
Renasci para Vingança: Coração Gelado
Capítulo 2
Silvana Neves POV:
A porta se fechou atrás deles, e o silêncio caiu pesado. O salão, que antes parecia cheio de fofocas e olhares de julgamento, agora estava vazio, parecia que eu era a única ali, mas eu não me sentia sozinha. Uma risada amarga borbulhou na minha garganta. "Arrependida?" Eu sussurrei para o ar. "Você mal faz ideia, Cauã." Não havia desespero, nem tristeza. Apenas uma sensação de alívio, de que a farsa estava finalmente começando a desmoronar. Eu havia aguentado demais na vida passada. Eu tinha a chance de reescrever o meu próprio destino, e não a desperdiçaria novamente.
Duas horas depois, a mansão dos Pessoa estava irreconhecível. As luzes eram mais brilhantes, a música mais alta, e os convidados, um mar de rostos sorridentes e curiosos. Era o jantar de aniversário do Avô Afonso, um evento anual que sempre terminava em alguma revelação bombástica. Este ano, eu me certificaria de que seria ainda mais explosivo. As mesas estavam postas com porcelana fina e cristais cintilantes. O cheiro de comida gourmet pairava no ar, misturado ao perfume caro dos convidados. Tudo estava pronto para o espetáculo.
O relógio marcava a hora exata em que o Avô Afonso deveria fazer seu discurso, mas eles ainda não haviam chegado. A tensão era palpável no salão, todos se perguntando onde estaria Cauã. Então, a grande porta da frente se abriu com um estrondo, e eles entraram. Cauã e Heloísa. Lado a lado, como se estivessem reencenando sua entrada triunfal de amantes proibidos. Todos os olhos se voltaram para eles, e o burburinho cresceu. Eles haviam planejado a entrada dramática, claro. Queriam ser o centro das atenções, como sempre.
Heloísa estava deslumbrante em um vestido vermelho-paixão, que contrastava com a sua pele pálida, mas suas bochechas estavam coradas, quase febris. Seus olhos, normalmente tão calculistas, tinham um brilho de euforia. Meu olhar, no entanto, foi atraído para o pescoço de Cauã. Ali, escondidos sob a gola da camisa, mas visíveis para quem soubesse o que procurar, estavam marcas avermelhadas. Mordidas. Ou, mais provavelmente, chupões. A raiva subiu pela minha garganta como um ácido. Não pela traição em si, que já não me importava, mas pela ousadia, pela desfaçatez de aparecerem assim, na frente de todos, no aniversário do próprio avô, a quem eles deveriam ao menos demonstrar respeito.
Na vida passada, uma cena como essa teria me feito engasgar. Eu teria sentido meu coração se despedaçar em mil pedacinhos, a humilhação queimando meu rosto, as lágrimas brotando nos meus olhos. Eu teria fugido do salão, chorando, enquanto eles riam nas minhas costas. A dor teria sido física, dilacerante. Eu me lembro da impotência, da sensação de que meu amor não era suficiente, de que eu era uma falha. Mas essa Silvana estava morta.
Agora, enquanto os olhares indiscretos dos convidados se fixavam nas marcas no pescoço de Cauã, eu apenas ergui uma sobrancelha. Um sorriso frio e quase imperceptível tocou meus lábios. Não havia dor, apenas um cálculo distante. Eu os observava, como um cientista observa uma amostra sob um microscópio. Era um jogo, e eles estavam jogando exatamente como eu previra. A previsibilidade deles era a minha maior arma.
Cauã, com sua percepção aguçada para o meu olhar, percebeu o meu breve foco em seu pescoço. Seus olhos encontraram os meus, e eu vi um lampejo de surpresa, seguido por uma pontada de irritação. Ele esperava ver a dor, o ciúme, a humilhação. Mas encontrou apenas um olhar vazio, quase divertido. Ele engoliu em seco, e eu senti que o meu desinteresse o incomodava mais do que qualquer explosão de raiva poderia fazer.
Ele puxou Heloísa um pouco para mais perto, quase a encobrindo com seu corpo, como se quisesse esconder as provas do seu hedonismo. "Não dê ouvidos a essa gente, querida", ele murmurou para ela, alto o suficiente para que alguns ouvissem. "Eles são invejosos. Não entendem o nosso amor." Era uma tentativa patética de desviar a atenção, de criar uma narrativa romântica para o seu escândalo. Mas eu já sabia demais para cair nisso.
A falta de resposta da minha parte parecia desestabilizá-lo mais do que ele esperava. Seu sorriso presunçoso começou a vacilar. Ele esperava um confronto, um drama. Minha quietude, meu desinteresse, eram um veneno lento que o estava corroendo por dentro. Ele não sabia como reagir a uma Silvana que não ligava para ele. Eu podia sentir a confusão em sua mente, a frustração crescendo.
