
Renascimento em Seus Braços
Capítulo 3
O silêncio no salão era tão denso que podia ser cortado com uma faca.
Ninguém se movia. Ninguém respirava.
A música havia parado. As conversas cessaram. O único som era o zumbido distante de um lustre de cristal.
Todos os olhares estavam fixos em João Carlos, ajoelhado, e em Maria Clara, paralisada na frente dele.
O rosto de Ana Lúcia passou do choque para a fúria. A máscara de noiva feliz se despedaçou, revelando a feiura por baixo. Seus lábios se contorceram em uma careta de incredulidade e ódio.
"Você ficou louco?", ela sibilou, a voz estridente cortando o silêncio. "João Carlos, levante-se daí agora! O que diabos você pensa que está fazendo?"
Mas João Carlos não a ouvia. Seus olhos estavam fixos em Maria Clara.
Maria Clara tremia dos pés à cabeça. Seu rosto, normalmente pálido, estava agora completamente sem cor. Ela olhava para João Carlos como se ele fosse um fantasma. Seus lábios se abriram, mas nenhum som saiu. Era uma mistura de medo, confusão e uma faísca de esperança tão frágil que parecia que iria se apagar a qualquer momento.
Ela deu um passo para trás, instintivamente.
"Eu... eu não entendo", ela gaguejou, a voz tão baixa que era quase inaudível.
Suas mãos foram ao peito, como se tentasse conter o coração que batia descontroladamente. Para ela, aquilo só podia ser uma brincadeira cruel, uma humilhação pública. João Carlos nunca havia olhado para ela duas vezes. Ele era o noivo de sua irmã, o amor de sua vida, completamente inalcançável.
A proposta dele não fazia sentido. Era um pesadelo. Ou um sonho do qual ela seria cruelmente acordada.
João Carlos viu a confusão e o pânico nos olhos dela. Ele sabia que precisava ser mais claro, mais firme. Ele não podia deixar que a dúvida a consumisse.
Ele pegou a mão dela. Estava gelada.
"Maria Clara, olhe para mim", ele disse, sua voz suave, mas cheia de uma convicção inabalável. "Eu não estou brincando. Eu não enlouqueci. Pela primeira vez na minha vida, eu estou vendo com clareza."
Ele se levantou, mas não soltou a mão dela. Ele se virou para a multidão atônita, para os pais chocados, para a noiva furiosa.
"Eu repito", ele declarou, sua voz ecoando pelo salão. "O casamento com Ana Lúcia está cancelado. Eu, João Carlos, peço a mão de Maria Clara em casamento. Aqui e agora."
A repetição da declaração quebrou o feitiço. O salão explodiu em murmúrios.
"Ele pirou de vez!"
"Coitada da Ana Lúcia..."
"Mas por que a Maria Clara? Ela mal fala!"
Ana Lúcia, recuperada do choque inicial, marchou até eles. Seu rosto estava vermelho de raiva.
"João Carlos, já basta dessa palhaçada!", ela gritou, tentando arrancar a mão de Maria Clara da dele. "Você vai se casar comigo! Nossas famílias arranjaram isso! Você me ama!"
Pedro também se aproximou, colocando a mão no ombro de João Carlos, tentando parecer conciliador, mas seus olhos brilhavam com uma mistura de pânico e raiva.
"Irmão, você bebeu? Vamos conversar lá dentro. Você está estressado com o casamento, é normal", ele disse, tentando arrastar João Carlos para longe.
Era o momento decisivo. A pressão de sua noiva, de seu irmão, de toda a sociedade representada naquela sala. Na sua vida passada, ele teria cedido a essa pressão por muito menos.
Mas não mais.
João Carlos se livrou da mão de Pedro com um movimento brusco.
"Não toque em mim", ele disse, a voz baixa e perigosa.
Ele se virou para Ana Lúcia. Pela primeira vez, ele a olhou não como o amor de sua infância, mas como a mulher ambiciosa e egoísta que ela era.
"Amar você?", ele riu, um riso seco e sem humor. "Ana Lúcia, existe um ditado que diz que cavalo dado não se olha os dentes. Mas eu não sou um presente para você inspecionar e aceitar por conveniência."
O rosto dela ficou pálido.
"Eu não vou me casar com você. Não hoje. Não nunca", ele declarou, cada palavra um prego no caixão do passado deles. "Minha escolha é Maria Clara. E é a única escolha que importa para mim."
Ele se virou novamente para Maria Clara, que ainda o olhava com olhos arregalados. Ele sorriu para ela, um sorriso genuíno, o primeiro em mais de cinquenta anos.
"Você aceita, Maria Clara?"
Você pode gostar





