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Capa do romance Renascida para Amar e Vingar

Renascida para Amar e Vingar

Dona Aurora sempre mascarou seus furtos com sorrisos, e eu aceitei o silêncio pela paz. No entanto, sua ganância destruiu minha vida ao incriminar meu irmão, Pedro, pelo roubo de chuteiras valiosas. Traída pelo meu noivo e humilhada publicamente, morri em desespero após perdermos tudo. Agora, despertei três semanas antes da tragédia. Com esta segunda chance, não serei mais vítima. Vou usar minha fúria para antecipar cada golpe e destruir quem me arruinou.
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Capítulo 3

A memória daquela vida era uma ferida que não fechava. Ela se abria nos momentos mais banais.

Enquanto eu cortava os legumes para o jantar, o cheiro da cebola me transportou de volta.

Lembrei-me de todas as pequenas coisas que Dona Aurora roubava.

Não era apenas dinheiro.

Era o sabonete novo que eu comprava, que sumia antes mesmo de eu usar.

Era a blusa que eu mais gostava, que um dia desaparecia do meu armário para reaparecer meses depois em um bazar de caridade onde ela "ajudava".

Eram os brinquedos de Pedro. Pequenos carrinhos, bonecos de jogadores de futebol. Ela os pegava e dava para os filhos das vizinhas, dizendo que eram presentes, para posar de tia generosa.

E eu, a Lívia daquela vida, suportava tudo.

Eu trabalhava em dois empregos para sustentar a casa depois que nossos pais morreram. Eu só queria paz. Eu só queria proteger o Pedro.

Eu comprava dois sabonetes, um para mim e um para ela "pegar". Eu escondia minhas roupas preferidas. Eu comprava brinquedos repetidos para o Pedro, para que ele não sentisse falta.

Eu cedia. Eu me sacrificava. E achava que isso era ser a "adulta responsável".

"Você precisa entender, Lívia. A tia Aurora teve uma vida difícil."

Era o que Marcos, meu noivo na época, sempre dizia.

Ele estava sentado na mesma cadeira da cozinha onde agora repousava minha bolsa. A imagem dele era tão nítida. Bonito, charmoso, e completamente cego pela própria conveniência.

"Ela só pega coisinhas sem valor. Não vale a pena criar uma briga por causa disso. Seja a pessoa maior."

Eu lembro de ter gritado com ele uma vez, depois de descobrir que ela tinha pegado o dinheiro que eu juntei por três meses para comprar a primeira chuteira de marca para o Pedro.

"Não são 'coisinhas sem valor', Marcos! É o meu dinheiro! É o sonho do meu irmão!"

Dona Aurora, claro, negou. Chorou. Disse que eu a estava caluniando. Disse que eu era ingrata, que eu não via o quanto ela se esforçava.

"Eu só queria fazer um bolo especial para o Pedrinho", ela soluçou para o meu avô. "Peguei o dinheiro emprestado. Ia devolver assim que recebesse minha aposentadoria."

Uma mentira deslavada. Ela sempre tinha uma desculpa, uma justificativa que a pintava como uma mártir.

E Marcos, meu noivo, ficou do lado dela.

"Lívia, não precisava humilhá-la na frente de todo mundo. Você podia ter falado comigo antes. Nós daríamos um jeito."

Ele me fez sentir culpada. Culpada por defender o que era meu. Culpada por expor uma ladra.

Eu cedi. Pedi desculpas. A paz voltou, mas era uma paz podre, construída sobre a minha humilhação.

A faca escorregou e cortou meu dedo. O sangue vermelho vivo pingou na tábua de cortar.

A dor me trouxe de volta ao presente. Mas a memória mais sombria já tinha sido destravada.

O evento beneficente da escolinha de futebol do Pedro.

O auge do sonho dele. O fundo do meu poço.

A escolinha organizava um leilão todo ano para ajudar crianças carentes a continuarem no esporte. Naquele ano, eles conseguiram o prêmio máximo: um par de chuteiras autografadas por um jogador famoso, o maior ídolo de Pedro.

As chuteiras ficavam em uma redoma de vidro, brilhando sob as luzes. Pedro não conseguia tirar os olhos delas.

"Imagina, Lívia. Ter uma chuteira que ele usou."

O leilão seria o ponto alto da noite. Todo o dinheiro arrecadado seria para bolsas de estudo. Pedro, por ser um dos melhores alunos, era um forte candidato a ganhar uma.

A noite estava perfeita. Eu estava orgulhosa, vendo meu irmão radiante. Marcos estava ao meu lado, sorrindo para as fotos. Dona Aurora e Seu Jorge também estavam lá, comendo salgadinhos e elogiando a organização.

Então, o anúncio.

"Senhoras e senhores, infelizmente temos uma notícia terrível. As chuteiras autografadas... foram roubadas."

O pânico se instalou. Cochichos. Olhares desconfiados.

Eu senti um calafrio. Olhei para a minha tia. Ela estava com uma expressão de choque perfeito no rosto. Perfeito demais.

A diretora da escola, muito nervosa, pediu que todos colaborassem com uma revista. Ninguém podia sair.

Começaram a olhar as bolsas.

Eu não estava preocupada. Até que chegaram na nossa mesa.

Um dos seguranças pegou a mochila do Pedro. Ele a abriu.

E lá dentro, enroladas na jaqueta do time, estavam as chuteiras.

O silêncio que se seguiu foi a coisa mais alta que eu já ouvi na vida.

Todos os olhares se viraram para nós. Para o Pedro, cujo rosto perdeu toda a cor. Para mim.

"Eu não peguei!", Pedro gritou, com a voz embargada pelo choro. "Eu juro! Eu não sei como isso foi parar aí!"

Ninguém acreditou. A evidência era clara.

Dona Aurora levou a mão à boca, em um gesto de horror.

"Meu Deus! Pedrinho... como você pôde?"

E então, ela se virou para mim. Seus olhos, que antes eram de uma atriz chocada, agora brilhavam com um triunfo cruel. Um brilho que só eu pude ver.

Naquele momento, eu entendi tudo.

A mochila do Pedro tinha ficado na nossa mesa enquanto ele ia ao banheiro. Tia Aurora tinha ficado "tomando conta".

Ela não só roubou as chuteiras. Ela as plantou na mochila do meu irmão.

Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela agiu.

"Lívia... não me diga que foi você...", ela sussurrou, alto o suficiente para a mesa ao lado ouvir. "Você o obrigou a fazer isso? Pelo amor de Deus, por quê?"

A acusação mudou de alvo. De repente, não era mais sobre um menino que cometeu um erro. Era sobre a irmã mais velha, a guardiã, a responsável. A ladra que usou uma criança inocente.

Era um plano perfeito.

E funcionou.

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