Com um esforço visível, Cauã recompôs a sua máscara de arrogância. Ele forçou um sorriso que não chegava aos seus olhos, e se aproximou de mim, arrastando Heloísa consigo. "Silvana, querida", ele disse, a voz cheia de um falso carinho. "Pensei que não viria. Afinal, um dia tão importante para a família... para nós." Era uma provocação, uma tentativa de me atrair para o jogo dele. Mas eu já havia aprendido a não dançar conforme a música dele.
Ele estendeu uma pequena caixa de veludo vermelho. "Para você", ele disse, com um tom de quem faz um favor. "Um pequeno gesto de... reconciliação. Não queremos estragar a festa do vovô com desentendimentos, não é?" O gesto era tão visivelmente forçado, tão vazio de qualquer sentimento genuíno, que me deu náuseas. Ele estava me oferecendo uma migalha, esperando que eu a aceitasse com gratidão.
Mas antes que eu pudesse sequer pensar em recusar, Heloísa deu um pulo. Com um grito de alegria, ela arrancou a caixa da mão de Cauã. "Ai, que lindo! É para mim, Cauã? Você é tão doce!" Seus olhos brilhavam de cobiça, e a máscara de inocência que ela usava momentos antes desmoronou completamente. Ela nem sequer se preocupou em manter as aparências.
Ela abriu a caixa com dedos ágeis, revelando um colar de diamantes que cintilava sob as luzes do salão. "Oh, Cauã! É ainda mais lindo do que eu imaginava! Você se lembrou do que eu queria! Obrigada, obrigada!" Ela se jogou nos braços dele, beijando-o ruidosamente na bochecha, enquanto o colar brilhava em suas mãos. A cena era patética, mas eficaz em me humilhar.
Cauã riu, um som oco e orgulhoso. Ele acariciou o cabelo de Heloísa, com um olhar de pura adoração que ele nunca havia dirigido a mim. "Claro que é para você, meu amor. Sempre soube o que te agrada. Silvana... bom, Silvana tem seus próprios gostos, não é?" Ele me lançou um olhar condescendente, como se eu fosse um animal de estimação indesejado. A mensagem era clara: Heloísa era a escolhida, a que merecia os presentes e a atenção.
Heloísa fez um pequeno bico, fingindo modéstia. "Ah, Cauã, você não deveria! É muito caro... Mas é tão lindo, como eu posso recusar?" Ela falou, mas seus olhos brilhavam de desafio enquanto ela me lançava um olhar vitorioso. A pose de vítima frágil havia sido completamente substituída pela de uma rainha triunfante.
"Não se preocupe com a Silvana", Cauã disse, sua voz desdenhosa. "Ela nunca se importou com joias, apenas com poder e controle. Este colar seria desperdiçado nela. Mas em você, Heloísa... Em você, ele brilha. Como você brilha para mim." Ele me encarou, como se suas palavras fossem facas, destinadas a me dilacerar. Mas eu já estava morta para ele, e suas lâminas não encontravam mais carne.
Um pequeno grupo de convidados, atraídos pela comoção, começou a rir. Risadas abafadas, olhares de escárnio. "Pobre Silvana", uma mulher sussurrou, "sempre o segundo prêmio." Outro murmurou, "Ela realmente achou que ele iria voltar para ela?" As palavras eram dardos, mas eu havia construído um escudo impenetrável. Elas não me tocavam mais.
A memória me trouxe de volta a uma noite, há anos, quando Cauã me prometeu uma aliança de diamantes, a mesma que ele havia dado à sua ex-namorada. Ele disse que seria um símbolo do nosso 'amor eterno'. Eu, tola, acreditei. Ele nunca me deu. E agora, ele dava um colar ainda mais luxuoso para Heloísa, zombando abertamente de mim. A dor daquela lembrança me fez apertar os punhos. Não era a joia, mas a humilhação, a promessa quebrada, o desrespeito.
Houve uma vez em que eu confiei a Cauã um diário, onde eu escrevia todos os meus sonhos e medos. Ele o leu, e depois, em uma briga, usou minhas palavras contra mim, revelando meus segredos mais íntimos para seus amigos, que riram da minha ingenuidade. "Silvana, você realmente pensa que é uma princesa encantada? Acorda!", ele gritou, enquanto todos gargalhavam. Aquele momento me quebrou. Foi um ponto sem retorno para a minha dignidade na vida passada.
Aquele desprezo nos olhos de Cauã, a risada de Heloísa, os sussurros dos convidados. Tudo isso se fundiu em uma única e avassaladora onda de nojo. Não por mim, mas por eles. Eu não precisava mais aguentar aquilo. Eu havia renascido para viver, não para ser um fantoche nas mãos deles. Meus pés se moveram por conta própria, e eu me virei para sair, com a intenção de nunca mais olhar para trás.
Mas Cauã não me deixaria ir tão facilmente. Em um movimento rápido, ele se colocou na minha frente, bloqueando a minha saída. "Onde você pensa que vai, Silvana?", ele rosnou, o sorriso arrogante substituído por uma expressão de raiva controlada. "Você não vai estragar a festa do vovô com a sua fuga dramática. Você fica aqui e aguenta as consequências das suas escolhas."
