
Renascida: Um Novo Começo Sem Você
Capítulo 2
A dor de cabeça latejava com força, um martelo batendo dentro do meu crânio.
Abri os olhos lentamente e a luz do sol que entrava pela fresta da cortina grossa feriu minha visão. O quarto era desconhecido, luxuoso demais, com móveis escuros e um cheiro de sândalo e dinheiro.
Então, eu o vi.
Ricardo estava parado ao lado da cama, já vestido em um terno caro, perfeitamente alinhado. Ele me olhava de cima, a expressão em seu rosto era uma mistura de desprezo e irritação.
"Finalmente acordou" , ele disse, a voz fria como o mármore do chão.
Sentei-me na cama, puxando o lençol de seda para cobrir meu corpo. A memória da noite passada era um borrão de música alta, champanhe e uma dor antiga que me levou a cometer um erro estúpido. Um erro que eu tinha jurado a mim mesma, nesta nova vida, que nunca mais cometeria.
"O que aconteceu?" , perguntei, minha voz saindo rouca.
Ele soltou uma risada curta, sem humor algum.
"Não se faça de desentendida, Maria Eduarda. Você conseguiu o que queria."
Franzi a testa, a confusão genuína. Na minha vida passada, eu teria ficado em êxtase, analisando cada palavra dele em busca de um pingo de afeto. Mas agora, eu só sentia um cansaço profundo.
"Eu não queria nada" , afirmei, olhando diretamente para ele.
"Claro que não" , ele zombou. "Você me seguiu até aquela festa, se embebedou e se jogou nos meus braços. Um plano bem executado."
Ele se inclinou, sua presença era esmagadora.
"Já que a situação chegou a este ponto, e para evitar um escândalo que não beneficiaria nenhuma de nossas famílias, eu vou me casar com você. Considere isso uma conveniência. Mas não espere nada de mim. Você é a culpada por isso."
Eu o encarei, atônita. Casamento? Ele estava me propondo casamento como se estivesse me sentenciando a uma punição. A antiga Maria Eduarda teria chorado de alegria, teria aceitado a migalha que ele oferecia.
Mas eu não era mais ela.
"Não" , eu disse, a palavra saindo firme e clara.
Ele pareceu surpreso pela primeira vez.
"O que você disse?"
"Eu disse não. Eu não vou me casar com você."
Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido. Ele não conseguia entender. Para ele, eu ainda era a garota boba e obcecada que o perseguia por toda parte.
"Pare de fingir, Maria Eduarda. Você passou anos sonhando com isso."
"As pessoas mudam, Ricardo."
Ele ignorou minha negação completamente. Sua mão agarrou meu ombro e ele puxou o lençol para baixo, expondo minha pele. Havia marcas vermelhas no meu pescoço e clavícula, provas físicas da noite anterior.
"Isso aqui diz o contrário" , ele disse, a voz dura, apontando para as marcas. "Você planejou isso. Você me encurralou."
A humilhação queimou em meu rosto, mas não pelas razões que ele pensava. Era pela minha estupidez de ter cedido a um momento de fraqueza, de ter permitido que ele me tocasse.
"Isso não significa nada" , falei, tentando me cobrir novamente.
Ele segurou meu pulso, sua força era inquestionável.
"Significa tudo. Significa que você vai arcar com as consequências dos seus atos."
A arrogância dele era sufocante. Ele realmente acreditava que eu ainda estava a seus pés, que um casamento sem amor com ele era o prêmio máximo que eu poderia desejar. Ele não via a mulher renascida na sua frente, apenas o fantasma da que ele sempre desprezou.
"Você não enten…"
Minha tentativa de explicar foi cortada pelo som agudo de um celular tocando. O dele.
Ricardo me soltou imediatamente, como se meu toque o queimasse. Ele pegou o aparelho na mesa de cabeceira. O nome na tela brilhava: "Isabela" .
A expressão dele mudou no mesmo instante. A dureza em seus olhos derreteu, sendo substituída por uma suavidade que eu nunca tinha visto direcionada a mim. Ele atendeu a chamada, a voz era outra.
"Bom dia, meu amor. Dormiu bem?"
Uma pausa. Ele ouvia o que a mulher do outro lado da linha dizia, e um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
"Claro que senti sua falta. O tempo todo."
Ele se virou de costas para mim, andando pelo quarto enquanto falava com ela, me tratando como se eu fosse invisível, um objeto sem importância no cenário. A indiferença dele era mais dolorosa do que qualquer insulto.
Eu aproveitei a distração para levantar e procurar minhas roupas, espalhadas pelo chão. Vesti-me rapidamente, o corpo tremendo um pouco, não de frio, mas de uma raiva gelada. Ele continuava a conversa, a voz cheia de um carinho que me era completamente estranho.
"Não se preocupe com nada. Vou resolver um pequeno problema aqui e já estou a caminho para te buscar. Sim, vamos tomar café da manhã no nosso lugar preferido."
Ele desligou e se virou para mim. O calor em seu rosto desapareceu, a máscara de frieza voltou.
"Vista-se e saia" , ele ordenou, o tom ríspido. "Tenho mais o que fazer."
Eu já estava vestida. Faltava apenas encontrar minha bolsa e meus sapatos.
"Não se preocupe" , respondi, a voz neutra. "Já estou de saída."
Ele me observou por um segundo, talvez esperando lágrimas, um escândalo, qualquer reação que confirmasse sua visão sobre mim. Mas eu apenas o encarei com indiferença.
Ele se abaixou, pegou minha bolsa do chão e a jogou sobre a cama. Um pequeno grampo de cabelo caiu dela. Ele o pegou com dois dedos, como se pegasse algo sujo, e o jogou junto com a bolsa.
"Leve tudo. Não quero vestígios seus aqui."
Enquanto seus lábios pronunciavam essas palavras cruéis, minha mente ainda processava a ternura em sua voz quando falava com Isabela. Aquele contraste era a confirmação final. O amor que eu senti por ele na minha vida passada era uma piada, uma obsessão unilateral por um homem que nunca me enxergou.
Meu celular vibrou dentro da bolsa. Eu o peguei. Era uma mensagem da minha mãe.
"Filha, fiz seu bolo de cenoura preferido. Estamos te esperando para o café. Com amor, mamãe."
Aquele simples texto foi como um farol na escuridão. Um lembrete de onde estava o amor verdadeiro, o porto seguro.
Olhei para Ricardo uma última vez. Ele já estava me dando as costas novamente, ajustando a gravata no espelho, impaciente para que eu fosse embora e ele pudesse correr para sua verdadeira amada.
Não disse mais nada. Peguei minha bolsa, segurei meus sapatos de salto alto na mão e saí do quarto. Caminhei descalça pelo corredor imenso, o mármore gelado sob meus pés era um choque bem-vindo, me ajudando a despertar completamente deste pesadelo.
Ao fechar a porta daquele apartamento atrás de mim, eu não senti tristeza.
Senti liberdade.
E uma sede de vingança começou a brotar em meu peito. Ele pagaria pelo desprezo. Ele pagaria por tudo.
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