
Renascida: O Jogo Dela
Capítulo 2
Eu renasci.
A dor aguda no meu peito, a sensação de ser esfaqueada pelas costas por aqueles que eu mais amava, tudo isso desapareceu, substituído pela luz suave do abajur ao lado da cama. Eu olhei para minhas mãos, elas não eram as mãos enrugadas de uma mulher de cinquenta anos, mas sim lisas e jovens.
Eu estava de volta. De volta aos meus vinte e poucos anos, na casa que eu ainda dividia com Pedro, meu marido.
A porta do quarto se abriu e Pedro entrou, com um sorriso no rosto que, em minha vida passada, eu achava charmoso, mas que agora só me causava náuseas.
"Lúcia, querida, tenho uma ótima notícia."
Eu me sentei na cama, mantendo meu rosto neutro, esperando.
"Lembra da Sofia, minha amiga de infância? A situação dela não está muito boa, ela precisa de um lugar para ficar por um tempo. Pensei que ela poderia vir morar conosco."
Ah, Sofia. A amiga de infância. Na minha vida passada, essa "amiga de infância" se tornou a amante dele, e juntos, eles me enganaram por décadas. O filho que eu criei com todo o meu amor, que eu considerei meu, era na verdade deles. Eles me fizeram de boba, uma babá gratuita e uma esposa conveniente.
Desta vez, as coisas seriam diferentes.
Um sorriso leve surgiu em meus lábios, um sorriso que pegou Pedro de surpresa.
"Claro, querido. Sem problemas."
Ele piscou, confuso.
"Sério? Você não vai... reclamar?"
Na vida passada, eu fiz um escândalo. Gritei que era nossa casa, que não queria uma estranha morando conosco. Minha reação só o fez me chamar de ciumenta e irracional, e ele a trouxe para casa de qualquer maneira. Minha oposição só serviu para fortalecer a imagem de Sofia como uma vítima indefesa aos olhos dele.
"Por que eu reclamaria?" , eu disse, com a voz calma. "Ela é sua amiga, está passando por dificuldades. É natural que você queira ajudar. Podemos arrumar o quarto de hóspedes para ela."
Pedro me olhou como se estivesse vendo um fantasma. Um alívio imenso tomou conta de seu rosto, seguido por um brilho de presunção. Ele obviamente pensou que eu finalmente tinha me tornado a esposa submissa e compreensiva que ele sempre quis.
"Que bom, Lúcia! Eu sabia que você entenderia. Você é a melhor esposa do mundo."
Ele se aproximou para me abraçar, mas eu me levantei da cama, evitando seu toque.
"Vou ver o que precisa ser feito no quarto de hóspedes."
Enquanto eu caminhava para fora do quarto, a memória da minha vida passada me atingiu como uma onda. A dor da traição, a humilhação de descobrir que meu casamento era uma farsa, a agonia de saber que o menino que eu amava como filho era um lembrete constante da mentira em que eu vivia. Eu passei décadas sofrendo em silêncio, aguentando os olhares de pena dos outros, a arrogância de Sofia e a indiferença de Pedro.
Tudo por amor. Um amor que nunca existiu.
Desta vez, não haveria amor. Haveria apenas um jogo. E eu seria a jogadora, não a peça.
Cheguei ao quarto de hóspedes. Estava empoeirado, cheio de caixas velhas. Na minha vida passada, eu me recusei a limpá-lo, e Pedro me forçou a fazê-lo de qualquer maneira, enquanto Sofia assistia com um sorriso vitorioso.
Agora, eu abri as janelas, peguei um pano e comecei a limpar. Cada movimento era metódico, calculado. Eu não estava limpando o quarto para Sofia, eu estava preparando o palco.
Pedro apareceu na porta, observando-me por um momento.
"Ela chega amanhã. Tente deixar tudo pronto até lá."
A casualidade em sua voz era a mesma de sempre, a mesma indiferença com meu esforço e meu tempo. Ele não ofereceu ajuda, apenas deu uma ordem.
Eu me virei e sorri para ele.
"Pode deixar, querido."
Ele sorriu de volta, satisfeito, e saiu.
Sozinha no quarto, eu parei por um momento e olhei para o calendário na parede. A data confirmou minhas suspeitas. Eu havia renascido exatamente um dia antes da chegada de Sofia. O dia em que a minha longa e lenta tortura começou na vida passada.
Desta vez, não seria uma tortura. Seria um espetáculo. E eu queria um lugar na primeira fila para ver se Pedro e sua "amiga de infância" conseguiriam ter um final feliz sem mim como seu obstáculo e bode expiatório.
Eu queria dar a eles tudo o que eles achavam que queriam. E eu ia assistir enquanto eles se destruíam com isso.
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