
Renascido da Fria Traição Deles
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elisa Monteiro:
Caio cumpriu sua palavra. No dia seguinte, fui convocada à sala da Reitora.
A Reitora Albuquerque era uma mulher severa e pragmática, na casa dos cinquenta anos, com olhos penetrantes que pareciam ver através de você. Caio estava sentado na cadeira em frente à sua mesa, parecendo calmo e composto, como se fosse o dono do lugar. Ele provavelmente achava que era. A família Medeiros era uma grande doadora da universidade.
"Senhorita Monteiro", começou a Reitora, sua voz neutra. "O Sr. Medeiros trouxe algumas... informações preocupantes à minha atenção. Ele alega que você está aqui sob falsas pretensões."
Encarei seu olhar diretamente, recusando-me a ser intimidada. "Com todo o respeito, Reitora, minha admissão foi baseada no meu histórico acadêmico e minhas mensalidades estão pagas em dia. O que o Sr. Medeiros alega é um assunto pessoal, não universitário."
Caio zombou. "Um assunto pessoal? Elisa, você abandonou nosso casamento. Você quebrou um contrato legalmente vinculativo entre duas das famílias mais poderosas do estado. Você acha que pode simplesmente se esconder em uma sala de aula e fingir que isso não aconteceu?"
"Não é uma sala de aula, Caio. É a minha vida", eu disse, minha voz baixa e firme. "Uma vida que finalmente estou escolhendo para mim. E, para constar, o contrato não foi quebrado. Foi cumprido. Você está casado com a Carla. Ela é sua esposa."
A palavra "esposa" o atingiu como um golpe físico. Sua compostura rachou, e um lampejo de raiva crua cruzou seu rosto. "Aquilo foi um truque. Um truque infantil e rancoroso. Você sabe que ela nunca deveria ser..."
"Ela nunca deveria ser sua amante? Ela nunca deveria ser a pessoa que você amava enquanto estava noivo de mim? Ela nunca deveria ser a pessoa que você salvou enquanto me deixava ser ferida?" As palavras saíram, mais frias e afiadas do que eu pretendia.
Caio ficou em silêncio, o maxilar travado.
A Reitora Albuquerque olhou de mim para ele, sua expressão indecifrável. Ela uniu os dedos sobre a mesa. "Sr. Medeiros, embora as contribuições de sua família para esta universidade sejam muito apreciadas, não nos envolvemos nas disputas domésticas de nossos alunos. O desempenho acadêmico da Senhorita Monteiro é impecável. A menos que você possa fornecer provas de má conduta acadêmica, não há nada que eu possa fazer."
"Eu posso cortar nosso financiamento", ameaçou Caio, sua voz baixando para um sussurro perigoso.
Os olhos da Reitora se estreitaram. "Você poderia. E então a imprensa teria uma história muito interessante para relatar: 'Herdeiro Bilionário Caio Medeiros Tenta Expulsar Ex-Noiva da Universidade Após Casar-se com a Prima Dela'. Como você acha que o conselho de diretores reagiria a essa manchete?"
O rosto de Caio ficou branco de fúria. Ele estava encurralado, seu poder tornado inútil pela lógica simples e pela ameaça de uma péssima publicidade. Ele se levantou tão abruptamente que sua cadeira arranhou o chão.
Ele me fuzilou com o olhar, seus olhos prometendo retaliação. "Isso não acabou."
Então ele saiu da sala, batendo a porta atrás de si.
Soltei um suspiro que não percebi que estava segurando. Minhas mãos tremiam.
"Obrigada, Reitora Albuquerque", eu disse, minha voz um pouco trêmula.
Ela me deu um sorriso pequeno e raro. "Concentre-se em seus estudos, Senhorita Monteiro. Parece que você tem um futuro brilhante pela frente, com ou sem o nome Medeiros."
Caio não desistiu. Ele não podia usar sua influência para me expulsar, então recorreu ao assédio. Começou a aparecer no campus, esperando por mim do lado de fora das minhas aulas. Ele tentava falar comigo, seu tom mudando descontroladamente de suplicante para exigente. Ele enviava buquês de flores extravagantes para o meu apartamento com bilhetes implorando para que eu voltasse. Ele até fez minha mãe me ligar, a voz dela um coquetel de decepção e ameaças veladas sobre me cortar financeiramente.
