
Renascida: O Jogo Dela
Capítulo 3
No dia seguinte, Sofia chegou.
Ela era exatamente como eu me lembrava: bonita de um jeito delicado, quase frágil, com olhos grandes e expressivos que ela usava com maestria para parecer inocente e vulnerável. Ela usava um vestido simples, mas caro, e carregava uma única mala de grife.
Pedro a recebeu na porta com um abraço caloroso que durou um pouco mais do que o necessário para uma simples "amiga" .
Eu os observei da sala de estar, secando uma xícara de café.
Sofia me viu e seu sorriso vacilou por um segundo antes de se alargar novamente. Ela se virou para Pedro.
"Pedro, você não me disse que tinha contratado uma empregada nova."
A voz dela era doce como mel, mas a ofensa era clara.
Na minha vida passada, essas palavras me encheram de raiva e humilhação. Eu gritei com ela, disse que eu era a esposa, a dona da casa. A briga que se seguiu só fez Pedro me repreender por ser rude com a convidada deles.
Desta vez, eu apenas sorri.
Antes que eu pudesse responder, Pedro, para minha surpresa, pareceu levemente constrangido.
"Sofia, esta é a Ana Lúcia. Minha esposa."
Sofia arregalou os olhos em uma demonstração teatral de choque e vergonha.
"Oh, meu Deus! Me desculpe! Ana Lúcia, por favor, me perdoe. É que você... você estava limpando... eu não quis ofender."
Ela se aproximou de mim, com os olhos já se enchendo de lágrimas. Era uma performance perfeita. A mulher arrependida, a convidada humilde. Eu sabia que cada lágrima era uma mentira. Ela sabia exatamente quem eu era. O insulto foi deliberado, um teste para ver como eu reagiria, para estabelecer seu lugar na casa.
"Tudo bem" , eu disse, com uma calma que a desarmou. "Acontece. Pode me chamar de Lúcia, se preferir."
Ela me olhou, surpresa com a minha falta de reação. As lágrimas em seus olhos secaram tão rápido quanto apareceram.
"Você é tão gentil" , disse ela, forçando um sorriso. "Pedro sempre me disse que você era uma pessoa maravilhosa."
Pedro, que tinha assistido a tudo com uma expressão tensa, finalmente relaxou. Ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro.
"Viu? Eu disse que vocês se dariam bem. Lúcia, obrigado por ser tão compreensiva."
Havia uma nota de surpresa genuína em sua voz. Ele realmente esperava uma briga. Ele contava com isso. Minha calma estava estragando o roteiro dele.
"Eu vou para o meu quarto desfazer as malas" , disse Sofia, pegando sua mala.
"Deixa que eu levo para você" , disse Pedro, prontamente.
"Não precisa se incomodar" , eu disse, pegando a alça da mala antes que ele pudesse. "Eu mostro o quarto para ela. Você deve estar cansado do trabalho, querido. Por que não descansa um pouco?"
Eu me virei para Sofia com um sorriso.
"Venha, é por aqui."
Levei-a até o quarto de hóspedes impecavelmente limpo. Ela olhou ao redor, uma ponta de decepção em seu rosto. Provavelmente esperava encontrar um cômodo sujo e bagunçado para poder reclamar com Pedro.
"Espero que goste" , eu disse. "Se precisar de alguma coisa, é só pedir."
"Obrigada, Lúcia" , disse ela, o nome saindo de seus lábios com um esforço visível.
Eu a deixei sozinha e voltei para a sala. Pedro estava sentado no sofá, parecendo pensativo.
"Você está bem?" , ele perguntou.
"Estou ótima. Por que não estaria?"
"É que... você está diferente. Mais calma."
"Estou apenas cansada de brigar por coisas pequenas, Pedro. A vida é muito curta."
Essa resposta pareceu satisfazê-lo. Ele sorriu, aliviado.
"Sofia vai precisar de ajuda com a janta" , ele disse, já voltando ao seu estado normal de egoísmo. "Ela não está acostumada a cozinhar."
"Ah, é mesmo?" , eu disse, pegando minha bolsa. "Que pena. Eu tenho um compromisso agora, preciso sair. O jantar fica por sua conta hoje. Tenho certeza de que você e a Sofia conseguem se virar."
Eu saí de casa antes que ele pudesse protestar, deixando-o sozinho com sua "amiga de infância" e a responsabilidade de alimentá-la. Um pequeno passo, mas foi a primeira vez em anos que eu o deixei com uma tarefa doméstica.
Na rua, respirei fundo o ar fresco da noite. A liberdade tinha um gosto bom. E eu estava apenas começando a saboreá-la.
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