"Você pensa que mudou, não é?", ele zombou, os olhos faiscando. "Essa sua pose de mulher madura e indiferente é ridícula. Você ainda é a mesma Silvana desesperada por atenção, que chora pelos cantos e se agarra a qualquer migalha de afeto. Não tente me enganar com essa sua nova fachada."
Ele estendeu a mão e agarrou meu pulso com força, seus dedos apertando minha pele. A dor física era mínima comparada à raiva que borbulhava dentro de mim. Era um ato de possessão, uma tentativa de me subjugar. Ele ainda pensava que podia controlar meu corpo, minhas ações.
Minha mente estava clara. Meu corpo, treinado por anos, reagiu por instinto. Com um movimento rápido e inesperado, eu girei meu pulso, usando a força do meu corpo contra a dele. Ele não esperava resistência. Me libertei de seu aperto com uma força que o fez cambalear para trás, o choque evidente em seu rosto. "Nunca mais me toque, Cauã", eu disse, minha voz baixa, mas fria como gelo.
"Eu exijo respeito", eu continuei, meus olhos fixos nos dele, sem desviar. "Eu não sou sua propriedade. Não sou sua marionete. E não sou mais a Silvana que você pensa que conhece. Acostume-se a isso, porque essa é a nova realidade."
Os olhos de Cauã se arregalaram. Ele se recuperou rapidamente, mas a surpresa ainda estava gravada em seu rosto. Ele não esperava essa reação. Ele esperava lágrimas, súplicas, talvez até uma briga histérica. Mas não essa calma controlada, essa determinação férrea. Aquilo o desorientou.
"Respeito? Você exige respeito?", ele riu, uma risada sem humor. "Você acha que merece respeito depois de anos tentando me prender com esse seu 'amor'? E agora, o que você vai fazer? Fugir? Se casar com algum pobretão para me provocar? Você realmente pensa que pode me substituir?" Ele estava furioso, a fachada de controle desmoronando.
Eu o encarei. Minha voz era um chicote. "Não, Cauã. Eu não vou me casar com você. Nunca mais." Aquelas palavras ecoaram pelo salão, silenciando os poucos murmúrios restantes. Era uma declaração, uma quebra de um contrato não apenas para ele, mas para todos que esperavam o meu retorno aos braços dele. O rosto de Cauã empalideceu, e por um breve momento, eu vi um lampejo de pânico em seus olhos.
O salão mergulhou em um silêncio atordoado. Aquelas palavras, "Nunca mais", caíram como uma bomba. Mas o silêncio durou apenas um instante, antes que uma nova onda de risadas e sussurros irrompesse, mais altos e mais cruéis do que antes. "Ela está louca!" "Quem ela pensa que é?" "Ela acabou de jogar a fortuna do Afonso no lixo!"
"Com quem ela vai se casar, então? Com um mendigo?", uma voz zombou do fundo do salão. "Quem aceitaria uma mulher rejeitada como ela?" Outra acrescentou, "Ela vai terminar sozinha e pobre, como sempre esteve destinada a ser." As palavras eram venenosas, destinadas a me derrubar. Mas eu tinha um plano. E eles ainda não sabiam.
De repente, uma comoção à margem do salão chamou a atenção de todos. Alguém esbarrou em um garçom, derrubando uma bandeja de taças, e no meio da confusão, um homem foi empurrado para o centro do salão. Ele cambaleou, quase caindo, e todos os olhos se voltaram para ele. Era Hugo Da Mata. O primo recluso de Cauã.
Ele era alto, mas sua estrutura era magra, quase frágil. Seus cabelos escuros caíam sobre os olhos, e a palidez de sua pele era acentuada pelos óculos de aros finos que descansavam em seu nariz. Ele vestia um terno bem cortado, mas parecia quase engoli-lo, tornando sua figura ainda mais esguia. Seus olhos, normalmente escondidos por trás de uma cortina de introspecção, estavam arregalados de surpresa, um pouco perdidos no brilho do salão. Hugo tinha superado uma doença grave na juventude, o que o havia deixado com uma aura de fragilidade que o tornava um alvo fácil para a zombaria. Ele era o oposto polar de Cauã, e por isso, completamente subestimado.
Um silêncio momentâneo seguiu a aparição de Hugo, antes que os sussurros começassem novamente, desta vez direcionados a ele. "Olha só quem saiu da toca!", "O recluso do Hugo. Ele nem aguenta um aperto de mão!", "Pobre Hugo, sempre tão frágil. Espero que não desmaie de emoção." As risadas eram mais cruéis, mais abertamente desdenhosas. Eles viam Hugo como uma piada, um homem fraco e sem importância. Mas eu, eu via a minha oportunidade. E o meu verdadeiro aliado.
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