
Renascida das Cinzas da Dor
Capítulo 2
"Sofia, eu já decidi por nós," disse Lucas Silva, com aquele sorriso charmoso que eu conhecia desde a infância.
Ele estava sentado na minha cama, no meu quarto pequeno e abarrotado de livros, folheando distraidamente um dos meus manuais de direito. O sol da tarde entrava pela janela, iluminando a poeira que dançava no ar e o brilho nos seus cabelos castanhos.
"Nós dois vamos para a Universidade Federal de Minas Gerais. É uma boa universidade, e o mais importante é que estaremos juntos. Já imaginei tudo, vamos alugar um apartamento perto do campus."
Senti uma pontada de hesitação.
"Mas Lucas, e a USP? A bolsa de estudos... eu me esforcei tanto por ela."
A Universidade de São Paulo era o meu sonho, a melhor faculdade de direito do país, e a bolsa integral era a minha única chance de frequentá-la. Minha mãe, Dona Clara, uma costureira que trabalhava dia e noite, não teria como pagar por uma universidade daquele calibre.
Lucas fechou o livro com um baque suave e pegou minha mão. Seu toque era quente e familiar, mas algo em seu olhar parecia diferente.
"Sofi, sejamos realistas. A vida em São Paulo é cara, mesmo com a bolsa. E você ficaria sozinha. Em Minas, estaremos juntos, eu posso te ajudar. Meus pais concordaram. Pense nisso, será o nosso futuro."
Seu tom era tão convincente, tão cheio de uma certeza que me desarmava. Talvez ele estivesse certo. Talvez a solidão em uma cidade gigante fosse um preço alto demais a pagar por um sonho.
Naquela noite, depois que Lucas foi embora, uma inquietação me manteve acordada. Abri meu notebook, sem um propósito claro, e comecei a navegar em uma rede social popular entre os estudantes. Foi então que eu vi. Uma foto postada por um amigo em comum. Era uma festa de comemoração. No centro da imagem, sorrindo e abraçada a um grupo de pessoas, estava Bruna Costa, a garota mais popular da nossa escola. A legenda dizia: "Parabéns, Bruna! Futura advogada da USP! Comemorando com a galera e o futuro calouro de Engenharia, Lucas Silva!"
Meu sangue gelou.
Lucas Silva. Futuro calouro da USP.
Li a frase de novo e de novo. A tela do notebook brilhava na escuridão do meu quarto, e as palavras pareciam queimar meus olhos. Não podia ser. Era um engano, um erro de digitação. Lucas tinha acabado de me dizer, com toda a convicção do mundo, que iria para Minas Gerais. Comigo.
No dia seguinte, encontrei Lucas perto da escola. Tentei manter a voz casual, um desafio quase impossível com o coração batendo descontrolado no peito.
"Ei, Lucas. Eu estava pensando... você tem certeza sobre Minas? Ouvi dizer que o curso de Engenharia da USP é incrível este ano."
A mudança em sua expressão foi instantânea. O sorriso desapareceu, substituído por uma carranca de irritação.
"Por que você está falando sobre isso agora, Sofia? Já não tínhamos decidido?"
Sua voz era ríspida, defensiva.
"Foi só um comentário," eu disse, recuando. "Não precisa ficar bravo."
"Eu não estou bravo," ele retrucou, o que era uma mentira óbvia. "Só estou cansado dessa sua indecisão. Eu estou tentando construir um futuro para nós e você fica questionando tudo. Esqueça a USP, ok? A nossa vida vai ser em outro lugar."
A forma como ele disse "nossa vida" soou oca, falsa. A suspeita dentro de mim se transformou em uma certeza dolorosa.
Ele não esperou por uma resposta. Percebendo que eu ainda estava paralisada pela dúvida, ele agiu com uma velocidade assustadora. Ele pegou meu notebook da minha mochila, abriu-o sobre um banco de praça e seus dedos voaram pelo teclado.
"O que você está fazendo?" perguntei, a voz trêmula.
"Estou te ajudando a parar de pensar demais," ele disse, sem me olhar. "O prazo para recusar a bolsa da USP e confirmar a matrícula em outra instituição termina hoje. Estou resolvendo isso para você."
Eu assisti, paralisada, enquanto ele navegava pelas páginas dos portais universitários. Ele digitou meu CPF, minha senha – ele sabia todas as minhas senhas – e com alguns cliques, um aviso apareceu na tela: "Sua bolsa de estudos para a Universidade de São Paulo foi oficialmente recusada."
Um sentimento de impotência me invadiu. Era como assistir a um ladrão roubar meu futuro bem na minha frente.
"Pronto," ele disse, fechando o notebook e o colocando de volta na minha mochila com uma satisfação perturbadora. "Agora está decidido. Sem mais dúvidas."
Ele me deu um beijo rápido na bochecha e se levantou.
"Preciso ir. Tenho que encontrar a Bruna para ajudá-la com umas coisas da matrícula dela. Nos falamos mais tarde."
Bruna. O nome saiu de seus lábios com uma naturalidade que me causou náuseas. Ele se virou e foi embora, me deixando sozinha no banco da praça, com o peso de uma decisão que não era minha esmagando meus ombros. Minutos depois, meu celular vibrou. Era uma notificação da mesma rede social. Um novo post, desta vez da própria Bruna Costa. Era uma foto dela e de Lucas, sorrindo, em frente a um prédio com o logotipo da USP. A legenda era: "Oficialmente matriculados! São Paulo, aqui vamos nós! Obrigada ao melhor namorado do mundo por tornar tudo isso possível!"
Namorado.
A palavra ecoou na minha cabeça. Ele não estava apenas mentindo sobre a universidade. Ele estava mentindo sobre tudo.
Com as mãos tremendo, disquei o número de Dona Isabel, a mãe de Lucas. Ela e minha mãe eram amigas há anos.
"Alô, Sofia, querida! Como você está?" a voz dela era sempre calorosa.
"Dona Isabel, estou bem. Só uma dúvida rápida... a senhora sabe para qual universidade o Lucas decidiu ir?"
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Ué, querida, ele não te contou? Ele está tão feliz! Conseguiu entrar em Engenharia na USP, assim como a namorada dele, a Bruna. Vão juntos para São Paulo. Não é maravilhoso?"
Maravilhoso.
Desliguei o telefone. A verdade era um abismo escuro e frio se abrindo aos meus pés. O amigo que eu amava, o futuro que ele havia pintado para mim, tudo era uma farsa. E eu, a tola ingênua, havia acabado de entregar meu sonho nas mãos do meu próprio carrasco.
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