceber que ele está falando sério.

— A gente não precisa se juntar para fazer o trabalho. — Respondo. — Na verdade, isso acabaria com o intuito do trabalho, já que temos que descrever um ao outro, superficialmente.

— Justo. — Ele responde, rindo. — Mas, poderíamos fazer juntos, mesmo assim. Eu sei que você gosta de fazer trabalhos perfeitos e odiaria que eu te corrigisse.

— O que deu em você? — Téo fica confuso com minha pergunta. — Por quê está falando comigo desde ontem? Por quê pegou meu número de telefone e por quê fica me mandando fotos e mensagens? — Não consigo evitar a pergunta.

— Bom... — Téo pensa um pouco. — Eu acho que você é legal e quis conversar com você. — Não respondo dessa vez, mesmo pensando que não fazia sentido, já que ele tinha voltado ao colégio desde o início do ano e começou a falar comigo apenas agora, faltando apenas três meses para nos formamos e talvez nunca mais nos encontramos. — E aí, o que me diz sobre o trabalho?

— Eu digo, não. — Respondo. — Eu acertar tudo sobre você não faria do meu trabalho perfeito, muito pelo contrário. Isso porque eu iria invalidar todo o discurso filosófico do senhor Marcelo sobre sermos oceanos que ainda não foram explorados, apresentando você como um ser tão superficial quanto como uma colher com um pouquinho de água.

— Nossa. — Ele finge estar magoado.

— Não estou dizendo que você é superficial. — Tento me defender. — Eu quis dizer que era o que iria parecer. E eu não quero invalidar a ideia sobre sermos profundos, por quê eu acho uma analogia bem interessante.

Téo fica uns segundos me encarando e analisando minhas palavras.

Abaixo a cabeça ao sentir meu rosto quente de vergonha.

— Então... — Ele se levanta. — Já que você não gosta de responder mensagens, eu vou continuar te mandando fotos e mensagens e esperando o momento que você vai se irritar e responder.

Levanto a cabeça, para dá de cara com as costas de Téo, que saiu sem esperar uma resposta.

— Claro. — Reviro os olhos e levanto. — Como que vai esperar uma resposta se nem foi uma pergunta?

Volto para a sala de aula e evito contato visual, mesmo percebendo olhares vindo dele, vez ou outra.

Uma dessas vezes, até cedi e o encarei de volta, porém não consigo manter o olhar quando ele sorri.

Após o fim do último horário, pego minha bicicleta, com pressa, e volto para casa.

Antes de ir para o quarto e me arrumar para o trabalho, esquento a comida e faço uma salada temperada com vinagre e limão.

— Cheguei. — Ouço um grito e a porta se fechando — Melissa?

— Oi mãe. — Grito de volta e corro até a cozinha. — Estava terminando de me arrumar. — Lhe dou um beijo e vou até o armário pegar a louça e talheres, enquanto ela vai tomar uma água.

— Obrigada, meu bem. — Pega o prato e se serve. — Teve algo interessante no colégio hoje?

— Então... — Nos sentamos. — Lembra do Teodoro? O menino que sofreu o acidente? — Ela balança a cabeça, afirmando. — Ele começou a falar comigo, do nada.

— Ele não está te provocando, está? — Se preocupa.

— Não. — Tento tranquilizar. — Ele não é idiota como os amigos. — Explico. —Disse que eu pareço legal e começou a conversar comigo, de uma hora para outra.

— Será se a catraca do mundo está girando? — Ela ri.

— Mãe. — A repreendo, também rindo.

— Ah, só estou falando. — Continua. — Você era apaixonada por ele desde criança e ele não ligava, agora você não liga e ele está tentando se aproximar, talvez a justiça cósmica esteja equilibrando umas coisinhas.

— Eu mereço. — Reviro os olhos e me divirto com a explicação.

Terminamos de almoçar e ela limpa a mesa enquanto vou até o meu quarto correndo. Volto com as mãos para trás, escondendo um doce de coco que ela adora.

— Comprei uma sobremesa para você. — Chamo sua atenção e ela se vira. — Adivinha.

