
Renascendo Após o Fim
Capítulo 2
Oito anos de casamento, e no dia do nosso aniversário, Pedro Silva me enviou novecentas e noventa e nove rosas vermelhas.
As flores ocupavam quase toda a sala de estar, o perfume intenso e adocicado era quase sufocante.
Qualquer outra mulher talvez chorasse de emoção, mas eu apenas olhei para aquele mar de pétalas com o coração frio como uma pedra de gelo.
Eu tinha acabado de receber alta do hospital após uma cirurgia.
Segurei o celular com a mão que não tremia e disquei o número dele.
A chamada demorou a ser atendida. Quando finalmente alguém atendeu, não foi a voz grave e familiar de Pedro que ouvi, mas sim o choro contido de uma jovem.
"Dona Silva... me desculpe... foi tudo culpa minha, por favor, não brigue com o Sr. Silva."
Era a voz de Ana, a secretária e amiga de infância de Pedro. A voz dela era suave e frágil, carregada de uma culpa que soava ensaiada.
Pude ouvir ao fundo a voz de Pedro, baixa e reconfortante, acalmando-a. "Não chore, não foi culpa sua. Fique tranquila, eu resolvo."
Ele passou um bom tempo consolando-a, sussurrando palavras que eu não conseguia distinguir, mas cujo tom carinhoso eu conhecia muito bem, pois um dia fora dirigido a mim.
Depois de um silêncio que pareceu uma eternidade, ele finalmente falou comigo. Sua voz, agora desprovida de qualquer calor, era apenas um ruído distante e indiferente.
"O que você quer?"
Eu respirei fundo, o cheiro das rosas me dando náuseas.
"Pedro, vamos nos divorciar."
Do outro lado da linha, um silêncio pesado. Então, a resposta veio, curta e fria, como se ele estivesse apenas concordando com o tempo.
"Como você deseja."
E desligou.
Eu fiquei ali, parada no meio da sala, o celular ainda na mão. Olhei para as rosas, para o luxo absurdo daquele gesto, e um riso amargo escapou dos meus lábios. Novecentas e noventa e nove rosas. Faltava apenas uma para completar mil.
Uma rosa para o fim.
Ele chegou em casa tarde da noite, como de costume. O cheiro de álcool caro e do perfume feminino de Ana impregnava seu terno de grife.
Ele não olhou para mim, apenas afrouxou a gravata e jogou o paletó no sofá.
"Já comeu?", ele perguntou, a voz monótona, um roteiro repetido noite após noite.
"Não."
Ele foi para a cozinha e, minutos depois, voltou com uma tigela de macarrão instantâneo, o mesmo que a empregada preparava. Colocou na minha frente, na mesinha de centro.
"Coma."
Eu continuei olhando para a televisão, onde passava um programa qualquer de variedades. Eu não sentia fome, não sentia nada.
Ele se sentou ao meu lado, mas a uma distância segura, e ligou para o seu assistente, discutindo números, fusões e aquisições. O mundo dele, um mundo do qual eu não fazia mais parte há muito tempo.
Ele desligou o telefone e notou meu olhar vazio. Talvez sentindo uma ponta de culpa, ele buscou algo em sua pasta de couro.
"Comprei para você."
Ele colocou uma caixa de uma marca famosa na mesa. A última bolsa de edição limitada que todas as mulheres da alta sociedade desejavam. Um troféu. Um suborno.
Eu nem sequer olhei.
"Pedro", eu disse, a voz calma, quase um sussurro. "Você está tendo um caso com a Ana?"
Ele franziu a testa, a sua expressão se fechando. A paciência dele comigo sempre foi curta nos últimos anos.
"Maria Eduarda, não comece com isso. Você sabe que a Ana é como uma irmã para mim. Ela é filha da nossa antiga governanta, crescemos juntos."
"Uma irmã que chora no seu ombro e precisa que você a console por horas?", retruquei, o sarcasmo pingando da minha voz.
"Ela está passando por um momento difícil. O noivo dela terminou com ela. Eu estava apenas sendo um bom amigo." Ele se levantou, a irritação evidente em seus gestos. "Por que você sempre tem que ser tão desconfiada e amarga? É por isso que nem o João gosta de ficar perto de você."
O nome do nosso filho me atingiu.
João.
Ele tinha seis anos e passava mais tempo na mansão da família Silva, sob os cuidados da minha sogra, Dona Silva, do que comigo. Eles diziam que era para o bem dele, que eu não era uma influência estável.
"Você não tem o direito de falar do João", minha voz tremeu pela primeira vez.
"Eu não tenho o direito? Eu sou o pai dele! Fui eu que o ensinei a andar de bicicleta, enquanto você estava trancada no quarto se lamentando sobre como sua vida é miserável."
"Você me proibiu de buscá-lo na escola na semana passada", eu o lembrei, um incidente que ainda ardia em minha memória. Eu tinha ido até a escola, animada para surpreendê-lo, apenas para ser informada pela professora que o Sr. Silva havia dado ordens expressas para que apenas ele ou sua secretária, a Srta. Ana, pudessem buscá-lo.
A humilhação foi pública e cortante.
O rosto de Pedro se contraiu de raiva. Ele deu um passo em minha direção, o dedo em riste.
"Eu fiz isso porque você ia fazer uma cena! Você sempre faz uma cena! Você não sabe se comportar como a esposa de Pedro Silva! Você envergonha a mim e à minha família!"
O grito dele ecoou na sala silenciosa. A máscara de marido indiferente caiu, revelando o homem zangado e ressentido que ele havia se tornado.
Eu o encarei, a tempestade de emoções dentro de mim finalmente se acalmando, dando lugar a uma clareza fria e assustadora. Eu não sentia mais dor, nem raiva. Apenas um vazio profundo.
Esperei que ele terminasse seu discurso inflamado. Esperei que o silêncio voltasse a preencher o espaço entre nós.
Então, eu olhei diretamente em seus olhos e disse, com a voz mais calma e firme que consegui reunir.
"Pedro."
Ele ainda bufava, o peito subindo e descendo.
"Eu tive um aborto espontâneo hoje."
A cor sumiu do rosto dele. O homem poderoso, o CEO implacável, de repente parecia um menino assustado. O silêncio que se seguiu foi mais alto do que qualquer grito.
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