
Renascida das Cinzas da Dor
Capítulo 3
A percepção de ser uma peça em um jogo maior não me trouxe desespero. Pelo contrário. Trouxe uma raiva fria e cortante. Se eu era uma personagem em uma história, então a história ainda não havia terminado. E talvez, apenas talvez, a personagem secundária pudesse aprender a reescrever seu próprio roteiro.
Essa percepção não veio como uma voz ou uma visão, mas como um conhecimento intrínseco, uma súbita compreensão da estrutura da minha própria realidade. E com essa compreensão, as memórias começaram a se encaixar, formando um mosaico de enganos que eu havia ignorado por muito tempo.
Lembrei-me perfeitamente do dia em que Lucas conheceu Bruna. Foi no início do ano letivo. Bruna havia se transferido para a nossa escola. Depois da aula, Lucas veio até mim, revirando os olhos.
"Você viu a aluna nova? Bruna Costa," ele disse com desdém. "Ela não parou de me olhar durante a aula de química. Que garota irritante. Tenta demais ser o centro das atenções."
Na época, eu apenas concordei, sentindo uma pontinha de satisfação por ele compartilhar sua irritação comigo. Eu via Bruna da mesma forma: bonita, barulhenta e desesperada por popularidade.
Mas Bruna era persistente. Ela começou a aparecer em todos os lugares onde Lucas estava. Se ele ia para a biblioteca, ela estava "coincidentemente" estudando na mesa ao lado. Se ele ia treinar futebol, ela estava na arquibancada com uma garrafa de água "extra" para ele.
"Lucas, você é incrível! O melhor jogador do time," ela dizia com uma admiração que beirava a adoração.
"Lucas, essa matéria é tão difícil, você poderia me explicar?" ela pedia, mesmo sabendo que a especialidade dele era exatas, e não a matéria em questão.
Lucas continuava a reclamar dela para mim, em nossos momentos a sós.
"Essa garota não me deixa em paz," ele suspirava, mas eu comecei a notar uma mudança sutil. A irritação em sua voz parecia menos genuína, quase performática.
E então, vieram os pequenos sinais que eu escolhi não ver. Um dia, eu estava esperando por ele na saída da escola. Ele estava conversando com Bruna. De longe, eu o vi rir de algo que ela disse, um riso genuíno e aberto. Mas quando ele me viu, seu rosto se fechou. Ele se despediu dela apressadamente e veio até mim, com a expressão entediada de sempre.
"Vamos, Sofi. A Bruna estava me enchendo o saco de novo."
Mas eu tinha visto. Eu tinha visto o sorriso.
Houve outras vezes. Ele me dizia que ia para casa estudar, mas depois eu via fotos dele com o grupo de amigos de Bruna. Ele me dizia que o celular estava sem bateria, mas Bruna me contava no dia seguinte sobre a longa ligação que tiveram na noite anterior.
Agora, na quietude do meu quarto, essas memórias me assaltavam com uma clareza brutal. Eu não era apenas cega; eu era cúmplice da minha própria enganação. Eu queria tanto acreditar na nossa amizade, na nossa história, que ignorei todas as evidências em contrário. Ele me mantinha por perto como uma rede de segurança, uma presença constante e leal que massageava seu ego, enquanto seu coração e seus planos já estavam em outro lugar.
O plano dele era diabólico em sua simplicidade. Ele precisava de mim fora do caminho. Minha presença na USP, independente e bem-sucedida, seria uma complicação. Seria um lembrete de uma lealdade que ele havia descartado. Então, ele criou uma fantasia para mim, um futuro falso em Minas Gerais, para me manter dócil e controlada até que fosse tarde demais para eu voltar atrás. E, como a personagem secundária obediente que eu era, eu havia desempenhado meu papel perfeitamente. Até agora.
A percepção de ser uma peça em um jogo maior não me trouxe desespero. Pelo contrário. Trouxe uma raiva fria e cortante. Se eu era uma personagem em uma história, então a história ainda não havia terminado. E talvez, apenas talvez, a personagem secundária pudesse aprender a reescrever seu próprio roteiro.
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