— Não acredito. — Já sabe o que é pelo jeito que olho para ela.

Entrego o doce e recebo um abraço, apertado.

Mesmo que pareça não ser muita coisa, eu sei o quanto significa para ela.

É seu doce favorito e ela passou muito tempo sem poder comer. Quando melhorou, não o encontrava em lugar nenhum.

Então, a três meses atrás, eu prometi que se visse esse doce em qualquer lugar, traria para ela.

— Te amo. — Fala, agradecida.

— Vou ficar muito triste se a senhora estiver falando com o doce. — Rimos e nos afastamos.

— Obrigada por cuidar de mim. — Ela lacrimeja e eu a abraço mais uma vez.

Toda essa emoção não se trata apenas de um doce, mas do jeito que eu sempre cuido e sou atenciosa com ela, principalmente depois que meu pai a traiu e foi embora, me deixando com apenas dose anos e Klaus com dezoito.

Sofremos muito ao acompanhar ela desenvolver uma depressão profunda e ter crises de ansiedade cada vez mais frequentes. E mais ainda quando desenvolveu anorexia e quase morreu.

Limpo uma lágrima que escapou.

— Vamos. — Ela me chama e limpa as lágrimas. — Já escovou os dentes?

— Estou indo agora. — Vamos até o banheiro.

Escovamos os dentes e aguardamos o horário para sair de casa, levando em consideração os quinze minutos que gastamos para chegar até a loja.

...

Durante a tarde, nós duas e o restante dos funcionários da loja, atendemos vários clientes, como sempre. O trabalho é repetitivo, tedioso e cansativo, porém é o que garante uma renda fixa para minhas economias.

Ouço o sino da entrada e vou recepcionar.

— Sammy? — Cumprimento e lhe dou um abraço, rápido. — Oi.

— Oi. — Ela é a única colega do colégio que eu realmente gosto de falar. Não somos, exatamente, amigas, porém temos um bom relacionamento e eu sempre achei ela super descolada. — Está vendo aquele homem enorme com cara de segurança? — Aponta para um homem que está se aproximando. — É o meu pai.

— Nossa. — Rio. — Vocês não se parecem muito. — Comento. — Aquela ali. — Aponto. — É a minha mãe.

— Ah, eu sei. — Acena e minha mãe retribui. — Já vi ela no colégio. O meu pai é que nunca vai até lá, mesmo que seja para reunião.

— Boa tarde. — Ele cumprimenta e eu respondo.

— Pai, essa é a Melissa. É uma colega do colégio, e a mais inteligente por sinal. — Apresenta.

Rio, tímida com o elogio.

— É um prazer. — Ergue a mão e eu aperto, educadamente. — Ricardo Sanches.

— Então pai, eu quero comprar umas calcinhas de renda e umas fio dentais, mas não quero que você fique me olhando e me julgando. — Sammy ri e seu pai revira os olhos. — Está vendo aquela mulher? É a senhora Roberta Duarte, mãe da Melissa. Você poderia ir lá e conversar com ela para saber que a Melissa teve uma ótima educação, assim você pode parar de encarar a menina como se estivesse analisando se ela é uma boa companhia.

Abro os olhos, espantada e abaixo a cabeça, constrangida.

— Você está muito abusada mocinha. — O pai segura sua cabeça.

— Você sabe que estou brincando. — O abraça e ri. — Mas, ao mesmo tempo estou falando sério. — Ele vai até minha mãe e a cumprimenta. — Aproveita e compra umas calças novas. — Grita, chamando a atenção não só do pai. Porém ele encara, a repreendendo.

Ela faz biquinho e manda um beijo.

— Vocês parecem bem amigos. — Comento.

— Sim. — Responde. — Só que ele é o amigo ranzinza enquanto eu sou a amiga legal. — Ri.

— Então... As calcinhas eram verdade ou apenas para zoar com seu pai? — Questiono, rindo.

— Não. — Ri. — Realmente quero umas calcinhas.

— Tá. — Responde. — Pode vir.

Mostro algumas opções para ela, que analisa tudo com cautela.

