
Renascendo Após o Fim
Capítulo 3
O dia do nosso oitavo aniversário começou com uma dor surda no meu abdômen.
Ignorei, pensando que era apenas mais um sintoma do estresse que se tornara meu companheiro constante. Pedro havia saído cedo para uma reunião importante. Ele me deu um beijo rápido na testa, um gesto automático, e disse que me compensaria à noite.
A dor piorou.
Por volta do meio-dia, tornou-se aguda, me dobrando ao meio. Fui ao banheiro e vi o sangue.
O pânico me tomou.
Eu estava grávida. Havia descoberto há duas semanas, em segredo. Ainda não tinha contado a Pedro. Eu não sabia como. Como se traz uma nova vida para um casamento que já está morto?
Agarrei o telefone e liguei para ele. A chamada foi para a caixa postal.
Liguei de novo. E de novo. E de novo.
No total, liguei doze vezes.
Desisti e chamei um táxi. No hospital, sozinha, passei pela emergência, pelos exames, pela ultrassonografia que confirmou o que eu já temia.
O médico me olhou com pena. "Sinto muito, senhora. Não há mais batimentos cardíacos."
Enquanto eu estava deitada na maca, esperando pelos procedimentos, peguei meu celular por hábito e abri uma rede social. A primeira coisa que vi foi uma foto postada por um conhecido em comum.
Era de um almoço de negócios. Em um restaurante chique, Pedro estava ao lado de Ana. Ela segurava uma taça de vinho, e ele tinha a mão levemente à frente dela, como se a estivesse protegendo de alguém que insistia em oferecer bebida. A legenda dizia: "O Sr. Silva é um verdadeiro cavalheiro, protegendo sua secretária. Um chefe desses!"
A foto fora postada na hora exata em que eu estava dobrada de dor no chão do banheiro, ligando para ele desesperadamente.
Ele não atendeu minhas chamadas porque estava ocupado sendo um "verdadeiro cavalheiro" para outra mulher.
Naquele momento, algo dentro de mim se partiu de forma definitiva. Não foi a dor da perda do bebê, que era real e avassaladora. Foi a constatação da minha completa e absoluta solidão.
Quando o médico me perguntou se eu queria um momento para me despedir, uma reação estranha tomou conta de mim.
Eu senti alívio.
Um alívio terrível, que me encheu de vergonha. Alívio por essa pequena vida não ter que nascer em um lar sem amor, com um pai ausente e uma mãe quebrada.
E foi ali, na cama fria do hospital, que a decisão se solidificou. Acabou.
De volta à nossa sala de estar, o rosto de Pedro estava pálido. Ele me encarava, chocado, sem palavras.
"O quê... O que você disse?", ele gaguejou.
"Eu perdi o bebê", repeti, a voz sem emoção. "Fui para o hospital sozinha. Tive uma cirurgia. Liguei para você doze vezes, Pedro. Você não atendeu."
Eu o vi engolir em seco. Ele sabia. Ele sabia que eu tinha ligado.
"Eu estava... eu estava em uma reunião importante", ele disse, a desculpa soando fraca até para ele.
"Eu vi a foto", falei calmamente. "Você estava protegendo a Ana de beber vinho. Um verdadeiro cavalheiro."
A culpa finalmente pareceu atingi-lo. Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida.
"Duda, eu..."
Mas então ele parou. A expressão dele mudou. A culpa foi substituída por algo mais feio: a defensiva.
"E o que você queria que eu fizesse?", ele disse, a voz subindo de tom novamente. "Você nem tinha me contado que estava grávida! Como eu ia adivinhar?"
Ele deu mais um passo para trás, criando distância, como sempre fazia.
"Talvez seja melhor assim", ele disse, as palavras saindo da boca dele como veneno. "Nós não estamos bem. Ter outro filho agora só pioraria as coisas."
Ali estava. A verdade crua e brutal. A confirmação de que ele não se importava. A perda do nosso filho era, para ele, um inconveniente que fora convenientemente resolvido.
Eu não chorei. Eu não gritei. Eu apenas senti o último fio que me prendia a ele se romper.
"Acabou, Pedro", eu disse, minha voz agora firme como aço.
Ele me olhou, uma mistura de raiva e talvez, pela primeira vez, um pingo de medo. O medo de quem percebe que perdeu o controle.
"Não use isso para me manipular", ele rosnou.
Eu ri. Um riso oco e sem alegria.
"Não se preocupe. Eu não quero mais nada de você."
Virei as costas para ele, para as rosas moribundas, para os oito anos de casamento que se transformaram em cinzas. Fui até o nosso quarto, peguei uma pequena mala que eu já havia deixado pronta há semanas, sem saber quando teria a coragem de usá-la.
Coloquei apenas o essencial: algumas roupas, meus documentos, o pouco dinheiro que eu tinha guardado.
Quando saí do quarto, ele estava parado no mesmo lugar, me observando.
Eu passei por ele sem dizer uma palavra, sem olhar para trás. Caminhei até a porta, abri-a e saí para a noite fria.
Na manhã seguinte, Pedro acordou em uma casa silenciosa. A cama ao seu lado estava fria e intocada. Ele andou pela casa, procurando por um sinal dela. As rosas ainda estavam lá, começando a murchar. A bolsa de grife estava intocada na mesa. A tigela de macarrão, fria, no mesmo lugar.
Mas Maria Eduarda não estava em lugar nenhum.
Pela primeira vez em muitos anos, a ausência dela era um buraco palpável na casa, um silêncio que gritava mais alto do que qualquer briga. E pela primeira vez, ele sentiu uma pontada de um pânico que não conseguia nomear.
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