Eu ignorei tudo. Mudei meu caminho, joguei as flores no lixo e bloqueei o número da minha mãe. Despejei toda a minha energia nos estudos, encontrando consolo no mundo limpo e previsível das teorias econômicas e estudos de caso.
Foi no meu seminário avançado de microeconomia que conheci Felipe Campos.
Ele não era como Caio. Não era chamativo ou esmagadoramente bonito daquela forma polida e corporativa. Ele era quieto, centrado, com olhos quentes e inteligentes e um sorriso que sempre os alcançava. Ele era um estudante de doutorado, o monitor da turma, e era brilhante. Ele conseguia explicar a complexa teoria de precificação por arbitragem de uma forma que a fazia parecer simples, intuitiva.
Ele começou a me notar, não pelo meu sobrenome, que ele não conhecia, mas pelas perguntas que eu fazia na aula. Ele ficava por perto depois do seminário, e nós entrávamos em conversas fáceis sobre tudo, desde teoria dos jogos até o café horrível da biblioteca da universidade.
Ele vinha de uma família modesta, filho de um professor de história do ensino médio e de uma bibliotecária. Ele tinha três empregos para pagar seu doutorado. Ele era gentil, genuinamente gentil, sem nenhum motivo oculto. Ele me via, apenas Elisa, uma estudante que amava aprender. Era uma sensação nova.
Uma noite, eu estava saindo do meu trabalho de meio período como garçonete em uma lanchonete perto do campus. Eu estava exausta, meus pés doíam e eu tinha uma prova para estudar. Ao sair para o ar frio da noite, eu o vi sentado em um banco do outro lado da rua, um livro no colo.
Era o Felipe.
Ele ergueu os olhos quando eu saí, e um sorriso lento se espalhou por seu rosto. Ele fechou o livro e atravessou a rua.
"Eu estava só passando por aqui", disse ele, embora ambos soubéssemos que era mentira. A lanchonete ficava a quilômetros do apartamento dele.
"Perseguindo sua aluna favorita, Campos?", brinquei, um sorriso genuíno tocando meus lábios pela primeira vez em semanas.
"Culpado", ele admitiu sem vergonha. "Imaginei que você estaria com fome. E eu não queria comer sozinho." Ele apontou para a lanchonete de onde eu acabara de sair. "Ouvi dizer que a torta deles é horrível, mas a companhia é excelente."
Meu estômago roncou na hora, um protesto alto e embaraçoso. Senti minhas bochechas corarem.
Felipe apenas riu, um som quente e gentil. "Vou interpretar isso como um sim."
Hesitei por apenas um segundo. A sombra de Caio ainda pairava, uma ameaça constante de caos. Mas olhando para Felipe, para seu rosto aberto e honesto, senti uma sensação de paz que não percebia que estava faltando.
"Tudo bem, Campos", eu disse, minha voz mais suave do que eu esperava. "Mas você paga. Acabei de passar oito horas servindo gente como você."
Seu sorriso se alargou. "Fechado."
Voltamos para dentro e nos sentamos em uma cabine perto da janela. A lanchonete estava quieta, na calmaria da madrugada. Conversamos por horas, muito depois de a torta ter acabado. Ele me contou sobre seu sonho de se tornar professor, de tornar a economia acessível a todos. Eu lhe contei sobre minha paixão por estratégia de negócios, omitindo cuidadosamente as partes sobre minha família.
Com ele, eu não era Elisa Monteiro, a herdeira fugitiva. Eu era apenas Elisa. E era mais do que suficiente. Quando ele me acompanhou até em casa mais tarde naquela noite, um silêncio confortável se instalou entre nós. Na porta do meu prédio, ele parou.
"Eu sei que você está passando por... alguma coisa", disse ele, seu olhar sério. "Você não precisa me contar o que é. Mas quero que saiba que você não está sozinha nisso."
Suas simples palavras de apoio, oferecidas sem expectativa de nada em troca, eram mais valiosas do que todo o dinheiro dos Medeiros no mundo. Eram uma tábua de salvação.
Antes que eu pudesse me impedir, inclinei-me e dei um beijo rápido e suave em sua bochecha. "Obrigada, Felipe."
Entrei correndo antes que ele pudesse ver o rubor subindo pelo meu pescoço, meu coração batendo um pouco mais rápido do que tinha o direito.
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