Roberta

— Aproveita e compra umas calças novas. — Sammy grita e ele a encara, repreendendo.

— Olá. — Ele estende a mão e eu o cumprimento. — Me chamo Ricardo. — Se apresenta. — Você é Roberta Duarte. — Arqueio a sobrancelha, confusa. — Ela me falou. — Aponta.

— É sua filha não é? — Questiono, mesmo já sabendo a resposta.

— Sim. — Ricardo ri. — Ela está me tirando muito a paciência ultimamente.

— Posso perguntar o por quê?

— Ela diz que sou um pai super superprotetor, com dois “supers”, é o que ela fala. — Rio. — Por uma parte não está errada, porém ela está planejando fazer faculdade em outra cidade e isso está me matando.

— Olha, quer um conselho? — Ofereço e ele ri. — É bom deixar nossos filhotes voarem para se sentir uma mamãe galinha orgulhosa depois. No seu caso um papai galo.

— Não é uma das melhores comparações, mas eu gostei. — Ele gargalha.

— Eu tenho um filho que está fazendo faculdade fora daqui. — Explico. — Eu tinha uma preocupação enorme, porém todas as vezes que ele vem me visitar, parece mais brilhante, inteligente, cheio de conhecimento e eu até ouso dizer, parece mais poderoso.

— É. — Ele afirma. — Dizem que conhecimento é poder.

— Exatamente. — Concordo. — Ela vai ficar bem. — Tento tranquiliza-lo.

— É que ela tem algumas coisas que não são fáceis. — Diz, porém não explica. — Então, a sua não está pensando em ir para a faculdade assim que concluir?

— Não. — Respondo. — Porém ela já tem tudo planejado. Depois que concluir o ensino médio, vai trabalhar em horário integral durante dois anos, economizar esse dinheiro para quando se mudar e ir para a faculdade com dezenove, quase vinte anos, e estar pronta para qualquer imprevisto financeiro que possa aparecer.

— Caramba. — Ele ri admirado.

— E apesar de não ter dito, sei que tudo isso é para esperar o período que falta para o irmão concluir a faculdade e voltar a tempo para não me deixar só. — Explico.

— Mas, e seu marido? Desculpa a pergunta.

— Nos separamos. — O tom de minha voz muda e eu me odeio por isso.

— Me desculpe. — Ricardo lamenta. — Não quis tocar em alguma ferida.

— Não tem problema. — O tranquilizo, mesmo sentindo o a ferida machucada.

— Você parece ter filhos perfeitos. — Tenta mudar de assunto.

— É. Eu tenho mesmo. — Abre um sorriso enquanto olho para Melissa, que está rindo enquanto mostra algumas coisas para Sammy.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

— É... Por acaso a senhorita teria uma calça moletom cinza que caiba em mim? — Ele quebra o gelo.

O encaro de cima a baixo, analisando, e depois de alguns minutos, percebo que estava olhando para a intimidade dele e balanço a cabeça, me repreendendo.

— É... Acho que sim. Tenho certeza, na verdade. — Caminho até o local e ele me segue, rindo.

Melissa

Sammy está com a sacola, encostada no balcão, apenas esperando seu pai que está acabando de sair do provador.

Ele se aproxima, junto com a minha mãe, que carrega dois cabides com as calças escolhidas.

— Eu já paguei minhas coisas. — Sammy avisa e ele a encara.

— Você tem que economizar para a faculdade. — Repreende. — Para de ser orgulhosa e me deixa comprar algo para você pelo menos uma vez.

— Está bem, papi. — Zoa. — Vou te dá a nota e você faz o pix com o valor da compra.

— Odeio quando me chama de papi. — Ricardo revira os olhos e pega o cartão na carteira.

Eu e minha mãe rimos daquela discussão e ela arruma as calças na sacola.

Fala o preço e ele paga com cartão de crédito.

— Meu pai encheu muito o saco da senhora? — Sammy finge sussurrar para ela, que riu. — É que ele é meio ranzinza as vezes, principalmente quando vai comprar roupas. Nunca gosta de nada.

