
Rejeição 99: O Sim Inesperado
Capítulo 2
Esta era a minha nonagésima nona tentativa de ser rejeitada por Ricardo.
"Sofia, eu já disse que não."
A voz dele soava irritada do outro lado da linha, e eu quase pude sentir o cheiro de vitória.
Noventa e nove vezes.
Contei cada uma delas, cada "não" , cada olhar de desprezo, cada vez que ele me deixava para trás para encontrar Mariana.
Só faltava mais uma.
Uma última rejeição e eu estaria livre. Livre dele, livre deste mundo falso, e o mais importante, com dez milhões de dólares na minha conta.
Meu coração batia rápido, não de amor, mas de pura ansiedade.
"Mas, Ricardo, é o aniversário da minha mãe", eu insisti, forçando a minha voz a soar magoada e fraca, o tipo de voz que eu sabia que ele odiava.
"Sua mãe? E o que eu tenho a ver com isso? Eu tenho uma reunião importante. Não me ligue mais."
Ele desligou.
Um bipe final e seco.
Eu sorri. Um sorriso largo e genuíno, o primeiro em muito tempo.
Noventa e nove.
O sistema apitou na minha mente, uma voz eletrônica e sem emoção.
[Missão de Rejeição 99/100 concluída. Parabéns, anfitriã.]
"Finalmente," eu sussurrei para o meu apartamento vazio.
Três anos. Eu passei três longos anos neste mundo, desempenhando o papel da namorada submissa e patética de Ricardo. Três anos suportando sua arrogância, sua obsessão doentia por sua ex-noiva, Mariana, e sua completa indiferença por mim.
Tudo por dinheiro. Um dinheiro que me permitiria voltar para a minha vida real, para a minha agência de detetives, para o meu parceiro, Pedro, e para a liberdade de ser eu mesma.
Eu estava exausta. A exaustão ia além do cansaço físico, era uma fadiga na alma. Fingir ser alguém que você não é, dia após dia, era um fardo pesado.
Mas agora, o fim estava à vista.
Eu só precisava de mais uma rejeição. A centésima. A grande final. E para isso, eu tinha um plano perfeito. Algo tão absurdo, tão fora de cogitação, que a rejeição de Ricardo seria garantida.
Eu iria pedi-lo em casamento.
Naquela noite, eu me preparei. Vesti o vestido mais simples que tinha, um que ele uma vez disse que me fazia parecer uma empregada. Não arrumei o cabelo. Não usei maquiagem. Eu precisava parecer o mais indesejável possível.
Quando Ricardo chegou em casa, tarde da noite, ele me ignorou, como sempre. Passou por mim como se eu fosse um móvel, afrouxando a gravata e jogando o paletó no sofá.
"Estou cansado," ele murmurou, indo em direção ao bar para se servir de um uísque.
Eu o segui até a sala de estar. As luzes estavam baixas, criando longas sombras que dançavam nas paredes. Ele estava de costas para mim, a silhueta alta e imponente contra a janela que mostrava as luzes da cidade.
De repente, o celular dele tocou.
Ele atendeu sem nem olhar quem era. Sua expressão mudou instantaneamente. A irritação desapareceu, substituída por uma preocupação suave.
"Mariana? O que aconteceu? Você está chorando?"
Meu estômago se revirou. Era sempre ela. Mariana. A socialite frágil e manipuladora que o tinha na palma da mão.
Eu não conseguia ouvir o que ela dizia, mas a voz dele era um fluxo de palavras tranquilizadoras.
"Calma, meu amor, eu estou aqui... Não, não pense nisso... Sim, claro que eu me importo com você... Mais do que qualquer outra pessoa."
Ele disse isso enquanto eu estava ali, a poucos metros de distância. A humilhação era parte do plano, mas ainda assim, uma pontada de raiva me atingiu.
"Eu vou aí agora mesmo," ele disse, já pegando as chaves do carro.
[Sistema: Alerta! O alvo está prestes a sair. Esta é a sua melhor oportunidade. Execute o plano final agora!]
A voz do sistema era urgente. Tinha razão. Se ele saísse por aquela porta, eu perderia minha chance. Teria que esperar, talvez dias, por outro momento. E eu não aguentava mais esperar.
Respirei fundo, reunindo toda a coragem e desespero que sentia.
"Ricardo," eu chamei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
Ele se virou, a impaciência claramente visível em seu rosto. "O que foi agora, Sofia? Eu estou com pressa."
Caminhei até ele, parando bem na sua frente. O contraste entre nós era quase cômico. Ele, alto, poderoso, vestido em um terno caro. Eu, pequena, simples, parecendo uma sombra.
Eu olhei diretamente nos olhos dele.
"Case-se comigo."
As palavras saíram. Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Eu podia ver a confusão no rosto dele, seguida por um lampejo de desprezo.
Era isso. A centésima rejeição. Eu podia sentir o gosto da liberdade.
Ele abriu a boca para falar, e eu me preparei para o "não" final e libertador.
"Sim."
O quê?
Eu pisquei, certa de que tinha ouvido errado.
"O que você disse?"
Ricardo me olhou, um brilho estranho nos olhos que eu nunca tinha visto antes. Ele guardou o celular no bolso.
"Eu disse sim," ele repetiu, sua voz calma e decidida. "Vamos nos casar."
Meu mundo parou. O ar sumiu dos meus pulmões. O sorriso que eu estava segurando se desfez, substituído por puro choque.
[Sistema: Alerta! Alerta! O alvo aceitou o pedido. Missão de Rejeição 100/100 falhou. Anfitriã, você falhou na missão.]
A voz eletrônica soou como uma sentença de morte na minha cabeça.
Falhou.
Depois de três anos. Na última etapa.
Eu falhei.
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