
Rejeição 99: O Sim Inesperado
Capítulo 3
"MALDITO SISTEMA! A CULPA É SUA!"
Eu gritei para as paredes do meu quarto, jogando um travesseiro contra a porta com toda a minha força.
Meu corpo tremia de raiva e desespero.
[Sistema: A anfitriã elaborou o plano final. O sistema apenas forneceu um lembrete no momento oportuno. A responsabilidade pela falha é inteiramente da anfitriã.]
A voz calma e robótica do sistema só me deixava mais furiosa.
"Cale a boca! Você disse que era a melhor oportunidade! Você me empurrou para isso!"
[Sistema: A análise de dados indicava uma probabilidade de rejeição de 99,8%. A aceitação do alvo foi uma anomalia estatística imprevisível.]
"Anomalia? Ele disse sim! Ele concordou em se casar comigo! O que eu faço agora? Eu estou presa aqui!"
Eu andava de um lado para o outro no quarto, puxando meu próprio cabelo em frustração. O contrato era claro: 100 rejeições. A falha na centésima significava que o contrato continuava, indefinidamente, até que o alvo me rejeitasse.
"Eu vou pedir o divórcio!", eu decidi, desesperada. "Assim que nos casarmos, eu peço o divórcio. Isso conta como uma rejeição, certo?"
[Sistema: Negativo. De acordo com a cláusula 14, subseção B do contrato da missão, a anfitriã não pode iniciar ativamente nenhuma forma de separação ou término. A rejeição deve partir inequivocamente do alvo.]
Eu parei no meio do quarto, sentindo um frio percorrer minha espinha.
"Não... não pode ser."
Eu estava presa. Completamente presa em um casamento com um homem que eu desprezava, um homem que me via como um zero à esquerda.
Meu celular tocou, me assustando. O nome na tela fez meu sangue gelar.
Mariana.
O que essa mulher queria de mim?
Atendi, tentando manter a voz neutra.
"Alô?"
"Sofia, querida," a voz de Mariana era doce como mel envenenado. "Eu só queria te dar os parabéns. Fiquei sabendo da grande notícia."
Como ela já sabia? Ricardo contou a ela? Claro que sim. Ele provavelmente ligou para ela logo depois de me dizer "sim".
"Obrigada," eu respondi, seca.
"Eu mal posso acreditar. Ricardo finalmente vai se estabelecer. E com você! É tão... inesperado. Ele sempre teve um gosto tão... particular," ela disse, e eu podia ouvir o sorriso presunçoso em sua voz. "Ele me contou que foi tudo muito repentino, que você o pegou de surpresa. Pobrezinho, ele deve ter ficado tão chocado que nem soube o que dizer."
Cada palavra era uma provocação, uma forma de me dizer que eu não era nada, que a decisão dele não significava nada.
"Mas eu estou feliz por vocês. De verdade," ela continuou, a falsidade pingando de cada sílaba. "Sabe, Ricardo e eu temos uma história tão longa. Lembro-me de uma vez, estávamos em Paris, no nosso lugar secreto perto do Sena. Ele me disse que eu era a única mulher que ele amaria para sempre. Ele até me deu um anel naquela noite, um anel que ele mesmo desenhou."
Ela estava me contando isso de propósito, para me ferir, para me lembrar do meu lugar.
Eu fechei os olhos, respirando fundo para não gritar com ela.
"Isso é muito legal da sua parte, Mariana. Mas eu preciso ir."
"Ah, claro. Dê um beijo no Ricardo por mim, ok?"
Ela desligou.
Eu joguei o celular na cama, sentindo nojo. Nojo dela, nojo de Ricardo, nojo de mim mesma por estar nesta situação.
Naquela noite, quando Ricardo voltou para casa, ele agiu como se nada tivesse acontecido. Ele não mencionou o casamento, não mencionou Mariana. Ele apenas sentou no sofá e ligou a TV.
Eu sabia o que tinha que fazer. Se eu não podia iniciar a separação, eu tinha que fazer dele me odiar tanto que ele mesmo me mandasse embora.
Caminhei até ele. Sentei-me ao seu lado no sofá, perto demais. Ele enrijeceu, claramente desconfortável.
Coloquei minha mão em seu braço.
"Estou tão feliz, Ricardo," eu disse, forçando um sorriso apaixonado. "Vamos ser tão felizes juntos."
Ele não me olhou. Seus olhos estavam fixos na tela da TV, mas eu sabia que ele estava me ouvindo.
Inclinei-me e beijei sua bochecha. Foi como beijar uma estátua de gelo. Ele não reagiu, mas eu senti um leve tremor passar por ele.
Eu odiei cada segundo daquilo. Meu corpo gritava em protesto, minha mente se revirava em repulsa. Mas eu continuei.
"Eu te amo," eu sussurrei perto de seu ouvido.
Desta vez, ele se virou para mim. Seus olhos estavam frios, vazios.
"Não diga isso," ele disse, sua voz baixa e perigosa.
"Por quê? Eu te amo, Ricardo. E agora vamos nos casar."
Eu continuei sorrindo, meu rosto doendo com o esforço.
Ele não disse mais nada. Apenas se levantou e saiu da sala, me deixando sozinha com o som da televisão.
Eu relaxei no sofá, o sorriso falso finalmente desaparecendo. Meu coração batia forte, não de amor, mas de uma nova e perversa esperança.
Mariana.
Se ela continuasse a me provocar, a esfregar sua história com Ricardo na minha cara, talvez ela pudesse ser a chave. Talvez seu ciúme e sua manipulação pudessem finalmente empurrar Ricardo ao seu limite.
Talvez, apenas talvez, minha inimiga pudesse se tornar minha salvação.
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