
Reconstruindo Minha Vida
Capítulo 2
A razão pela qual meu casamento de dois anos acabou foi simples, a ponto de ser um clichê de novela. Minha esposa me traiu com o ex-namorado do ensino médio, um amor do passado que ela jurava ter superado. O plano de vingança, no entanto, não foi nada clichê. Eu queria que eles provassem na própria pele o "amor inabalável" que tanto pregavam, mas em circunstâncias um pouco diferentes. Eu queria ver o que aconteceria quando ela ficasse com as dívidas dele, e ele, com a minha fortuna que ela tanto desprezou.
A festa de aniversário de casamento dos meus pais estava no auge, a casa cheia de parentes e amigos, a música animada preenchendo o ar. Todos me perguntavam a mesma coisa, com sorrisos curiosos.
"Cadê a Ana, João? Uma festa tão importante e ela não veio?"
Eu repetia a desculpa que ela me deu por mensagem, uma mentira que arranhava minha garganta toda vez que eu a pronunciava.
"Ah, ela teve uma reunião de trabalho de última hora, inadiável. Sabe como é, a carreira dela está decolando."
Mas a verdade era que eu não sabia onde ela estava. A desconfiança já era uma semente podre crescendo no meu peito há meses, alimentada por noites em que ela chegava tarde, pelo cheiro de um perfume masculino que não era o meu, pelo celular que ela virava para baixo sempre que eu entrava no quarto.
Entediado das conversas vazias, me afastei para um canto do jardim, peguei meu celular e, por um impulso masoquista, abri o Instagram. E lá estava ela. Uma foto postada por um perfil que eu não conhecia, um tal de "Pedro Silva". A foto era um close de duas mãos entrelaçadas sobre uma mesa de bar. Uma das mãos era inconfundivelmente a de Ana, eu conhecia cada detalhe daquela pele, daquelas unhas sempre bem-feitas. Mas algo estava faltando. O dedo anelar dela estava nu, sem a aliança de casamento que eu coloquei ali dois anos atrás. A outra mão, masculina, usava um relógio caro que eu nunca tinha visto.
A legenda da foto era um soco no estômago: "Com meu amor verdadeiro. O passado, o presente e o futuro. Te amo, A."
O ar sumiu dos meus pulmões. O som da festa pareceu distante, um zumbido abafado. Era real. A suspeita, a angústia, tudo se materializou naquela imagem idiota numa tela de celular. A humilhação queimou meu rosto. Ali, diante de toda a minha família, eu era oficialmente o marido traído, o último a saber.
A raiva subiu como lava, quente e incontrolável. Meus dedos tremeram, mas eu consegui digitar um comentário abaixo da foto, para que todos os amigos deles vissem.
"Que bonito, hein, Ana? Aproveitando bem a 'reunião de trabalho'. E você, Pedro, cuidando bem da esposa dos outros?"
Não demorou nem trinta segundos. A notificação de que meu comentário foi apagado piscou na tela, seguida pela mensagem de que o perfil havia me bloqueado. Patético. Covarde.
Meu celular tocou imediatamente. Era ela. A voz de Ana saiu estridente e cheia de uma fúria fabricada.
"Você ficou louco, João? O que você pensa que está fazendo? Querendo estragar a minha vida, a minha imagem?"
Eu ri. Uma risada seca, sem humor algum.
"Sua imagem? Que imagem, Ana? A de esposa dedicada que você vende para a minha família enquanto está na cama com outro? A imagem de mulher de negócios bem-sucedida que, na verdade, é só uma vagabunda?"
"Não fale assim comigo! Você não tem o direito! Você é um doente, um paranoico! Eu não te devo satisfações da minha vida!"
A audácia dela era inacreditável. Ela me traía, me humilhava, e ainda se colocava na posição de vítima. O amor que eu um dia senti por ela se desintegrou, virando pó e cinzas.
"Você não me deve satisfações?", repeti, a voz baixa e perigosamente calma. "Você está certa. A partir de hoje, você não me deve mais nada. E eu também não te devo nada."
"O que você quer dizer com isso?"
"Quero dizer que acabou, Ana. Nosso casamento acabou. Quando você decidir voltar para casa, se é que vai voltar, espero que suas malas já estejam prontas. Quero o divórcio. E quero que você e seu amante sumam da minha vida."
Desliguei o telefone antes que ela pudesse responder. O zumbido na minha cabeça parou. Pela primeira vez em meses, o silêncio não era de angústia, mas de uma clareza fria e cortante. A festa continuava lá dentro, mas para mim, ela já tinha acabado. A minha vingança, no entanto, estava apenas começando.
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