— Na verdade ele não foi nenhum pouco ranzinza. — Responde, entrando na zueira e fingindo sussurrar também. — E as calças ficaram maravilhosas nele. — Rio ao notar um olhar diferente entre os dois.

Ele riu, balançando a cabeça em sinal de negatividade.

— Muito obrigada, e tenham um boa tarde. — Deseja e olha para fora. — E uma boa noite já que está prestes a anoitecer.

— Por nada. — Ele responde. — E muito obrigada pelo papo da mãe galinha.

Fico confusa e rio quando fala isso. Ela ri e se despedem.

Já tinha acabado de organizar algumas coisas para sairmos e minha mãe aproveitou para fechar o caixa.

Os outros dois funcionários que trabalham com a gente, já tinham limpado o chão e estavam se ajeitando para sair também.

Chegando o horário, todos nós saímos. Viro a placa, indicando que a loja está fechada, porém não tranco já que a patroa sempre fica no escritório mais um pouco.

— Temos que pedalar mais rápido hoje. — Olho para o céu. — Parece que vai chover muito.

— É. Vamos adiantar. — Pegamos as bicicletas e vamos para casa.

Ao chegar, vou tomar um banho e já visto minha roupa de dormir, que é uma camisa enorme que poderia ser usada como vestido, e uma blusa moletom, para amenizar o frio.

Volto para cozinha com a mochila e me sento a mesa enquanto minha mãe prepara a janta.

— Quer ajuda? — Ofereço.

— Não precisa. Pode estudar. — Recusa.

Retiro os materiais da mochila e abro o caderno, na matéria de artes.

Olhava para o nada e pensava no que poderia escrever depois de: “Meu nome é Teodoro Salles Garcia, porém prefiro que me chame de Téo.”

A chuva começou a cair e foi ficando cada vez mais grossa e pesada.

Continuava a escrever e apagar coisas.

Um barulho na porta nos assusta e me faz pular da cadeira.

— A senhora está esperando alguém? — Questiono.

— Não. — Responde, preocupada.

— Mel, sou eu. — Reconheço a voz e corro para abrir a porta. — Oi. — Ele ri.

— O que você está fazendo nessa chuva? — Minha mãe pergunta preocupada. — Entra.

Eu ainda estava paralisada. Não fazia ideia de como Téo sabia meu endereço e o por quê ele estaria na minha casa.

— Eu estava correndo, daí começou a cair um toró na minha cabeça. — Explica. — Me desculpe por incomodar.

— Não se preocupe. — Minha mãe o tranquiliza. — Vou pegar uma roupa seca para você, pode ir até o banheiro para tirar essa roupa e tênis molhados. — Corre até o quarto de Klaus.

— Pode me mostrar onde é o banheiro? — Se vira para mim, que ainda estou em frente a porta, o encarando.

— Claro. — Caminho até o banheiro e ele a segue. — Aqui. — Abro a porta e me afasto, dando passagem.

Téo entra e tira a camisa, ainda com a porta aberta, e eu me viro, rápido.

— Aqui. — Minha mãe me entrega uma toalha, junto com uma camisa e um short de Klaus e corre. — Tenho que olhar a comida que está no fogo.

Entrego a toalha para Téo, que se esconde atrás da porta, porém não a fecha totalmente. Tira sua roupa de baixo o coloca sobre a pia.

Ergo a mão com as roupas na porta para que ele pegue, porém sinto meu braço sendo puxado e a porta sendo aberta.

— O que você está fazendo? — Pergunto, encarando os olhos verdes que estavam olhando os meus, enquanto ele me prendia com o braço em minha cintura.

— Eu só... — Trás a mão até meu rosto de e eu sinto ele corar.

O frio que eu estava sentindo já tinha se transformado em um leve calor.

Me afasto, rápido e bato na porta, desajeitada.

— Tudo bem? — Ele se preocupa.

— Aham. — Entrego a roupa e abro mais a porta. Pego suas roupas molhadas. — Eu vou colocar isso aqui na máquina, para secar. — Sai, antes dele agradecer.

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